Bento XVI coloca a sua marca na Cúria

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02 Janeiro 2011

A especulação sobre os cargos no Vaticano é sempre um passatempo favorito em Roma, e nestes dias o centro das atenções está na Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, popularmente conhecida como a Congregação para os Religiosos, em que o atual presidente, o cardeal esloveno Franc Rodé, já passou da idade de aposentadoria de 75 anos.

A análise é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 21-12-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em algum momento depois do Natal, o Papa Bento XVI deverá nomear um sucessor. Essa escolha será acompanhada de perto, especialmente nos Estados Unidos, já que esse é o escritório responsável pela atual e altamente controversa visitação apostólica das religiosas norte-americanas.

O panorama, porém, provavelmente é o seguinte: uma vez que esse cargo esteja definido, Bento XVI terá que nomear 21 das 25 mais altas autoridades da Cúria Romana (uma lista que inclui o secretário de Estado, os prefeitos de nove Congregações, os presidentes de 12 Conselhos Pontifícios e os chefes dos três tribunais canônicos). A "nova Cúria" de Bento XVI, portanto, entrou em foco – e como a escolha de funcionários é uma demonstração de política, essas nomeações dizem muito sobre para onde ele está levando a Igreja.

Além da questão nada surpreendente de que todos os homens do Papa compartilham em geral o seu compromisso com a ortodoxia católica, três observações parecem ser mais pertinentes.

Em primeiro lugar, esse Papa prefere claramente os intelectuais e os homens da cultura ao invés de diplomatas de carreira ou burocratas da Igreja.

A escolha do cardeal Marc Ouellet, do Quebec, em junho, como novo prefeito da Congregação para os Bispos é emblemática. Ouellet, sulpiciano, é um teólogo dogmático e ex-membro do conselho editorial da Communio, a revista teológica fundada após o Concílio Vaticano II (1962-65) por, dentre outros, o então padre Joseph Ratzinger.

Bento XVI parece se sentir inclinado pela perspicácia intelectual, mesmo quando os pontos de vistas de alguém não coincidem exatamente com os seus.

Em uma entrevista recente ao NCR, o cardeal italiano Gianfranco Ravasi, indicado por Bento XVI como presidente do Conselho Pontifício para a Cultura em 2007, disse que ter tido o "total apoio" do Papa, mesmo tendo "uma formação intelectual e uma sensibilidade que podem ser ligeiramente diferentes" (Ravasi é um estudioso da Bíblia de formação, não um teólogo, e suas referências vêm tanto da ciência e da literatura seculares quanto das obras-primas da tradição cristã.)

Em segundo lugar, apesar dos repetidos esforços do Vaticano para afirmar que Bento XVI não é eurocêntrico, suas nomeações da Cúria são fortemente de europeus e norte-americanos. Dos 25 principais cargos, apenas quatro são de prelados de fora do Ocidente. (Um deles, o cardeal Leonardo Sandri, da Congregação para as Igrejas Orientais, nasceu na Argentina, mas sua família é italiana, e ele passou a maior parte de sua carreira na Itália.)

Esse padrão pode ser menos uma questão de preconceito geográfico do que um reflexo da principal preocupação política de Bento: combater a "ditadura do relativismo" na cultura secular, cujo epicentro é a Europa.

Até mesmo os não-ocidentais do Papa tendem a compartilhar esse foco sobre o secularismo. O novo cardeal Robert Sarah, um guineense indicado em outubro como presidente do "Cor Unum", o órgão do Vaticano que supervisiona as instituições de caridade da Igreja, proferiu fortes advertências no Sínodo para a África de 2009 sobre um modelo ocidental liberal que está sendo imposto no continente.

Provavelmente será deixada para um futuro Papa a avaliação das implicações do desenho de quatro quintos do governo central da Igreja vindos do Ocidente, em um século em que três quartos dos seus habitantes viverão em países em desenvolvimento.

Em terceiro lugar, Bento XVI, assim como os líderes de outros estilos de vida, tende a atrair seus principais assessores de dentro da sua zona de conforto. Pelo menos oito deles trabalharam com o então cardeal Joseph Ratzinger na Congregação para a Doutrina da Fé, ou atuaram como consultores ou membros da congregação, e Bento XVI conhece a maioria dos demais membros do seu próprio serviço curial.

Em seu recente livro-entrevista com Peter Seewald, Bento XVI explica por que ele valoriza essa conexão pessoal.

"Foi muito importante para mim, como presidente da Congregação para a Doutrina da Fé, sermos uma comunidade, não lutar entre ou ao lado dos outros, mas ser uma família", disse ele. "Eu atribuo grande importância a essa capacidade de fomentar relacionamentos e permitir o trabalho em equipe".

Críticos têm sugerido que a valorização de Bento XVI dos laços familiares às vezes vem em detrimento da competência. O exemplo mais citado frequentemente é o do principal assessor do Papa, o cardeal italiano Tarcisio Bertone – uma figura inegavelmente afável, mas alguém que presidiu uma série de crises administrativas como secretário de Estado.

Por outro lado, os secretários de Estado, historicamente, às vezes, formaram um centro de poder alternativo e até mesmo rival para os Papas aos quais serviam. Bento não tem com o que se preocupar com Bertone, cuja lealdade é inabalável.

Uma má impressão comum é de que Bento prefere as ordens religiosas. Embora haja vários religiosos no Vaticano, eles atualmente detêm apenas três dos 25 cargos mais elevados. (No livro, Bento XVI diz que "as ordens religiosas contêm um conjunto de pessoas muito boas, que têm grande talento", mas nega que essa percentagem aumentou no seu período.)

Para melhor ou pior, os contornos da Cúria de Bento XVI parecem ser claras: pensadores, e não tecnocratas; líderes com formação cultural ocidental; e jogadores de equipe, e não carreiristas.

Especialmente com Ouellet no trabalho, esse também pode ser cada vez mais o perfil dos novos bispos de todo o mundo católico.

 

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