Falando com o Covid. Artigo de Massimo Recalcati

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18 Mai 2020

"O confinamento tornou possível a miragem da descontaminação e da segurança absoluta. O distanciamento social não se manifesta apenas como uma exigência sanitária, mas também como um fantasma arcaico do ser humano: evitar o desconhecido, o aberto, o ignoto. Não há dúvida de que, para várias pessoas, o confinamento revelou ser uma solução radical para o problema do relacionamento. Uma nova pulsão claustrofílica se desenvolveu ao lado da angústia claustrofóbica que levou muitos a querer voltar ao aberto o mais rápido possível", escreve Massimo Recalcati, psicanalista italiano e professor das universidades de Pavia e de Verona, em artigo publicado por La Repubblica, 15-05-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Segundo ele, "a quarentena pôs à prova nossos recursos emocionais mais profundos. Impôs uma desintoxicação psíquica benéfica de nossa hiperatividade e das nossas dependências cotidianas mais desnecessárias, levando-nos a uma espécie de introversão obrigatória".

"Com a reabertura progressiva, - observa o psicanalista - é muito provável que se espere um aumento considerável das fobias sociais".

 

Eis o artigo.

 

À medida que nuvens escuras se adensam no nosso horizonte, ligadas às profundas complicações econômicas e sociais da pandemia, o mapa do sofrimento psíquico gerado pelo Covid 19 parece mais irregular e, de certa forma, surpreendente. O primeiro paradoxo que registro em meu trabalho clínico é que não apenas os sintomas aumentam (angústia, fobias, retraimento social, insônia, depressão, dificuldades sexuais), mas também estranhas formas de bem-estar.

Para tentar entender o que está acontecendo, vale lembrar uma observação clínica de Freud: o aparecimento de um tumor pode curar o sujeito de uma psicose grave. É algo que estamos experimentando: a invasão de uma realidade horrível - a do tumor ou do Covid 19 e suas consequências não apenas de saúde, mas também em termos econômicos e sociais – se revelam muito mais violentas do que o delírio. Se o psicótico vive separado da realidade, o trauma do tumor ou do vírus o leva abruptamente de volta a uma realidade que não pode mais ser contornada, libertando-o paradoxalmente de suas ansiedades mais delirantes. Em palavras mais simples, a realidade teria se tornado mais delirante do que o próprio delírio!

Portanto, não surpreende que quadros subjetivos seriamente comprometidos mostrem sinais de melhora em uma condição como a que estamos vivenciando. O mesmo acontece, pelo menos em minha experiência, com aqueles jovens pacientes que viviam voluntariamente isolados do mundo, fechados em seus quartos, separados de qualquer forma de relacionamento social que, com as novas condições de vida ditadas pelas medidas de distanciamento social, em vez disso, mostram um inesperado retorno à socialização, ao diálogo com seus pais, à reabertura de suas vidas. Nessa mudança de posição, leio um ensinamento: eles retornam aos relacionamentos exatamente quando os relacionamentos são proibidos, mas, acima de tudo, quando parecem despojados de todo o conteúdo performativo.

Por outro lado, para todos aqueles que de maneiras diferentes viviam a obrigação de estar em relacionamento como fonte de desconforto permanente, o Covid 19 permitiu refugiar-se em suas próprias moradas. Nesses casos, a quarentena não foi um pesadelo, mas um sonho tornado realidade: viver solitários sem ter que suportar mais o peso psíquico do relacionamento, transformando a própria casa em um abrigo.

Não é tão raro então - e este é um novo sintoma causado pela epidemia - verificar a dificuldade generalizada de retornar ao aberto, de abandonar o fechado.

Nada quanto o confinamento tornou possível a miragem da descontaminação e da segurança absoluta. O distanciamento social não se manifesta apenas como uma exigência sanitária, mas também como um fantasma arcaico do ser humano: evitar o desconhecido, o aberto, o ignoto. Não há dúvida de que, para várias pessoas, o confinamento revelou ser uma solução radical para o problema do relacionamento. Uma nova pulsão claustrofílica se desenvolveu ao lado da angústia claustrofóbica que levou muitos a querer voltar ao aberto o mais rápido possível.

Obviamente, existem os claros agravos que são bem mais numerosos: ansiedade de empobrecimento ligada à precariedade da vida, ansiedade depressiva acompanhada por fenômenos de insônia, crise de pânico, impotência sexual, somatizações de vários tipos. Trata-se de uma configuração depressiva específica que, em vez de sofrer o peso do passado - o deprimido sempre vive na sombra do que sente ter perdido no próprio passado -, mostra quanto o sentimento de perda invista o nosso futuro ao se realizar na fantasia apocalíptica de não mais encontrar o mundo como o conhecíamos antes. Mesmo para aqueles cujo narcisismo necessitava do espelho dos outros para tornar sua vida vivível, o confinamento teve um efeito depressivo, marcando o triste retraimento de sua imagem murcha, pois privada da nutrição necessária do olhar dos outros. Nesses casos, o recurso a comida, álcool ou qualquer outra substância, combinado com uma irritabilidade subjacente, foi incentivado. Em particular, a comida aparece como a ferramenta mais facilmente disponível para compensar um defeito de recompensas sociais.

A quarentena pôs à prova nossos recursos emocionais mais profundos. Impôs uma desintoxicação psíquica benéfica de nossa hiperatividade e das nossas dependências cotidianas mais desnecessárias, levando-nos a uma espécie de introversão obrigatória. Por tal razão, a frustração ligada à privação da liberdade atingiu principalmente os jovens e as crianças e, num segundo momento, os adultos mais semelhantes aos jovens e às crianças, ou seja, mais incapazes de cultivar interesses profundos sem recorrer ao convívio do encontro ou da socialização.

Com a reabertura progressiva, é muito provável que se espere um aumento considerável das fobias sociais. Um paciente gravemente obsessivo me confidenciou saindo de casa pela primeira vez após uma longa quarentena de ter visto com surpresa que o mundo se assemelhava a seu sintoma: angústia de contaminação, ritualização, lavagem repetida das mãos, obsessão pela sujeira, distanciamento e evitação de contato com outras pessoas. "Senti como se estivesse em casa", concluiu ele com certa satisfação.

 

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