A agudização das condições da existência e a busca de mundos diferentes. Entrevista especial com Andityas Soares de Moura Costa Matos

A pandemia de Covid-19 abre possibilidades de transformação inéditas e impensadas

Foto: Pixabay

Por: Patricia Fachin | 31 Março 2020

Momentos de “crise extrema” como a que o mundo enfrenta por causa da pandemia de Covid-19 não trazem “transformação geral e imediata das condições da existência, mas sim a sua agudização, sua visibilização”, afirma Andityas Matos, professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, à IHU On-Line. No Brasil, a crise expõe os problemas do país, como a falta de investimentos na área da saúde, a não universalização do saneamento básico, as desigualdades sociais, os empregos precários e informais, e a inabilidade do presidente. “Os pobres são os mais expostos ao vírus e são eles que estão sendo chamados por Bolsonaro para voltar ao trabalho. Por outro lado, com o confinamento, o nível de violência doméstica contra mulheres e crianças aumentou! Isso quer dizer que a situação é complexa e tem que ser analisada com atenção aos detalhes”, adverte.

Do outro lado do mundo, em alguns países asiáticos, a agudização também se expressa no reforço do controle estatal dos cidadãos através do uso das tecnologias. Apesar dessa prática ser anunciada como o sucesso dos países asiáticos em enfrentar a pandemia de Covid-19 em contraposição ao fracasso europeu e ocidental pelo filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, Matos questiona: “O que queremos salvar? Só a vida biológica, a vida nua? Uma sociedade que desconhece a liberdade subjetiva (como parece acreditar Han ser o caso da ‘Ásia’) e a possibilidade de crítica, em especial contra o Estado e o mercado? Qual é a grande vantagem desse oriente tecnocrático? Aliás, o que significa eficiência em uma cultura que, como parece indicar Han, renunciou ao pensamento crítico sobre si mesma? Não posso falar por ninguém, mas eu prefiro me submeter à ineficácia ‘europeia’ ao invés de abrir mão do pensamento crítico”.

Ao mesmo tempo, circunstâncias como as que estamos vivendo hoje mostram que existem alternativas às escolhas políticas, econômicas e sociais que foram feitas até o momento, e é possível ir além das propostas de reformas do capitalismo. “Há muito tempo as pessoas creem que a política de verdade, aquela que está no campo de um perene indecidível, acabou porque as decisões técnicas, de natureza econômica por exemplo, já foram todas tomadas, sendo impossível construir mundos diferentes deste que aqui está. O que se poderia fazer seria apenas alguns ajustes ou reformas, mas o mundo capitalista neoliberal permaneceria como horizonte insuperável para a humanidade. O vírus vem mostrar que não é bem assim e, nessa perspectiva, ele é pós-moderno, uma vez que destrói todas as certezas dadas e herdadas, mostrando que mundos diferentes – não necessariamente melhores – podem ser pensados, construídos e vividos”, assinala.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Andityas Matos frisa que os esforços sanitários adotados no Brasil não só “não são histéricos”, como necessários para evitar o colapso do sistema de saúde brasileiro, mas adverte que alguns dispositivos usados em momentos excepcionais podem ser incorporados à normalidade posteriormente. “Nesse contexto, podemos esperar um maior controle biopolítico dos corpos, um agravamento da hiperindividualização neoliberal e a sistemática substituição de qualquer contato humano por mediações virtuais”, vislumbra.

O pesquisador também comenta os pronunciamentos e declarações feitos pelo presidente desde que os casos de Covid-19 começaram a ser registrados no país. “Bolsonaro tem mantido uma linha muito clara, que consiste em tensionar ao máximo possível as instituições formais da democracia brasileira. Meu palpite é que o núcleo duro de olavistas que controla a família Bolsonaro pode estar preparando as condições sociais para um golpe de Estado ou um autogolpe no estilo de Fujimori”, afirma. Os indícios disso, pontua, podem ser vistos nas ações do presidente: “Bolsonaro repetida e metodicamente ridiculariza e minimiza a maior crise de saúde do mundo contemporâneo, gerando ódio, polarização e desespero nas redes sociais e na sociedade em geral”.

Andityas Matos (Foto: Arquivo Pessoal)

Andityas Matos é graduado em Direito, mestre em Filosofia do Direito e doutor em Direito e Justiça pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG e em Filosofia pela Universidade de Coimbra. Atualmente leciona na Faculdade de Direito da UFMG. É autor de, entre outros, Más allá de la biopolítica: biopotencia, bioarztquía, bioemergencia (Documenta Universitaria: Girona, 2020), escrito em conjunto com Francis García Collado, e Representação política contra democracia radical: uma arqueologia (a)teológica do poder separado (Belo Horizonte: Fino Traço, 2019).

