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Vaticano II: uma Igreja aberta. Entrevista com John W. O"Malley

Do Concílio Vaticano II, saiu a "língua nova" da Igreja, que surgiu para comunicar melhor ao mundo os sempiternos fundamentos da fé católica. A afirmação é do jesuíta John O’Malley (foto), frequentador "duplo" da assembleia convocada por João XXIII.

Entre 1963 e 1965, ele estudava em Roma e acompanhou os trabalhos conciliares. Uma paixão que confluiu nos estudos de história da Igreja (hoje ensina na Georgetown University de Washington), hoje condensados no seu livro "O que aconteceu no Vaticano II".

Esse também é o título da jornada de estudos que irá ocorrer na quinta-feira, 11, na Universidade Católica de Milão. Quando foi publicado nos EUA, o Wall Street Journal definiu o trabalho de O’Malley como "iluminador". O grande filósofo Charles Taylor também louvou o trabalho do jesuíta norte-americano, qualificando-o como "extraordinário", porque era capaz de tornar "inadequadas" as "claras contraposições liberais/conservadores para compreender os conflitos que ocorreram no Vaticano II".

O’Malley insere a assembleia conciliar no amplo contexto da "long durée" da história da Igreja e considera como essencial o retorno às fontes patrísticas, bíblicas e litúrgicas na obra de "aggiornamento".

A reportagem é de Lorenzo Fazzini, publicada no jornal dos bispos italianos, Avvenire, 06-03-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

No seu livro, o senhor fala de "uma rede de interconexões verdadeiramente notáveis", referindo-se aos documentos do Vaticano II. Em que consiste essa "rede"?


Refere-se a um novo vocabulário. Os documentos da assembleia conciliar apresentam uma novidade linguística que se aplica a diversas questões: basta pensar em palavras como "diálogo", "colegialidade", "desenvolvimento", "irmãos e irmãs", "consciência". Quem critica o Vaticano II não levou em consideração o seu novo alfabeto. Nesse caso, a linguagem se destaca como uma grande novidade, porque descreve e prescreve ações novas por parte da Igreja.

Por exemplo?

O Concílio louva a natureza humana como antes não ocorria. Fala do ecumenismo de modo diferente à época anterior: até o Concílio, dizia-se que era preciso ficar longe dos protestantes. O Concílio afirma, ao invés, que com eles são encontrados pontos de contato.

De acordo com o senhor, o Vaticano II é "a maior assembleia da história universal". Uma imagem de Igreja diferente daquela "absolutista" que muitas vezes passa na mídia...

Durante o Concílio, a Igreja deu a imagem de um lugar e de uma sociedade abertos: essa é a mudança oferecida "ad extra" pelo Concílio. No documento sobre a liturgia Sacrosanctum Concilium, por exemplo, afirma-se que a Igreja está atenta às culturas indígenas da África e da Ásia, que não são mais consideradas como superstições. Essa é uma mudança radical, oficial e solene, de se colocar com relação ao mundo. Além disso, a Igreja mostrou uma imagem de si mesmo como não sendo uma sociedade monolítica, onde todos pensam do mesmo modo, mas sim uma instituição em que a diversidade tem espaço. Essa é uma característica central do catolicismo. Basta pensar no patriarca Maximus IV Saigh, da Síria, que defendia que o latim não é a língua da Igreja, mas só de uma porção da Igreja ocidental. E no Concílio nasceu um debate que levou a Igreja a fazer escolhas decisivas de mudança também com relação à língua litúrgica.

Karl Rahner qualifica o Concílio como o momento de nascimento da "Igreja mundial", depois da Igreja "judaica" e os dois milênios "helenísticos". A Igreja contemporânea é mundial?

Pergunta difícil. Acho que, se olharmos para a África e a Ásia, veem-se algumas adaptações litúrgicas importantes para que se chegue a um cristianismo "africano" ou "asiático". Rahner forneceu com essa frase uma imagem muito forte da Igreja, mas hoje ainda não podemos entender se ela é verdadeira. Estamos só no início das mudanças operadas pelo Concílio, ocorrido há apenas 50 anos. Podem-se notar algumas formas de catolicismo não ocidental que assumiu características indígenas.

Ultimamente se contrapuseram duas interpretações do Vaticano II: a da "ruptura" e a da "reforma". Como o senhor vê essa questão?

Certamente ocorreu uma reforma. Só os seguidores do bispo Lefebvre pensam que ocorreu uma ruptura: para eles, o Concílio Vaticano II constituiu-se em uma radical ruptura e em uma distorção da Tradição a tal ponto que o consideram herético. Mas nenhum historiador ou teólogo que se respeite, falando do Vaticano II, pensa que ele mudou de alguma forma os fundamentos e a tradição da Igreja. Como historiador, penso que esse problema da "ruptura" é uma falsa questão. O Vaticano II mudou as prioridades e a linguagem da Igreja: agora existe uma nova coerência nos dogmas, e isso implica em uma nova visão paradigmática sobre a ideia do cristão com relação ao mundo. Entende-se isso com relação ao Islã.

Em que sentido?

Se lermos os documentos eclesiais pré-Concílio em que se fala do Islã, notaremos que os fiéis muçulmanos são denunciados como eternos inimigos sem Deus. O Concílio, ao invés, tem palavras muito diferentes e mais "abertas" sobre a religião islâmica.

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