O poder do silêncio

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05 Março 2011

Recentemente, o escritor protestou em um programa de TV português contra o excesso de comunicação e defendeu que as pessoas deveriam ficar pelo menos meia hora em silêncio diariamente, com todos os aparelhos, incluindo computador, desligados. Pensando. Meia hora, contada no relógio, porém, pode revelar-se torturante para muitos. Quem, no auge do estresse com os barulhos da vida contemporânea, opta por um retiro de Carnaval, sem ter a prática anterior da meditação, às vezes enfrenta dificuldades para seguir as regras nos locais mais rígidos.

A reportagem é de Marta Barcellos e publicada pelo jornal Valor, 04-03-2011.

Comparada à de alguns templos budistas, a austeridade nem é tanta no retiro de Carnaval promovido pela Sociedade Taoísta do Brasil em um sítio em Camanducaia, Minas, desde 2003. Mesmo assim, os organizadores já tiveram problemas com um grupo feminino que não conseguiu respeitar, no primeiro dia, o período de silêncio imposto das 21h às 6h, entre a última e a primeira meditação da programação diária. "A mulherada conversou a noite inteira", conta o sacerdote taoísta Wagner Canalonga, psicólogo e acupunturista, que, no entanto, não endossa o estereótipo de que o sexo feminino teria mais dificuldade em manter-se em silêncio. "O que existe, às vezes, é a dificuldade de olhar para dentro e encontrar os ruídos internos." No retiro, qualquer instrumento sonoro é proibido, assim como celulares. Mesmo assim, as 19 vagas são disputadas a cada ano, incluindo iniciantes, que nunca estiveram em retiros. "Muitos são executivos e profissionais com a vida agitada, que procuram o silêncio para encontrar o próprio equilíbrio."

Na visão taoísta, o silêncio é a origem da energia e da consciência. Em outras religiões, a reverência a ele se repete, seja em rituais de meditação ou contemplação, diz o ex-reitor da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio) Jesus Hortal, teólogo e doutor em filosofia. "O exame de consciência é um exercício típico das religiões. Todas elas falam, também, do mistério", afirma. Para mergulhar no mistério ou refletir sobre os próprios pensamentos, não haveria outra forma senão a de abdicar do "barulho contínuo da vida atual". "O barulho é a fuga de si. Ninguém quer tomar consciência das próprias limitações", explica o padre, que anda incomodado com o volume da música nas festas de casamento. "Não se consegue conversar."

A liturgia católica inclui pequenos momentos de silêncio cada vez mais difíceis de ser respeitados. Após a comunhão, por exemplo, o padre deve permanecer sentado enquanto os fiéis usufruem das benesses do silêncio: introspecção, atenção a si próprio e intimidade com Deus. "Não se faz isso na base do ruído", reclama Hortal. No extremo oposto, porém, não vigora a conclusão de que quanto maior o silêncio maior a devoção. A quietude da vida monástica das ordens religiosas dedicadas à contemplação também pode ser considerada perigosa do ponto de vista psicológico, a ponto de a Igreja Católica ter revisto regras em algumas delas. "Os cartuxos ficavam a vida toda sem falar, mas o papa impôs que passassem a sair em pequenos grupos, uma vez por semana, para conversar", conta Hortal.

O silêncio pode levar à melancolia, confirmam o padre e outros religiosos que cumprem votos e períodos estabelecidos por suas doutrinas. No caso dos jesuítas, são obrigatórios oito dias de retiro por ano, além de um mês inteiro dedicado à contemplação na época dos estudos para ingressar na ordem. "O voto de silêncio não pode ser extremo, pois se assemelha à saturação do barulho. Os extremos não levam ao equilíbrio", observa Canalonga.

Entre a austeridade dos retiros e a percussão carnavalesca, porém, há uma multidão que busca no feriado apenas alguma quietude para poder usufruir do silêncio na criação artística. Trata-se do silêncio que comunica, seja na pausa de uma sinfonia ou no desconforto de um diálogo sem palavras nem trilha sonora, criado pelo cinema ou pelo teatro. Para que esses silêncios sejam "ouvidos", porém, é preciso uma plateia calada e com celulares desligados, situação que se tornou rara em espaços culturais. "Este é um país de telespectadores, muito mais do que de espectadores", diz Sérgio Rizzo, crítico de cinema e professor da pós-graduação em crítica cinematográfica e jornalismo cultural da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). "Os filmes e os programas de TV estão cada vez mais barulhentos, o que provoca no espectador, diante do silêncio, a sensação de incômodo e estranhamento."

O cineasta Eduardo Coutinho costuma contar um episódio emblemático sobre o impasse entre a cultura televisiva e o silêncio. Convidado para retornar ao programa "Globo Repórter", da Rede Globo, perguntou se teria autonomia completa como diretor. Ouviu que sim. Desconfiado, insistiu: "Posso deixar um rosto na tela, por um minuto, em silêncio?" Aí a conversa terminou. O que Coutinho buscava era a possibilidade de usar uma matéria-prima comum no cinema. O sueco Ingmar Bergman valeu-se de silêncios expressivos em sua obra, a ponto de realizar um longa-metragem perturbador chamado "O Silêncio". O italiano Michelangelo Antonioni também ficou conhecido por usar o recurso para reforçar o caráter existencialista de dramas e personagens. "Há o silêncio destinado a incomodar o espectador e também o que procura simplesmente aproximar a narrativa do mundo que procura representar, em estratégia mais naturalista", diz Rizzo.