 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - No artigo “Intrusão viral”, escrito em conjunto com Murilo Corrêa, o senhor diz que os intelectuais, em particular alguns filósofos, erram o alvo ao analisar a pandemia de Covid-19. Filosoficamente, como analisa a crise global gerada por essa pandemia?

Andityas Matos - O que tentamos testar no artigo foi um tipo de falar verdadeiro – parrhesía, em termos gregos – que, diante do risco pandêmico que de diferentes maneiras emudece o pensar, fosse capaz de estar à altura do tempo-de-agora. O fato central que todo pensamento deve considerar é que o coronavírus é, obviamente, um vírus, e como todo vírus, é uma forma de vida, ou ao menos um dispositivo biológico de intrusão na vida. Isso significa que estamos lidando com algo que, estruturalmente, ultrapassa qualquer medição, qualquer valor. A vida, em sua dimensão imanente e indeterminada, é antes de tudo potência, ou seja, capacidade de se criar, de se transformar, de se espalhar. A biopotência designa essa especial característica explosiva e mutante da vida, que não reconhece limites e, por isso mesmo, aponta sempre para um além [1].

É evidente que aqui não se trata de um vitalismo inocente ou da celebração da “força dos seres vivos”. Como Derrida já deixou claro, o fundo oculto da vida – de qualquer vida – é a morte, razão pela qual ele usa o conceito de vida-morte em seus textos. De fato, é a partir da morte que a vida se articula e se faz potente, de modo que nós não vivemos simplesmente, mas (sobre)vivemos, o que significa que vivemos sobre alguma coisa, apoiados em algo, em um fundo que nos funda (e um dia nos afunda): a morte. Toda vida carrega em si a morte como parte constitutiva de seu ser, como aquela parcela de potência-de-não que completa a potência, já que a potência não significa tudo poder. O que eu não posso também me constitui, também me individualiza e me caracteriza. Nesse sentido, o não-poder é talvez o mais próprio, o mais íntimo de cada ser.

É curioso nesse sentido analisar as medidas de segurança contra o coronavírus que pretendem poder mais que a potência do humano pode, como se o encerramento de todos em suas casas pudesse conter o avanço viral, como se máscaras e álcool em gel (isso ainda existe neste país?) pudessem agir como barreiras diante de algo que nos invade das mais diversas e impensadas maneiras. Não se trata aqui de minimizar as estratégias de controle por parte dos serviços de saúde pública e das pessoas em geral, como governantes irresponsáveis como Bolsonaro e Trump fazem. Evidentemente, esses esforços sanitários não são “histéricos” como anuncia Bolsonaro, mas sim medidas fundamentais para evitar o colapso do sistema de saúde pública no país, já deficitário em situações de normalidade. Todavia, nenhuma medida médico-sanitária é capaz de evitar a transmissibilidade do vírus, que só pode ser controlada em certa medida. Por isso mesmo, entendo necessário atingir um estado de consciência claro em que se possa pensar e não simplesmente entrar em desespero ou ceder a cada nova medida de segurança, por mais absurda que seja, imposta pelos poderes de turno.

Limites

O falar-franco exige que saibamos que nada do que possamos fazer vai acabar com o coronavírus do dia para a noite e que a pandemia vai durar muito tempo. Alguns falam que o isolamento social pode durar algo em torno de 18 semanas. Por outro lado, se a potência do vírus é grande para se infiltrar em nossas casas e mentes, ele também se define, como qualquer vida, por sua potência-de-não, e isso talvez nos tranquilize: o vírus não pode dizimar a humanidade, ele não é o fim do mundo que alguns esperam. É entre a impossibilidade de contermos o vírus e a impossibilidade dele nos destruir enquanto espécie que devem ser pensadas as potências positivas, indicando a possibilidade de uma con-vivência entre esses dois universos de vida-morte: nós e o vírus. E isso compreendendo que, em certa medida, nós somos o vírus, pois ele só existe e se espalha em razão de uma série de redes, filamentos, relações e comunicações que nossa espécie criou e que determinam a estrutura político-econômica capitalista.

IHU On-Line - Neste mesmo texto, o senhor diz que “a intrusão de um vírus não produz revolução alguma, mas nos recorda da urgência política da extrusão de um mundo”. Que mundo é este que deveria ser trazido à tona?

