“Corresponderá à Conferência Eclesial da Amazônia a elaboração de um rito amazônico”. Entrevista com Víctor Codina

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16 Julho 2020

O padre jesuíta Víctor Codina insiste em destacar o efeito que está tendo o tratamento do tema da pandemia nos meios de comunicação massivos sobre outros temas anteriores a ela e afirma: “a atual pandemia eclipsou acontecimentos anteriores, como Sínodo da Amazônia, celebrado em Roma, em outubro de 2019. Agora só se fala da Amazônia dentro do capítulo das vítimas do coronavírus, com fotos como a de um menino yanomami que brinca com uma máscara”.

A entrevista é publicada por Religión Digital, 14-07-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis a entrevista.

 

Por que considera que a Conferência Eclesial da Amazônia é uma boa notícia?

Víctor Codina, s.j.
Foto: Religión Digital

A boa notícia é que se constituiu a Conferência Eclesial da Amazônia. É preciso explicá-la um pouco para compreender sua novidade e importância.

O Sínodo da Amazônia, cujo lema foi “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”, quis promover uma Igreja com rosto amazônico, uma Igreja que pudesse responder às necessidades e inquietudes dos povos amazônicos, buscar a melhor maneira de defender sua vida ameaçada e de anunciar o evangelho da salvação de forma inculturada, em diálogo com sua cultura, espiritualidade e identidade histórica, uma identidade que vai mais além das diferentes fronteiras políticas e geográfica dos povos.

No Documento Final do Sínodo pede-se uma Igreja samaritana, profética, missionária, defensora da vida em todas as suas dimensões, que busque novos caminhos de evangelização e de inserção pastoral (DF 107, 114).

Uma das propostas aprovadas do Documento Final foi a constituição de um Organismo Episcopal para a Região Amazônica (DF 115) que possa discernir e levar a cabo as decisões sinodais.

Esta Conferência Eclesial da Amazônia é consequência de um longo processo de aproximação, escuta do clamor dos povos e da terra, do sangue de muitos mártires e do testemunho de missionários, mulheres e leigos.

Qual é a novidade que esta Conferência Eclesial nos traz?

A novidade é que não se trata de uma Conferência Episcopal, mas sim de uma Conferência Eclesial Amazônica, em colaboração com o Celam (Conselho Episcopal Latino-americano), mas com autonomia própria.

Sob a presidência do cardeal Cláudio Hummes, fazem parte desta Conferência Eclesial não somente bispos representantes das 7 Conferências episcopais de países amazônicos, representantes da Repam (Rede Eclesial Amazônica) e da Cáritas, mas também membros leigos da Igreja da Amazônia: Liliana Franco, presidente da Clar (Conferência Latino-americana de Religiosas e Religiosos) em representação da vida consagrada e o que é mais significativo, três membros dos povos originários amazônicos: Patrícia Guallinga, a irmã Laura Vicuña e Delio Siticonatzi. A voz da periferia chega ao centro, como já ocorreu com o Sínodo.

Corresponderá à Conferência Eclesial Amazônica, um grupo eclesial misto, representativo e permanente, implementar as propostas aprovadas no Sínodo. Por exemplo, a elaboração de um rito amazônico, que leva em consideração não somente a inculturação litúrgica, mas também teológica e ministerial, como ocorre nos 23 ritos diferentes das Igrejas Católicas orientais (Documento Final 116-119, LG 23).

Como a Conferência Eclesial une a Igreja local à universal?

A importância desta Conferência Eclesial da Amazônia é um passo muito significativo, já que, por um lado, reafirma a realidade da Igreja local e, por outro, ultrapassa os limites das Conferências Episcopais e se abre a toda Igreja.

Para alguns especialistas (Carlos María Galli, José Antonio de Almeida, Mauricio López, etc.) não é um simples remendo a um vestido velho, mas sim um caminho novo na linha da sinodalidade eclesial e de novas formas de eclesialidade regional, em um clima de colaboração e comunhão eclesial de todo o Povo de Deus que no batismo recebeu o Espírito, é um kairós, um tempo de graça.

Como se concretiza a ideia de sinodalidade na Conferência Eclesial da Amazônia?

Sinodalidade significa uma Igreja em caminho conjunto rumo ao Reino, onde todos temos voz própria e nos escutamos, onde o que afeta a todos deve ser tratado por todos. A comunhão no Espírito é princípio permanente de vida sinodal. Francisco dá muita importância ao tema da sinodalidade eclesial: é o caminho que Deus espera da Igreja no terceiro milênio, aprofunda o tema da sinodalidade em Episcopalis communio e convocou o próximo Sínodo universal sobre a sinodalidade. Francisco fala de uma Igreja em saída, poliédrica, que seja uma pirâmide invertida, onde no topo esteja o Povo de Deus e abaixo os bispos e o Papa. Não deseja uma Igreja na qual as coisas sejam discernidas de forma autoritária e vertical, mas sim uma Igreja onde entre todos se discirna comunitariamente o caminho do que o Senhor nos pede hoje. A sinodalidade é o mais oposto ao clericalismo patriarcal ainda existente.

Essa nova Conferência Eclesial da Amazônia, em sua abertura à sinodalidade, é uma ação da teologia do Povo de Deus do Vaticano II, um Povo que recebeu a unção do Espírito no batismo e que possui o sentido da fé e da conaturalidade com os mistérios da vida cristã (LG 12). Por isso, é importante e significativo que para buscar os novos caminhos para a Igreja da Amazônia se consulte não somente bispos e clero, mas sim toda a Igreja, a vida religiosa, o laicato e muito concretamente aos e às indígenas originários do lugar, que são aqueles que melhor conhecem sua realidade e a quem, por serem pobres e humildes, o Pai revelou os mistérios do Reino. É preciso ser contemplativo da Palavra, porém também contemplativos do povo (Evangelii Gaudium 154).

Não sabemos se esta nova Conferência Eclesial Amazônica será uma experiência piloto e um banco de prova que poderá ser estendido a outras Igrejas, porém o que podemos sim afirmar é que é uma boa notícia, com sabor de Evangelho e Espírito, que sempre nos surpreende por sua constante criatividade divina (EG 11), e tudo renova, desde baixo, silenciosamente. Como os fios de água que lentamente formam os rios que afluem no grande Amazonas.

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