A inesquecível grandeza de Romero: um homem que sabia vencer o medo à morte

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22 Março 2011

"Há histórias que lhe abraçam tão estreitamente que você não consegue mais esquecê-las". É com essas palavras que inicia o terceiro livro de Ettore Masina sobre Dom Oscar RomeroL’arcivescovo Deve Morire. Oscar Romero e il suo Popolo (Ed. Il Margine, Trento, 400 páginas): reescritura, ampliada e enriquecida, da sua célebre biografia publicada com o mesmo título em 1996 pelas Edições Gruppo Abele, e esgotada há muito tempo (que, por sua vez, era uma versão bastante atualizada da primeira biografia, Oscar Romero, publicada em 1993 pelas Edições Cultura della Pace).

A reportagem é de Claudia Fanti, publicada na revista italiana Adista – Documenti, nº. 24, 26-03-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

E é fácil entender como a história de Dom Romero pode figurar entre aquelas que "você não consegue esquecer, nem quando você tem outras para escrever": porque, como evidencia Masina na sua última Lettera agli Amici (n. 149), é a história de "um bispo daquela Igreja dos pobres que a instituição clerical e o `imperialismo do dinheiro` (como o definia Paulo VI) buscaram (e buscam) extirpar do coração dos povos em luta de libertação; um idoso que soube abandonar as cadeiras tranquilas do bom senso e das hierarquias cerimoniosas para proclamar o evangelho de justiça no vento da história. E ainda: um santo desaparecido no mofo de certas congregações vaticanas; martirizado há 31 anos, mas posposto no cumprimento das práticas para a canonização, a centena de virtuosos e virtuosas que não semearam escândalos de profecia".

Mas é também a história de um homem que sabia vencer seu próprio medo por amor, como Masina destaca no primeiro capítulo, intitulado Biografia di un Libro (uma das partes completamente novas, em que é contada justamente a singular gênese da obra): "É fácil – escreve – pensar que certas pessoas possam fazer certas coisas porque são diferente de nós. Eu, por exemplo, sou um coetâneo de Che Guevara, mas o seu exemplo jamais me colocou em crise. Aquela sua beleza (…), aquele seu ímpeto e generosidade e audácia, como não pensar em um ser geneticamente diferente de mim, de outra raça, talvez de outro planeta? Ler as palavras gritadas por Romero, os seus atos registrados pela memória dos pobres, me arrancava toda hipocrisia: eis um pequeno homem, cheio de medo, que continuava fazendo aquilo que acreditava ser o seu dever. Repensava no que o pai Cervi havia escrito na memória dos seus sete filhos partidários, fuzilados pelos fascistas: `Iam à frente para fazer aquilo que acreditavam ser justo, embora soubessem que, para isso, se podia morrer: como o sol que continua o seu arco até o ocaso`".

O eterno contraste entre instituição e profecia

Mas é também sobre a atualíssima questão da canonização de Dom Oscar Romero que Masina se detém, com a intensidade e a paixão habituais, nessa terceira biografia do arcebispo mártir (que será apresentada no quadro das celebrações romanas do 31º. aniversário do assassinato de Dom Romero, no dia 23 de março, às 18h, na sala da Comunidade de Base de S. Paolo, e no dia 26 de março, às 17h, na paróquia de San Frumenzio, em Prati Fiscali). Uma questão – a do reconhecimento oficial da santidade do arcebispo – sobre a qual se confrontam posições diversas e até opostas.

Há aquela dos que consideram – e é verdadeiramente uma imensa multidão de fiéis, e não só, dentro do El Salvador e em todo o mundo – que o arcebispo mártir já deveria estar há muito tempo sobre os altares, e há aquela de quem não gostaria de ver isso jamais. Há a posição daqueles que consideram que Dom Romero deve ser canonizado, mas só quando ninguém possa mais manipular, politizar e instrumentalizar a sua figura, já que "um santo – declarou o vigário-geral de San Salvador, Jesús Delgado – não deve fomentar divisões, mas ser sinal de unidade", como se Romero pudesse ser "sinal de unidade" tanto para as vítimas quanto para os seus carnífices.

Também há a posição de quem, enquanto acusa outros de instrumentalizar a figura do arcebispo, manipula a sua memória para fazer dele um santo de Roma, em um acelerado processo de "penhora institucional", admiravelmente exemplificado pelas palavras pronunciadas por João Paulo II no túmulo de Romero durante a sua visita a El Salvador em 1983, quando disse, depois de tê-lo hostilizado tanto quando estava vivo: "Romero é nosso".

Enfim, há a posição de quem está de acordo com Dom Pedro Casaldáliga sobre o fato de que ninguém deve canonizar São Romero da América porque "lhe fariam uma ofensa", já que "seria como pensar que a primeira canonização", a realizada pelo povo, "não serve". E de quem, como Enzo Mazzi, pensa que Romero não "viveu para emergir, mas sim para convergir, para dar força e voz e poder aos sem poder" e que considera, portanto, que é preciso "não fazê-lo santo, mas fazer santa toda essa gente" e "libertar-se e libertar de todas as mitizações e santificações".

No último capítulo do livro (Santo? Non subito!), também este completamente novo, Masina percorre novamente os momentos mais significativos desse complexo episódio e o faz localizando nas "lentidões do processo de canonização de Romero" a enésima reproposição do contraste entre instituição e profecia: "De um lado, o Vaticano, do outro, a história com as suas asperezas e as suas conquistas; de um lado, quem protege o que foi construído, do outro, quem aceita caminhar sob céus tempestuosos e sobre caminhos incertos rumo aos infinitos Gólgotas da Terra e do Tempo. DE um lado, quem defende a intangibilidade da ortodoxia, do outro, o pioneiro que descobre o reino de Deus em regiões que pareciam desertos e sem luz. E, por fim, talvez, se poderia dizer: de um lado, os filósofos, os canonistas, os sacerdotes do Templo, e, do outro, quem aceita receber dos pobres a teologia que lhes foi confiada pelo Pai".

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