Da prisão, Madoff diz que "os bancos deviam saber"

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20 Fevereiro 2011

Bernard L. Madoff disse que nunca pensou que o colapso do esquema Ponzi causaria o tipo de destruição que se abateu sobre sua família.

A reportagem é de Diana B. Henriques, publicada pelo jornal The New York Times e reproduzida pelo Portal Uol, 21-02-2011.

Em sua primeira entrevista para publicação desde sua prisão em dezembro de 2008, Madoff – parecendo mais magro e amarrotado no uniforme cáqui da prisão – manteve que os membros de sua família não sabiam de nada sobre seus crimes.

Mas durante uma entrevista privada de duas horas numa sala de visitantes aqui na terça-feira, e em trocas de e-mail preliminares, ele afirmou que bancos não identificados e fundos hedge foram de certa forma “cúmplices” de sua elaborada fraude, contrariando suas declarações anteriores de que ele era a única pessoa envolvida na fraude.

Madoff, que cumpre uma pena de 150 anos, parecia fraco e um pouco agitado em comparação com a calma estóica que ele manteve durante sua prisão em 2009, talvez oprimido pela tristeza por causa do suicídio de seu filho Mark em dezembro.

Além dessa perda, sua família também enfrenta pilhas de processos, a possibilidade de confisco da maior parte de seus bens, e a desconfiança e inimizade pública incansáveis que separaram Madoff e sua mulher Ruth de seus filhos.

Sob vários aspectos, entretanto, Madoff parecia o mesmo. Ele falou com grande intensidade de fluência sobre seus negócios com vários bancos e fundos hedge, apontando a “cegueira voluntária” dos mesmos e sua falha em examinar as discrepâncias entre os seus arquivos regulatórios e outras informações neles disponíveis.

“Eles deviam saber”, disse Madoff. “Mas tinham uma atitude do tipo: `se você estiver fazendo algo errado, nós não queremos saber`.”

Embora ele tenha admitido sua culpa na entrevista e tenha dito que nada pode desculpar seus crimes, ele concentrou seus comentários incisivos como laser nos grandes investidores e grandes instituições com as quais lidou, não no sofrimento financeiro que ele causou a milhares de seus investidores mais modestos. Num e-mail escrito em 13 de janeiro, ele observou que muitos clientes de longo prazo ganharam mais com lucros legítimos com ele nos anos anteriores à fraude do que poderiam ter ganho em qualquer outro lugar. “Eu adoraria que eles não tivessem perdido nada, mas isso foi um risco do qual eles estavam bem conscientes ao investir no mercado”, escreveu.

Madoff disse que ficou chocado ao saber que alguns banqueiros trocaram e-mails e mensagens – que vieram à tona em processos recentes – levantando dúvidas sobre seus resultados antes de o esquema entrar em colapso.

“Estou lendo mais agora sobre como eles estavam muito mais desconfiados do que eu imaginava na época”, disse ele com um sorriso leve.

Ele não disse que nenhum banco ou fundo específico sabiam ou eram cúmplices de seu esquema Ponzi, que durou pelo menos 16 anos e consumiu US$ 20 bilhões em dinheiro perdido e cerca de US$ 65 bilhões em papéis. Em vez disso, ele citou uma falha em realizar as fiscalizações de praxe.

Tanto a entrevista quanto a correspondência por e-mail foram conduzidas como parte da pesquisa do repórter para um novo livro sobre o escândalo de Madoff: “O Mago das Mentiras: Bernie Madoff e a Morte da Verdade”, que deverá ser lançado nessa primavera pela Times Books, uma divisão da Henry Hold and Co.

Na entrevista e nos e-mails, ele também alegou que estar ajudando um funcionário apontado pelo tribunal que está tentando recuperar os bilhões perdidos em prol de seus clientes enganados. Em e-mails, Madoff disse repetidas vezes que forneceu informações úteis para Irving H. Picard, o funcionário que está tentando recuperar os bens para as vítimas da fraude. Ele disse que se encontrou com a equipe de Picard durante quatro dias no verão passado. Os e-mails foram escritos em dezembro e janeiro, mas apenas recentemente ele concordou que poderiam ser publicados.

