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Darwin, discutido 200 anos depois

Em 2009, completam-se 200 anos do nascimento de Charles Darwin e 150 anos da edição de sua obra decisiva, A origem das espécies, e ainda levanta polêmica. Custa acreditar, mas muitos continuam atacando a teoria da evolução. A reportagem é de Luiz Miguel Ariza e publicada no jornal espanhol El País, 14-12-2008. A tradução é do Cepat.

Exatamente dois séculos depois do nascimento de Charles Darwin, o homem que postulou que as espécies se transformam em outras graças à seleção natural sem nenhuma intervenção divina, nos confrontamos com um fato chocante: nos Estados Unidos, a nação cientificamente mais avançada do mundo, 48% de seus habitantes pensam que o ser humano foi criado diretamente por Deus nos últimos 10.000 anos, segundo uma pesquisa de uma revista científica de prestígio, a PLoS Biology. E a mulher que aspirava ocupar o segundo cargo político mais importante do planeta, a governadora republicana Sarah Palin, manifestou, em 2006, que o criacionismo deveria ser ensinado nas escolas como um ponto de vista alternativo à evolução, ao ser “importante um debate saudável”, diz a revista Nature. O que se poderia pensar de uma potencial vice-presidenta que tem simpatias pela idéia de que a Terra tem apenas alguns milhares de anos? “Gostaria que alguém lhe fizesse essa pergunta”, responde Tim Berra, professor emérito de Evolução da Universidade de Ohio. “É realmente frustrante e desmoralizador comprovar que a metade dos norte-americanos não aceita a evolução”.

Berra é o autor de um novo livro, Charles Darwin, a história concisa de um extraordinário nome (John Hopkins University Press). No momento em que se aproxima o bicentenário – Darwin nasceu em Shrewsbury, Inglaterra, em 12 de fevereiro de 1809 –, Berra destaca o renovado interesse dos fundamentalistas religiosos em avivar um falso debate atacando a teoria da evolução com “pontos de vista alternativos”, o que é “ridículo”. Ainda que seja uma particularidade muito norte-americana, dar o mesmo tempo ao adversário, a igualdade de oportunidades, “o que deve ser ensinado numa aula de ciência é exatamente ciência, não religião”. Estes ataques se tornaram sutis. Os nomes mudaram. No melhor dos casos se fala de “pontos fracos e fortes” da evolução. No pior, de “desenho inteligente”, a existência de uma misteriosa intencionalidade ou uma inteligência sobrenatural por trás do aparecimento da espécie humana.

Há iniciativas legislativas em meia dúzia de Estados norte-americanos – desde o Alabama até a Flórida – para introduzir falsas dúvidas. Nenhuma foi aprovada pelos tribunais, mas isso não impediu que o criacionismo se disfarce ilegalmente em muitas aulas. Entre 12% e 16% dos professores norte-americanos de biologia mostram sua simpatia pelo criacionismo, segundo a pesquisa da PLoS. Anedótico é o caso do Texas, um dos Estados mais populosos, com 23 milhões de habitantes. No Conselho Estadual de Educação do Texas, o senhor McLeroy, seu presidente, e sete de seus 15 membros são partidários do criacionismo. Um voto os separa de impor o criacionismo às escolas. McLeroy possui um doutorado e fez engenharia, e de acordo com o jornal The New York Times, suas crenças religiosas não supunham interferência em sua tarefa educativa, apesar de que estava convencido de coisas “incríveis como a história do Natal, em que esse menininho nascido numa manjedoura é o criador do Universo”.

