Um Pacto das Catacumbas pela casa comum: O relato de um momento marcante na história da Igreja na perspectiva de um jovem estudante

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21 Outubro 2019

"E hoje, 20 de outubro de 2019, com uma Eucaristia iniciada as 7h (horário de Roma), sobre o mesmo altar que outrora os padres conciliares firmaram seu compromisso que carregaram até a morte, cerca de 40 padres sinodais firmaram o “Pacto das Catacumbas pela Casa Comum”.

O texto é de Guto Godoy, artista sacro. Ele cursa master em arquitetura e arte para a liturgia, no Pontifício Ateneo Sant’Anselmo, em Roma e esteve neste domingo, 20 de outubro, na Catacumba de Santa Domitila e assinou o Pacto das Catacumbas pela Casa Comum.

Eis o depoimento.

Roma, 20 de outubro de 2019... Eram 5h50 da madrugada, o sol ainda não havia despontado e iluminado a majestosa cúpula da Basílica de São Pedro.

E bem ali, próximo ao muro que delimita a cidade-estado do Vaticano, na Via dei Cavalleggeri, um grupo muito diversificado se reunia em volta de alguns ônibus. São bispos participantes do Sínodo, peritos, agentes de pastoral, indígenas, religiosas e religiosos, enfim, o povo de Deus, a Igreja ali estava.

O destino eram as catacumbas de Domitila na Via Adeartina, antigo cemitério cristão, onde foram sepultados diversos mártires do princípio do cristianismo, entre eles Petronila, a própria Flávia Domitila, doadora do terreno para a comunidade cristã, e Nereu e Aquileu que dão nome à basílica semi-subterrânea construída no final do século IV por ordem do Papa Dâmaso I.

Neste mesmo fascinante lugar, em 16 de novembro 1965, poucos dias antes do encerramento do Concílio Vaticano II, tendo como um dos proponentes o nosso Dom Hélder Câmara, cerca de 42 padres conciliares celebraram a Eucaristia e firmaram o Pacto da Igreja servidora e pobre, o Pacto das Catacumbas. Nela, os signatários se propunham a deixar todo sinal de opulência e riqueza, sejam nas insígnias ou na maneira de viver, optando por viverem como os pobres de suas Igrejas particulares, não possuindo imóveis ou contas bancárias em próprio nome. Também recusavam qualquer título que pudesse significar grandeza ou poder.

54 anos depois, por ocasião do Sínodo dos bispos para a região Pan-Amazônica, anunciado pelo Papa Francisco em 15 de outubro de 2017, um grupo de padres sinodais sentiram o desejo de renovar esse compromisso e contaram com a ajuda de teólogos para a redação e atualização do texto, tendo em vista os desafios que se apresentam hoje diante da Igreja.

E hoje, 20 de outubro de 2019, com uma Eucaristia iniciada as 7h (horário de Roma), sobre o mesmo altar que outrora os padres conciliares firmaram seu compromisso que carregaram até a morte, cerca de 40 padres sinodais firmaram o “Pacto das Catacumbas pela Casa Comum”. A Eucaristia foi presidida pelo cardeal Dom Claudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo e presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica, concelebrada pelo cardeal Pedro Barreto, arcebispo de Huancayo – Perú, vice-presidente da REPAM e pelos bispos sinodais que se propuseram a firmar o pacto e por mais meia centena de padres. Dom Cláudio presidiu a Eucaristia revestido com uma estola que pertenceu a Dom Helder Camara e o cálice e a patena utilizados na celebração, pertenceram a Ezequiel Ramin, missionário comboniano italiano, martirizado em Cacoal, Rondônia, aos 32 anos de idade, em 1985 a mando de latifundiários da região.

Na assembleia, religiosas-os, leigas-os e indígenas. Ao todo éramos cerca de 200 pessoas, e aí está a principal diferença entre o primeiro pacto de 1965 e o segundo de 2019: Todos os que estiveram presentes na Eucaristia, não apenas os bispos, puderam assinar o Pacto se assim desejassem.

Na memória pascal de Jesus, a nova e eterna aliança, diante da Santa Trindade, animados e sustentados pelos testemunhos dos mártires que ali foram sepultados e pela memória daquelas e daqueles que derramaram seu sangue na Amazônia, selamos nosso compromisso de cuidado com a casa comum. Assumimos a defesa da floresta em pé, a renovação da opção preferencial pelos pobres em nossas Igrejas, o abandono de toda a mentalidade colonialista , a denúncia de todas as formas de violência contra os povos originários, entre outros compromissos, na busca de uma Igreja mais evangélica, mais sinodal e samaritana.

Antônio Cardoso, músico, compositor e evangelizador, compôs uma bela música chamada “Sob a luz dos mártires da fé”. E enquanto a cantávamos, os presentes se dirigiram ao altar, aquele mesmo altar onde 54 anos antes os conciliares se comprometeram pela primeira vez em abandonar um modelo eclesial de conforto e se lançarem às margens da sociedade para viver com os excluídos, e na folha branca assinaram seus nomes e suas proveniências. Mais do que letra morta, que nossos nomes, ali, escritos naquelas folhas, sejam sinais de um compromisso que levaremos até o fim da vida.

Voltamos aqui,

Quantas vezes forem necessárias.

Depois do concílio a gente se encontrou

Para caminhar com os pobres e Jesus.

Voltamos aqui,

Pra nos redimir na Amazônia,

Pactuamos todos nestas tumbas

Sob a luz dos mártires da fé.

(Sob a luz dos mártires da fé – Antônio Cardoso)

 

 

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