Na Conferência Eclesial da Amazônia, “o Espírito Santo quis inovar, e quis trazer um jeito sinodal de sermos Igreja”. Entrevista com Dom Neri Tondello

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08 Julho 2020

A Conferência Eclesial da Amazônia pode ser considerada como mais um passo de um caminho longo, vivido nos últimos anos no processo do Sínodo para a Amazônia, mas que tem suas raízes no Concilio Vaticano II. Nessa conferência se fazem presentes representantes dos episcopados da Pan-Amazônia. Um deles, representando os bispos brasileiros, é Dom Neri Tondello, bispo de JuínaMT.

A reportagem é de Luis Miguel Modino.

O bispo vê a a nova conferência como resposta do Sínodo, “um ponto de maturidade, um ponto de chegada, para darmos este passo e poder fazer com que a conferência, ela coloque em prática as conclusões do Sínodo”. Inclusive, ele afirma que “aqui o Espírito Santo quis inovar, e quis trazer um jeito sinodal de sermos Igreja”, onde não se exclui ninguém.

Segundo Dom Neri Tondello, se faz necessário incrementar o rosto amazônico da Igreja, para que “a Igreja se sinta de fato encarnada”. Ele, que gosta de participar em momentos de espiritualidade dos povos indígenas, que define como momentos muito solenes, insiste em que “a Igreja não pode ser uma Igreja visitadora, tem que ser uma Igreja permanente, uma Igreja próxima e que está enraizada ali”. Para isso, o bispo de Juína destaca a importância dos missionários locais, dos ministérios, que “tem que vir da própria região, porque ela tem os gritos, os apelos, e ela também vai suscitar as respostas”. Aos poucos, a nova conferência,”ela vai traçar linhas mestras com identidade própria”, procurando “estratégias pastorais próprias para a região”, segundo Dom Neri.

O senhor é um dos representantes do episcopado brasileiro na Conferência Eclesial da Amazônia, o que ela pode representar no futuro da caminhada da Igreja na Amazônia e no mundo?

A criação e o nascimento desta Conferencia Eclesial da Amazônia, ela é produto de uma história, ela não nasceu de uma hora por outra, mas ela faz parte de um processo sinodal, um caminho longo de escuta e de preparação para a Assembleia Sinodal que aconteceu o ano passado em Roma, do dia 6 a 27 de outubro. Este tempo, ele foi muito oportuno para ouvir os clamores da Amazônia. Diante desse diálogo com os povos originários, ribeirinhos, quilombolas, assentados, e todos os que moram nesta grande Amazônia, nós identificamos que a Igreja poderia se fazer mais presente através das conclusões do Sínodo, inclusive entre elas, quando se fala de um organismo.

A Conferência Eclesial da Amazônia, ela é resposta do Sínodo, eu diria que é um ponto de maturidade, um ponto de chegada, para darmos este passo e poder fazer com que a conferência, ela coloque em prática as conclusões do Sínodo, e principalmente pôr em prática a sugestão que vem na exortação apostólica Querida Amazônia do Papa Francisco. As conclusões do Sínodo, elas precisam ser relidas, como o próprio Papa sugere nos primeiros números de Querida Amazônia.

A conferência, ela é um produto, resultado de uma caminhada sinodal mesmo. Se deve dar enfase ao que o Espírito Santo nos conduziu e nos deu essa oportunidade de fazer com a Igreja se torne mais próxima do povo, mais inculturada, mais encarnada, com rosto amazônico, como se dizia sempre durante o Sínodo.

A grande novidade desta conferência, poderíamos dizer que é que não é mais uma conferência episcopal e sim uma conferência eclesial. Segundo o Cardeal Cláudio Hummes, essa foi uma orientação do Papa Francisco. Ele tem pedido propostas ousadas, corajosas, na construção dos novos caminhos da Igreja. O fato de ser uma conferência eclesial, pode ser entendido como um desejo do Papa de apostar nessas propostas mais ousadas na concretização daquilo que foi refletido ao longo do processo sinodal?

Esta conferência, não episcopal, mas eclesial, ela vem exatamente atender os novos caminhos para a Igreja. Aqui o Espírito Santo quis inovar, e quis trazer um jeito sinodal de sermos Igreja. Quando se fala eclesial, quer se dizer que todos os ministérios, todos os serviços, estamos integrados nesta conferência, não se exclui ninguém. Se procura dar passos para aquelas propostas corajosas que sempre se insistia, e que o Papa tanto pedia. Esta conferência nova, e com esta nomenclatura, ela quer respeitar exatamente a originalidade de uma região, no caso pan-amazônica, para dizer, como Igreja, nós queremos nos encarnar ai.

