Os protestos na Praça Tahrir não perdem força

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09 Fevereiro 2011

Le Monde
Na Praça Tahrir respira-se um ar que desmente qualquer teoria sobre o enfraquecimento dos protestos no Egito. No centro do Cairo, a praça, onde há duas semanas vem se desenrolando a fulgurante história da "revolução", poderia ser desertada aos poucos. Depois de quatorze dias de ocupação por uma multidão anônima exigindo a saída do presidente Hosni Mubarak e muitas outras coisas, a epopeia egípcia poderia ter parado no meio do caminho. Sobretudo depois dos ataques da polícia, de assassinos do regime, com seus camelos, suas chuvas de pedras, seus tiros. Já são trezentos mortos. A ausência de líderes identificados e reconhecidos e o início de um processo de negociações com o governo em um contexto flexível o suficiente para atenuar as reivindicações poderiam, pela lógica, ter contribuído para o declínio do movimento. Mas é o contrário que parece estar acontecendo.

A reportagem é de Jean-Philippe Rémy, publicada pelo Le Monde e reproduzida pelo Portal Uol, 10-02-2011.

Na terça-feira (8), dia de tímida retomada das atividades no Cairo e dia do aniversário da primeira manifestação há duas semanas – no dia 25 de janeiro – havia uma concentração jamais vista na Praça Tahrir. Ruas inteiras do Cairo parecem ter corrido para lá. Há jovens, velhos, casais que se abraçam e tiram fotos, inválidos e crianças, mulheres cobertas até os olhos e outras de óculos de sol, com os cabelos ao vento. Certamente são centenas de milhares deles na praça, e um número mais difícil de estimar nas ruelas vizinhas.

O medo de um possível atentado não muda nada. A misteriosa organização agindo na Praça Tahrir, que, desconfia-se, é parcialmente coordenada pela Irmandade Muçulmana, organiza o controle de identidades, as revistas, a varredura e a coleta de lixo. Quase um milhão de pessoas pisam em um dos lugares mais limpos do Cairo, sem sombra de confusão.

Isso faria da praça quase um local de passeio em família, como temem alguns veteranos. É o caso do estudante que atende pelo nome de Yarab, e que fala em "traição", temendo ver seu movimento de protesto virando uma quermesse, com vendedores de amendoins e lençóis egípcios. "Tornou-se uma curiosidade, tem gente que vem só para ser fotografado, é uma distração, e ela é gratuita", se irrita o jovem universitário desempregado.

Ele não é o único a se preocupar em meio à alegria. Fady Youssef, farmacêutico, avaliou as razões para protestar com seu cartaz, uma "carta de demissão" dirigida a um certo Mubarak, presidente da República, mas teme ver a alegria coletiva escondendo infrações: "É preciso que todos entendam que ainda não conseguimos nada. Claro, é um clima magnífico, e o verdadeiro Egito está lá, mas não percamos de vista o objetivo: é preciso mudar tudo, e estamos longe disso".

Desviando dos carrinhos de bebê que, na confusão batem nos tornozelos dos passantes, o advogado Issam Sobhy, de óculos escuros e toga, faz parte dessa multidão que se descobriu com uma raiva insuspeita diante das inúmeras frustrações do dia a dia. "Eu estava conversando com um homem, que explicava que tiraram suas terras, uma plantação de limoeiros. Um aliado do regime se apoderou delas. Uma decisão da justiça determinou que o bem lhe fosse restituído. Mas foi impossível para ele aplica-la, uma vez que seu adversário é poderoso demais. E o advogado, que não se recuperou da extensão da violência em seu bairro vizinho do palácio de Qubba (18 mortos), disse ainda: "Olhe para essa multidão. Aqui, você pode ter certeza de que todo mundo tem um problema com o governo. Durante mais de vinte anos, ninguém podia falar a respeito abertamente. Agora que isso começou, não vejo como poderia parar."

Sobre a imensa praça, torna-se quase impossível andar. As ruas vizinhas, que até esses dois últimos dias eram terreno de caça dos capangas do regime encarregados de interromper os protestos, agora são devolvidas a seus habitantes e aos manifestantes que vêm e vão. Os pró-Mubarak não eram esses agressores que foram derrotados pela defesa da praça. O que representa a Praça Tahrir, em uma cidade de 16 milhões de habitantes, capital de um país de 80 milhões de indivíduos?

Enquanto espera a resposta, o espaço de liberdade aberto no centro do Cairo se transformou em "happening" permanente. As tentas se proliferaram, e músicos chegaram para garantir o a animação. O aparecimento do cibermilitante Waël Ghoneim passa quase despercebido, de tão absorvida que a multidão está pelas miríades de discussões ou de canções. Os militares nas entradas da praça, em seus tanques cobertos de inscrições, tentam cochilar.

Policiais à paisana, membros dos serviços secretos, continuam a percorrer discretamente a multidão, e tentam arrancar informações com grandes sorrisos. "E você? Pessoalmente, você é contra ou a favor de Mubarak?", pergunta um senhor de bigode. Um homem logo intervém: "Por que você pergunta uma coisa dessas? Não entende que tudo isso acabou? Não somos mais obrigados a estar contra ou a seu favor, agora somos livres!"

O homem que advertiu o membro dos Mukhabarat (polícia secreta) se chama Ashraf Seler, e trabalha na televisão nacional: "Não tenho mais medo. Nunca mais terei medo". Já se forma uma aglomeração em torno dessa nova cena de discussão, alguns filmam, tiram fotos. Todos escutam com avidez. Dentro de alguns instantes, os olhos começarão a encher d’água, e marmanjões enxugarão discretamente lágrimas de emoção, que só esperam um sinal para rolar.

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