Na prisão, o acesso de Madoff ao mundo de fora é limitado e monitorado. Todos os visitantes precisam ser aprovados pelas autoridades da prisão, que também rastreiam suas limitadas ligações telefônicas e suas cartas e e-mails, embora as entrevistas com advogados como Picard e seus colegas sejam menos restritas e possam ser feitas em particular.

Questionado sobre sua cela, ele descreveu uma sala de cerca de 13 metros quadrados com uma janela grande com vista para o terreno; ele disse que tem um colega de cela, o segundo desde que chegou na prisão. Ficou claro a partir dos e-mails e da entrevista que Madoff acompanhou de perto as notícias sobre seu caso em dezembro, o segundo aniversário de sua prisão. Ele atacou a cobertura “inaceitável” da morte de seu filho Mark, que cometeu suicídio em 11 de dezembro.

Negando as notícias e que ele havia se recusado a comparecer ao enterro de Mark, ele disse que a prisão o informou que não aprovaria um pedido para ele ir ao enterro por causa “da questão da segurança pública” e do pouco tempo disponível para fazer os arranjos. Ele concluiu que qualquer funeral a que ele comparecesse seria “um circo da mídia” e que “seria cruel para a família” fazê-la passar por isso, escreveu em 29 de dezembro.

Em relação a seus encontros com a equipe legal de Picard, Madoff afirmou num e-mail escrito em 19 de dezembro que havia dado “informações que ele sabia seriam úteis para recuperar os bens que foram cúmplices da confusão em que ele se meteu”.

Numa mensagem de dez dias mais tarde, ele foi até mais explícito sobre o que disse ao advogado: “estou dizendo que os bancos e fundos foram cúmplices de uma forma ou outra e minha informação para Picard quando ele esteve aqui estabeleceu isso”.

As alegações de Madoff precisam ser avaliadas de acordo com sua fraca credibilidade. Depois de enganar os reguladores federais e investidores supostamente sofisticados por pelo menos 16 anos, ele certamente poderia ser considerado um mentiroso pelos advogados se aparecesse como testemunha contra qualquer réu num tribunal – um fato que ele reconheceu como certa tristeza durante sua entrevista na terça-feira.

Apesar de suas muita referências à cumplicidade de outros, Madoff reconheceu no e-mail de 19 de dezembro que não havia compartilhado essa informação com os promotores federais que trabalhavam em casos criminais relacionados com sua fraude – embora seja bem provável que o advogado tenha feito isso, se a informação de Madoff foi relevante para a investigação.

Madoff escreveu num e-mail que embora estivesse disposto “desde o começo” a dar aos promotores informações “para ajudar a recuperar apenas os bens, recusaria fornecer provas criminais a eles.”

Na entrevista, ele recusou-se a discutir os demais casos criminais sob investigação.

Nos meses após as entrevistas da equipe de Picard na prisão, sua firma de advocacia, Baker & Hostetler, entrou com centenas de processos civis buscando aproximadamente US$ 90 bilhões em indenizações e lucros ficcionais retirados do esquema de Madoff ao longo dos anos. Os réus desses casos incluem a família Wilpon, dona do New York Mets; o JPMorgan Chase, que serviu durante décadas como principal banqueiro de Madoff; e Sonja Kohn, financista de Viena no centro de uma rede de fundos hedge que investiram pesadamente com Madoff.

Madoff disse sobre Fred Wilpon e Saul Katz, cunhado e sócio de Wilpon: “eles não sabiam de nada. Eles não sabia de nada.”

Não houve sinais óbvios de que quaisquer desses outros processos tenham sido baseados em provas ou orientações de Madoff. Todos os réus disseram não ter conhecimento da fraude e negaram as alegações do advogado de que, como investidores financeiros sofisticados, deveriam suspeitar desde o começo.

Picard recusou-se a comentar se sua equipe havia entrevistado Madoff e não disse se as informações dele haviam contribuído com os inúmeros processos acionados desde o verão passado.

