A Vida Religiosa Consagrada no mundo (pós) pandêmico: a missão de profetizar esperança!

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19 Abril 2021

Ao participar da Live sobre o tema "A Vida Religiosa Consagrada no mundo (pós)pandêmico. Presença solidária onde a Vida clama" realizada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, Ir. Irmã Márian Ambrosio sdp enfatizou a missão de "profetizar a esperança". No texto a seguir, com o conteúdo de sua conferência, ela escreve: "propus-me a sublinhar um traço específico da Vida Religiosa Consagrada que perpassa, como sopro luminoso ou brisa refrescante, todos estes elementos de nossa vida e missão, aqui e agora: a exigência carismática de sermos testemunhas proféticas da esperança, hoje e amanhã, entre a pandemia e a pós pandemia."

 

 

Márian Ambrosio é irmã religiosa da Congregação Irmãs da Divina Providência. Foi presidente da Conferência dos Religiosos do Brasil - CRB, trabalhou na assessoria da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB e foi Superiora Geral da sua Congregação. Recentemente foi nomeada pelo Papa Francisco como consultora da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e das Sociedades de Vida Apostólica.

 

Eis o texto.

 

Partilho aqui a minha já longa experiência como Religiosa e meu ato de fé no Deus que nos convoca sempre de novo para sermos SINAIS de seu amor. Sublinho nesta reflexão um aspecto que considero essencial na missão da Vida Religiosa Consagrada hoje:

A missão de profetizar esperança!

Recordo que, ao perscrutarmos atentamente as “questões que interpelam a Vida Religiosa Consagrada”, reconhecemos que existem:

  • Questões fundamentais, “de fundo”, que renovamos desde o princípio: identidade e significado – quem somos e o que significamos para o mundo de hoje.
  • Questões recorrentes, “de sempre”, aquelas que teimam em persistir: obras e serviços, formação, pastoral vocacional.
  • Questões de “hoje”, que estão à flor de nossa pele: o enfrentamento solidário frente às consequências da pandemia, ocupa lugar de urgência.

Mas estaremos sendo ingênuas/os se relativizarmos outras questões que nos interpelam hoje:

a) Como pessoas consagradas, como a Igreja e como a sociedade, estamos dando um passo em “saída sinodal” à frente, e dando um passo de retorno às seguranças do passado;

b) Pouco atentas/os aos sinais dos tempos, estamos nos demorando a atualizar processos iniciados pelo Concílio Vaticano II: releitura e atualização dos Carismas fundacionais, dimensão profético-escatológica dos votos religiosos, dimensão testemunhal da vida em comunidade religiosa, o “lugar” da Vida Religiosa Consagrada na Igreja, entre outros .

Provocada por esta brevíssima e superficial pontuação, propus-me a sublinhar um traço específico da Vida Religiosa Consagrada que perpassa, como sopro luminoso ou brisa refrescante, todos estes elementos de nossa vida e missão, aqui e agora: a exigência carismática de sermos testemunhas proféticas da esperança, hoje e amanhã, entre a pandemia e a pós pandemia.

Muitíssimos Institutos, principalmente de Vida Religiosa se perguntam, nós perguntamos, se existe uma esperança de amanhã (futuro) para nós. Renovemos a consciência de que esta questão não é a mais significativa. Fundamental é nos perguntarmos quais os sinais de amanhã (futuro) que estão já presentes hoje em nossos Institutos e na Igreja que os reconhece.

Sobre esperança

Comecemos com uma frase de Deus, através de Jeremias (a boca de Deus): “Pois virão dias em que mudarei a sorte do meu povo. Farei com que voltem e que tomem posse de sua própria vida” (Jer 30,3); “Segure os soluços e enxugue as lágrimas, porque há uma recompensa para a tua dor, existe uma esperança para teu futuro” (Jer 31,17).