Andityas Matos - Eu não acho que a filosofia deva fazer futurologia, no sentido de prescrever ao mundo como ele deve ser. Por outro lado, entendo que a filosofia também não deve se omitir de falar sobre o presente, como se aguardasse um improvável assentamento dos problemas para criar teorias gerais, tal como certa tradição hegeliana aconselha. Nesse sentido, mais do que falar do mundo que virá, me interessa pensar neste nosso mundo e nas saídas, riscos e rupturas que se abrem agora. Parece-me que neste momento o pensamento desinstituinte é mais potente do que o pensamento constituinte, ainda que ambos mantenham relações importantes e não possam ser totalmente separados. Permito-me então reformular sua pergunta e questionar não qual mundo deve ser trazido à tona, nas sim qual mundo deve ser objeto de extrusão. E a resposta só pode ser: um mundo em que todas as escolhas parecem já ter sido feitas e não nos resta nada senão seguir a trilha preestabelecida. Contra isso vem a pandemia que se comporta como um verdadeiro evento, que força as portas da história para mostrar que ela pode ser diferente. Há muito tempo as pessoas creem que a política de verdade, aquela que está no campo de um perene indecidível, acabou porque as decisões técnicas, de natureza econômica por exemplo, já foram todas tomadas, sendo impossível construir mundos diferentes deste que aqui está. O que se poderia fazer seria apenas alguns ajustes ou reformas, mas o mundo capitalista neoliberal permaneceria como horizonte insuperável para a humanidade.

O vírus vem mostrar que não é bem assim e, nessa perspectiva, ele é pós-moderno, uma vez que destrói todas as certezas dadas e herdadas, mostrando que mundos diferentes – não necessariamente melhores – podem ser pensados, construídos e vividos. Quem imaginaria que hoje teríamos no mundo inteiro mais de um bilhão de pessoas em confinamento? Há seis meses isso não passaria de um roteiro de filme de ficção científica. Nenhum analista, economista ou intelectual poderia sustentar seriamente essa previsão. No entanto, aconteceu.

Transformação da sociedade

A realidade é perene mudança, fluxo, contingência, e sabendo disso não deveria ser impossível decidirmos transformar nossas sociedades, em especial a dimensão capitalista que aparece, muito mais do que como simples sistema econômico, como uma duríssima religião cultual na qual, contra todas as evidências, as pessoas creem de forma dogmática, acrítica e bovina. Uma das virtudes do evento-vírus é então escancarar o caráter histórico, precário e passageiro do capitalismo, que não existiu sempre e não existirá para sempre. A relativização da teologia política da culpa, do sacrifício e da hiperindividualização do capitalismo é uma entre as possibilidades que se abrem diante de um evento tão imprevisível, potente e ameaçador como a pandemia.

IHU On-Line - Vislumbra a possibilidade de alguma transformação global a partir desta crise gerada pela Covid-19?

Andityas Matos - Como eu disse acima, tudo está em jogo, tudo está em disputa, tanto em cenários mais amplos como nas plataformas locais. Só o filósofo universal do tipo hegeliano faz previsões globais, quase sempre desmentidas pelo dia seguinte; eu prefiro observar as zonas de interseção e confusão, as contradições, os movimentos randômicos, estar atento a certa tonalidade do real. Acho que todo evento como a Covid-19 abre possibilidades até então inéditas e impensadas. O problema é que o mero evento, por si só, não gera transformações. É preciso que as pessoas se abram aos eventos, se deixem impressionar e subjetivar de outras maneiras pelos eventos.

O que há de mais forte na Covid-19 em termos de incrementação de democracias radicais, que é o que me interessa, é a percepção aguda do caráter histórico, falível e revolucionável das instituições sociais, econômicas, jurídicas, políticas etc. É muito importante também o ethos comunitário que pode surgir da pandemia, levando as pessoas a compreenderem o óbvio: nós vivemos em um ambiente, não somos mônadas individuais, e o que acontece a uma pessoa repercute, positiva ou negativamente, nas outras. A lógica hiperindividualista do capitalismo é insustentável em condições de normalidade. Em condições excepcionais, de emergência pandêmica, ela é absolutamente suicida e esquizofrênica, ou seja, ela se revela como de fato – e sempre – é.

Deus-capital

Por isso governantes como Bolsonaro e Trump apelam para a idolatria econômica, aceitando claramente que alguns milhares vão ter que morrer para que a normalidade seja restabelecida. Ora, nunca houve normalidade! Que normalidade é essa que esses governantes pretendem fazer valer mais do que a vida daqueles que governam? Trata-se de uma dimensão de idolatria, como já indiquei. O desencantamento do mundo cantado em prosa e verso pelos corifeus da suposta secularização moderna não significa mais do que a substituição funcional da ideia de Deus celeste por um deus terreno chamado capital. Trata-se de um deus absconditus que exige adoração cega, sendo evidente que a idolatria econômica do capital se baseia em uma ideologia sacrificial.

