Nós, seres humanos condenados à liberdade. Artigo de Massimo Recalcati

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29 Mai 2020

"A liberdade é o lugar eletivo de angústia diante do dilema da escolha. Não posso me libertar da responsabilidade da escolha, não posso escapar do seu peso. Mesmo se eu optar por não escolher, essa opção sempre permanecerá a expressão de uma escolha singular", escreve Massimo Recalcati, psicanalista italiano e professor das universidades de Pavia e de Verona, em artigo publicado por La Stampa, 28-05-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

O texto foi retirado do último livro de Massimo Recalcati: La tentazione del muro [A tentação do muro]. Em cinco breves lições, o psicanalista oferece a seus leitores os textos inéditos do programa de televisão Lessico civile, que será apresentado em streaming na sexta-feira, 5 de junho às 18h30, (feltrinellieditore.it).

Eis o artigo.

 

La tentazione del muro.
Lezioni brevi per un lessico civile
(Massimo Recalcati)

 

 

Liberdade é uma palavra fundamental, se não a palavra fundamental para todo léxico civil. A vida humana não é apenas uma questão de pertencimento, mas também uma exigência de liberdade, um desejo de ser errante. Contudo, a liberdade não é apenas uma experiência de libertação, de afirmação da singularidade da própria vida, mas também, paradoxalmente, uma "condenação". De fato, o homem é, como disse Sartre, "condenado a ser livre". A existência humana é, como tal, sempre condenada à liberdade. Diferentemente do mundo animal, onde a lei do instinto predomina univocamente, determinando comportamentos reativos e geneticamente determinados que não implicam a dimensão ética da escolha, no mundo humano a cadeia do esquema instintivo é suspensa, interrompida, traumatizada.

Por esse motivo a pulsão, em relação ao instinto, é mais livre para "escolher" modalidades de satisfação que não são necessariamente previstas pelo caráter unívoco do esquema instintivo. Pensamento, fantasia, imaginação, erotismo surgem dessa liberdade do instinto, possibilitando diferentes modalidades de satisfação com relação à rigidez de tal esquema. Isso significa que nunca podemos nos libertar da liberdade, que, se somos livres, não é porque escolhemos a liberdade, mas porque somos jogados na liberdade, entregues à força, vinculados, acorrentados à liberdade.

De fato, ninguém pode escolher em nosso lugar e, mesmo que decidamos nos submeter sem reservas a um mestre, mesmo que decidamos fugir da liberdade, seria sempre e de qualquer maneira uma nossa livre escolha, uma manifestação irredutível da nossa liberdade. Por esse motivo, como condenação, vínculo, entrega, a liberdade é o lugar eletivo de angústia diante do dilema da escolha. Não posso me libertar da responsabilidade da escolha, não posso escapar do seu peso. Mesmo se eu optar por não escolher, essa opção sempre permanecerá a expressão de uma escolha singular.

Na psicanálise, no entanto, nunca é dado como óbvio quem escolhe. É o Eu que escolhe ou o inconsciente? O inconsciente pode ser um álibi que alivia a responsabilidade ("não fui eu, foi ele, foi o id!"), Ou pode expandir a noção de responsabilidade. Freud se perguntava, não por acaso, se também podemos nos considerar responsáveis por nossos sonhos. Por esse motivo, a liberdade não é apenas uma brisa, uma corrida, mas sempre implica a tentação ambígua de sua negação, a tentação de se livrar da liberdade. Aliás, poderíamos até afirmar que a vida humana seja dilacerada pela liberdade. É aspiração à liberdade e, ao mesmo tempo, angústia diante da liberdade; é impulso para ser radicalmente livre e, ao mesmo tempo, é impulso para evitar a vertigem da liberdade, sabotar a própria liberdade.

Nesta última inclinação, Nietzsche fala de uma "nostalgia da terra" que afligiria até os maiores navegadores. No meio do horizonte infinito do mar, não apenas experimentamos a embriaguez da liberdade, a dilatação das fronteiras, o encontro com o infinito, mas, lembra Nietzsche, está sempre à espreita "a nostalgia da terra", do solo, da própria casa. Isso significa que a liberdade nunca pode ser completamente dissociada da ansiedade em relação à liberdade. Essa angústia anima para Freud a pulsão securitária, ou seja, a pulsão que, em vez de impelir a vida adiante, a traz de volta, a direciona à defesa autopreservativa da própria identidade. Trata-se, como vimos, uma pulsão igualmente fundamental como aquela erótica que, ao contrário, tende a formar agregações cada vez maiores, expandir seu raio de ação, ampliar os horizontes do mundo.

Em O Medo da Liberdade Fromm distingue entre "liberdade da" e "liberdade de". A primeira ainda é uma forma imatura da liberdade, que assume a forma de simples oposição, como acontece, por exemplo, na adolescência, onde o filho reivindica uma liberdade que é apenas uma liberdade "da", por exemplo, das normas mais ou menos rígidas que sua família ou escola lhe impõem. Essa liberdade - a "liberdade da" - ainda mantém um vínculo de dependência com as pessoas que cuidaram da vida do filho.

Dessa maneira, o sujeito que se declara livre ainda pode preservar sempre o caráter "primário" de seus laços mais profundos. Trata-se de uma liberdade que sempre pode retornar ao ventre do qual o sujeito se separou. Nesse sentido, é uma forma incompleta de liberdade e do processo de individuação. Diversamente, a "liberdade de" é a forma completa da liberdade que implica a realização do processo de individuação. Para esclarecer essa diferenciação, Fromm faz uma referência ao mito bíblico do Jardim do Éden. A liberdade de Adão e Eva antes do gesto da transgressão teria sido apenas uma forma inacabada de liberdade. Eles, de fato, viviam perdidos no imediatismo harmônico da natureza. É apenas a violação da interdição de acessar a árvore do conhecimento que interrompe essa fusão sem diferença. Nesse ato de desobediência, Fromm lê a primeira manifestação da liberdade humana.

O sofrimento resultante desse ato – a expulsão do jardim do Éden - mostraria que a "libertação da" Deus ainda não coincide com a liberdade autoafirmativa do sujeito, com sua plena "liberdade de” existir autonomamente. É apenas o rompimento definitivo dessa relação de dependência que pode sancionar a transição da "liberdade da" para a "liberdade de". Mas a "liberdade da" em si mesma nunca pode garantir a passagem para a "liberdade de". Isso significa que a necessária liberação das constrições ainda não coincide com o exercício completo da liberdade.

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