O roteirista David França Mendes lembra que o silêncio não necessariamente está relacionado a "filmes-cabeça": "Nas comédias, há o silêncio do constrangimento, que funciona muito bem". Mendes acredita que ainda existe, nos tempos atuais, espaço para algum silêncio no cinema independente e cita como exemplo o recente sucesso do francês "Mademoiselle Chambon", com boa bilheteria no circuito alternativo brasileiro e 550 mil espectadores na França. "Mas no cinemão americano é só barulheira mesmo: quando não tem gente falando, tem explosão." Em contraste, na fita minimalista dirigida por Stéphane Brizé, o que mais se "ouve" é o silêncio dos personagens principais, um pedreiro e uma professora, que expressam o que sentem e querem ao não dizê-lo.

Os significados do silêncio foram explorados na experiência radical de John Cage, compositor de vanguarda e escritor americano que ficou célebre pela peça "4`33"". A partitura da obra contém três movimentos em que os músicos não devem executar nenhuma nota em seus instrumentos. Após a entrada no palco e os aplausos, a orquestra coloca-se em posição de execução e permanece assim durante todo o tempo: 4 minutos e 33 segundos. Considerado um esteta revolucionário, menos por suas composições e mais pelas ousadias conceituais, Cage ficou famoso pela mais extrema inclusão do silêncio na linguagem musical.

Sem silêncio não há música, seria uma das mensagens, entre muitas, da experimentação de Cage, datada de 1952. O maestro Ricardo Prado recorda-se de uma das definições de música que ouviu no início de seus estudos, de que seria a arte de combinar sons de maneira agradável. "É uma bobagem. Arte não precisa ser agradável, `Guernica` não é agradável. A música é a arte da memória. Som e silêncio são suas matérias-primas." A pausa é tão importante para a música que uma das obras mais conhecidas do mundo é considerada pelo maestro uma "extensa reflexão sobre o silêncio". "A 5ª Sinfonia de Beethoven explode de dentro do silêncio. Ela não começa de uma nota, mas de uma pausa", observa.

O silêncio já teve significados diferentes ao longo da história, e muitos deles se refletiram na música de suas épocas. No período barroco, em que a ópera se tornou a forma artística mais popular, havia um uso dramático e exagerado do silêncio. "Era o uso magistral, o silêncio usado como suspense", explica Prado. No período clássico, o maestro destaca Beethoven como o "mestre do silêncio". Já no romantismo a pausa ganhou ares de suspiro. Às vezes reflexivo e delicado, o silêncio nessa fase também tinha um papel estruturador, que "organiza a tendência a um certo caos sonoro". A crítica proposta por novas fronteiras musicais que eram ultrapassadas então deflagrou o modernismo, no qual caberia o experimentalismo de Cage. "O silêncio voltou quase selvagem nessa fase", diz Prado. "Como se fosse um retrocesso."

As execuções da famosa peça de Cage mostravam também a impossibilidade do silêncio. Sempre havia barulho. "O silêncio não há. É uma ideia. Se tento domar a humanidade por quatro minutos, alguém vai tossir, ou dormir e roncar", observa Prado. Talvez pela constatação, o maestro surpreendentemente não compartilha da irritação comum aos artistas em relação às plateias ruidosas. "Tenho uma opinião de mão dupla em relação a esse assunto", pondera. "Claro que a capacidade de se deixar tomar pela obra é favorecida pela atitude silenciosa. Mas o silêncio na sala de concerto é recente na história da música. Beethoven nunca teve uma plateia em silêncio." Ao contrário, havia até balbúrdia nas apresentações de ópera, por exemplo. As pessoas comiam, bebiam e conversavam, mas também se calavam ao se emocionar com uma ária: então choravam e aplaudiam. "O hábito de escutar em silêncio começou quando as pessoas se acostumaram a ouvir música em casa, em seu som estéreo."

A resistência de Prado em julgar o público barulhento vem da desconfiança de que as reclamações embutem alguma parcela de preconceito. "Não acho ofensivo o aplauso entre dois movimentos, por exemplo. Ninguém precisa conhecer todo o repertório para saber a hora certa de aplaudir. Essa irritação costuma se dirigir aos espectadores menos frequentes das salas de concerto."

Não que o maestro não sofra com o excesso de ruídos em seu dia a dia. Principalmente porque, para ele, música também é ruído. "Não consigo abstrair da música, conviver com ela como música de fundo. Agora até shopping center tem sido complicado: as lojas disputam seus clientes com trilhas sonoras." Da mesma forma que a música elevada incomoda o padre Jesus Hortal em casamentos ou a conversa no cinema é insuportável para o roteirista David França Mendes, cada um sabe de quanto e de quais silêncios precisa para viver.

Para a romancista britânica Sara Maitland foram necessários dez anos de vivência pessoal e de pesquisa sobre o silêncio, seus significados e os efeitos que provoca nas pessoas, experiência relatada em "A Book of Silence", publicado pela editora Granta em 2008. Fascinada pelo silêncio, a escritora empreendeu uma viagem pelo deserto do Sinai, no Egito, no ano passado, e vai retornar ao tema na próxima obra. Em tempos de feiras e badalação literária, muitos escritores passaram a defender seu ritual de reclusão e inspiração no silêncio como fundamentais para a criação. Se escrever é usar as palavras que se pouparam, como advoga Miguel Sousa Tavares, nada mais natural.

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