Paz no mundo, paz entre religiões: os desafios da teologia pluralista

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23 Janeiro 2011

Em uma sociedade plural – cultural e religiosamente – como a contemporânea, é quase senso comum afirmar que vivemos hoje um "choque de civilizações" e também de religiões. Porém, "não haverá paz no mundo, sem paz entre as religiões; e não haverá paz entre as religiões, sem uma visão teológica pluralista".

Para colaborar na reflexão em torno dessas questões, no próximo dia 8 de fevereiro, o Fórum Mundial de Teologia e Libertação irá celebrar, dentro do Fórum Social Mundial, em Dakar, Senegal, uma oficina sobre "Religiões e Paz: A visão/teologia necessária para tornar possível uma Aliança de Civilizações e de Religiões para o bem comum da humanidade e a vida no planeta". A organização da oficina é da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo - ASETT/EATWOT.

Para facilitar a participação e o debate, a EATWOT disponibilizou as conferências resumidas de vários especialistas que serão apresentadas sobre a temática proposta, que foram traduzidas e publicadas pelas Notícias do Dia do sítio do IHU.

Em geral, o debate entre os autores mostra que as possibilidades para a paz não são um tema genérico, nem sociológico, nem político, mas sim concreto: possibilidade que se abre a partir da teologia do pluralismo ou da teologia pluralista. Assim, em suas reflexões, os debatedores se perguntaram sobre qual seria a "visão teológica" básica que as religiões precisam para conviver em paz e unir-se na tarefa urgente de ajudar o planeta e de humanizar a humanidade.

A Comissão Teológica Internacional da EATWOT, abrindo os trabalhos, analisa o que, no fundo, contribui para a definição daquilo que hoje chamamos por "religião", uma "riqueza inestimável para a humanidade". Segundo a Comissão, elas respiram uma presença divina, sendo uma expressão múltipla e inesgotável da necessidade de transcendência, da busca de sentido, da veneração do sagrado, da experiência espiritual e mística. Mas é preciso reconhecê-las como obras humanas – com o melhor de cada povo que lhes deu origem, mas também com suas limitações – e obras culturais – refletindo a idiossincrasia peculiar de cada povo, sua identidade e linguagem. Porém, há algo em que todas coincidem: a Regra de Ouro, por meio da qual, segundo a Comissão, as religiões podem "se encher de ternura e de misericórdia para com toda a Humanidade", abrindo mão de toda atitude de prepotência, domínio e divisão.

Por isso, é preciso "desistir de afirmar que uma religião é `a primeira e a única` ou a `melhor`", como afirmam os 35 estudiosos da religião da Ásia, da Europa e dos Estados Unidos que se encontraram na Universidade de Birmingham, na Inglaterra, em 2003. Eles propuseram alguns Princípios-chave do Pluralismo Religioso, fortalecendo o entendimento do diálogo e do compromisso inter-religioso, reconhecendo em todas as grandes religiões do mundo "caminhos autênticos ao bem supremo" e, a todas as pessoas, "liberdade de consciência e o direito de escolher sua própria fé".

Como indica o abade Léon Diouf, padre diocesano da Arquidiocese de Dakar, Senegal, "é importante reconhecer a complementariedade mútua das tradições religiosas, pela qual, de uma interação dinâmica entre duas tradições religiosas, resulta um enriquecimento recíproco". Nesse sentido, defendeu, "o contexto atual ou paradigma de reflexão para a teologia é o paradigma pluralista", segundo o qual todas as religiões são verdadeiras "dado que Deus vai ao encontro de todos os povos de múltiplas formas (cf. Hb 1,1-2)". Esse paradigma pluralista mantém a polaridade entre as duas categorias fundamentais: o "eu mesmo" e o "outro", rejeitando fazer de si mesmo o critério do outro e, do outro, o contrário de si mesmo, segundo Diouf.

E os seguidores de todas as religiões têm contribuições a dar nesse sentido, pois "unidade não é uniformidade", nas palavras de K. L. Seshagiri Rao, editor-chefe da Enciclopédia do Hinduísmo, coeditor de Interreligious Insight e professor emérito da Universidade da Virginia, Estados Unidos. Para Rao, as diferenças devem ser valorizadas e preservadas, embora todos sejamos um e pertençamos à única família humana. "Para o diálogo entre as religiões e as culturas do mundo – afirma –, um pré-requisito é a abertura de mentalidade. Isso exige o respeito por si mesmo e pelos outros e a coragem de enfrentar as diferenças", como também ensina o Hinduísmo.

