Instrução vaticana dá a paroquianos mais esperança diante do fechamento de paróquias

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07 Agosto 2020

"Um novo documento do Vaticano sobre o acompanhamento pastoral levanta a dúvida sobre se os paroquianos ganharam novos recursos jurídicos na Igreja para que mantenham suas paróquias abertas. A resposta parece ser afirmativa. O documento de 22 páginas da Congregação para o Clero, lançado em 20-07-2020, intitula-se “A conversão pastoral da comunidade paroquial a serviço da missão evangelizadora da Igreja”, escreve Mark Nacinovich, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 06-08-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Mark Nacinovich, escritor de Nova York, foi editor administrativo do jornal católico Brooklyn Tablet. Também trabalhou para as publicações Catholic New York e New York Post. Possui pós-graduação pela Universidade de Chicago.

Eis o artigo.

Arthur McCaffrey lutou por aproximadamente uma década para manter aberta sua paróquia, localizada na região de Boston. Mas, em 2015, a Igreja de São Tiago Maior, em Wellesley, foi demolida. O local agora abriga o Centro de Esportes de Boston, grande complexo recreativo completo, com pista de hóquei, piscina e campo coberto.

Essa igreja era uma das nove da área de Boston que mantiveram uma vigília constante com vistas a impedir que suas paróquias fossem fechadas pela arquidiocese na esteira da crise de abuso sexual trazida à luz em 2002 pelo jornal The Boston Globe. Os paroquianos ocuparam as igrejas por anos, 24 horas por dia, sete dias por semana, 365 dias por ano.

A Igreja de Santa Francisca Xavier Cabrini, em Scituate, foi a última a realizar este tipo de vigília. Ela fechou as portas em 2016, depois de paroquianos passarem quase 12 anos em vigília e depois de se esgotarem os recursos legais junto ao Vaticano e aos tribunais civis. O caso civil chegou à Suprema Corte, que se recusou a ouvir o caso, mantendo uma decisão de primeira instância que afirmava que a arquidiocese era a proprietária da igreja e os paroquianos que a ocupavam estavam, por outro lado, invadindo a propriedade.

Agora, quatro anos depois, um novo documento do Vaticano sobre o acompanhamento pastoral levanta a dúvida sobre se os paroquianos ganharam novos recursos jurídicos na Igreja para que mantenham suas paróquias abertas. A resposta parece ser afirmativa.

O documento de 22 páginas da Congregação para o Clero, lançado em 20-07-2020, intitula-se “A conversão pastoral da comunidade paroquial a serviço da missão evangelizadora da Igreja”. Ele discute o papel e a estrutura das paróquias na atualidade, onde o conceito de uma paróquia fixa a cobrir uma determinada região pode estar desatualizado. Um tópico que o documento aborda é o fechamento das paróquias.

“É uma instrução e, por definição, instruções não são leis”, diz Robert Flummerfelt, canonista de Las Vegas. “Estes documentos são informações sobre como aplicar a lei”.

Flummerfelt disse também ter gostado do que leu no texto vaticano porque aí se explicam as razões pelas quais um bispo não pode fechar uma paróquia, a saber, “a falta de padres, o declínio demográfico ou o grave estado financeiro da diocese”.

Essas foram as razões que o cardeal-arcebispo de Boston, Sean O’Malley, apresentou em 2004 ao anunciar um plano de reconfiguração arquidiocesano, que pedia o fechamento de 65 das 357 paróquias da arquidiocese.

O novo documento vaticano declara que os problemas financeiros de uma diocese, a falta de padres e o declínio no número de fiéis podem ser “condições da comunidade presumidamente reversíveis em pouco tempo”.

“Grande parte do texto fala de dinheiro”, afirma Flummerfelt. “É a viabilidade financeira, em um nível prático, o que preocupa”.

O canonista acrescenta também que a falta de dinheiro foi a questão central dos últimos quatro casos de encerramento de paróquias em que ele trabalhou.

Mas agora, com essa instrução de Roma, os paroquianos contam com uma proteção extra que pode impedir que uma paróquia seja fechada ou até mesmo que seja considerada para fechamento, disse ele.

O documento afirma que o bispo deve emitir um decreto em separado para cada paróquia que ele decidir fechar. Um decreto mesmo não poderá cobrir várias paróquias a serem fechadas. Além disso, a instrução estipula que o bispo deve ser claro e específico sobre as razões para o fechamento de uma paróquia.

Os bispos terão que ter mais cautela, segundo Flummerfelt.

O Pe. Jeffrey Fleming, moderador da cúria da Diocese de Helena, no estado americano de Montana, disse que, com essa nova instrução, os bispos deverão apresentar razões de longo prazo para justificar por que uma paróquia não é viável e deve ser fechada.

Mesmo assim, os problemas financeiros podem apresentar crises existenciais, e Fleming percebe que a diocese onde atua poderá passar uma situação que é mais comum no nordeste e no centro-oeste americano: o declínio no número de fiéis e nas finanças que levam o bispo a fechar as portas de uma paróquia.

Fleming aponta para o exemplo de Butte, em Montana, que já foi uma movimentada cidade em torno da atividade de mineração, com muitos imigrantes irlandeses. Hoje, esse setor reduziu de tamanho e a população católica envelheceu, caindo em termos numéricos. A cidade de cerca de 33 mil habitantes, grande para os padrões de Montana, tem quatro paróquias.

