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30 Março 2011

A desconexão do Egito da internet em janeiro passado abriu as portas para a pergunta sobre como se conectam as sociedades entre si e à internet. A tecnologia open mesh aposta na criação de muitas "internets".

A reportagem é de Mariano Blejman e está publicada no jornal Página/12, 27-03-2011. A tradução é do Cepat.

Talvez George W. Bush tinha razão quando, no começo da década, se referiu à rede como "internets", no plural. Nisso acredita agora o canadense Jason Roks, analista tecnológico, pesquisador, empreendedor e atualmente no país para incentivar o uso de redes abertas chamadas open mesh (malha aberta). Esta é uma forma diferente de se conectar às "internets" de que falava o W. É que a interrupção total do Egito do acesso à rede durante a revolta de 25 de janeiro, que terminou com o governo de Hosni Mubarak, fez emergir a pergunta sobre como nos conectamos à rede. Onde está a internet? Como se pode desconectar um país? De quem dependem essas decisões? Pois bem, depende de cada governo, de seus provedores privados e, finalmente, dos usuários.

O Egito é o primeiro caso de corte da internet de um país desde o seu nascimento. Com a penetração da rede como conceito na vida cotidiana, o caso do Egito surgiu como um exemplo da fragilidade das estruturas das conexões, e fez ressurgir a ideia de que há – como, com efeito, George W. Bush sabia! – muitas "internets" funcionando que se interconectam entre si. Não podemos ficar sem internet, dizem. Quem poderia? A questão é: se não podemos acessar a internet através de provedores privados, nem através do governo, como podemos fazê-lo? Por enquanto, ao menos por ora, é impossível. A camada mais elevada da internet é administrada por um punhado de empresas que dirigem os grandes fluxos de informação (este é o caso do Global Crossing). Mas, finalmente, a internet não é outra coisa que uma boa quantidade de computadores conectados entre si e muitos desses serviços não necessitam da "grande" internet. Para falar, comunicar-se, chatear, organizar-se, enviar material, não há necessidade de atravessar todo o planeta. O objetivo de movimentos como o open mesh é conseguir uma conexão à internet sem grandes operadoras ou aproveitando ao máximo estes recursos e baixando os custos da conexão.

Open Mesh Project

O Open Mesh Project, por exemplo, nasceu depois do dia 25 de janeiro de 2011 quando o Egito desconectou o seu país da rede, e pretende buscar soluções para situações como a do mundo árabe, mas também busca uma solução duradoura à forma como as pessoas se conectam. Jason Roks – que participou do projeto – está em Buenos Aires para estimular o uso da chamada mesh networking (rede de malha), cujo conceito consiste em que cada computador se comunique com outro sem um servidor central para isso. Roks está há cinco anos trabalhando no tema, fundou a wirelesstoronto.ca, uma rede de conexões baratas para acessar a internet, e fez experiências com nós mesh em Toronto e Montreal. Roks acaba de se associar à organização Buenos Aires Libre para demonstrar também que pode haver conexões muito mais baratas. Roks trouxe equipamento próprio "para doar para a causa", e faz parte de sua pesquisa de doutorado em temas de "meios públicos de comunicação na era digital".

Além de um movimento (open-mesh.org), open mesh é o nome de um projeto (openmeshproject.org) e o nome de uma empresa privada que proporciona este tipo de acesso (openmesh.com). Mas o objetivo dos "militantes" do open mesh é fomentar o intercâmbio entre computadores com padrões abertos (sem donos de softwares, nem patentes). Quatro destes militantes desenvolveram uma rede com estas características em Rosario. "O que fizemos foi organizar uma rede que aposta no acesso à informação para mais gente", disse Sebastián Criado, um dos criadores do LugRo-Mesh. Em Rosario há entre 15 e 30 conexões que irradiam sinal wi-fi. Este sinal é usado por cerca de três mil pessoas. "Cada pessoa que participa da rede ilumina um pedaço a mais da cidade", se entusiasma. Criado, que acredita que não há nada de ilegal em ampliar o próprio sinal com a internet para compartilhá-la com o bairro.

LugRo-Mesh

"Uma rede como a de LugRo-Mesh permitiria às pessoas se manterem conectadas entre si, mesmo que empresas ou governos tentem interromper a conexão da internet, como ocorreu no Egito", disse Criado. A tecnologia open mesh (o nome do protocolo é Batman) é aquela usada pelos computadores do Projeto One Laptop Per Child para dar um computador para cada criança no mundo. Até o momento, a organização Buenos Aires Libre não usa a tecnologia open mesh nem dá acesso à internet, mas já conversaram com Roks e é questão de tempo até que se ponham a pensar nisso. No fim da semana passado, se encontraram em Tacuarembó organizações regionais de "redes livres" de toda a América Latina, como CasaresLibre, Bogotá Mesh da Colômbia, Redemesh do Brasil e MontevideoLibre do Uruguai. Entre os projetos mais destacados em nível mundial está o guifi.net da Catalunha, que tem 25.000 nós conectados entre si.

"Uma rede open mesh pode baixar os custos de acesso à internet para um terço. Qualquer computador se converte em parte de uma rede maior", disse. Até agora, os provedores como Fibertel, Telecentro, Arnet ou Speedy controlam a chamada "última milha" da internet até os computadores pessoais. "Eles sabem quem são os usuários", disse Roks. "A razão pela qual não querem perder esse controle é o valor comercial. Essa informação serve às empresas para organizar campanhas publicitárias. O Google Street View estava tirando fotos desde seus automóveis na Alemanha, quando o governo descobriu que também estavam capturando a informação das placas de rede. Ou seja, o Google não teria necessidade dos provedores da internet para saber exatamente onde estavam os usuários, porque teria os números das placas com as fotos da porta de casa. O governo alemão exigiu que o Google apagasse as informações obtidas", conta.

Mudar as regras

Por essa razão, o movimento open mesh aposta também na mudança das regras de jogo quanto à administração da informação pessoal. "A internet é um organismo vivo, etéreo, não pode ser tocado. Enquanto os computadores se conectarem entre si, a internet estará viva. Mas se alguns tratam de cortar cabos, então a rede se tornará frágil. Se tivermos que passar exclusivamente pelas grandes empresas, vamos matar a internet", disse Roks. Uma de suas objeções ao conglomerado mundial é que estes mesmos meios de comunicação que dão acesso à rede também produzem conteúdos: "Economicamente, será mais difícil para aqueles que não pertencerem aos grandes meios". Além disso, Roks pensa que as companhias telefônicas não querem que os usuários compartilhem a conexão para não perder seu papel predominante. Mas, "para que ter dez conexões em um edifício se se pode ter só uma?". De qualquer forma, Roks ainda não consegue entender como é que o Governo da Cidade de Buenos Aires anunciou uma rede de 25 locais com sinal wi-fi por 20 milhões de euros, quando "o custo real não ultrapassa os 60.000 euros", e se pergunta: "Onde está o resto?".

Roks garante que se este tipo de rede tivesse existido no Egito, teria bastado conectar alguns computadores à internet através de acesso telefônico para que o resto dos computadores começasse a se interconectar. "O ridículo é que a tecnologia antiga está sendo dada de baixa. No entanto, quando esta é superada por outra, não se torna obsoleta, mas muda de propósito. Dar baixa às conexões analógicas é aterrador", encerra.

 

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