Revolução 4.0: Quem ficará com os ganhos de produtividade?

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20 Agosto 2018

A quarta Revolução Industrial indica uma ruptura com o período fordista que distribuía os ganhos de produtividade através do assalariamento. Agora, as novas empresas desimpedidas de gerar empregos transferem os seus ganhos ao mercado financeiro sem nenhuma mediação com a sociedade, escreve em artigo Cesar Sanson, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN e coordenador do Grupo de Estudos Trabalho, Estado e Sociedade – GETES/UFRN.

Eis o artigo.

A quarta Revolução Industrial foi o tema central da edição do Fórum Econômico Mundial de 2016. Na oportunidade, um dos ideólogos do evento e uma das referências no debate mundial sobre a Revolução 4.0, Klaus Schwab sugeriu que devemos assumir “uma responsabilidade coletiva por um futuro em que a inovação e a tecnologia estejam focadas na humanidade e na necessidade de servir ao interesse público”.

Os desdobramentos dessa Revolução levam a crer o contrário, ou seja, os seus ‘ganhos’ não retornarão para a sociedade, aumentarão ainda mais a concentração da riqueza. As grandes empresas inovadoras nas áreas da inteligência artificial, robótica, internet das coisas, veículos autônomos, impressão em 3D, nanotecnologia e biotecnologia são financiadas por grandes fundos de investimentos que apostam em retorno alto para os seus acionistas. Foi assim com a terceira Revolução Industrial e as suas startup que surgiram pequenas e se agigantaram como a Apple, Amazon, Google e Facebook.

Todas essas empresas recebem aportes bilionários dos mesmos fundos de investimentos: Vanguard Group, Inc. (The), Blackrock Inc., State Street Corporation, Berkshire Hathaway, FMR, LLC, Price (T.Rowe) Associates Inc., Northern Trust Corporation, Geode Capital Management, Bank Of New York Mellon Corporation, Morgan Chase & Company. Basta uma rápida pesquisa na internet para a comprovação de que esses fundos de investimentos possuem o maior número de ações nas bolsas das empresas citadas anteriormente.

Esses fundos de investimentos estão distantes de exigir dessas empresas compromisso com os “interesses públicos” como diz Schwab. O que elas querem é apenas uma coisa, retorno financeiro para os seus investidores e como num círculo vicioso, quanto mais retornam para os seus investidores, mais fortes se tornam. Todos esses fundos possuem bilhões em suas carteiras de investimentos e estão à “caça” de empresas com potencial de retorno para os seus acionistas.

A bola da vez dos fundos de investimentos é a Revolução 4.0. Tome-se como exemplo a Tesla, uma empresa de ponta da quarta Revolução Industrial pelo que aporta de inovações tecnológicas. A Tesla já é a montadora mais valiosa do mercado. Nas transações financeiras de Wall Street, a companhia já ultrapassou o valor de US$ 51,56 bilhões superando a General Motors. A diferença, entretanto, de valor financeiro entre a Tesla e a GM não reflete a relação de forças entre ambas as companhias. A GM tem 17,3% do mercado americano e a Tesla só 0,2%. Em 2016, a Tesla produziu 84.000 automóveis e teve um volume de negócios de US$ 7 bilhões; já a GM fabricou 10 milhões de carros e teve uma receita superior a US$ 166 bilhões.

Por que uma empresa que emprega pouco, praticamente não tem fábricas e vende pouco, vale mais que uma empresa que emprega muito, possui dezenas de fábricas e vende muito? A resposta está por detrás dos efeitos disruptores da Revolução 4.0. A Tesla de hoje é o que foi a GM de ontem.

A novidade perversa é que ao contrário da GM, ícone da Revolução Industrial, que distribuía parte dos seus ganhos de produtividade gerando empregos e pagando salários, não é reproduzida pela Tesla. Os ganhos de produtividade dessa empresa se deslocam para o mercado financeiro. Isso porque a Tesla, incorporando tecnologias inovadoras, gera pouquíssimos empregos, logo os ganhos da produtividade acumulados pela incorporação de tecnologia, não retornam para a sociedade, ao contrário, ficam nas mãos dos acionistas.

Essa é a lógica manifesta pela Revolução 4.0. São empresas que respondem aos interesses dos seus investidores e acionistas e não têm compromissos com a sociedade. Isso não é uma novidade no capitalismo, as empresas do capitalismo industrial também recebiam volumosos investimentos do capital financeiro. A novidade fica por conta de que ao contrário do período anterior, os anos dourados do capitalismo, as empresas 4.0 romperam com o “compromisso” fordista de gerar milhares de empregos. O assalariamento foi por um importante mecanismo de distribuição de renda e permitiu o surgimento do Welfare State.

Agora, os ganhos de produtividade do novo patamar de acumulação do capital proporcionado pela Revolução 4.0 serão quase que integralmente absorvido pelo capital financeiro. Considerando-se, portanto, o esgotamento da sociedade industrial que distribuía parte dos seus ganhos de produtividade através do assalariamento, surge a questão: O que substituirá o mecanismo salarial na distribuição de renda? Uma possível alternativa para a recomposição do equilíbrio social que se viu no keynesiano-fordista é a instituição da Renda Mínima Universal. Uma renda distribuída universalmente a todos independentemente da condição salarial poderia mitigar a crescente concentração de renda e riqueza.

Assista à apresentação do livro de Klaus Schwab realizada por Cesar Sanson, no IHU:

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