Queremos ser uma Igreja mais próxima, uma Igreja mais participativa, uma Igreja que envolve mais os ministérios, uma Igreja eclesial, mas também uma Igreja colegial, mas sobretudo uma Igreja batismal. Isso me parece ser o novo que está vindo ai, é uma conferência nova no mundo com esta nomenclatura. Ela nasce, ao meu ver, do jeito certo, uma Igreja batismal, sinodal, uma Igreja que contempla todos os possíveis ministérios dentro dela, padres, bispos, cardeais, mas a participação dos leigos, com a possibilidade de criar novos ministérios, atendendo aquilo que sempre se dizia durante o Sínodo.

Os novos caminhos, eles devem se incrementar dentro desta nova dinâmica com uma nova nomenclatura, Conferência Eclesial da Amazônia. Aqui eu sinto a intenção pessoal, mas sobretudo espiritual, do Papa Francisco.

No encontro que o Papa Francisco teve com os bispos brasileiros com motivo da Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, em 2013, ele falou que a Amazônia era um banco de prova para a Igreja do Brasil. A gente poderia dizer que esta nova conferência pode ser um teste para a Igreja universal e que no futuro poderia se dar o passo de conferências episcopais a conferências eclesiais nos diferentes países?

Essa novidade se trata de uma conferência regional. Eu sempre olho para as outras redes eclesiais, por exemplo a Rede do Congo, dos Bosques Tropicais da Ásia, a Rede Mesoamericana, que também ali possam surgir novas conferências com esta nomenclatura, porque se tratam de conferências regionais. Eu não sei se vão substituir as conferências episcopais, porém, é um caminho a ser feito, de muito diálogo, de muita abertura, e o Espírito Santo vai continuar a nos iluminar. Mas eu tenho esperança que aquelas outras redes que eu citei, ali se possa ter no futuro, essa conferência nova com essa nomenclatura. O caminho é esse, agora o diálogo com as conferências episcopais é um caminho a ser feito.

Diante das ameaças que a Amazônia vem sofrendo há séculos, visibilizadas mais claramente neste tempo de pandemia, qual pode ser o papel da Conferência Eclesial da Amazônia diante da necessidade de uma postura profética?

A Igreja, ela precisa viver na Amazônia. Se é um banco de prova, nenhum missionário deve estar com a mala pronta para se mandar. Me parece que a Igreja da Amazônia, ela foi uma Igreja em que nós fizemos pouco conta das possibilidades locais de evangelização. O rosto amazônico, ele tem que ser incrementado, por isso se trata de que a Igreja se sinta de fato encarnada, do jeito certo. A Igreja na Amazônia, ela tem o rosto próprio, ela sabe quais são as problemáticas que ela enfrenta. E ai é que eu me refiro, se ela é uma Igreja que se prolonga e ela é permanente ali, não é uma Igreja de visita, essa Igreja vai assumir exatamente a postura necessária para se identificar com a realidade.

Consequentemente, o Evangelho vai ser um ponto de equilíbrio, ponto de resistência para todas as ameaças que vem do mundo. A Igreja não pode ser uma Igreja visitadora, tem que ser uma Igreja permanente, uma Igreja próxima e que está enraizada ali. Por isso, para ser enraizada tem que ser mais inculturada, inclusive os ministérios na Igreja tem que vir da própria região, porque ela tem os gritos, os apelos, e ela também vai suscitar as respostas. E uma Igreja importada não é tanto assim, não, ela pode servir, fazer muito, mas dias mais, dias menos, aos missionários de fora, eles são transferidos para outros locais. Agora, os missionários locais, nascidos ali, eles vão conseguir fazer muito mais no que diz no cuidado com a natureza, com o meio ambiente, e aquilo que é de direito dos próprios povos originários que ali moram desde sempre.

No comunicado oficial em que é apresentada a nova conferencia, diz que a composição desta Assembleia reflete a unidade na diversidade de nossa Igreja e seu chamado a uma sinodalidade cada vez maior. Como isso poderia ser assumido pelas igrejas particulares da região amazônica?

Essa assembleia que aconteceu, com representantes das conferências episcopais envolvidos na Pan-Amazônia, já nos da uma representatividade de comunhão e de diálogo com o diferente. Eu acredito que agora essa conferência, ela vai traçar linhas mestras com identidade própria, que eu penso que é isso que tem que avançar, que tenhamos estrategias pastorais próprias para a região.

É claro que aqui se dará um diálogo com as outras conferências, mas sempre observando a identidade da região. Nas assembleias da Conferência Episcopal do Brasil, eu noto que quando se fala da Amazônia, muita gente se sente distante, se sente fora, quem mora em São Paulo, mora no Sul, não imagina, não se faz ideia de como é a realidade da Amazônia. É por isso que eu insisto, é preciso ter estrategias pastorais identificadas com o rosto próprio da Amazônia. Se a conferência argentina tem a sua estrategia pastoral, nós não precisamos incomodar a Argentina. Também a conferência brasileira, ela vai ter as suas estrategias pastorais, as suas diretrizes pastorais, mas a Conferência Eclesial da Amazônia vai ter que ter as suas diretrizes próprias também. É claro, o diálogo com o diferente e a comunhão universal, sem nenhum problema.

 

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