Já para o Taoísmo, o Fundamento Divino de toda religião pode ser chamado de "Tudo", assim como o próprio universo ou cosmos em que vivemos, "um todo que foi se dando vitalmente por meio do processo do `Tudo em tudo`", segundo John Cheng Wai-Leung, pesquisador da Faculdade de Teologia Fu Jen, em Taipei, Taiwan. Por isso, é preciso reconhecer que o Todo está por todas as partes, em todas as religiões: é onipresente, "tão fino que nada pode existir dentro dele, tão amplo que nada pode existir além dele".

David R. Loy, professor da cátedra Besl de Ética, Religião e Sociedade da Xavier University, em Cincinnati, nos Estados Unidos, explica que, para além das questões teológicas, econômicas e sociais, as religiões também devem prestar atenção ao elemento ecológico, especialmente neste período de crise. "Esses desafios urgentes foram provocados pelo ser humano e requerem a melhor resposta possível das tradições religiosas. As religiões não deveriam se relacionar entre si como concorrentes, porque estão comprometidas em uma tarefa comum", diz. Por isso, a partir de uma perspectiva budista, ele afirma que não somos "salvos" por nos identificarmos com uma figura, texto, código moral ou conjunto de rituais religiosos. "Cada um destes, por si mesmos, é apenas parte do caminho espiritual que envolve a transformação pessoal de toda a pessoa, incluindo a realização da nossa interdependência com os outros", resume.

O desafio é reconhecer que "um só povo não pode conhecer todos os seus caminhos, não pode entender tudo". "E quando um povo diz `o que eu sei de Baba é melhor e mais exato`, esse povo não conhece Baba". Para Saila kuna Iguanabiginia (Horacio Méndez), do Panamá, não podemos dizer exatamente o que é "Baba", o que é "Nana", as divindades indígenas. "Nunca vamos entender tudo", sintetiza. Segundo Méndez, só poderemos conhecer a Deus "quando todos nos encontremos a partir da diferença de nossos povos".

Como indica Ralph Dexter, da Fé Bahá`í, do Equador, "se pudermos esquecer por um momento os preconceitos que herdamos de nossos pais, podemos ver claramente que todas as grandes religiões vêm de uma mesma fonte, que é o único Deus todo-poderoso, Criador da terra e de tudo o que há nela". Somos filhos de um mesmo pai, porém fomos separados depois de nascer, criados em lares, costumes e crenças diferentes. "Para a nossa educação espiritual, Ele nos enviou os Fundadores das grandes religiões", afirma Dexter. É nesse sentido que o autor sintetiza a teologia de fundo de cada um dos grandes fundadores das religiões, a partir dos eixos da Regra de Ouro e da unidade da religião.

A ideia da oficina da EATWOT, nesse sentido, é justamente de debater uma visão, teologia necessária pelo bem comum da humanidade e pela vida no planeta, em suma, pela paz. Mas o que se entende por paz? Para Hans Ucko, ex-presidente do Departamento de Diálogo Inter-Religioso do Conselho Mundial de Igrejas,
em Genebra, Suíça, a paz é como a convivência de fogo e água: uma comunhão dos opostos. "Eles são diferentes, e juntos formam aquilo que é a paz", explica, a partir da tradição judaica. "O paradoxo é necessário para obter as novas perspectivas de que necessitamos. Devemos nos separar dessa forma de pensar em que, se eu estou certo, você tem que estar errado", afirma. Assim, nos daremos conta de que "aquele que chamamos de `outro` é, frequentemente, a nossa própria projeção e construção".

Durante muitos séculos, a relação dos católicos com os "outros" se deu a partir da chamada posição exclusivista ("fora da Igreja não há salvação"), cuja variante protestante era: "fora do cristianismo não há salvação". "Por outro lado, uma teologia (cristã) do pluralismo religioso tenta reconhecer a validade de cada tradição religiosa e aceitá-las como caminhos independentes para a salvação", defende Reinhard Kirste, da Interreligiöse Arbeitsstelle - INTR°A, Alemanha. "Assumir essa atitude de diálogo nos leva a abandonar a ideia de que o outro é um estrangeiro e, por meio do encontro, a tomar consciência do que temos em comum e do que nos diferencia, sem que isso se torne em obstáculo para os diferentes caminhos de salvação", explica.