Os antievolucionistas também deram o salto à Europa, ainda que ali a situação seja muito mais complexa. Apesar de que 70% dos europeus aceitem a evolução, foram realizadas algumas tentativas de proibir seu ensino nas escolas. Em 2004, a ministra italiana de Educação, Letizia Morati, retirou-a como disciplina por instigar uma perspectiva excessivamente materialista nos estudantes, causando então um rebuliço público. Em Hesse, na Alemanha, dois colégios ensinavam abertamente o criacionismo com a bênção do democrata-cristão Karin Wilf, vice-presidente desse Estado federal. Na Turquia, distribui-se literatura criacionista importada dos Estados Unidos por grupos islâmicos, já que a idéia da evolução não é aceita pelo islã. Outro exemplo: Maciej Giertych, membro polonês do Parlamento Europeu, biólogo e com um doutorado em fisiologia vegetal, não acredita na evolução e organizou seminários para transmitir aos parlamentares a idéia de que se os estudantes estão sendo doutrinados com uma hipótese falsa. Na Espanha, a incursão destes grupos é ainda tímida. Assim mesmo, tentaram organizar conferências em algumas Universidades espanholas sem sucesso. E no Reino Unido, o berço de Darwin, o grupo denominado Truth in Science (A Verdade em Ciência) trabalha ativamente enviando material audiovisual às escolas para que o desenho inteligente seja mostrado como uma “alternativa”, definindo-o como uma hipótese – impossível de ser comprovada cientificamente –, “que sustenta que certas características do universo e dos seres vivos se explicam melhor por uma causa inteligente”.

Darwin publicou seu livro A origem das espécies em 1859. Os ecos da polêmica que ele causou são muito velhos e se apagaram pouco depois. “Isso foi há 150 anos”, nos disse John Van Wyhe, historiador da ciência da Universidade de Cambridge e autor de uma página web que recolhe todos os trabalhos de Darwin e que recebeu mais de 50 milhões de visitas desde 2006. “Cerca de quinze ou 20 anos depois da publicação, a controvérsia sobre a sua obra acabou. A comunidade científica internacional aceitou que Darwin tinha razão sobre a evolução. E isso ocorreu há muito tempo. Os que agora o atacam, não somente desconhecem a ciência, mas a história, e creio que é necessário lembrá-los”. A polêmica sobre A origem das espécies não foi nem geral nem difundida: as críticas vieram fundamentalmente dos setores mais religiosos, mas a recepção por parte dos cientistas da época foi considerar que “Darwin era um gênio”, assegura este historiador. Assim que este debate criacionista procede dos grupos evangélicos norte-americanos muito conservadores de princípios do século XX.

Foram construídos outros falsos mitos sobre Darwin, garante o especialista. Um deles se refere à exasperada lentidão com que publicou a sua obra definitiva muitos anos depois da sua famosa viagem no HMS Beagle ao redor do mundo (desde a sua partida de Devonport, na Inglaterra, em 17 de dezembro de 1831, até o seu regresso a Falmouth, em 2 de outubro de 1836). Muitos quiseram ver neste atraso certo medo para informar o mundo sobre as suas conclusões; outros sugerem que Darwin temia prejudicar a sua mulher, Emma, com a qual acabava de se casar (em 24 de janeiro de 1939), pela sensibilidade religiosa dela. “É o tipo de história que as pessoas gostam de ouvir”, disse Van Wyhe. “Quando Darwin voltou, começou a tomar notas sobre a teoria da evolução, mas ainda não estava madura. E antes que lhe desse forma, tinha que escrever livros sobre todos os espécimes que recolheu durante a viagem, o que lhe tomou 18 anos”. Realmente, foi um escritor muito prolífico: publicou três livros de geologia, cinco volumes sobre zoologia, quatro sobre cirrípedes, seu livro sobre a viagem do Beagle e muitos artigos científicos, antes da sua obra-prima. O prestígio recebido como naturalista, nos disse Van Wyhe, facilitou aos cientistas a aceitação da seleção natural e a transformação das espécies.

Outra lenda sugere que a observação dos diferentes picos dos tentilhões das Ilhas Galápagos, quando o HMS Beagle aportou ali em 1835, acendeu em Darwin uma faísca com nome próprio: a evolução. Esta idéia é falsa, assegura Van Dyhe. Surgiu em meados do século XX numa reunião da Associação Britânica para o Avanço da Ciência. Alguém associou os dois conceitos, foram reproduzidos no jornal The Times e, posteriormente, recolhidos em vários livros (e no final dos anos 70, dramatizados numa esplêndida série da BBC que recriava a viagem do Beagle). Na realidade, Darwin não escreveu uma única vez a palavra “evolução” em sua obra-prima (o que não quer dizer que se explica com enorme acerto que as espécies se transformam gradualmente em outras com o passar do tempo). Nem sequer sabia que aquelas aves das ilhas eram tentilhões, e, de fato, acudiu a um de seus amigos, o ornitólogo John Gould, para que os classificasse corretamente na sua volta à Inglaterra.

