"O martírio dos jesuítas e das mulheres de El Salvador é um martírio classicamente do século XIX. Desencadeia-se no pó e na imundície de sociedades dilaceradas, no pó e na imundície de uma Igreja onde o reconhecimento desta visitação é expresso ou negado entre mil astúcias".
Essa é a opinião de Alberto Melloni, historiador italiano e professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia, publicada no jornal Corriere della Sera, 16-12-2009. A tradução é de Benno Dischinger.
Eis o texto.
Quando recebeu a notícia, padre Arrupe não era mais o geral da Companhia de Jesus. Ele se demitira após o íctus de 1981 e João Paulo aceitara sua demissão dois anos após. Estava acamado e mudo, quando aos 16 de novembro de 1989 foram dizer-lhe que na Universidade católica de San Salvador tinham sido assassinados seis jesuítas, entre os quais o reitor, e duas serventes. Estava mudo, Arrupe, e só pôde chorar. Não sabemos se lhe deram os detalhes da matança.
Há poucos dias, a Frente Revolucionária desencadeara uma ofensiva nos subúrbios da capital e um dos grupos militares adestrados pelos "conselheiros" estadunidenses decidiu de imediato liquidar o reitor da Católica, o Padre Ignacio Ellacuría. Figura emblemática da Companhia naquela época, Ellacuría fora aluno de Rahner e utilizara o rigor do filósofo na construção teórica de uma teologia política latinoamericana. Como reitor, fizera do ateneu salvadorenho, num período incubador da cultura privilegiadora das famílias latifundiárias, um centro de análise política e de pesquisa teológica o mais avançado. Principalmente após o episcopado de Dom Oscar Arnulfo Romero e seu assassínio em 1980 por mãos de um fuzileiro coberto pelo governo dos Estados Unidos, Ellacuría radicalizara sua posição e aceitara – não o fazia sequer a Populorum progressio de Paulo VI, hoje justamente celebrada – de mirar nos olhos as duas administrações de Nixon e Reagan: a reação violenta à violência estrutural dos regimes é sempre moralmente ilícita? E a expropriação de humanidade produzida pela procurada miséria é ato intrinsecamente mau ou safadeza pela qual responde cada um?
Por isso, Ellacuría não se tornou guerrilheiro nem ideólogo da guerrilha: mas, suas análises sutis – das quais oferece uma amostra de segunda mão Emanuele Maspoli em Ignacio Ellacuría e os mártires de San Salvador (San Paolo, pp. 170 e 13) – não agradam a muitos. Não a Roma, onde até Romero fora rapidamente catalogado como um "comunista" inspirado pelos jesuítas, cometendo dois erros dos quais Wojtyla fez pública retificação sobre a tumba do bispo mártir em 1983. Nem à Frente de libertação nacional, que não aceita sua idéia de dialogar com o presidente do partido Arena, Alfredo Cristiani, no momento em que um vislumbre de paz parece possível. Também não à classe militar, adestrada e excitada ao sangue por agentes estadunidenses encarregados de fazer uma ativa política de containment anti-soviético, especulando pela queda ao preço da vida.
Assim, no momento em que, em meados de novembro de 1989, o governo sofre na capital uma bofetada militar sem precedentes, a decisão de liquidar Ellacuría é automática. Como represália esperada, uma ocasião a não esbanjar, como foram esbanjadas outras. É o momento de fazer "pagar o preço" (como Teresa Whitefield intitulou sua reconstrução do massacre, escrita em 1995, após os trabalhos da comissão Moakley do Congresso EUA e após o inquérito da comissão internacional Betancourt-Figueredo-Bürgenthal). Assume a tarefa o coronel Benavides que, com a tropa do batalhão Atlacatl: bloqueia a universidade, finge uma inspeção para tomar ciência dos lugares e, finalmente, aos 16 de novembro, irrompe na casa dos jesuítas. Encontra cinco: o reitor, Ignacio Ellacuría e seus colegas Segundo Montes, Ignacio Martín-Baró, Amando López e Juan Ramón Moreno. Conduzem-nos para fora de casa, ao jardim. Prostrados com a face por terra, um soldado, Oscar Amaya Grimaldi (armado com um AK47, um fuzil doado à guerrilha com o fim de despistar indagações) começa a disparar nos primeiros três. O sargento Vargas mata os outros dois. Num edifício contíguo está o padre Joaquin López y López. Ouve os disparos e chega a uma porta: é deitado junto aos outros e assassinado. A cozinheira da casa, Julia Elba e sua filha Celina de quinze anos, testemunhas do morticínio, são surpreendidas e conduzidas ao prado: se abraçam enquanto o soldado Ascenscio as elimina. Falta somente um dos membros da comunidade, Jon Sobrino, em viagem para participar de uma convenção teológica; salvar-se-á dos tiros de fuzil, mas não das suspeitas romanas que o atingirão em 2007 com uma "notificação" emitida num procedimento de urgência, para estigmatizar as "conclusões não conformes com a fé da Igreja em pontos cruciais, como a divindade de Jesus Cristo, a encarnação do Filho de Deus", encontradas numa obra sua dos anos noventa, que relia o dado da fé a partir das vítimas.
Se o século XX é O século do martírio – como o intitula a grande pesquisa de Andrea Riccardi, que voltou às livrarias em nova edição Mondadori – este, dos jesuítas e das mulheres de El Salvador, é um martírio classicamente do século XIX. Desencadeia-se não dentro da rarefação teatral dos Acta do século III, mas no pó e na imundície de sociedades dilaceradas, no pó e na imundície de uma Igreja onde o reconhecimento desta visitação é expresso ou negado entre mil astúcias. Talvez também chorasse sobre esta o olhar de longo alcance do padre Arrupe.

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