O deus-capital permanece oculto, mas plenamente atuante, estratégia que o torna imperceptível enquanto deus. Isso inviabiliza a imprescindível crítica da religião, fazendo com que o capital seja visto enquanto algo irresistível e onipresente, sem que se perceba que esses são atributos divinos que apenas a crítica radical poderia desvendar e enfrentar. Ao notarmos que hoje o capitalismo tem a capacidade técnica e logística de acabar com a miséria extrema no planeta, percebemos que sua crise e seus fundamentos não são propriamente econômicos, sociais ou políticos, mas éticos e metafísicos. Um exemplo: para eliminar a escassez de água potável em todo o mundo bastaria um investimento de apenas 29 bilhões de dólares, sendo que só em 2014 os estadunidenses gastaram 77 bilhões de dólares com refrigerantes. É a essa normalidade que Trump e Bolsonaro querem retornar.

IHU On-Line - Que mecanismos biopolíticos estão sendo adotados pelos Estados nesta crise global? Eles são justificáveis?

Andityas Matos - Essa questão me parece fundamental. Se acima acenei com algumas potencialidades positivas que a pandemia pode trazer, tais como a percepção do caráter mutável e superável do capitalismo neoliberal e a criação/estreitamento de laços comunitários, é preciso fazer aqui um contraponto e comentar rapidamente as potencialidades negativas que a crise global nos traz. Como sabemos, a figura da biopolítica não é unívoca e sim ambígua, podendo dizer respeito tanto a uma política da vida – que eu prefiro chamar de biopotência – quanto a uma política sobre a vida, de determinação e controle da vida. O aprofundamento da gestão sobre a vida parece ser uma das consequências negativas óbvias da pandemia, com o incremento das tecnologias de detecção de doenças e anormalidades, seguidas pelas previsíveis medidas de exclusão, segregação, limpeza e purificação. Há algumas semanas o filósofo italiano Giorgio Agamben tem escrito breves observações críticas sobre a pandemia [2], indicando que nossa civilização chegou a um patamar em que nada mais importa, apenas a vida biológica, a vida nua desvestida de qualquer outro caráter que não seja a mera continuidade das funções fisiológicas.

O que me espanta não é o tom duro de suas palavras, mas as reações absolutamente míopes, equivocadas e mesmo ferozes com que são recebidas, seja entre a imprensa, seja entre outros filósofos. Para mim, ao contrário, as reflexões de Agamben surgem como uma das únicas apreciações lúcidas – ainda que limitada a seu aparato conceitual, gestado durante mais de 20 anos no projeto homo sacer – do momento em que (sobre)vivemos, quando as pessoas suplicam para serem tuteladas, postas sob contínua vigilância, encerradas em suas casas e, ao final, contabilizadas como meros viventes ou morrentes.

Se a parrhesía é aquela arte grega de dizer a verdade, principalmente diante do risco de um alto custo pessoal, como no caso de Agamben – um idoso italiano com quase 78 anos –, nada ilustra melhor esse modo de vida perdido do que as palavras próprias de um filósofo e não de um qualquer assustado lambe-botas do poder de turno. Contudo, é claro que o texto de Agamben não é perfeito e precisa ser criticado. O que ele talvez deixou de perceber é que as mortes e os riscos da pandemia são compartilhados diferencialmente em sociedades extremamente desiguais, racistas e machistas como a brasileira. Essa é uma crítica geral à obra de Agamben que me parece ter algum sentido, já que ele dedica pouco esforço para compreender a realidade abaixo dos trópicos.

Covid-19: um novo necroagente nas periferias

Aqui o problema não é tanto, ou não é apenas, a transformação das pessoas em zumbis amestrados e obedientes diante do poder, mas sim a desigualdade de distribuições dos riscos, em uma matriz que já não é biopolítica ou tanatopolítica, mas sim necropolítica. Se a biopolítica é o governo dos corpos individuais mediante a disciplina e das massas populacionais por uma série de dispositivos estatísticos, e a tanatopolítica é sua necessária contraface, tal como percebeu Agamben, pois a saúde e a vida de uns depende da exclusão e da morte daqueles que são indignos de viver, a necropolítica é outra coisa, ainda mais radical: trata-se de governar por meio da produção de cadáveres. É exatamente o que Bolsonaro pretende fazer no Brasil: “normalizar” a economia ao preço das mortes de alguns indesejados, sejam idosos que já não mais produzem, sejam habitantes de favelas vistos como inimigos sociais a serem extirpados. É por isso que no nosso artigo, eu e Murilo Corrêa indicamos que a Covid-19 é apenas mais um necroagente a habitar e a disciplinar espaços de exceção brasileiros como as favelas, ao lado das milícias locais e as governantes.