Darwin tinha um aspecto físico mais que agradável. Alto, maior que 1,80 metro, corpulento, sem ser gordo – a viagem do Beagle lhe havia proporcionado uma complexão atlética –, olhos cinzas, vestido de forma conservadora como correspondia à sua época, com trajes de fraque, camisa de linho com colarinho, e chapéu alto, de acordo com a descrição de Deborah Heiligman em seu livro Charles and Emma (Henry Holt and Company Books), publicado recentemente nos Estados Unidos, e que aborda um singular retrato de seu casamento com Emma Wedgwood, sua prima. Os Darwin e os Wedgwood eram parentes e era costume casar-se em família. Darwin aparece como um homem seguro de suas convicções, ainda que lhe desagradava seu nariz, que julgava desproporcional e bulboso. Heiligman destaca a particularidade de um homem que anotava tudo. Em 1838, depois de dois anos de permanência em Londres, e numa casa alugada na rua Great Malborough, Darwin pegou um pedaço de papel e escreveu na margem esquerda a palavra “casar-se”, abaixo da qual enumerou as vantagens do casamento. Na direita, fez uma lista com as vantagens de ser solteiro, como a liberdade ilimitada para escrever e se dedicar à vida social em reuniões em clubes.

A frieza na hora de colocar as coisas na balança é mais superficial que real. A obra de Heiligman aprofunda o aspecto emocional de Darwin, o coração por trás da fachada de uma mente analítica. Um homem apaixonado por seu trabalho de naturalista, sim, mas que buscava na família e nos filhos – gostava muito das crianças – a contrapartida perfeita. Darwin tinha medo de se casar, pela dor que a morte de um filho lhe pudesse causar, algo que acontecia, dependendo da classe social, em um de cada quatro ou cinco filhos nascidos na Inglaterra vitoriana. O parto também cobrava a vida de muitas mulheres: uma morte a cada 200 partos. A medicina da época, sem antibióticos, quando se usavam sanguessugas para sangrar os doentes, deixava um caminho muito duro para qualquer casamento, inclusive o de Darwin, apesar de pertencer a uma classe acomodada. Seu pai, Charles, foi um bom médico e alguém com uma mente bastante liberal, o que era constante em sua família (seu avô e seus irmãos sempre se declararam livre-pensadores).

Darwin se arriscou. Teve dez filhos, três dos quais morreram. Mary morreu pouco depois de nascer, em 16 de outubro de 1842, e Darwin se refugiou em seus escritos sobre geologia vulcânica depois de enterrar o bebê. O pior golpe de sua vida viria quando sua segunda filha, Anne, morreu aos 10 anos em decorrência de febre, depois de uma longa agonia numa casa de curas, sem que os médicos pudessem fazer nada. Tim Berra resume-o de forma dramática: “Charles esteve cada minuto com ela”.

Darwin escrevia constantemente à sua mulher, Emma, que estava grávida de sete meses e não pôde se deslocar. “O correio naqueles dias era muito eficaz, e às vezes havia duas coletas de cartas por dia. Quando escrevia às segundas-feiras, costumava ter a resposta dela nas quartas-feiras, e às vezes já nas terças-feiras à noite”. Todas estas cartas foram conservadas e, para Berra, refletem a força que sustentava o casamento, a dimensão humana de Darwin. “Foi um pai devotado, terrivelmente familiar, muito diferente do tipo de pai entrevado e inflexível da época vitoriana”.

Darwin era um homem de sua época, mas também alguém que estava à frente do seu tempo: religioso no começo, deixaria a Bíblia de lado: o argumento de que a Terra e as criaturas foram criadas em seis dias era incompatível com os fatos e com o seu trabalho. Para Berra, a morte de sua filha Anne “acabou com qualquer resquício de cristandade em Darwin. Não podia racionalizar o fato de que uma criatura inocente sofresse tanto tempo pelo fato de que fosse a vontade de Deus”.

