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Orgulho farroupilha?... Porém às custas de quem?

"Heróis, os Farroupilhas, ou vilões? Os autênticos heróis a comemorar, não deveriam ser os Negros Lanceiros que lutaram por liberdade para si e também para todos os negros do Brasil que não agüentariam ver os negros do Rio Grande do Sul em liberdade enquanto eles na escravidão", escreve Antonio Cechin.

Antonio Cechin é irmão marista, miltante dos movimentos sociais, autor do livro  Empoderamento Popular. Uma pedagogia de libertação. Porto Alegre: Estef, 2010.

Eis o artigo.

A badalação farroupilha que já dura um mês, com festa máxima no dia 20 de setembro, exibida em desfiles quase sempre a cavalo mas também a pé, por todo o estado do Rio Grande do Sul, com divulgação diária nos grandes meios de comunicação, diretamente desde o grande acampamento farrapo levantado no parque central de Porto Alegre – verdadeira cidade de moradias e serviços de todo tipo – e de CTGs interioranos, ao som do hino farroupilha, hoje também estadual por lei ad hoc – tocado dezenas de vezes ao dia, na íntegra ou como música de fundo, não raro acompanhado com a mão sobre o peito ou com agitação de bandeiras, parece que encerrou ontem, 26 de setembro, com um fecho de ouro no grande desfile em cidade da fronteira, noticiada hoje nos jornais televisivos, mostrando fogosos ginetes, embandeirados com lábaros rio-grandenses, todos os cavalarianos caprichosamente pilchados, traje em que avultam os “tradicionais” lenços de pescoço, brancos ou vermelhos, de maragatos ou chimangos.

Em meio a toda essa unanimidade estadual chamou-nos a atenção uma notícia inusitada. Um dos jornais diários de Porto Alegre, em página interna, traz a informação que, no dia festivo maior, o próprio 20 de setembro, na capital Porto Alegre, enquanto acontecia o desfile máximo dos moradores da cidade-acampamento farroupilha que corta o parque da Redenção (nome com que foi inaugurado em homenagem aos negros que nele moravam e também pelo dia abolicionista, hoje com o nome Farroupilha), um grupo de escoteiros composto de 80 pessoas entre jovens e adultos, em vez de formarem no grande desfile comemorativo da Revolução  também chamada de Guerra dos Farrapos, puxada pela brigada militar e pela polícia, tiveram a ousadia de dirigir-se à estação central do trem metropolitano, junto ao mercado público, para fazerem uma homenagem aos Lanceiros Negros.

A inusitada notícia veio seca, sem comentário de espécie alguma, o que nos causou espécie. Ué!..  80 pessoas de um grupo de escoteiros?... Da Restinga, um bairro eminentemente popular, quase um favelão? Em visita a um monumento aos Lanceiros Negros?... Moro em Porto Alegre desde o ano de ‘1937 e nunca ouvi falar em monumento aos Lanceiros Negros. O jornal deve ter-se equivocado. Certamente tudo deve ter acontecido fora daqui.

A notícia que me causou tanto embaraço só consegui sofrear durante sete dias. Fui ao centro para compras e aproveitei para ir ao mercado. De fato, lá numa das paredes arredondadas à saída do trem metropolitano, bem ao lado do grande arco central que cobre a estação, um painel de um artista local, diante do qual me demorei a contemplar durante uma meia hora a fim de procurar entender. Num grande painel, tipo azulejo: à esquerda uma cena missioneira onde avulta a cruz tradicional, as Ruínas da catedral de São Miguel, a figura de um anjo. Por baixo, desta parte do quadro letras dizendo São Miguel, que primeiro foi cidadão de Roma ou coisa parecida. Um erro crasso em relação ao arcanjo. Logo ao lado, soldados em posição de tiro, da Revolução Farroupilha; ao lado, sempre da esquerda para a direita, os tais lanceiros negros, depois a fotografia de Bento Gonçalves e não sei quê mais. O mural não me convenceu. Achei que tudo estava muito misturado e me perguntei se a mixórdia não foi aí colocada exatamente para confusão entre os próprios fatos. Mas vamos aos Lanceiros Negros, motivo do deslocamento de um grupo de escoteiros da vila mais afastada da cidade de Porto Alegre. Mais de 30 quilômetros de distância desde o centro.