Na Arquidiocese de Boston, McCaffrey disse que os paroquianos levaram a O’Malley uma solução para as paróquias continuassem abertas: deixar os paroquianos administrarem as paróquias e permitir que menos padres atuem em mais paróquias, da mesma forma que um quartel do corpo de bombeiros pode servir a vários bairros. Segundo McCaffrey, O’Malley adotou o modelo proposto, mas o rejeitou na época em que os paroquianos da Igreja de São Tiago Maior e outros o apresentaram.

O Pe. Paul Soper, secretário de evangelização e discipulado e diretor de planejamento pastoral da Arquidiocese de Boston, disse que, em 2004, a arquidiocese não tinha pessoal suficiente para servir todas as paróquias. Ele observou: “No novo documento do Vaticano nada há dizendo se tratar de um documento retroativo”.

O padre acrescentou que, em 2011, a arquidiocese embarcou em um plano de 11 anos de duração que incluía ter um pastor para várias paróquias. Esse plano não seria possível, disse ele, se não tivesse ocorrido uma reestruturação, porque, sem o fechamento de paróquias, a arquidiocese teria enfrentado uma situação de emergência e não poderia ter adotado a abordagem gradual do plano de 11 anos.

O novo documento emitido pelo Vaticano sugere que as paróquias encontrem maneiras de manter as igrejas abertas, por exemplo, tendo um agrupamento de paróquias em uma única área, e delineia situações em que um padre pode ficar responsável por esse agrupamento.

O cenário de cobrir múltiplas paróquias com um único padre já é conhecido na Diocese de Helena, que cobre o terço ocidental de Montana, ou seja, uma área de 83 mil quilômetros quadrados, quase do tamanho de todo o estado de Nova York.

Ainda de acordo com Fleming, a diocese tem 57 paróquias, 38 igrejas de missão e 79 padres, incluindo padres aposentados. Muitas vezes estes padres precisam percorrer grandes distâncias para garantir que seja celebrada uma missa por semana nestas comunidades paroquiais ou de missão.

O próprio Fleming mora em Helena, onde fica a sede diocesana, e todos os domingos precisa viajar 310 quilômetros, ida e volta, para rezar duas missas, uma na Paróquia de São Tomé Apóstolo, na zona rural de Helmville, 150 quilômetros a oeste de Helena, e uma outra na igreja de missão da São Tomé Apóstolo, a comunidade de São Judas Apóstolo, em Lincoln. Fleming é o administrador paroquial e disse que os leigos cuidam das igrejas durante a semana.

Antes, Fleming servia em quatro paróquias de Missoula, tarefa que incluía o trabalho de capelão católico da Universidade de Montana.

Sem morar no local, Fleming conta com a ajuda de leigos para cuidar das atividades cotidianas da paróquia e para que sejam os “olhos e ouvidos da paróquia”, de forma que ele tenha conhecimento do que acontece nela.

É isto, segundo o religioso, o que a nova instrução vaticana incentiva: uma grande participação de todos na vida paroquial, não apenas dos padres.

Para outros, no entanto, a nova instrução vaticana não vai longe o suficiente para entregar as rédeas de uma paróquia aos leigos.

O documento diz que um pastor pode ser o responsável de mais de uma paróquia somente quando for necessário. Uma alternativa é que um grupo de padres se responsabilize por mais de uma paróquia.

Quando a diocese enfrentar a escassez de padres, ela poderá nomear um padre para ser o administrador de uma paróquia, o que deve ser temporário, dizem as instruções.

Um leigo (ou leiga) pode ser nomeado administrador somente em circunstâncias “extraordinárias”, diz o documento, acrescentando que, em tais casos, é “preferível” um diácono a um leigo ou religioso ou religiosa consagrado/a.

“A interpretação que faço é que é mais do mesmo”, disse McCaffrey sobre as instruções. “O texto apresenta aquilo que eu chamo de uma política de recursos humanos adotada por grandes empresas, o que significa dizer: ‘Ei, o padre é quem manda, não se esqueçam. (…) Este documento mostra que o Vaticano está simplesmente reiterando, mais uma vez, uma política que já existe há algum tempo. Em resposta a pedidos recentes para que se entenda por que razão as paróquias estão sendo fechadas, eles agora reeditam esse documento”, acrescentou.

“No final das contas, é uma rejeição à ideia de haver mais leigos participando da administração das paróquias, no planejamento paroquial. A mensagem básica é: ‘O padre é o chefe, e vocês não conseguirão assumir algumas das funções dele”.

Porém, o Cardeal Beniamino Stella, prefeito da Congregação para o Clero, contou ao sítio Vatican Insider que o documento aponta que cada católico deve sentir que ele, ou ela, tem um papel e uma responsabilidade na missão evangelizadora da Igreja.

Por sua vez, Fleming afirmou que o documento destaca que os membros de uma paróquia são chamados a ser “testemunhos de Cristo, uma luz no mundo”.

“O Papa Francisco nos convida a sermos uma Igreja que olha para fora, não só para dentro da própria Igreja”, completou Fleming. “Trazer mais pessoas à mesa, especialmente os pobres e marginalizados”.

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