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15 Agosto 2016

Papa Francisco tem uma ética de trabalho prodigiosa e profundamente admirável, mas há três bons motivos por que esse líder cheio de energia bem poderia pensar em seguir o exemplo do ‘ferragosto’ italiano e fazer uma pausa no meio de deste mês.

A reportagem é de John Allen Jr., publicada por Crux, 14-08-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Esta segunda-feira marca o feriado italiano chamado ‘ferragosto’, que hoje coincide com a festa de Assunção de Maria, mas na realidade ele remonta à antiga Roma e ao recesso de verão chamado Feriae Augusti, ou “férias de Augusto”, introduzido pelo imperador.

De modo geral, Roma entra em hibernação quase total nesta época; a cidade se esvazia, restaurantes e lojas fecham, os programas de tevê reprisam e, basicamente, todo mundo tira uma longa soneca. O que se diz é que apenas duas coisas se movem na Cidade Eterna durante o mês de agosto: cani eamericani (ou “cães e americanos”).

Na era do Papa Francisco, no entanto, isto não é mais verdade, porque alguém continua a todo vapor atuando na cidade: um argentino que esqueceu completamente de desligar o seu interruptor de energia.

Vejamos o que Francisco fez nas últimas semanas.

Em fins de junho, o papa fez uma viagem de três dias à Armênia, evento repleto de significação política e ecumênica. Em fins de julho, ele ficou cinco dias na Polônia presidindo a Jornada Mundial da Juventude que alcançou o ponto alto com uma missa que, segundo os organizadores, atraiu três milhões de pessoas. Agora, está se preparando para presidir uma missa canonização em 4 de setembro para a Madre Teresa de Calcutá, que em princípio será o maior acontecimento em Roma durante o Jubileu da Misericórdia.

Nesse ínterim, houve inúmeros momentos dramáticos menores: cartas a conferências episcopais, a criação de uma comissão para estudar mulheres no diaconato audiências, entrevistas, mensagens, e assim por diante... listar todos estes momentos é uma tarefa e tanto.

Como já está virando costume, Francisco tem se recusado a tirar as tradicionais férias de verão que os papas têm, evitando se deslocar para a residência de veraneio em Castel Gandolfo nos Castelli, isto é, pequenas cidades montanhosas que circundam o Lago Albano no sudeste de Roma.

A ética de trabalho de Francisco é impressionante, especialmente para um senhor que irá completar 80 anos em dezembro. No entanto, há três bons motivos por que ele poderia decidir tirar o pé um pouco do acelerador, adotando o costume romano de descansar na segunda metade de agosto.

Em primeiro lugar, dar à Igreja a chance de tomar um fôlego pode ser útil neste momento, pois geralmente é difícil assimilar tudo o que Francisco disse ou fez nesses últimos tempos.

O pensamento católico clássico tem se focado na importância da “recepção” de uma doutrina ou regra, quer dizer, o processo normalmente demorado pelo qual as pessoas ponderam o significado do que se disse; fazem-se várias paradas e começos visando aplicar as ideias novas; filtram-se os resultados e tentam novamente.

Ainda que a recepção seja às vezes um processo acidentado – vejamos a implementação do Concílio Vaticano II, por exemplo –, ela é fundamental caso novos ensinamentos ou direções devam ser algo além de meras palavras sobre o papel.

Em tese, Francisco pretendeu fazer uma declaração na quinta-feira ao almoçar com 21 refugiados sírios, incluindo os 12 que trouxe na viagem de volta a Roma em abril depois de uma viagem à ilha grega de Lesbos.

Entretanto, tivemos pouco tempo para pensar o que poderia significar esta declaração, isso porque apenas 24 horas depois surgiu a notícia de que ele havia cruzado a cidade para se encontrar com 20 vítimas de redes de prostituição como parte de suas “Sextas-Feiras da Misericórdia” durante o Ano Jubilar.

Às vezes é de se perguntar se a avalanche contínua de palavras e atos sob o comando de Francisco está permitindo um tempo suficiente para compreender o que se passa.

Em segundo lugar, Francisco pode também correr o risco de apresentar exigências irrealistas e, em última instância, insustentáveis aos seus subordinados.

Uma coisa é um líder decidir que quer doar-se até o extremo de suas forças, uma coisa bem diferente é ele impor o mesmo sobre os demais ao seu redor.

Em privado, muitos funcionários do Vaticano e mesmo bispos de outras partes do mundo dirão, hoje, que já faz um bom tempo que eles não tiram uma boa noite de sono, preocupados com o que uma iniciativa nova qualquer do papa ou uma declaração sua que eles terão de responder na manhã seguinte.

Analistas têm observado um tom cada vez mais frágil no debate católico, e é possível que o ritmo e a intensidade dos desdobramentos sob este papa tenham algo a ver com essa percepção.

Cansaço e paciência não são, afinal de contas, coisas que geralmente andam juntas.

Terceiro, há o impacto na saúde do próprio Francisco.

Até o momento, não houve nenhum problema sério de saúde com este papa, embora o tenhamos visto tropeçar na Polônia, e todos os que o viram caminhar por Auschwitz notaram o desconforto visível com o qual ele se movia.

É difícil imaginar, no entanto, que alguém com quase 80 anos possa manter esta intensidade para sempre. Na verdade, parece cada vez mais possível que um tempo de descanso vá ser imposto ao papa, queira ele ou não, quando o seu corpo finalmente não conseguir mais acompanhar sua mente e sua vontade saltitantes.

Papa Francisco é um jesuíta nos moldes de Inácio de Loyola, e portanto é um ótimo “discernidor” de espíritos. Ele sabe, pois, que a importância do resto é um princípio bíblico – este é, afinal de contas, o fundamento do Sabbath. Ele também sabe que um exemplo daquilo que os Pais da Igreja chamavam “acedia” – indolência, preguiça – é a fadiga que vem da atividade excessiva.

Diante de tudo isso – e, para ser honesto, em nome de um grupo de imprensa que se esforça para manter-se atualizado com este pontífice notável –, posso sugerir que as próximas semanas sejam um ótimo momento para uma pausa?

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E sopra um vento de ar puro... Os dois anos de Papa Francisco em debate. Revista IHU On-Line, nº 465.

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