Agnes Heller, uma filósofa radical em busca da aventura da existência

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22 Julho 2019

Ela desapareceu nadando no lago Balaton, na sua Hungria. Assim terminou a vida de Ágnes Heller, com a mesma espontânea e alegre naturalidade que a caracterizou. Sim, porque ela, pequena e frágil, sobreviveu ao gueto de Budapeste em 1945. Ela tinha apenas quinze anos; quase toda a família foi exterminada. "A liberdade sempre significou para mim a libertação do nazismo". Daquela experiência traumática ficou um profundo apego à vida. Ela queria vivê-la plenamente dia a dia, aproveitando tudo o que lhe era concedido; mas sem nunca se esquivar de suas responsabilidades. Talvez inclusive por isso, em cada seu pequeno gesto, no sorriso, na resposta pronta, na réplica reconhecia-se distintamente ela, a filósofa. Seu pensamento era um com sua atuação.

O artigo é da filósofa italiana Donatella Di Cesare, professora da Universidade de Roma La Sapienza, publicado por Il Manifesto, 21-07-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

György Lukács (Foto: Wikipédia)

Por trás da aparente fragilidade, percebia-se uma força extraordinária que lhe possibilitou atravessar o século XX, aquele século tão longo, no qual quase nada lhe fora poupado. Depois do Holocausto, houve uma data que ela jamais esqueceria: a revolução húngara de 1956. Naquela época, Heller já era assistente de György Lukács. Como muitos dissidentes, ele sofreu suspeitas, processos, expulsões e reabilitações. Foi um crescendo irrefreável até que, após 1968 e a primavera de Praga, a situação se tornou insustentável. Acusada de revisionismo, juntamente com outros expoentes da "escola de Budapeste", em 1977, junto com o marido, Ferenc Fehér, coautor de várias obras, teve que deixar definitivamente a Hungria.

Começaram aqueles que ela chamou com uma certa benevolente ironia de "os anos da peregrinação". Primeiro na Austrália, depois nos Estados Unidos onde, na prestigiada New School for Social Research, de Nova York, ocupou durante muito tempo a cátedra que tinha sido de Hannah Arendt.

Ela se orgulhava de ser mulher - de sentir e pensar como mulher. Precisamente por isso tinha acentos críticos em relação àquela emancipação tão mal interpretada, como se fosse apenas uma questão de tomar o poder imitando os homens. A libertação, juntamente com uma relação diferente com o poder, ainda está por vir. Mas em tal contexto apontava o dedo contra a política: "Curiosamente, a esquerda não confiou nas mulheres, embora as primeiras mulheres politicamente influentes tenham sido aquelas ativas nos movimentos socialistas."

É por isso que soa quase um insulto atribuir-lhe - como fazem apressadamente alguns - o rótulo de "aluna de Lukács". Ela não conseguia suportar as classificações do pensamento e não queria se identificar com nenhum dos tantos "ismos" que lhe foram atribuídos. Acima de tudo, nunca quis passar por simples dissidente e nunca se deixou usar pelo liberalismo. Aqueles que ainda a apresentam assim, estão a desrespeitando. Também para apresentar a complexidade de seu caminho, ela escreveu Breve storia dela mia filosofia, publicada pela Castelvecchi em 2016.

Um tanque soviético destruído na praça Móricz Zsigmond, na revolução húngara de 1956. (Foto: Wikipédia)

Sua relação com Marx influenciou profundamente sua reflexão. Assim nasceu a trilogia de obras com as quais logo se tornou conhecida: La filosofia radicale, Teoria dei bisogni, Sociologia della vita quotidiana. É a partir do Marx dos Manoscritti que Heller, já nos anos 1970, identifica nas "necessidades radicais", isto é, uma vida cheia de sentido, um trabalho gratificante, o estudo, a exigência de tempo livre, aquelas necessidades que, justamente porque apontam para uma libertação radical, não podem ser satisfeitas em uma sociedade injusta. Em vez disso, as necessidades alienantes são antitéticas, do consumo insaciável de mercadorias ao conformismo sutil, que sempre criam cada vez mais sujeição. De que "liberdade" fala então o liberalismo?

Eis a virada que se desenha com clareza em sua filosofia radical: é inútil pensar na revolução, imaginada como a tomada do palácio de inverno, na esperança que a vida mude; a forma da vida já deve mudar na espera da revolução. Basta, portanto, com esse círculo vicioso que a filosofia não pode e não deve admitir. Falar naqueles anos de "formas de vida" não era óbvio. Entende-se por que ela se sentiu à vontade entre os intelectuais da Nova Esquerda, crítica, radical, libertária, internacionalista. "Hoje nós sustentamos muitas vezes e de bom grado - ela escreveu em 2013 - que a Nova Esquerda foi derrotada. Mas isso é uma bobagem. Que significado de "derrota" implicaria? Se os sonhos não se realizaram, isso não significa que a revolução seja um engano. As esperanças existem para acelerar o que é efetivamente realizável.

Ela nunca se deu por vencida. Nem na filosofia nem na política. “A pessoa justa existe. O que a torna possível?” Após o ensaio Oltre la giustizia, publicado em 1990, desenvolveu uma complexa filosofia moral. O terceiro precioso volume Un’etica della personalità, de 1998, foi publicado pela Mimesis em 2018. Escolher a si apenas graças ao outro: esta é a aventura da vida de cada um, entretecida por muitas histórias que devem ser reconstruídas cotidianamente. Pode-se dizer que a própria vida seja o fio condutor de sua filosofia radical.

Nos últimos anos retornou à Hungria, onde liderou firmemente a oposição política contra Orbán. Artigos, entrevistas, debates, demonstrações nas ruas. Ela ficou perplexa com o ressurgimento do antissemitismo, alarmada por aqueles impulsos nacionalistas e autoritários capazes de desagregar para sempre o projeto político e cultural da Europa, no qual nunca deixou de acreditar.

 

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