O mundo árabe como laboratório de experimentação política

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02 Março 2011

"Esperamos que, por meio desse ciclo de lutas, o mundo árabe se torne, nas próximas décadas, aquilo que a América Latina foi nas décadas passadas, ou seja, um laboratório de experimentação política entre o poder dos movimentos sociais e os governos progressistas da Argentina à Venezuela, do Brasil à Bolívia."

A opinião é dos filósofos políticos Michael Hardt e Antonio Negri, em artigo publicado no jornal The Guardian e no sítio UniNomade, 24-02-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O desafio para os observadores das insurreições no norte da África e no Oriente Médio é lê-las não tanto como repetições do passado, mas, ao contrário, como experiências que abrem novas possibilidades políticas para a liberdade e a democracia bem além da razão. Com efeito, nós esperamos que, por meio desse ciclo de lutas, o mundo árabe se torne, nas próximas décadas, aquilo que a América Latina foi nas décadas passadas, ou seja, um laboratório de experimentação política entre o poder dos movimentos sociais e os governos progressistas da Argentina à Venezuela, do Brasil à Bolívia.

As revoltas imediatamente limparam a ideologia e jogaram fora toda concepção racista do choque de civilizações que destina a política árabe ao passado. As multidões na Tunísia, no Cairo e em Bengasi mandam aos pedaços o estereótipo político segundo o qual os árabes são obrigados a escolher entre ditaduras laicas e teocracias fanáticas, ou que os muçulmanos são incapazes de liberdade e democracia. Chamar essas lutas de "revoluções" também parece levar ao engano muitos comentaristas que assumem a progressão dos eventos segundo a lógica de 1789, de 1917 ou de outras rebeliões do passado, contra rei e czar.

As revoltas árabes se inflamaram sobre o tema do desemprego e tiveram como centro as ambições frustradas de uma juventude que estudou nas universidades – uma população que tem muito em comum com os estudantes que protestam em Londres e em Roma. Embora a primeira exigência que proliferou no mundo árabe tenha se concentrado no fim da ditadura e dos governos autoritários, por trás desse grito estão uma série de demandas sociais com relação ao trabalho e à vida; não só o fim da dependência e da pobreza, mas também pelo poder e pela autonomia de uma população intelectual e altamente competente. Que Ben Ali e Mubarak ou também Khadafi deixem o poder é só o primeiro passo.

O modelo de organização das revoltas parece produzir aquilo que vimos durante décadas em outras partes do mundo, de Seattle a Buenos Aires, de Gênova a Cochabamba: uma rede horizontal sem um líder central. As organizações tradicionais da oposição podem fazer parte dessa rede, mas não podem dirigi-la. Os observadores estrangeiros tentaram desde o início nomear um líder para as revoltas egípcias: talvez Mohamed ElBaradei, talvez Wael Ghonim. Têm medo de que os Irmãos Muçulmanos ou alguma outra organização existente possa assumir o controle dos eventos. Aquilo que não entendem é que a multidão é, na realidade, capaz de se organizar sem um centro – que a imposição de um líder ou a cooptação nas mãos de uma organização tradicional minaria o poder da multidão.

A difusão nas revoltas do uso das redes sociais como Facebook, YouTube e Twitter é o sintoma e não a causa dessa estrutura organizativa. Essas são as formas da expressão de uma população intelectual capaz de usar os instrumentos que tem ao alcance das mãos para se organizar autonomamente.

Embora esses movimentos organizados em rede rejeitem uma liderança central, devem, no entanto, consolidar as suas demandas em um novo processo constituinte que liga os segmentos mais ativos da rebelião com os desejos da população no seu conjunto. As insurreições da juventude árabe certamente não visam a uma constituição liberal de tipo tradicional, que garanta simplesmente a divisão dos poderes e uma dinâmica eleitoral normal, mas, ao contrário, apontam para uma forma de democracia adequada às novas formas de expressão e às novas necessidades da multidão. Esta deve incluir, em primeiro lugar, o reconhecimento constitucional da liberdade de expressão – não na forma típica das mídias dominantes, que são constantemente sujeitos à corrupção dos governos e das elites econômicas, mas como expressão das experiências comuns de rede relacionais.

Em segundo lugar, dado que essas revoltas foram desencadeadas não só pela difusão de desemprego e pobreza, mas também por um generalizado senso de frustração das capacidades produtivas e expressivas, principalmente entre os jovens, uma resposta constitucionalmente radical deve inventar um esquema comum para gerir os recursos naturais e a produção social. Através dessa soleira, o neoliberalismo não pode passar, e o próprio capitalismo está posto em discussão. As regras islâmicas também são completamente inadequadas para satisfazer tais exigências. Nesse campo, as insurreições não tocam apenas os equilíbrios do Norte da África e do Oriente Médio, mas também o sistema da governança econômica no plano global.

A partir dessas considerações, a nossa esperança é que o ciclo de lutas que está se difundindo no mundo árabe se torne, nas próximas décadas, aquilo que a América Latina foi nas décadas passadas, que possa inspirar movimentos políticos e levantar aspirações de liberdade e democracia para além da região. Cada uma dessas revoltas, certamente, pode fracassar: os tiranos podem lançar uma repressão sanguinária, as juntas militares podem tentar permanecer no poder, os tradicionais grupos de controle de oposição podem pilotar os movimentos, e as hierarquias religiosas podem lutar para assumir o controle.

Mas o que não irá morrer são as reivindicações políticas e os desejos, as aspirações de uma jovem geração intelectual a uma vida diferente em que possam valorizar suas próprias capacidades. E até que essas reivindicações e desejos tenham vida, o ciclo de lutas irá continuar. A questão é o que essas novas experiências de liberdade e de democracia irão ensinar ao mundo nas próximas décadas.

 

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