 

Primeira conclusão importante

 

A esperança de um futuro E X I S T E. Não compete a mim, a nós, inventá-la, produzi-la, explicá-la. A esperança é uma virtude teologal que Deus derrama sobre as pessoas de fé. Ela é uma qualificação da Vida Religiosa Consagrada, simplesmente porque somos testemunhais em nossa identidade – existimos para ser SINAL. Nós nos vestimos de esperança, nós espalhamos esperança, nós semeamos esperança, nós a testemunhamos.

O Papa Francisco, porém, explicita algo mais, de modo muito belo, que nos atinge em nosso afeto e em nossas relações: “Abraçar o futuro com esperança!” (Carta apostólica do Papa Francisco às pessoas consagradas para proclamação do Ano da Vida Consagrada, 21.11.2014). Com uma frase tão curta, Papa Francisco estabelece a unidade entre nossas três palavras-chave: Vida Consagrada - esperança - futuro. O dia de amanhã (pós pandemia) será por nós A B R A Ç A D O. Como? Para abraçar, entramos em processo. Não se abraça de qualquer jeito ou qualquer pessoa ou coisa...

 

Segunda conclusão importante

Para abraçar...

a) É preciso estar de pé. Levantemo-nos, Vida Religiosa! Saiamos de nosso conforto. “De pé! Vamos até Sião, à procura do SENHOR, nosso Deus!” (Jer 31,6).

b) É preciso discernir a quem (quais pessoas) ou o que (qual causa) decidimos abraçar. A (pós) pandemia nos confronta com pessoas assoladas pelas incontáveis formas da dor. Recorda teu carisma, Vida Religiosa! Recordemos nossas opções fundamentais. “O espírito do Senhor está sobre mim; porque o SENHOR me ungiu para...” (Is 61,1).

c) É preciso abrir os braços. Abre teus braços, Vida Religiosa! Libertemo-nos de pesos supérfluos que continuamos a reter. Abre também tuas mãos! Enchamo-nos de esperança, de gratuidade.

Bendita/o quem confia no SENHOR, o SENHOR mesmo será sua segurança. Será como árvore plantada à beira d’água, que deita raízes rumo ao rio. Suas folhas estão sempre verdejantes, nem se preocupa com um ano de seca, e nunca deixa de produzir o seu fruto" (Jer 17,7-8).

d) É preciso sair ao encontro de... Saiamos, Vida Religiosa! Acordemos a aurora, ultrapassemos fronteiras! Abracemos o futuro com esperança! “A esperança, com efeito, é para nós como uma âncora, segura e firme. Ela penetra até além da cortina do Santuário, no qual Jesus entrou por nós, como precursor” (Hb 6,19-20a).

E hoje, ainda em tempo de violenta e agressiva pandemia, tempo de cuidado, o que nos desafia?

Voltemos ao professor preferido para esta reflexão: Jeremias, ainda no contexto do retorno do povo ao abraço de Deus: “Põe marcos de estrada, finca estacas para te orientar, presta atenção em tua estrada, no caminho por onde passas. Volta, virgem Israel! Volta para as realidades que são tuas!” (Jer 31,21).

 

Terceira conclusão

Hoje, em plena pandemia, somos desafiadas a fincar uma estaca. Buscar, ouvir, refletir muito, rezar... a nível pessoal e comunitário, provincial e congregacional, presencial e/ou online.

Qual é a primeira estaca que fará a diferença em nosso abraço-esperança na pós pandemia? Busquemos novamente um texto da Palavra de Deus. “Pois até uma árvore tem esperança: mesmo que a cortem, tornará a brotar, e não lhe faltarão os ramos. Se a sua raiz envelhecer (apodrecer) na terra ... ao cheiro da água rebrotará e produzirá folhagem como planta nova”. (Jó 14, 7-9).

É possível isso? Água não tem cheiro... Ou será que tem?

Ao testemunharmos de forma coerente nossa vocação, as pessoas sentem, sim, o cheiro (o perfume) do Carisma que irradiamos, o perfume das orações que se espalham como incenso, o cheiro de nosso suor no cumprimento de da missão cotidiana.

Esta água tem cheiro, sim! Onde a encontraremos? Como a encontraremos?

