Por um novo modelo de presbíteros para as comunidades

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14 Junho 2019

O Pe. Antonio José de Almeida, da Diocese de Apucarana, Paraná, doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma, professor aposentado da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Curitiba, é um abalizado conhecedor de muitas experiências pastorais, sobretudo no aspecto ministerial. Autor de várias obras nesta área, deu-nos esta entrevista, no horizonte do Sínodo para a Amazônia, que se celebrará em Roma de 6 a 27 de outubro de 2019, com o tema “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”.

Segundo o entrevistado, que nos enviou a entrevista, "na Espanha, foi publicado recentemente um livro sobre Ministérios, formado por um conjunto variado de entrevistas. Dei uma dessas entrevistas e obtive a autorização da editora e da organizadora do livro para ser publicada no IHU".

Eis a entrevista. 

Nas comunidades paulinas, não consta que faltassem pessoas que serviam a comunidade em suas diferentes necessidades e, logicamente, era impossível que uma comunidade não pudesse celebrar a Eucaristia. Será que nós perdemos um pouco o Norte? 

Você destaca uma questão fundamental, no sentido em que as Igrejas do Novo Testamento são o parâmetro das Igrejas de todos os tempos e lugares. Naquelas Igrejas, além do apóstolo fundador e da referência aos Doze, havia diferentes ministérios e, naturalmente, os ministros e ministras necessários para sua vida e missão. Embora seja muito difícil responder à pergunta "quem presidia a Eucaristia nas comunidades do Novo Testamento?", é óbvio que a fração do pão era celebrada pela comunidade e que alguém a presidia. 

Há um estudo clássico de Legrand, teólogo francês discípulo de Congar, segundo o qual "quem presidia a comunidade presidia a Eucaristia da comunidade". Em outras palavras, as comunidades do Novo Testamento não eram um conjunto amorfo, anárquico ou acéfalo, e sim um corpo carismática e ministerialmente articulado. Alguém, em nome da comunidade e do apóstolo fundador, exercia o ministério da unidade daquela Igreja: em si mesma, com as outras Igrejas e com os apóstolos. Este ministro da unidade presidia a Eucaristia. Não havia comunidade sem o seu "presidente"; não havia comunidade sem a Eucaristia. Foi assim na Igreja antiga e durante a Idade Média. Historicamente, o fenômeno de comunidades sem Eucaristia começou nos que eram, no passado, chamados de "territórios de missão". O fato atual de milhares de comunidades sem a celebração da Eucaristia é absolutamente anômalo. Perdemos a consciência da ligação entre Eucaristia e Igreja, no sentido que "a Eucaristia faz a Igreja"; e entre Igreja e Eucaristia: "a Igreja faz a Eucaristia". O direito da legislação, é preciso dizê-lo com toda a clareza, se sobrepôs ao direito da graça! 

Faz anos que você escreve e trabalha sobre uma renovação dos ministérios na Igreja. O que mais o preocupa na situação atual? Por que vê como necessária e urgente uma mudança? 

O que mais me preocupa na situação atual não é nem a diminuição das vocações nem a falta de presbíteros para presidirem as comunidades e, portanto, presidirem a celebração da Eucaristia nas comunidades (mesmo que eu tenha escrito e falado mais disso nos últimos anos). Três situações me parecem muito preocupantes: 

Primeira: uma indevida "sacerdotalização" do ministério presbiteral, no sentido em que a concentração deste ministério no culto tem aumentado, desequilibrando a unidade das três funções: Palavra - Liturgia - Caridade; que o ministério presbiteral tenha também uma dimensão “sacerdotal”, correto; que, porém, esta dimensão se sobreponha e prevaleça sobre as dimensões profética e pastoral, é uma distorção; 

Segunda: o "clericalismo" que ainda persiste na relação presbíteros-comunidade e se manifesta especialmente na concentração do poder, no precário funcionamento de estruturas da participação das comunidades no processo de tomada de decisões e no escasso protagonismo dos leigos na missão da Igreja e sua atuação na sociedade; as invectivas do Papa Francisco contra o clericalismo são absolutamente pertinentes e necessárias; 

Terceira: uma profunda "incomunicabilidade" entre a mensagem da Igreja (representada concretamente pelo clero) e as buscas e respostas existenciais das pessoas, mais visível entre os jovens e entre as pessoas e grupos sociais mais autônomos na sociedade: o processo de secularização e a pós-modernidade avançam, enquanto o processo de renovação da Igreja é extremamente lento; o clero, então... 