Assim, para além de uma crítica – totalmente cabível – do desastre ético consistente em proteger a vida nua acima de todas as coisas, é preciso aprofundar essa percepção e entender que, em espaços de exceção colonial como o Brasil, se dá o que eu chamo de “exceção da exceção”, de modo que trabalhadores precários, pobres, mulheres, e crianças vão sofrer com muito mais intensidade os efeitos devastadores da pandemia. Os pobres são os mais expostos ao vírus e são eles que estão sendo chamados por Bolsonaro para voltar ao trabalho. Por outro lado, com o confinamento, o nível de violência doméstica contra mulheres e crianças aumentou! Isso quer dizer que a situação é complexa e tem que ser analisada com atenção aos detalhes, em especial aqueles que costumam desaparecer facilmente nas leituras universalizantes.

IHU On-Line - De que maneira esses mecanismos podem ser extrapolados depois que a pandemia passar? Vislumbra riscos nesse sentido?

Andityas Matos - Sim, sem dúvida. No artigo de Agamben ao qual me referi, ele nos lembra que os dispositivos surgidos em momentos excepcionais costumam ser incorporados à normalidade quando ela é restabelecida. Nesse contexto, podemos esperar um maior controle biopolítico dos corpos, um agravamento da hiperindividualização neoliberal e a sistemática substituição de qualquer contato humano por mediações virtuais. Por exemplo: é muito provável que haja um incremento no mercado de ensino a distância, com a consequente desvalorização dos professores “presenciais” e o achatamento dos salários dessa categoria, uma vez que a pandemia nos terá “ensinado” que é possível não apenas complementar o ensino presencial com o ensino a distância, mas substituir totalmente aquele por este. Tal movimento de mediação virtual ou eletrônica me parece que vai se tornar geral, com o incremento dos serviços de entrega e de transporte sendo totalmente automatizados, tal como a Uber já vem fazendo em escala reduzida. Evidentemente, a transferência de recursos públicos para entidades privadas vai se fortalecer ainda mais durante e depois da pandemia, com o Estado resgatando bancos e companhias aéreas com a desculpa de salvar a economia, quando na realidade salva certo tipo de economia, ou seja, aquela baseada no lucro e na espoliação contínua dos mais pobres.

Isolamento

Ademais, não se pode desconsiderar o potencial totalitário dos isolamentos aos quais estamos nos acostumando, que podem servir no futuro próximo não para enfrentar pandemias, mas sim para a consecução de objetivos políticos e ideológicos, tal como a contenção e o esvaziamento de movimentos de contestação ao governo. Ainda que os confinamentos sejam necessários neste momento, eles demonstram aos governos como é relativamente fácil manter enormes populações isoladas de si mesmas, disciplinadas e apavoradas, de modo que as ruas se tornam cenários por onde transitam apenas policiais, entregadores de comida e agentes sanitários.

IHU On-Line - Recentemente o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han publicou um artigo em que analisa as diferenças no modo como países asiáticos e ocidentais estão enfrentando a pandemia de Covid-19. Segundo ele, os asiáticos, por seu modo de vida, uso de tecnologias, relação com o Estado e visão de mundo, estão lidando melhor com a pandemia. Ele destaca como positivo o fato de que países asiáticos como Japão, Coreia do Sul, China, Hong Kong, Taiwan e Singapura têm uma mentalidade autoritária, que vem de sua tradição cultural e o uso da vigilância digital. Como analisa o tratamento dos países asiáticos e ocidentais à Covid-19 à luz dos seus estudos sobre biopolítica?

Andityas Matos - O artigo de Byung-Chul Han é notoriamente inconsistente, segundo me parece, construído com argumentos bastante superficiais como, de resto, costumam ser suas obras. Antes de tudo, entendo que essa abordagem “Europa x Ásia” não é realista, como se se pudesse resumir duas estratégias de combate à pandemia a dois blocos culturais monolíticos. Ora, certamente a Suécia, a Islândia e a Espanha não combatem igualmente o coronavírus. Da mesma maneira, China, Vietnã e Tailândia não utilizam os mesmíssimos dispositivos e técnicas de controle viral. É um erro palmar, já denunciado por Edward Said na obra Orientalism, analisar comunidades humanas extremamente diversas e complexas no tempo e no espaço sob a rubrica de conceitos gerais e indeterminados como “Ásia” ou “Oriente”.

