Líbia. Uma narrativa histórica precede a queda

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22 Fevereiro 2011

"E se o que estamos vendo é uma verdadeira revolução na Líbia, então logo poderemos – salvo se os funcionários das embaixadas ocidentais chegarem aí antes para um sério e desesperado saque – buscar entre os arquivos de Trípoli e ler a versão líbia de Lockerbie e a bomba de 1989 do voo 722 da UTA, e das bombas na discoteca de Berlim, e de seu abastecimento de armas ao IRA e dos assassinatos de opositores no país e no exterior, e do assassinato de uma policial britânica e de sua invasão do Chade e dos negócios com os magnatas petrolíferos britânicos", escreve o jornalista inglês Robert Fisk em artigo publicado no jornal argentino Página/12, 22-02-2011. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Até o velho, paranóico e louco astuto da Líbia está para cair. O pálido e infantil ditador nascido em Sirte, dono de sua própria guarda pretoriana, autor do absurdo Livro Verde, que uma vez anunciou que iria a uma cúpula de não alinhados em Belgrado em seu cavalo branco. Está para cair. Ou já se foi. À noite, o homem, que vi há mais de três décadas saudando solenemente uma falange de homens-rã de uniformes escuros enquanto desfilavam pelo caloroso pavimento da Praça Verde em uma tórrida noite em Trípoli, parecia estar finalmente fugindo, perseguido – como os ditadores da Tunísia e do Egito – por seu próprio povo em fúria.

As imagens do YouTube e do Facebook contavam a história com certa fantasia: delegacias incendiadas em Benghazi e Trípoli; uma mulher com uma pistola aparecendo na janela de um carro, uma multidão de estudantes quebrando uma réplica em concreto de seu espantoso livro. Tiros, chamas e gritos aos celulares; haja epitáfio para um regime que todos nós de tempos em tempos apoiamos.

E aqui vai uma história verdadeira. Há poucos dias, enquanto o coronel Muammar Kadafi enfrentava a ira de seu próprio povo, reuniu-se com um velho conhecido árabe e passou 20 minutos de uma reunião de quatro horas perguntando-lhe se conhecia um bom cirurgião que fizesse um lifting em seu rosto. Esta é – é necessário que o diga sobre este homem? – uma verdadeira história. O velho garoto se achava mal, com a cara caída, inchada, um ator de comédia que se havia mergulhado na tragédia em seus últimos dias, desesperado com a maquiagem, o golpezinho final na porta do camarim.

Diante do fato, Saif al Islam al Kadafi, fiel suplente de seu pai, teve que tomar seu lugar no cenário enquanto Benghazi e Trípoli se incendiavam, ameaçando com "caos e uma guerra civil" se os líbios não se acalmassem. "Esqueçam-se do petróleo, esqueçam-se do gás", anunciou este milionário panaca. "Haverá uma guerra civil". Acima da cabeça de seu filho parecia brotar, de seu cérebro, um verde mediterrâneo na imagem divulgada pela televisão estatal. Haja obituário – quando se pensa – para quase 42 anos do governo de Kadafi.

Não é exatamente o Rei Lear, seria antes como outro ditador em um bunker diferente, convocando exércitos não existentes para salvá-lo em seu capital, finalmente culpando o seu próprio povo por sua calamidade. Mas esqueçam-se de Hitler, Kadafi estava em sua própria classe, o Mickey e o Profeta, Batman e Clark Gable e Anthony Quinn atuando como Omar Mukhtae em Leão do Deserto, Nero e Mussolini (versão de 1920) e inevitavelmente – o maior ator de todos – Muammar Kadafi.

Escreveu um livro chamado Fuga para o Inferno e outras histórias e exigiu uma solução de um único Estado para o conflito entre Israel e Palestina que se chamaria "Israeltine". Pouco depois expulsou a metade dos moradores palestinos da Líbia e lhes disse para que procurassem a sua terra perdida. Abandonou furioso a Liga Árabe porque lhe pareceu irrelevante – um breve instante de lucidez, deve-se admitir – e foi a Cairo para uma reunião, confundindo deliberadamente uma porta do banheiro com a do salão da conferência, até que foi conduzido pelo califa Mubarak que tinha um sorriso sofredor em seu rosto.

E se o que estamos vendo é uma verdadeira revolução na Líbia, então logo poderemos – salvo se os funcionários das embaixadas ocidentais chegarem aí antes para um sério e desesperado saque – buscar entre os arquivos de Trípoli e ler a versão líbia de Lockerbie e a bomba de 1989 do voo 722 da UTA, e das bombas na discoteca de Berlim, e de seu abastecimento de armas ao IRA e dos assassinatos de opositores no país e no exterior, e do assassinato de uma policial britânica e de sua invasão do Chade e dos negócios com os magnatas petrolíferos britânicos, e da verdade por trás da grotesca deportação do logo a expirar Al Megrahi, o suposto autor da bomba Lockerbie, muito doente para morrer, que pode, ainda agora, revelar alguns segredos dos quais o astuto da Líbia – junto com Gordon Brown e o fiscal geral da Escócia, porque todos são iguais no cenário de Kadafi – preferiria que não nos inteirássemos.

E quem sabe o que os Arquivos do Livro Verde – e, por favor, insurgentes da Líbia, NÃO queimem estes preciosos documentos – nos dirão sobre a visita de Lord Blair a este horrendo velho; uma figura confundida cujos gestos próprios de um estadista (as palavras, evidentemente, provêm desse velho marxista fraudulento Jack Straw, quando o autor de Fuga para o Inferno prometeu entregar as bugigangas nucleares que seus cientistas não foram capazes de converter em bomba) permitiram ao nosso líder afirmar que, se não tivesse atacado os "saddamistas" com nossa justificada ira pela não existência de armas de destruição em massa, a Líbia também teria entrado no grupo do Eixo do Mal.

Por sorte, Lord Blair não levou em conta o fator "camaleão" de Kadafi, uma habilidade única para pousar como um homem sensato, enquanto no privado acredita ser uma bombinha de luz. Apenas alguns dias depois de apertar as mãos de Blair, os sauditas acusaram Kadafi de fazer um complô – e os detalhes eram horrivelmente convincentes – para assassinar o aliado da Grã-Bretanha, o rei Abdulá da Arábia Saudita. Mas, por que se surpreender quando o homem mais temido, e agora mais zombado e odiado por seu próprio povo vingativo, escreveu, em Fuga para o Inferno, que a crucifixão de Cristo era uma inverdade histórica e que um "Quarto Reich" alemão estava tratando com prepotência a Grã-Bretanha e os Estados Unidos?

Como com todas as histórias do Oriente Médio, uma narrativa histórica precede a dramática festividade da queda de Kadafi. Durante décadas, seus opositores trataram de matá-lo: se elevaram como nacionalistas, como prisioneiros em suas câmaras de tortura, como islamistas nas ruas de Benghazi. E a todos derrubou. Certamente, esta venerável cidade havia conseguido seu estado de martírio em 1979 quando Kadafi enforcou publicamente estudantes dissidentes na praça principal de Benghazi. Nem sequer vou denunciar o desaparecimento, em 1973, do defensor líbio dos direitos humanos Mansour al Kikhiya, enquanto participava de uma conferência no Cairo após se queixar da execução de prisioneiros políticos por parte de Kadafi. E é importante recordar que, há 42 anos, nossa própria Chancelaria aplaudia o golpe de Estado de Kadafi contra o afetado e corrupto rei Idriss, porque, diziam os nossos mandarins coloniais, era melhor ter um coronel prolixo a cargo de um Estado petrolífero que uma relíquia do imperialismo.

 

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