Esses desafios – em grande parte comuns com a Igreja na Europa – são, digamos, de tipo qualitativo. Claro que há também o desafio da insuficiência numérica dos presbíteros.

Só no Brasil haveria 70.000 comunidades sem a Eucaristia dominical; mas o que hoje aparece como carência não poderia acabar sendo uma oportunidade para a Igreja?

Vamos por partes. A diminuição das vocações e, consequentemente, a falta de párocos em certas áreas da Igreja, especialmente em alguns países da Europa, é mais evidente do que em muitos países da América Latina. O problema em alguns dos nossos países é, até certo ponto, historicamente crônico. Nunca tivemos, com raras exceções, clero suficiente para uma evangelização profunda e coerente. A hegemonia católica no Continente, de certa forma, escondia essa realidade. 

Em alguns países, nos últimos anos, tem-se observado até certo aumento de vocações e ordenações. No entanto, a proporção entre padres-população católica, padres-população total continua sendo inadequada. O problema é mais crítico na região amazônica, nas periferias das grandes cidades e nas áreas de recente colonização, onde as distâncias são enormes e a população extremamente dispersa. Na Amazônia, pode acontecer de uma comunidade ficar sem celebração da Eucaristia por 1 ou 2 anos. 

A consciência desse desafio, no horizonte de um projeto consistente de evangelização, pode, sim, ser uma oportunidade para a Igreja, com a condição de que, em resposta a este desafio, não se repita ou se reforce um modelo inadequado de presbíteros. Não queremos simplesmente mais sacerdotes, queremos um modelo de presbíteros identificado com as pessoas em seu mundo pessoal, social e cultural, inserido (realmente, membro por completo) em sua comunidade, participando ativamente na vida e missão dela, bom homem, bom cristão. Mais padres, sim, mas que tipo de padre? Da comunidade a serviço da comunidade! 

A disciplina relacionada ao ministério presbiteral foi mudando ao longo da história da Igreja. Que consequências podemos tirar disso? 

Há algo no ministério presbiteral que poderíamos chamar de estrutural e inúmeros elementos e condições que poderíamos chamar de conjunturais. É relativamente fácil descrever o conjuntural e muito difícil definir o estrutural. Por paradoxal que isso possa parecer. De qualquer forma, ao longo da história, nos deparamos com figuras muito diferentes de padres. 

Se compararmos o presbítero-epískopo da Primeira Carta a Timóteo – esposo de uma só mulher, capaz de ensinar, que saiba governar a própria casa e cujos filhos lhe obedeçam e respeitem (cf. 1Tm 3,2-5) – e os sacerdotes da II Concílio de Latrão (1139) – proibidos do modo mais absoluto de viver com as esposas (can. 3) – é claro que as duas figuras sociais e a disciplina subjacente são muito diferentes. 

Isso, naturalmente, envolve inúmeras questões históricas, teológicas, pastorais e canônicas. O mínimo que se pode dizer é que tanto a disciplina quanto a interpretação teológica mudam. A principal consequência é óbvia: se muda, é porque, dentro de certos limites (colocados pelos dados estruturais da fé), pode mudar e, não só pode, mas muitas vezes deve mudar. Às vezes, muda devido à adaptação à cultura. Outras vezes é necessário mudar por obediência ao Evangelho! O exemplo que me ocorreu antes tem a ver com a questão do matrimônio, que, no entanto, é apenas (mas muito importante!) uma questão entre muitas outras. Se não me engano, diz Küng (mas também poderia ser Rahner): para manter (o estrutural), devemos mudar (o histórico, cultural, disciplinar...). O ser humano é histórico; a Igreja é uma realidade histórica. 