Para Faustino Teixeira, de Juíz de Fora, "as religiões são `fragmentos` em meio a uma sinfonia cujo horizonte leva a marca do inacabamento. Não é possível que uma tradição pretenda estar somente ela em posse da verdade". Por isso, "aceitar o pluralismo religioso como um valor em si mesmo – o chamado pluralismo de princípio – é uma condição essencial para o verdadeiro diálogo inter-religioso. Não é possível dialogar verdadeiramente com o outro desconhecendo a riqueza e o valor irredutível de sua dignidade religiosa", ou mesmo arreligiosa ou até pós-religiosa, como afirma o autor.

Fundamental, nesse sentido, é a crítica da religião, especialmente a partir da teologia da libertação latino-americana, para se assegurar "que a crítica da religião não sirva aos interesses da opressão e da marginalização, e também para que o diálogo das religiões não se torne um diálogo de costas para os pobres", defende Stefan Silber, da Universidade de Osnabrück, Alemanha. Segundo ele, embora religiosos, "os pobres são religiosos apesar das religiões", já que as religiões vividas pelos pobres muitas vezes não coincidem com as propostas religiosas feitas pelas autoridades religiosas. Por outro lado, afirma, as religiões oprimem os pobres, enquanto estruturas de poder, mas também têm potencial libertador. Por isso, "se a teologia não pôr de manifesto os efeitos nefastos da prática religiosa a partir da perspectiva dos pobres, e se não corrigir as atitudes e as práticas que justificam e aprofundam a exclusão e a opressão dos pobres, as religiões não se tornarão forças criativas de justiça e de paz no mundo", explica.

Para colaborar no debate, o sítio Servicios Koinonia oferece alguns princípios mínimos básicos que poderiam tornar possível que as religiões reúnam suas energias a serviço da salvação do planeta e da própria humanidade, como o abandono da expressão e do conceito da "única religião verdadeira" (porque todas elas o são), ou de Povo Eleito (porque todos são povos muito amados por Deus). "As religiões devem reconhecer que são também criações humanas, misteriosamente elaboradas por nossos ancestrais e, nesse sentido, realidades limitadas, imperfeitas, que necessitam ser tratadas com compreensão e melhoradas com um generoso esforço crítico, com humildade e agradecimento", afirma-se. Por isso, nada de proselitismo: "A nova `missão` da qual as religiões são conscientes não vai tentar converter o outro, fazendo-o mudar de religião, mas sim ajudá-lo a assumir mais autenticamente a sua própria religião".

Por fim, encerrando todas as contribuições, a Comissão Teológica Internacional da EATWOT defende que é preciso reconhecer a "biodiversidade religiosa", a "hierodiversidade" na qual nenhuma forma religiosa esgota a realidade nem detém o monopólio da Vida. "Nenhuma religião, nenhuma posição religiosa ou opção espiritual detém o monopólio da relação do ser humano com o Absoluto; todas o buscam e, provavelmente, todas o encontram, a seu modo e medida, e nenhuma o esgota nem o monopoliza", afirma.

Como sintetiza a Comissão, uma teologia pluralista reconhece que, em linguagem teísta, "o `Deus semper maior` é maior do que pensávamos". Não é mais só o "nosso Deus", do nosso povo, da nossa raça, da nossa cultura, dos nossos interesses, da nossa verdade única. Assim como o ser humano também mudou: "é diferente, entende a si mesmo de outro modo, conhece e pensa de outra forma". Por isso, "já não serão possíveis as religiões que não queiram se adaptar a essa transformação ou as que prefiram morrer na fidelidade à repetição dos seus princípios já superados, nem as que quiserem seguir impondo o tipo de religião que elas foram nos milênios passados. Só as que tiverem a humildade suficiente para aceitar as exigências dessa renúncia continuarão sendo úteis ao ser humano e sobreviverão".

(Por Moisés Sbardelotto)

 

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