Schönstatt: sombras sobre o fundador

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15 Julho 2020

Após a denúncia da historiadora Alexandra von Teuffenbach sobre comportamentos incorretos do fundador do Movimento Apostólico de Schönstatt, Josef Kentenich (1885-1968), o bispo de Trier (Alemanha), responsável pelo processo diocesano de beatificação, decidiu em 7 de julho nomear uma nova comissão histórica (a anterior, formada em 1975, havia concluído seus trabalhos em 2007) para examinar os documentos disponibilizados desde a abertura do arquivo do Vaticano.

A reportagem é de Lorenzo Prezzi, publicada por Settimana News, 13-07-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

O processo diocesano que parecia concluído, está sendo reaberto com novos questionamentos. A porta-voz da diocese, Judith Rupp, enfatizou que se o novo material mostrar "que a integridade moral do candidato é incerta, então o processo de beatificação deveria ser suspenso".

Dos arquivos do Vaticano

Em um pequeno ensaio, publicado no jornal alemão Tagespost (1 de julho) e no blog de Sandro Magister (Settimo cielo), a historiadora Teuffenbach reconstrói a visita canônica que pe. S. Tromp (1889-1975) fez ao Movimento Apostólico de Schönstatt entre 1951 e 1953, após uma visita anterior do auxiliar de Trier, D. B. Stein, em fevereiro de 1949.

As dúvidas do segundo sobre a fragilidade pessoal de alguns responsáveis masculinos e femininos, como "insatisfação interior" demonstrada em particular pelas religiosas, são aprofundadas por pe. Tromp, professor da Universidade Gregoriana de Roma, em uma série de visitas ao longo de três anos. Além das questões do carisma, da estrutura do movimento e da maturidade de seus membros, o visitante evidencia o abuso de poder do fundador em relação às religiosas em especial. O pleno poder do fundador, seu ser "equiparado" a Deus, a aura de santidade construída ao seu redor era um terreno fértil para indevidas dependências e subalternidades internalizadas.

Teuffenbach, com base no relatório do pe. Tromp menciona, em particular, a obrigação de as freiras se confessarem com o fundador pelo menos em algumas circunstâncias, e o sistema de diálogo confessor-penitente com o qual se realizava: “’De quem é a filha?’; resposta ‘do pai’. ‘O que é a filha?’; resposta ‘nada’. ‘O que é o pai para a filha?’; resposta: ‘tudo’. ‘A quem pertencem os olhos?"; resposta ‘ao pai’. ‘A quem pertencem os ouvidos?’; resposta ‘ao pai’. "A quem pertence a boca?’; resposta: ‘ao pai’". Para algumas religiosas, a conversa continuava da seguinte forma: "’A quem pertence o seio?’; resposta ‘ao pai’; ‘A quem pertencem os órgãos sexuais?’; resposta ‘ao pai’”.

Sempre pe. Tromp lembra uma carta de uma freira alemã que, em 1948, denuncia o abuso sexual do fundador. Sua denúncia não tem consequências. A mesma pessoa confirma a história em um encontro posterior com pe. Tromp. Questionando a superiora geral sobre denúncias semelhantes por parte das religiosas, ela responde: seis-oito. Em 1951, um decreto do Santo Ofício afasta o pe. Kentenich de sua fundação, enviando-o para Milwaukee (Estados Unidos) em uma comunidade de palotinos (à qual o padre pertencia). Somente 14 anos depois, em outubro de 1965 - um ano antes do reconhecimento da plena autonomia do Movimento Apostólico - ele pôde retornar à Alemanha e retomar suas atividades, onde morreu em 15 de setembro de 1968.

Santidade a ser provada

Em uma ampla entrevista no site católico alemão Katholisch.de, a historiadora, acrescenta algumas notas. Segundo ela, os fatos já eram conhecidos pelo Movimento Apostólico desde 1951, mesmo que o decreto não o mencionasse por discrição e pelo interesse em salvar a obra positiva e preciosa da entidade. Para ela, não parece ter havido um documento de reabilitação em 1965. Ela acredita que a providência seja devida à idade da pessoa em questão e ao clima muito positivo do imediato pós-concílio.

Os documentos da visita canônica são extensos, orgânicos e verificados por várias pessoas. Os testemunhos das religiosas foram tomados com grande seriedade e precisão. Não são conhecidos os textos da primeira visita, a de D. Stein, provavelmente presente no arquivo do Movimento. Pede-se a publicação dos mesmos. Ela acrescenta: “Não sou inimiga de Schönstatt e nunca fui. Simplesmente não tolero que pessoas erradas sejam colocadas em um pedestal".

E indica na aceleração da causa da beatificação a razão de sua intervenção: não considerou certo se calar diante de um homem que era ao mesmo tempo tão "carismático e habilidoso" e tão "terrível".

Reações

A primeira reação de Schönstatt é muito dura. O superior geral J.P. Catoggio, em nome da presidência, escreve: "Rejeitamos firmemente a acusação de que J. Kentenich seja culpado de abusos sexuais contra membros do instituto, entre as Irmãs de Maria". Pelo contrário, seu comportamento "sempre foi caracterizado por uma acentuada reverência e estima", especialmente "em relação às mulheres". Todo o episódio de seu afastamento faz parte dos documentos apresentados para a beatificação e as opiniões expressas pelo pe. Tromp eram marginais.