Temor e encantamento

Só para citar um exemplo do texto de Han, dizer que a Ásia tem uma dimensão pragmática em razão do confucionismo é absurdo, dado que Confúcio não tem tanto significado para um japonês quanto para um chinês, e mesmo na China há tradições outras que tornam problemática essa abordagem reducionista. Todo o texto de Han está impregnado por um ranço de “choque de civilizações” à la Huntington, pretendendo apresentar uma narrativa monolítica em que há um ganhador – a “Ásia” – e um perdedor – “A Europa” –, o que me parece uma maneira extremamente inadequada de tratar problemas que se dão nas contradições imanentes e permanentes do real, que jamais se deixa resumir a fórmulas feitas. Nas últimas linhas do texto, Han expressa seu temor de que o estado policial algorítmico chinês seja exportado com sucesso para todo o mundo após o fim da pandemia – o que, de fato, é um risco real –, mas em praticamente todo o texto é constante o tom de encantamento com as maravilhas do big data oriental e da vigilância digital.

Ásia X Europa

A cada vez que Han repete seu mantra – “a Europa está fracassando contra o coronavírus” – ele apresenta, como contraponto, uma tecnologia oriental qualquer para dizer como as coisas são diferentes na Ásia, onde as pessoas seriam mais obedientes, menos individualistas e nem um pouco críticas com o Estado, razão pela qual seus dados podem ser incessantemente captados e compartilhados pelo Estado e por empresas. Minha sensação ao ler o artigo de Han é ter diante de mim um roteiro de Black mirror, mas sem o necessário senso crítico que se espera de alguém que se apresenta como filósofo.

Outro erro de Han é sustentar que não existe individualismo na “Ásia”, como se o individualismo fosse uma categoria puramente ocidental e os orientais não passassem de obedientes abelhas trabalhadoras. Tudo isso só pode ser sustentado com um incessante acúmulo de clichês que não vão ao fundo do problema, que não repercutem as vozes menores, que não veem nem querem perceber as arborescências caóticas e mutantes da realidade, preferindo criar essas grandes categorias como “os orientais”, a “Ásia”, a “soberania” (esta última criticada por Han, exatamente por ser “europeia” e “velha”). De qualquer modo, ainda que superemos as evidentes simplificações do artigo para reter sua tese central, segundo a qual a cultura autoritária, metódica e não individualista da “Ásia” seria mais eficiente do que a liberal, hedonista e individualista cultura da “Europa” para vencer o vírus, seria o caso de retomar a crítica de Agamben a que já me referi.

O que queremos salvar?

O que queremos salvar? Só a vida biológica, a vida nua? Uma sociedade que desconhece a liberdade subjetiva (como parece acreditar Han ser o caso da “Ásia”) e a possibilidade de crítica, em especial contra o Estado e o mercado? Qual é a grande vantagem desse oriente tecnocrático? Aliás, o que significa eficiência em uma cultura que, como parece indicar Han, renunciou ao pensamento crítico sobre si mesma? Não posso falar por ninguém, mas eu prefiro me submeter à ineficácia “europeia” – notemos que Han, previsivelmente, não dedica uma linha sequer à África e à América Latina – ao invés de abrir mão do pensamento crítico. Vida não é apenas vegetar, comer e excretar, mas, principalmente, pensar.

Combate à Covid-19

Por fim, uma questão importante, quando se trata de eficácia no combate ao vírus. Ao que me parece, a estratégia mais adequada contra o vírus é o próprio vírus, ou seja, o contágio. Na medida em que as pessoas adquirem a doença e são imunizadas, o que parece acontecer com a maioria delas, o vírus deixa de ser um problema. Dessa maneira, o isolamento social, tal como vem sendo feito na Europa e no Brasil – de maneira horizontal e não vertical, como querem os demagogos, que fique bem claro – é uma estratégia inteligente porque controla o ritmo do contágio, de maneira a não colapsar o sistema médico-sanitário.

Para vencer a pandemia, em algum momento todos nós teremos que ser contagiados, com exceção de grupos de risco bem definidos. As estratégias asiáticas elogiadas por Byung-Chul Han se baseiam em um pressuposto completamente diferente, pois apostam na identificação e na segregação social sumária dos infectados, de sorte que a população não é exposta ao contágio e permanece “pura”. Ora, isso me parece altamente ineficaz, uma vez que o coronavírus veio para ficar. Prova disso é que, apesar de ter zerado o contágio interno em certo momento, a China começa agora a se preocupar com novos casos da doença trazidos por estrangeiros ou chineses que retornam ao seu território. Em uma população não imunizada – seja por contágio ou por uma vacina, que ainda parece ser um horizonte distante – o coronavírus será uma perpétua ameaça, um constantemente reativável estado de exceção viral.

IHU On-Line - Como o senhor lê o posicionamento do presidente Bolsonaro diante da pandemia de Covid-19, especialmente a partir do pronunciamento na noite de 24-03-20 e, de outro lado, o panelaço e as críticas feitas ao presidente?

