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07 Março 2018

“A grande maioria não tem consciência dos riscos que corre. É como no tempo de Noé: todos se divertiam e riam do velho. E veio o dilúvio. Só que hoje é diferente: não temos uma Arca de Noé que salve alguns e deixa perecer os outros. Todos podemos perecer”, escreve Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor.

Segundo ele, “tudo isso no obriga a pensar sobre o futuro comum de nossa espécie e da Casa Comum. Tudo deve começar com uma sensibilização geral. É em casa e na escola que tal nova consciência deve surgir”.

Eis o artigo.

A realidade nos últimos decênios mudou tanto que afetou também nosso estilo de educação. Cito algumas destas mudanças:

- Construímos o princípio de nossa auto-destruição com armas nucleares, químicas e biológicas. Nada é absolutamente seguro e um acidente qualquer poderá destruir nossa civilização.

- O aquecimento global cresce dia a dia. Se nada fizermos, como a comunidade científica norte-americana advertiu, podemos conhecer dentro de alguns anos, um aquecimento abrupto de até 4-6 graus Celsius. Com isso, a maioria das vidas conhecidas não resistirá e vai desaparecer. Parte também da humanidade.

- A escassez de água potável (só 0,3% é acessível aos seres humanos e aos animais) poderá provocar guerras letais para garantir acesso a fontes de água doce. Ou também alianças de cooperação.

- A planetização é um fato novo na história da Terra e da Humanidade. Saímos um dia da África, onde ficamos por lá por 4-5 milhões de anos e por isso somos todos africanos e nos espalhamos depois pelos continentes; agora estamos voltando e nos encontrando num único lugar: a Casa Comum, a Terra.

- A crise ecológica afeta diretamente o sistema-vida e o sistema-Terra. Estamos destruindo as bases físico-química que sustentam a vida. A continuar a super-exploração da Terra, ela não aguentará e nossa civilização estará ameaçada.

Há o risco de super-bactérias que perderam seu habitat pelo desmatamento e podem invadir cidades e dizimar milhares de pessoas sem sabermos como enfrentá-las com potentes antibióticos.

Estes são dados e não fantasias. A grande maioria não tem consciência dos riscos que corre. É como no tempo de Noé: todos se divertiam e riam do velho. E veio o dilúvio. Só que hoje é diferente: não temos uma Arca de Noé que salve alguns e deixa perecer os outros. Todos podemos perecer.

Tudo isso no obriga a pensar sobre o futuro comum de nossa espécie e da Casa Comum. Tudo deve começar com uma sensibilização geral. É em casa e na escola que tal nova consciência deve surgir.

Vejam que tarefas novas se apresentam aos mestres e que nova percepção devem desenvolver nos educandos. Logicamente a escola deve levar avante sua tarefa básica como a UNESCO elencou:

Aprender (1) a conhecer tudo o que o passado nos legou. Como escreveu Montaigne (1533-1592) nos seus Ensaios: “o educador deve ter antes a cabeça bem feita do que bem cheia”. Vale dizer, saber a situação real da Terra e passá-la aos estudantes;

(2) aprender a pensar; sabemos muito e tudo está no Google, mas não pensamos o que sabemos. O saber é um poder que pode construir uma bomba atômica ou um antibiotico. O saber não é neutro. Pensar é detectar a quem ele serve e quem são os donos do saber;

(3) aprender a viver que é criar um caráter reto, amante da verdade, é ser um bom cidadão participativo com um projeto solidário de vida;

(4) aprender a conviver, pois hoje vivemos no meio das maiores diferenças de raça, religião, ideias, opções sexuais; não permitir que a diferença se transforme em desigualdade; todos têm direito de viver seu modo de ser; importa estar aberto pelas redes sociais ao destino dos povos, muitas vezes trágico como agora na Síria; interessar-se pelo sofrimento dos mais pobres e excluídos;

(5) aprender a cuidar; isso é novo pois sabemos que o cuidado é a lei básica de todos os seres vivos e também do universo; se não cuidamos da água, do lixo, de nós mesmos e das relações sociais, podemos dar espaço à degradação; tudo o que amamos cuidamos e tudo o que cuidamos amamos;

(6) aprender a ter uma ética e uma espiritualidade; a religião pode ajudar mas não necessariamente, pois muitas fazem guerra e matam; ser ético é orientar-se pelo bem, é assumir as consequências de nossos atos, bons ou maleficos; optar pelo bem comum, pela verdade contra toda a corrupção; espiritualidade é uma dimensão antropológica como é a razão, a vontade e a libido; somos espirituais quando colocamos a perguntas derradeiras: por que estou aqui, qual é o sentido do universo, da vida e de minha própria existência?

Ser espiritual é desenvolver o que os neurólogos e neurolinguistas chamam de “ponto Deus no cérebro”: sempre que abordamos assuntos do sagrado e do sentido ultimo da vida há uma aceleração de nossos neurônios; é o “ponto Deus”; ele nos permite intuir que por detrás de todas as coisas há uma Realidade amorosa e poderosa que tudo sustenta, as estrelas e também nossas vidas.

O “ponto Deus” é feito de amor, de compaixão, de solidariedade e de devoção; ele nos torna mais sensíveis aos outros e mais humanos; cultivar o “ponto Deus” é superar o materialismo atual e nutrir uma esperança sobre o fim bom de tudo.

Desses novos desafios os educadores devem eles mesmos se imbuir e repassá-los aos educandos. Só assim estaremos à altura dos graves riscos que se nos apresentam.

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