Nós definimos a Vida Religiosa Consagrada como seguimento radical de Jesus (radical = raiz). Esta é, seguramente, nossa primeira estaca... VOLTAR À RAIZ VOCACIONAL, AO SEGUIMENTO RADICAL DE JESUS.

Raízes não constroem, raízes cavam. Vamos então cavando, aprofundando nosso discipulado radical de Jesus, até o contato direto com a água que derrama a esperança geradora de vida. Revestidas desta esperança, saiamos em resposta à vida que clama.

 

Quarta conclusão

Talvez tenhamos construído muito e cavado pouco... Com certeza, é este o apelo de Deus a nós hoje... Firmar uma estaca seguindo o caminho da raiz até encontrar a água, cujo cheiro renova-nos vocacionalmente. O lugar certo para este cultivo é a Palavra de Deus, diálogo permanente com o Deus vivo, Deus da vida, que ouve, que se comunica.

Aprendamos com Jó, o homem símbolo que experimentou as dores do flagelo. No capítulo anterior à provocadora inspiração para a raiz apodrecida que ressurge no contato com o cheiro da água, encontra-se o testemunho de Jó em sua relação com Deus. Ele eleva sua voz, assim: “Apenas duas coisas não me faças, ó Deus, e então não me esconderei da tua presença: afasta de mim a tua mão, e não me amedronte o teu terror. Interpela-me, e eu te responderei, ou deixa-me falar, e tu me responderás” (Jó 13, 21-22). Que força encontramos nestas duas súplicas: que Deus dê uma pausa ao sofrimento, e que Deus acolha nosso insistente pedido por diálogo.

 

Sobre profecia

Para concluir o pensamento sobre esta renovada opção vocacional de testemunharmos a esperança em nosso abraço com o futuro, ouçamos novamente Papa Francisco: “A nota que caracteriza a Vida Consagrada é a profecia” (Carta apostólica do Papa Francisco às pessoas consagradas para a proclamação do Ano da Vida Consagrada, 21.11.2014).

Sublinhamos que as profetizas e os profetas da Sagrada Escritura pedem ao povo que entenda o presente de forma orientada para o futuro, em atitude de quem perscruta o futuro. Elas e eles gritavam para que o povo mudasse de rumo, que agisse em vista do futuro. As profecias bíblicas insistem em repetir a expressão “coisas novas”, „algo de novo“, „novo céu“, „nova era“, „coração novo“, „novo espírito“, „nova terra“, uma „nova Jerusalém“.

A profecia é sempre portadora de esperança.

Se necessário, gritemos também nós. Mas, acima de tudo, testemunhemos o rosto do Deus Vivo, Deus da Vida, que é fonte de água viva, que nos presenteia esta água à qual estamos dando o nome de E S P E R A N Ç A P R O F É T I C A.

Empenhemo-nos em corrigir a visão de Deus distorcida por muitas pessoas durante a pandemia: um Deus que castiga o mundo, que envia pandemias como punição.

Anunciemos Deus Pai, amigo da vida (que cria e cuida) que enviou e envia seu Filho único para a vida do mundo. Que envia seu Espírito para renovar a face da terra.

“Entretanto, de todos tens compaixão porque tudo podes, e fechas os olhos aos pecados dos mortais, para que se arrependam. Sim, amas tudo o que existe e não desprezas nada do que fizeste; porque, se odiasses alguma coisa, não a terias criado. Da mesma forma, como poderia alguma coisa subsistir, se não a tivesses querido? Ou como poderia ser mantida na existência, se por ti não tivesse sido chamada? A todos, porém, tratas com bondade, porque tudo é teu, Senhor, amigo da vida”! (Sab 11, 23-26).

Cumpramos nossa missão com a estratégia do Reino: a partir de dentro das pessoas (a partir do coração) e a partir de baixo na sociedade (a partir dos empobrecidos, excluídos e vulneráveis). Ou seja, na contramão dos poderes políticos, mercantis e midiáticos que dominam e manipulam nosso continente.

Abracemos o amanhã, testemunhando profeticamente a esperança!

 

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