Andityas Matos - Evidentemente, Bolsonaro e seu círculo não têm qualquer capacidade para governar o Brasil, uma vez que baseiam suas condutas em suposições delirantes, notícias falsas, ódio e irracionalismo, estando sempre prontos para acirrar os conflitos sociais em curso. Nessa perspectiva, muitos viram o inacreditável pronunciamento do dia 24-03-20 como prova de incapacidade política ou mesmo sintoma de oligofrenia. Todavia, não acho que seja isso, ou apenas isso. Bolsonaro, com seus pronunciamentos na TV e suas intervenções nas redes sociais, tem mantido uma linha muito clara, que consiste em tensionar ao máximo possível as instituições formais da democracia brasileira. Nesse sentido, se é loucura o que ele vem fazendo, há método nessa loucura, como dizia Polônio no Hamlet, de Shakespeare.

Golpe de Estado

Meu palpite é que o núcleo duro de olavistas que controla a família Bolsonaro pode estar preparando as condições sociais para um golpe de Estado ou um autogolpe no estilo de Fujimori. Muitos indícios apontam para isso. Vejamos: Bolsonaro repetida e metodicamente ridiculariza e minimiza a maior crise de saúde do mundo contemporâneo, gerando ódio, polarização e desespero nas redes sociais e na sociedade em geral. Ao mesmo tempo, começam os panelaços – antes tarde do que nunca – no Brasil inteiro, exigindo seu impeachment. Olavo de Carvalho vem a público, estranhamente resignado – o que não combina com seu estilo espalhafatoso –, avisar que “talvez seja tarde demais” para Bolsonaro porque ele “não desarmou seus inimigos”. Mais polarização, mais desespero. São protocolizados por deputados três pedidos de impeachment de Bolsonaro na Câmara.

Nesse meio tempo, o clã Bolsonaro consegue arrumar uma briga patética e infantil com a China, os casos de Covid-19 aumentam aceleradamente e Bolsonaro entra em choque frontal com os governadores estaduais, acusando-os de serem irresponsáveis, uma vez que estariam “histéricos” com a “gripezinha”. Quando se anuncia que haverá um pronunciamento do presidente em cadeia nacional, espera-se que ele assuma uma postura minimamente conciliadora, mas ele faz exatamente o oposto e agrava a níveis intoleráveis a polarização social. É como se Bolsonaro estivesse suplicando para que se iniciasse um processo formal de impeachment na Câmara, para que ele então possa realizar algo semelhante a um autogolpe, com intervenção nos Estados federados, fechamento ou limitação do Poder Legislativo e do Judiciário e perseguição generalizada e letal a oposicionistas, movimentos sociais e resistentes; e tudo isso sob a desculpa do patriotismo, da caça aos comunistas, da proteção à economia, dos valores da família brasileira e quejandos.

A quem essa análise possa parecer exagerada, é salutar relembrar o que pensam os Bolsonaros de instituições como o Supremo Tribunal Federal, que pode ser fechado por um cabo e um soldado, ou o Congresso Nacional, que “não deixa o presidente governar”. Em inúmeras ocasiões Bolsonaro não só defendeu ardorosamente a ditadura militar iniciada em 1964, mas advogou medidas autoritárias e necropolíticas a serem aplicadas no presente, tal como quando disse que para se consertarem as coisas no Brasil precisam ser mortas umas 30 mil pessoas, “no mínimo”, ou que os “petralhas” deveriam ser fuzilados. Ao que me parece, Bolsonaro e o núcleo olavista, superestimando seu capital político já bastante desgastado, pretendem efetivamente instaurar um governo formalmente autoritário e unipessoal no Brasil. As diversas referências ao estado de sítio feitas por Bolsonaro nos últimos dias são mais uma indicação nesse sentido.

Dessa maneira, julgo que qualquer medida para o necessário impeachment de Bolsonaro deve ser tomada de maneira muito inteligente e cuidadosa, tendo em vista as correlações de força entre o Legislativo, o Judiciário e, evidentemente, as forças armadas e os movimentos sociais e de resistência. Deve haver um verdadeiro respaldo popular e institucional, sem o que teremos o desastre absoluto de uma ditadura bolsonarista e a guerra civil que daí poderá surgir.

IHU On-Line - Como a pandemia de Covid-19 e as medidas adotadas pelos governos colocam em evidência as desigualdades e antagonismos que existem no Brasil?

Andityas Matos - O que um momento de crise extrema traz não é a transformação geral e imediata das condições da existência, mas sim sua agudização, sua visibilização. É por isso que teóricos como Carl Schmitt e Giorgio Agamben afirmam que a verdade se revela nos extremos. Nesse contexto, temos que nos lembrar que o Brasil foi formado a partir de um contexto originário de exceção [3], a qual permanece latente em seu corpo social e aflora em tempos problemáticos, nos quais a rígida divisão social entre cidadãos de primeira categoria e vidas dispensáveis é trazida à tona e reafirmada.

