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Documento de Aparecida faz a Teologia da Libertação "voltar ao fundamento’, afirma Clodovis Boff

“O Documento de Aparecida recapitula e leva à maturidade toda a caminhada da nossa Igreja latino-americana e caribenha. É uma ‘surpresa do Espírito’ (nada fazia prever este resultado magnífico), um ‘milagre de Nossa Senhora Aparecida’ (que, a pedido do Papa, assumiu para valer a direção dos trabalhos) assim como um ‘dom do Pai das luzes’ em favor das nossas igrejas. Esse Documento faz honra ao episcopado do nosso Continente”. A entusiasmada avaliação é de Clodovis Boff, teólogo, no artigo “Teologia da Libertação e volta ao fundamento”, publicado pela Revista Eclesiástica BrasileiraREB, no. 268, 2007.

Na avaliação de Clodovis Boff, faltou à Teologia da Libertação, a “realmente existente, a que tem atrás de si quarenta anos de caminhada e cuja evolução já deixa ver traços exigindo crítica e retificação”, consistência epistemológica. Mais: segundo o teólogo, “por falta de uma epistemologia rigorosa e clara, a Teologia da Libertação labora em ambigüidades; laborando em ambigüidades, cai no erro de princípio. E do erro de princípio só podem provir efeitos funestos”.

Mas qual é o erro epistemológico? Para Clodovis Boff, é a “opção pelos pobres”. Segundo ele, “a prioridade do pobre e de sua libertação se tornou na Teologia da Libertação um pressuposto quase que ‘evidente por si mesmo’. Aí está posto sem problemas. Contudo, está posto de modo teoricamente indeciso e confuso, permitindo ambigüidades, equívocos e reduções”. Este princípio epistemológico particular, “gera confusão tanto na teoria como na prática”, a tal ponto que “a própria linguagem ‘liberacionista’ é sem rigor”.

E o teólogo brasileiro cita Jon Sobrino, que “fala dos pobres como instância que dá a ‘direção fundamental’ à fé e como  sendo seu ‘lugar mais decisivo’” Para Clodovis, Sobrino joga os dois qualificativos “fundamental’ e ‘decisivo’ “de modo descuidado”. E o teólogo, apoiando a `notificação romana`, questionando certos pontos da cristologia de Sobrino, afirma que ela é ‘pertinente’, pois “não cabem, em absoluto, aos pobres, mas sim à “fé apostólica transmitida pela Igreja”, o fundamento e o princípio da teologia.

Afirmar que os pobres são o “princípio” e/ou o “fundamento” leva à inversão do primado epistemológico. “Não é mais Deus, mas o pobre, o primeiro princípio operativo da teologia. Mas, uma inversão dessas é um erro de prioridade; por outras, é um erro de princípio e, por isso, de perspectiva. E isso é grave, para não dizer fatal”, escreve Clodovis Boff. Desta maneira, a Teologia da Libertação “necessita de  uma oportuna pulverização crítico-epistemológica e, mais ainda, de adubar as suas raízes”.

A Teologia da Libertação cedeu ao espírito da Modernidade

A concentração da Teologia da Libertação na questão da pobreza e de sua superação é, segundo Clodovis Boff, “o tributo que ela paga, de modo, aliás, bastante ingênuo, à decantada Modernidade e à sua glorificada “revolução copernicana”. De fato, a Modernidade pôs o homem no centro, em lugar de Deus”.

No catolicismo, afirma o teólogo, “a ‘modernização’ teológica veio, primeiro, com o movimento ‘modernista’, reprimido com a Pascendi de Pio X, e depois, sob o nome de ‘virada antropológica’, com Rahner e sua ‘teologia transcendental’ que teve seus êxitos, mas frente à qual grandes teólogos, como De Lubac, Von Balthasar e Ratzinger, mantiveram uma distância suspeitosa. Foi assim que a teologia se ‘modernizou’, antropologizando-se: o homem como o sol, e Deus, seu satélite”.

Uma das conseqüências graves desse processo, segundo Clodovis Boff, é a ‘onguização’ da Igreja, ou seja, “a ‘pastoral da libertação’ se torna um braço a mais do ‘movimento popular’. E a Igreja se esvazia, “mesmo fisicamente: perde agentes, militantes e fiéis”.

Enfim, uma “Teologia da Libertação que ‘consome’ fé cristã sobretudo para a libertação, se arrisca de ‘consumir’ essa fé e também a si mesma. A ‘libertação’ pode devorar a ‘teologia’”.

Depois de uma análise entusiasmada e extremamente positiva do Documento de Aparecida, Clodovis Boff aposta que a Teologia da Libertação, grosso modo, “está agora se encaminhando na direção certa”.

O Documento de Aparecida, cujas características, segundo o teólogo, são a leveza, a clareza, a positividade, o estímulo e a serenidade, reassume a “opção preferencial pelos pobres” na perspectiva da fé-encontro. ‘O Documento não se detém nas dificuldades e crises de nosso tempo, nem na complexidade da sociedade atual”, escreve o teólogo, mas “aposta, antes, no Cristo vivo, presente na Igreja, com sua inspiração e sua força. Poderíamos dizer: os bispos ‘põem fé na Fé’”.

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