Especialmente porque a memória de sua passagem no Movimento foi muito discutida pelo caráter e pelo tradicionalismo. Não pode ser ignorada a boa prova do pe. Kentenich nos 14 anos de exílio. Além disso, faz parte do processo romano o nihil obstat em relação aos materiais de arquivo produzidos. A primeira reação foi seguida por outras, muito mais cautelosas e possibilistas. Dom Francesco Pistilli, pertencente ao Movimento de Schönstatt e bispo de Encarnación (Paraguai), escreve: “Penso que nos será solicitada muita objetividade. Nosso fundador é posto à dura prova. Confiamos que ele passará no teste, mas ele deve ser capaz de se mostrar à altura, com imparcialidade. Estou convencido de que, por nossa parte, não se trata de se colocar na defensiva, mas apenas de sermos encorajados na luz... É tempo de entender e buscar respostas sem medo e sem a necessidade de desenhar um fundador perfeito”.

O padre D. Barata, superior na Espanha, admite que novos documentos podem iluminar melhor o tempo do exílio do fundador, mas já hoje “devemos pedir desculpas por não ter transmitido tudo o que sabíamos a todo o movimento. Nos faltou coragem”. "Nesta dor compartilhada, estamos convencidos de que acessar toda a verdade nos permitirá ter um conhecimento mais profundo do carisma de nosso fundador".

I. Serrano del Pozo, do Chile, enfatiza que a visita ao Vaticano e as disposições subsequentes sempre foram atribuídas à falta de compreensão eclesial do carisma de Schönstatt, em particular do princípio de paternidade da normatividade dos vínculos, sem esclarecer o significado dos "abusos" que nunca aparecem como o fator desencadeante para o exílio. E continua observando a função positiva de um reconhecimento recente do nascimento de Kentenich de uma mulher (Katharina Kentenich) não casada (aos oito anos, Josef foi levado para um orfanato).

Novas pesquisas também poderiam ser positivas. E a esse respeito, sugere a criação de uma "comissão de inquérito para tratar de forma objetiva o que aconteceu na visita canônica e as motivações do decreto disciplinar do Santo Ofício".

O Movimento Apostólico de Schönstatt

O Movimento Apostólico de Schönstatt, pouco conhecido na Itália, é considerado um movimento eclesial que envolve mais de 140.000 membros em 42 países ao redor do mundo (especialmente o norte da Europa, África e América Latina). A entidade é uma confederação de uma dúzia de várias comunidades e associações, de padres a leigos, de quem tem vida comum e de quem não tem, de ligas apostólicas (como aquelas das famílias) a institutos seculares e grupos de jovens. Tudo ligado pelo carisma de um fundador, por um vínculo particular com um santuário mariano, o de Schönstatt (replicado mais de 200 vezes em 33 países do mundo), por uma espiritualidade comum e pelo objetivo comum da evangelização.

(Foto: Schoenstatt.org)

"O objetivo do Movimento Apostólico de Schönstatt é a formação de um novo tipo de personalidade e de comunidade cristã que, na originalidade de sua própria experiência, contribua para a vitalidade e eficácia da Igreja, penetrando com o Espírito de Cristo a família, a profissão, o estado, a sociedade e querendo agir para uma nova ordem social para além do individualismo e do coletivismo" (E. Monnerjahn).

O primeiro núcleo juvenil é de 1914, mas as fundações se seguem há mais de uma década (ligas apostólicas, institutos seculares, Irmãs de Maria). A obra foi fortemente contestada pelo nacional-socialismo alemão e o próprio fundador conheceu o campo de concentração (Dachau). Imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, teve um grande desenvolvimento na África, América do Norte e América Latina.

As grandes referências de sua espiritualidade são a fé na providência divina, o pensamento da aliança e do contrato, a fé na missão. Providência significa a convicção da presença de Deus na história e a necessidade do crente de participar ativamente da construção do Reino de Deus, disponível a uma radicalidade que pode envolver o "salto da morte do coração, da vontade e da razão". Com o batismo, entra-se na "nova e eterna aliança", onde Maria desempenha um papel fundamental por seu consentimento à encarnação.

Por esse motivo, o ato de fundação de Schönstatt tem a forma da aliança entre a Virgem, o fundador e os primeiros membros em vista da missão. O trabalho nasce como um movimento de educação para a liberdade, o amor e a responsabilidade, os maiores possíveis. A pedagogia original alicerça-se sobre o ideal, os vínculos e a confidência: o vínculo que obriga, a liberdade no nível do amor, a confidência que o garante. Um seguimento de imitação de Cristo segundo o Evangelho, sem desprezo ou fuga do mundo, mas no mundo e em sua vida.

As novas informações históricas requerem mais estudos. “Sem véus - diz Mons. Pistilli - mas com objetividade. Eu gosto de pensar que podemos fazer isso. Deus é luz e nos chamou à luz”.

 

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