Tenho aqui à minha frente o livro de Moacyr Flores, historiador e professor da PUC, com dedicatória pessoal em data de lançamento. O título: NEGROS NA REVOLUÇÃO FARROUPILHA. Como sub-título: Traição em Porongos e Farsa em Ponche Verde. Logo de cara, na Introdução, o professor de História da PUC, começa assim “Os revolucionários liberais  rio-grandenses adotaram como lema “liberdade, igualdade e humanidade”. Na letra do hino, de autoria de Francisco Pinto da Fontoura, consta: “foi o vinte de setembro precursor da liberdade”. Em outra estrofe: “povo que não tem virtude, acaba por ser escravo”. Como explicar a manutenção do sistema de escravidão de negros e a traição no combate de Porongos? Por que os farroupilhas não aboliram a escravidão?” (Negros na Revolução Farroupilha – Traição em Porongos e farsa em Ponche Verde – Edições EST – Porto Alegre, 2004 – E-mail: ahrs@via-rs.net – Fone: (51) 3227-0883 – Acervo das etnias Frei Rovílio Costa)

Sabemos que a Revolução Farroupilha ou Guerra dos Farrapos durou 10 anos. Estavam cansados de correrias, fugas, desentendimentos entre chefes da revolta, transportando sua capital por três ou quatro  diferentes lugares: Porto Alegre, Piratini, Caçapava, Alegrete... Mandaram aviso ao poder central do país que queriam fazer as pazes e que por isso mandasse algum representante com amplos poderes. O governo federal mandou o Barão de Caxias. Os historiadores dizem até que a “paz” tão desejada por ambas as partes foi retardada por um ano porque os amotinados farroupilhas não sabiam o que fazer com os negros. Tinham mandado seus escravos para a frente de batalha com a promessa de liMestre Jesusbertação depois que terminasse o levante entre fazendeiros de lá e de cá. Não sustentaram a promessa. Mancomunados com o poder federal, acabaram com a degola de todos os negros combatentes a fim de que o Rio Grande do Sul, em especial os comandantes da Guerra dos Farrapos, junto com todo o Brasil, continuassem com a escravidão até o ano de 1888. O Brasil como sabemos, foi a última nação do mundo a acabar com a escravidão africana.

No próximo mês de outubro, realizaremos em São Leopoldo, no Instituto Humanitas Unisinos - IHU, na Unisinos, um Simpósio sobre as Missões Jesuíticas comemorativo dos 400 anos do início dos trabalhos missionários dos Padres Jesuítas em meio ao povo guarani do Rio Grande do Sul – sete povos – e adjacências. Em meu modesto entender será uma ocasião de ouro para jogar um feixe de luz, primeiro diretamente sobre o Povo Guarani e as Missões Jesuíticas. Foi um trabalho de gigantes, reconhecido mundialmente como “o grande triunfo da humanidade” pelos intelectuais europeus especialmente os próceres da Revolução Francesa. Como parte dessa reflexão avultará, certamente, a figura do Prefeito da cidade de São Miguel das Missões, o índio Sepé Tiaraju, também comandante do exército do povo guarani na luta contra os impérios opressores de Espanha e Portugal que roubaram dos Índios as 7 lindas cidades que haviam construído com enorme dedicação, os Sete Povos das Missões.

Em 1756, os impérios de Espanha e Portugal chacinaram São Sepé Tiaraju e seus 1.500 companheiros guarani em luta, estes, pela própria terra na iminência de esbulho, ao grito de “Esta terra é nossa! Nós a recebemos de Deus e de São Miguel!”  Anos mais tarde dessa primeira chacina em nossas terra, os farroupilhas, no fim da guerra por melhoria de impostos entre latifundiários, sem absolutamente nenhum alcance popular, denominada guerra dos Farrapos, a fim de selar a “paz” entre eles, em ação vergonhosa, em tudo semelhante ao encerramento da guerra guaranítica, como gran finale degolaram o regimento inteiro dos Lanceiros Negros.

Heróis, os Farroupilhas, ou vilões? Os autênticos heróis a comemorar, não deveriam ser os Negros Lanceiros que lutaram por liberdade para si e também para todos os negros do Brasil que não agüentariam ver os negros do Rio Grande do Sul em liberdade enquanto eles na escravidão.

Os teólogos da Libertação afirmam que o capítulo central de toda essa nova teologia, tipicamente latino-americana, é o que trata do martírio. A morte mais excelente do cristão, a exemplo do Mestre Jesus, é o martírio. Um desses teólogos – Jon Sobrino – afirma que, em cada geração, é levantado um tribunal à verdade. Esse tribunal coloca contra a parede, para todas as gerações futuras os verdadeiros vilões, exaltando sempre os mártires que são de duas categorias: a) os que se assemelham ao Servo Sofredor, isto é os pobres e sofredores por carência de quase tudo; b) os que se colocam com agressividade contra os opressores e contra as injustiças. Acabam por sinalizar seu amor aos deserdados com o testemunho da própria vida, doada através do próprio sangue. Os mártires, por isso, são até “necessários” de alguma forma, porque são eles que humanizam a história através de seu gesto de amor total.

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