Com a pandemia não é diferente, dado que as medidas sanitárias e médicas necessárias à manutenção da saúde não são socialmente distribuídas com igualdade. Pensemos nos entregadores de comida, nos empregados de supermercados e farmácias que são obrigados a continuar trabalhando e nem sequer recebem máscaras para sua proteção ou álcool em gel para limpeza, como no conhecido caso de uma rede de farmácias de Belo Horizonte que não fornece a seus funcionários o álcool em gel sob o pretexto de que está em falta no mercado, mas o manipula e vende aos clientes a preços até cinco vezes mais caros do que o normal; pensemos na população de rua que está completamente abandonada à própria sorte e que se lava quando chove; pensemos nas prostitutas do Baixo Centro em Belo Horizonte que, por já não terem clientes e renda, são expulsas dos hoteizinhos infectos onde trabalhavam e não têm para onde ir; pensemos nos trabalhadores de serviços essenciais que são obrigados a compartilhar ônibus e metrôs lotados. Poderíamos multiplicar infinitamente os exemplos.

O que talvez haja de novo na presente situação é o pavor que a classe média sente ao saber que, com a rápida multiplicação dos casos de coronavírus, seus planos de saúde de nada adiantarão, já que o sistema de saúde brasileiro pode ruir mais rapidamente do que o italiano, de modo que o isolamento social, mais do que de compaixão ou empatia, deriva de uma necessidade de sobrevivência.

Outro dado curioso e não tão novo é a fala de personagens como Bolsonaro e os empresários que o apoiam, quando sustentam a necessidade de voltar ao trabalho para que a economia não seja destruída, já que com o isolamento tudo irá parar e não teremos mais o que comer, mergulhando em um cenário apocalíptico similar ao da série The walking dead. Essas afirmações são evidentemente mentirosas, uma vez que o isolamento não é total e setores estratégicos continuam trabalhando e produzindo. O que sofre um certo desaceleramento é a expropriação intensiva a que estão acostumados os trabalhadores brasileiros, o que sofre prejuízos são as negociatas das bolsas e seus títulos podres, que quase já levaram o mundo a um verdadeiro fim em 2008. E isso esses personagens não podem aceitar, ainda que tenham que ser contraditórios, o que nunca foi um problema para eles. Como alguém pode dizer hipocritamente, como Bolsonaro, que defende a vida e por isso condena o aborto e ao mesmo tempo autorizar a morte de milhares de pessoas porque a economia não pode parar?

IHU On-Line - Que lições poderemos tirar da crise global que assola o mundo hoje por causa da pandemia de Covid-19?

Andityas Matos - Acho que já indiquei isso em minhas outras respostas, mas vale a pena sintetizar agora, mesmo que tudo ainda seja muito nebuloso para falarmos em lições. Entendo que a pandemia nos mostra que todos estamos no mesmo barco, apesar de os riscos serem compartilhados diferencialmente. Assim, é preciso fortalecer nossos laços sociais e o compromisso com o ambiente que nos cerca, seja ele “humano” ou “natural”, tendo em vista inclusive que essas díades – humano e animal, natural e cultural etc. – foram subvertidas e ressignificadas pela pandemia, tal como tentei demonstrar no artigo escrito com Murilo Corrêa. Tal só é possível mediante uma transformação radical nas nossas mentalidades, de maneira a criticar e a superar os pressupostos da sociedade capitalista neoliberal: individualismo, lucro, exploração humana e natural, primado da economia e mito do progresso.

A maior das lições, da qual nos esquecemos constantemente porque é difícil conviver com ela, é que somos todos mortais e que o mundo não é previsível e não cabe nas telas das bolsas de valores. Temos que cuidar de nossas vidas em conjunto, mas também de nossas mortes, e isso significa entender que a cada dia estamos menos aqui e mais em algum outro lugar, o que nos deveria levar a uma espécie de compromisso ético em bem viver para bem morrer, o que não é possível em um sistema que prefere vender hambúrgueres ao invés de proteger vidas humanas (e não humanas).

Notas do entrevistado:

[1] Sobre biopotência, cf. COLLADO, Francis García; MATOS, Andityas Soares de Moura Costa. Más allá de la biopolítica: biopotencia, bioarztquía, bioemergencia. Documenta Universitaria: Girona, 2020. O livro em castelhano, ainda sem tradução para o português, pode ser encontrado aqui.

[2] Traduzi esse texto. Acesso aqui.

[3] Escrevi um artigo sobre isso. Acesso aqui.

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