Que novas características o Vaticano II introduz em relação aos ministérios leigos? 

O Concílio não usa esta expressão nem a expressão que se impôs na teologia, durante e depois da chamada "teologia dos ministérios", nas décadas de 1970 e 1980: "ministérios não ordenados". Os ministérios não ordenados não foram objeto de uma discussão ex professo no Concílio como o foram os ministérios dos bispos, dos presbíteros e dos diáconos, os quais, além do que está na Constituição Lumen Gentium (21-29), mereceram três decretos específicos (Christus Dominus, Presbyterorum Ordinis e Optatam totius).

Os ministérios não ordenados no Vaticano II remetem na verdade à totalidade da eclesiologia conciliar e, especificamente, à chamada eclesiologia da totalidade, segundo a qual todos e cada um dos membros da Igreja, em virtude do batismo, da confirmação e da eucaristia, são vistos, primeiro, em sua dignidade cristã e eclesial; segundo, em seu valor carismático; e, terceiro, em sua participação ativa na vida e missão da Igreja, na Igreja e no mundo. 

No meu entender, destes três elementos, em relação aos ministérios não ordenados, o segundo é o decisivo. Em outras palavras, os cristãos e as cristãs são dotados de uma pluralidade inesgotável de carismas (ver 1Cor 12, em particular), nas modalidades concretas que estes assumem em cada época, lugar e contexto eclesial e sociocultural. Alguns destes carismas podem assumir e, de fato, assumem a forma de um serviço preciso ou, mais estritamente, de um ministério. 

Neste sentido, além dos ministérios ordenados, a Igreja, para sua vida e missão, é dotada de diferentes carismas, alguns dos quais podem se tornar ministérios. A constituição Lumen Gentium abre esta perspectiva nos parágrafos 4, 7, 12, 18 e 32; o decreto Unitatis redintegratio, no parágrafo 2; o decreto Apostolicam actuositatem, nos parágrafos 2 e 3. O Vaticano II, portanto, ainda que não fale especificamente de ministérios não ordenados, levou alguns teólogos, depois do Concílio e por causa do Concílio, a afirmar que a estrutura social da Igreja, mais do que conformada pela hierarquia, por um lado, e leigos, por outro, é "comunidade" estruturada por “carismas e vários ministérios”: ordenados (bispo, sacerdotes, diáconos) e não ordenados. 

Em muitos países latino-americanos, especialmente no Brasil, nos anos conciliares e pós-conciliares, assistimos, de acordo com a feliz expressão do biblista Carlos Mesters, a uma "explosão de ministérios"! Interpreto este fenômeno assim: a nova consciência eclesial-eclesiológica oferecida pelo Vaticano II, projetos evangelizador-pastorais de grande envergadura e respiro, as respectivas necessidades das comunidades e a escassez de clero criaram as condições para esta explosão de novos ministérios entre nós. 

Mas não vamos idealizar. A primavera foi nos anos 60-70. A ‘mudança climática’ das três décadas seguintes – no caso, um inverno eclesial – nos afetou também e não pouco! 

Se se colocassem em marcha os mistérios não ordenados, verdadeiramente inseridos nas comunidades e acompanhados por uma formação contínua, não seria isto uma fonte, uma mina, um manancial de novas vocações ao presbiterado em um processo natural de integração nas comunidades? 

Não tenho dúvidas! A existência de ministérios não ordenados em uma comunidade é um "sinal", uma "condição" e um "argumento" em vista e em favor do próximo passo, que é chegar a que uma comunidade madura ou idônea (communitas probata) possa ter seus ministros ordenados próprios e, assim, atingir a sua plenitude eclesial com a celebração da Eucaristia pela comunidade com seus próprios ministros ordenados (no caso, presbíteros). 