Essa incompatibilidade não afetou o seu casamento. Foi um crisol no qual conviveram ciência e religião. Sua mulher, Emma, acreditava na Bíblia e era uma cristã sólida. “Escreveu uma carta em que odiava a idéia de que, por culpa de seus pensamentos científicos, não pudessem estar os dois juntos na eternidade”, disse Berra. Entretanto, como assinala a escritora Deborah Heiligman, Emma continuou mantendo suas crenças cristãs, mas se tornou mais tolerante com as idéias de seu marido. Sua convivência foi muito estreita, a ponto de, em 1876, uma carta de Darwin refletir que jogava gamão com a sua esposa cada noite, e anotava os resultados: “Ela ganhou em 2.490 ocasiões, enquanto eu ganhei, hurra!, hurra!, 2.795 vezes”.

A mente analítica de Darwin saiu dos moldes conservadores antes de alcançar os 30 anos. Ainda que em 1807 o Parlamento britânico tenha assinado a legislação que proibia a escravidão, Berra recorda um episódio de Darwin com o capitão do Beagle, Robert Fitz Roy. Numa plantação em que trabalhavam escravos no Brasil, o jovem naturalista comentou quão espantoso seria viver nessas condições. Fitz Roy, que era favorável à escravidão, chamou um trabalhador e lhe perguntou se se sentia feliz sob o jugo de seu dono, ao que respondeu afirmativamente. Darwin perguntou então ao capitão: “Como pode acreditar na resposta de um escravo na presença do seu capataz?”. A resposta aborreceu tanto a Fitz Roy, que proibiria Darwin de jantar com ele no barco, como era costume.

Outro aspecto menos conhecido de Darwin foi seu contato com a língua espanhola. A viagem do Beagle duraria quase cinco anos, mas, na realidade, sua permanência no barco foi de apenas 18 meses. O resto do tempo passou fundamentalmente em países e regiões onde se falava espanhol. “Esteve durante semanas e meses na América do Sul, convivendo com pessoas que falavam o espanhol. Toda a informação que recolhia sobre as montanhas e os animais era nesse idioma”, disse Van Wyhe. “Em seu caderno anotou os nomes de muitos lugares e de aves, em espanhol. E também escrevia suas perguntas colocando o sinal de interrogação antes da frase e no final”.

Em outubro de 1844, o jornalista Robert Chambers publicou um livro anônimo intitulado Vestígios da história natural da criação (Vestiges of the natural history of creation, em inglês), no qual se argumentava que as espécies estavam se transformando permanentemente. A obra, para estupor de Darwin, levava em consideração as teorias de seu amigo e geólogo Charles Lyell, que postulavam que a Terra era dinâmica e mudava com o tempo. Causou uma reação muito notável no público, ainda que as descrições geológicas e zoológicas fossem muito pobres. O livro, no entanto, era incapaz de propor um mecanismo para esta transformação como era a seleção natural.

Darwin seguiu o seu caminho, escrevendo suas notas e aperfeiçoando sua teoria. Quatorze anos depois, recebeu uma carta de um jovem naturalista chamado Alfred Russell Wallace, que havia viajado por todo o mundo recolhendo espécimes e chegado a uma conclusão semelhante à de Darwin. A lenda diz que a carta de Wallace foi o empurrão que faltava para que Darwin decidisse publicar o seu livro um ano depois. Mas o certo é que em 1858 ambos assinaram dois trabalhos que foram apresentados na Sociedade Linneana de Londres, com uma introdução de Charles Lyell na qual afirmava que estes dois cavalheiros haviam chegado de forma independente à mesma e engenhosa teoria.

Mesmo que haja diferenças entre Darwin e Wallace, conclui John van Dyhe. “Wallace pensava mais em grupos de organismos, e Darwin o fazia com indivíduos. Wallace não aceitou que as plantas e os animais domesticados pelo homem fossem um exemplo paralelo da evolução na natureza. E nos últimos anos, Wallace pensou que os seres humanos tinham algo sobrenatural que os fazia tão especiais, algo do que Darwin não pôde encontrar nenhuma evidência”.

Para ler mais:


IX Simpósio Internacional IHU Ecos de Darwin

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