Em alguns e-mails, Madoff admitiu que a equipe de Picard conduziu sua própria investigação sobre as retiradas feitas por alguns grandes clientes, nos anos anteriores ao colapso do esquema Ponzi, para determinar quem poderia saber do que e quando. Essas retiradas poderiam indicar que os investidores poderiam estar cientes da fraude, o que poderia aumentar sua responsabilidade.

Entretanto, acrescentou Madoff, “os fatos são que apenas eu estava presente em certas reuniões com esses clientes”.

Até agora, nenhum dos principais bancos ou fundos hedge que negociaram com Madoff foram acusados por promotores federais de investir conscientemente no esquem Ponzi. Entretanto, Picard afirmou em processos civis que os executivos de alguns bancos expressaram suspeitas sobre Madoff durante anos, mas mesmo assim continuaram a fazer negócios com ele e a colocar dinheiro de seus clientes nas mãos do investidor.

Todas as entidades financeiras que enfrentam processos civis por parte de vítimas de Madoff e Picard negaram que tivessem qualquer conhecimento da fraude.

Num e-mail de 12 de janeiro, Madoff citou acordos fora dos tribunais que alguns bancos e fundos negociaram com investidores privados de Madoff durante os últimos dois anos e alegou que alguns acordos foram feitos “para me deixar quieto” sobre o papel que essas instituições desempenharam “criando minha situação” e sobre a identidade dos donos de algumas de suas contas privadas.

Picard já recuperou cerca de US$ 10 bilhões em vendas de bens e acordos com vários bancos estrangeiros e alguns clientes significativos de Madoff, incluindo o imóvel de um investidor privado, Jeffry Picower, e da família de Carl Shapiro, um filantropo de Palm Beach, Flórida.

Enquanto o acordo de Picower estava em negociação desde pelo menos o outono de 2009, os acordos com a família Shapiro e um banco suíço, o Union Bancaire Privee, vieram depois da viagem de Picard para a prisão aqui em Butner. Mas como ambos os acordos aconteceram antes de Picard entrar com processos públicos no tribunal, não está claro e as informações de Madoff foram importantes nessas negociações de acordos.

Nem Shapiro nem o banco suíço foram acusados de qualquer cumplicidade com os crimes de Madoff, e Picard reconheceu publicamente que eles cooperaram de boa fé com suas investigações quando ele anunciou os acordos, que chegaram a um total de mais de US$ 1 bilhão.

As únicas pessoas formalmente acusadas de cumplicidade com o crime de Madoff são seu antigo auditor e membros de sua própria equipe.

Embora Madoff tenha jurado em tribunal que foi o único responsável por usa elaborada fraude, seu contador, David Friehling, e o funcinário sênior de Madoff, Frank DiPascali, admitiram sua culpa e estão cooperando com os promotores. Cinco outros ex-funcionários de Madoff também foram indiciados; eles declararam sua inocência e estão aguardando julgamento.

Embora Madoff tenha dito que estava determinado a ajudar os esforços do advogado para recuperar os bens, ele também criticou o alcance do advogado, alegando que Picard estava buscando muito mais dinheiro do que era necessário para resolver as queixas válidas dos investidores.

Além das queixas de perda de dinheiro por parte dos clientes e das riquezas em papéis que sumiram, o patrimônio de Madoff também enfrenta queixas de credores, como vendedores ou proprietários de imóveis não pagos, que não podem reaver nada até que todas o dinheiro que ele deve aos clientes seja pago.

Madoff argumentou em vários e-mails que a responsabilidade de Piscar era de devolver apenas US$ 20 bilhões em dinheiro que os investidores perderam no esquema Ponzi.

Levando em conta que Picard já recuperou cerca de US$ 10 bilhões, Madoff calcula que os processos contra grandes bancos e fundos hedge produzirão mais do que o suficiente para cobrir o resto das perdas de dinheiro sem que Picard tenha que entrar num litígio de “devolução” contra alguns investidores de longa data que retiraram mais de suas contas do que colocaram ao longo dos anos.

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