Por favor, compreendam-me bem: não queremos presbíteros apenas para presidir a Eucaristia; queremos presbíteros que assumam e cumpram plenamente seu ministério – nos âmbitos da Palavra, do Culto e da Caridade – o que inclui também a presidência da Eucaristia. O bispo Fritz Lobinger, emérito da Diocese de Aliwal, na África do Sul, diz: "Primeiro passo: tornar-se uma comunidade com ministérios próprios. Muito antes de poder pensar em ter uma Equipe de Ministros Ordenados (presbíteros), a comunidade precisa aprender a se compreender-se a si mesma como uma comunidade com seus próprios ministérios". 

Mas atenção! Quando falamos de ministérios não ordenados, não estamos pensando só em alguns ministérios litúrgicos ou em meros ministérios chamados de suplência, mas, sim, em ministérios com os quais uma comunidade viva e ativa normalmente deve contar e efetivamente conta para sua vida e missão. Exemplos. Na área da Palavra: catequistas, animadores de Círculos Bíblicos, animadores de grupos de reflexão, responsáveis por cursos de teologia para leigos, pregadores em encontros, retiros, missionários populares e outros. Na área da Liturgia ou do culto: recepcionistas, comentaristas, leitores, salmistas, grupos de canto, acólitos, animadores da Celebração da Palavra, coordenadores de equipes de liturgia e equipes de celebração, responsáveis pela preparação de pais e mães para o batismo das crianças, jovens e adultos, animadores de novenas, ministros de bênçãos, ministros de funerais, etc. Na área da caridade: responsáveis das pastorais sociais (pastoral das crianças, pastoral da saúde, promoção humana, pastoral política, pastoral da sobriedade, pastoral dos migrantes, pastoral carcerária...), grupos da Cáritas, terceira idade, animadores de grupos de jovens, etc. 

Em uma comunidade rica em ministérios não ordenados, não deveria faltar um ministro ordenado presbítero (ou de preferência uma pequena equipe) que respondesse pelo ministério da unidade, presidindo esta comunidade e, consequentemente, também a celebração da Eucaristia. Em geral, as comunidades já têm seu animador global; não se vê por que este ou eventualmente outros (como propõe Lobinger, uma pequena equipe), com a escolha da comunidade e a aprovação do bispo, não possa ser ordenado presbítero. Na Igreja antiga, essa era a praxe habitual, aliás, a regra. 

Está havendo uma perigosa dissociação entre a Palavra, os Sacramentos e a Vida (compartilhada e fraterna) nas comunidades? Em que sentido? Como mudar esta situação?

É um tremendo desafio. O Concílio nos ajudou a redescobrir a Palavra e nos possibilitou uma liturgia renovada. Crescemos nessas duas áreas. O Concílio impulsionou o serviço, a caridade, a fraternidade, tanto na Igreja quanto na vida social, econômica e política. Na prática de nossas Igrejas locais, paróquias e também comunidades, no entanto, as três coisas nem sempre vão imbricadas como deveriam. 

Há ambientes muito sacramentalistas, um fenômeno bastante comum entre os "padres novos" (uso a expressão como categoria de análise, não simplesmente como uma classificação cronológica). Existem comunidades onde a Palavra é compartilhada, mas falta a celebração da Eucaristia. As expressões comunitárias e/ou institucionais do serviço e da caridade são intensamente vividas em certos setores, mas em outras são algo fraco, frágil ou, inversamente, às vezes visto como "política" ou pior ainda, como "comunismo". Aliás, a militância social do Papa Francisco também é etiquetada de “comunismo”... 

Há um pouco de tudo, menos aquela intercompenetração ideal, não só teórica, mas existencial, vivida, sentida entre Palavra, Culto e Caridade. Sob o aspecto mais qualitativo, o pós-moderno nos coloca ante desafios ainda maiores: cresce o materialismo, o intimismo, o consumismo, o individualismo. A cultura tem mudado muito e continua mudando muito rápido. Se não estivermos de pé e vigilantes - e são poucos os que sentem essa necessidade - o Evangelho acaba engolido pela cultura dominante. Tempos difíceis! 

As igrejas locais abrigam muita diversidade. Como isso deveria se refletir nos ministérios? Poderia isso pôr em perigo a universalidade da Igreja? 

