Diante de novas acusações de escândalo financeiro, Vaticano revida

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23 Outubro 2019

Em 2009, eclodiu um frenesi em torno do então editor do jornal dos bispos italianos, um leigo chamado Dino Boffo, a partir de relatos midiáticos sombrios sobre a sua suposta má conduta homossexual, primeiro, e, depois, quando as acusações se revelaram falsas, de especulações sobre quem as havia criado. Muitos teorizaram um complexo complô envolvendo o secretário de Estado do Vaticano, o chefe dos gendarmes vaticanos e o editor do jornal vaticano.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada em Crux, 22-10-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Durante todo o processo, o Vaticano ficou mudo por longos 18 dias, até que finalmente emitiu uma refutação. Nesse ponto, as pessoas já haviam assumido o silêncio como consentimento, e um jornal italiano divulgou essa notícia com a seguinte manchete: “Vaticano nega tudo. Ninguém acredita nele”.

A se julgar por essa terça-feira em Roma, todos os homens do papa estão determinados a não deixar que essa história se repita.

Enfrentando uma nova onda de supostos escândalos financeiros, com uma grande reportagem publicada na revista mais lida da Itália e escrita por um renomado jornalista no domingo e o lançamento de um novo livro há uma semana, nessa terça-feira o império revidou, com dois dos conselheiros mais próximos do papa indo para a ofensiva.

“Para mim, parece que o que está em curso, mais do que qualquer outra coisa, é uma estratégia precisa para nos desacreditar”, disse o cardeal hondurenho Óscar Rodríguez Maradiaga, membro do conselho de cardeais conselheiros do papa e um de seus aliados mais próximos.

“Eles querem atingir o papado”, disse o prelado hondurenho de 76 anos em entrevista ao jornal de maior circulação da Itália, o La Repubblica. “Primeiro, eles retratam uma Igreja composta majoritariamente por pedófilos, agora mostram uma imprudência econômica. Mas não é assim.”

Enquanto isso, o bispo italiano Nunzio Galantino, nomeado pelo Papa Francisco em junho passado como o novo chefe da Administração do Patrimônio da Santa Sé (APSA), a verdadeira central financeira do Vaticano, também saiu para o ataque em uma entrevista ao Avvenire, o jornal dos bispos italianos.

Galantino também é visto como um aliado papal extremamente próximo.

“Não há nenhum ‘crack’ ou falência aqui”, disse ele sobre as contas do Vaticano.

“O tom escandaloso que eu li nas prévias serve para o lançamento de um livro, mas muito menos para descrever uma realidade articulada e complexa como a Igreja, onde ‘articulada’ e ‘complexa’ absolutamente não são sinônimos de ‘secreta’ ou ‘desonesta’, disse Galantino.

Os novos relatos de escândalos financeiros vêm dos jornalistas italianos Emiliano Fittipaldi e Gianluigi Nuzzi, e dizem se basear em documentos vazados, incluindo notas de investigações vaticanas internas. Tanto Fittipaldi quanto Nuzzi foram acusados pelos promotores vaticanos de publicar informações financeiras confidenciais em 2015 em meio àquele que ficou conhecido como “Vatileaks II”, embora, no fim, ambos tenham sido absolvidos por falta de jurisdição.

A reportagem de Fittipaldi na L’Espresso, no domingo, girou em torno de um acordo imobiliário em Londres, no qual a Secretaria de Estado do Vaticano supostamente usou 200 milhões de dólares do Óbolo de São Pedro, uma coleta anual para apoiar a caridade papal, para adquirir uma participação em um antigo depósito da loja Harrods, em Chelsea, a ser convertido em apartamentos de luxo. Mais tarde, a Secretaria solicitou um empréstimo de 150 milhões de dólares ao Instituto de Obras Religiosas, o chamado banco vaticano, para comprar as ações remanescentes da propriedade.

Seguindo as suas obrigações de acordo com as novas regras vaticanas sobre transações financeiras, o banco vaticano relatou o pedido ao promotor de Justiça do Vaticano, desencadeando uma investigação.

Rodríguez Maradiaga rejeitou categoricamente a ideia de que dinheiro para a caridade havia sido desviado.

“O dinheiro do Óbolo de São Pedro usado para operações financeiras? Acho que não”, disse ele.

“A Secretaria de Estado tem recursos de diversas proveniências, não apenas os da caridade do papa, que, por vontade de Francisco, devem ser usados apenas e exclusivamente para boas obras”, disse Rodríguez Maradiaga.

“Não acredito que se tenha feito de maneira diferente”, disse ele.

O cardeal hondurenho também sugere que não é por acaso que essas revelações estão ocorrendo enquanto Francisco está realizando um controverso Sínodo dos Bispos dedicado à Amazônia.

“Durante um Sínodo dos Bispos de conteúdos decisivos isso faz com que se fale de outra coisa”, afirmou.

Enquanto isso, o novo livro de Nuzzi, intitulado “Juízo final”, afirma que o Vaticano está enfrentando uma crise financeira relacionada a uma queda nas receitas, produzindo um déficit que, segundo Nuzzi, “alcançou níveis preocupantes, correndo o risco de levar à falência”.

Nuzzi também sugeriu que parte do problema de obter uma imagem clara da verdadeira situação financeira do Vaticano é a existência de contas secretas na APSA, abrigando propriedades de indivíduos não identificados.

Galantino basicamente disse que tudo isso é falso ou exagerado.

“A APSA não tem contas secretas ou codificadas. Prove-se o contrário”, disse ele. “Na APSA, não existem sequer contas de pessoas físicas ou de outras pessoas jurídicas, exceto dos dicastérios da Santa Sé, das entidades relacionadas e do Governatorado” do Estado da Cidade do Vaticano.

Embora admita que o Vaticano está realizando atualmente uma revisão de gastos, Galantino rejeitou a ideia de falência.

“É preciso uma revisão de gastos para conter os custos com pessoal e as aquisições de material, e estamos trabalhando nisso com grande cuidado e atenção. Portanto, não há nenhum alarmismo sobre uma hipotética falência”, disse.

“Ao contrário, estamos falando de uma realidade que se dá conta de que é preciso conter os gastos”, disse Galantino, “como ocorre em uma boa família ou em um Estado sério”.

Galantino também rejeitou sugestões de que as polêmicas e vazamentos financeiros sejam o produto da resistência interna a Francisco e às suas reformas dentro da Cúria Romana, a burocracia administrativa central do Vaticano.

“Contrapor o papa à Cúria é um clichê jornalístico desgastado”, disse ele. “Todos continuamos trabalhando para equilibrar entradas e saídas, e, portanto, buscamos fazer exatamente e apenas aquilo que o papa quer.”

“Outras leituras têm muito o sabor do ‘Código Da Vinci’, isto é, de uma abordagem absolutamente romanceada da realidade”, disse Galantino.

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