As Igrejas locais são muito diferentes umas das outras. Normal e bom! Estudei as experiências de inúmeras Igrejas locais da América Latina no que diz respeito aos ministérios. Descobri que cada vez que uma Igreja local tem consciência da sua plena eclesialidade, de sua fisionomia própria e desenvolve um projeto evangelizador de fôlego, como regra geral vai promover pequenas comunidades (ou CEBs) onde irão surgir (eu queria dizer "necessariamente") novos ministérios, de acordo com as necessidades e carismas próprios de cada Igreja local ou de cada comunidade menor inserida na Igreja local.

Isso é uma riqueza para a Igreja universal ou, em uma expressão melhor, para a comunhão universal das Igrejas. Não é um perigo, absolutamente, e, sim, uma riqueza. Uma riqueza na Igreja local, uma riqueza para a Igreja universal. O que Paulo escreve à Igreja de Éfeso me parece que possa ser aplicado perfeitamente à comunhão da Igreja local e entre as Igrejas locais: "... solícitos em guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Há um só Corpo e um só Espírito, assim como é uma só a esperança à qual fostes chamados. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, acima de todos, no meio de todos e em todos. No entanto, a cada um de nós foi dada a graça conforme a medida do dom de Cristo..." (Ef 4,3-7ss). A uniformidade é morte. A diversidade na comunhão é vida. 

É um fato que o tema dos ministérios interessa e preocupa em todas as Igrejas cristãs, não apenas na Católica Romana. Seria uma oportunidade no caminho ecumênico trabalharmos juntos nesta questão? 

Sabemos que o tema dos ministérios é um dos pontos mais delicados e difíceis nas relações ecumênicas. Mesmo assim, o Conselho Mundial de Igrejas conseguiu, em 1982, um acordo decisivo, o documento “Batismo, Eucaristia e Ministério” (também conhecido como “BEM” ou “Documento de Lima”), que continua sendo uma importante referência. Não é uma exclusividade da Igreja católica a diminuição das vocações e dos pastores. Tenho a impressão de que apenas as Igrejas pentecostais e especialmente as neopentecostais (o segmento que mais cresce no Brasil) não enfrentem esse problema. Acho que podemos e de fato estamos aprendendo uns com os outros. Vem-me à mente as palavras do poeta espanhol Antonio Machado: "Caminheiro, são teus rastros o caminho e nada mais. Caminheiro, não existe caminho, faz-se caminho ao andar. Ao caminhar se faz o caminho, e, ao olhar para trás, vê-se o sendeiro que nunca mais se voltará a pisar. Caminheiro, não existe caminho e, sim, rastros de espuma no mar”. 

Você tem trabalhado em estreita colaboração com o bispo Fritz Lobinger e conhece bem a proposta dele dos dois tipos de presbíteros – ‘diocesanos’ e ‘comunitários’ – que coexistem e colaboram. Você acha que isso é uma oportunidade para a Igreja de hoje? Em que sentido? 

Lobinger é uma testemunha de primeira ordem das relações entre comunidade e ministérios. Na verdade, ele dedicou toda a sua vida na África do Sul ao desenvolvimento de comunidades eclesiais e seus respectivos ministérios. Entre os muitos elementos de sua rica experiência pastoral e de sua reflexão teológica, ele faz uma distinção entre dois tipos de presbíteros em uma diocese. 

Chama presbíteros "diocesanos" aqueles padres que não desempenham um ministério paroquial, mas supraparoquial, assessorando paróquias e unidades pastorais na formação de comunidades, contribuindo para a formação de ministros e ministras, acompanhando as comunidades e seus ministros, oferecendo-lhes formação continuada. Seriam mais presbíteros "itinerantes", ao contrário dos eventuais futuros "presbíteros de comunidade" ou "presbíteros comunitários", com a sua caminhada local, sua família, sua profissão civil, que continuariam residindo em sua comunidade e servindo como padres a esta mesma comunidade. Presbíteros "diocesanos" e presbíteros "comunitários" ajudar-se-iam mutuamente, exercendo funções distintas ao serviço das comunidades. De acordo com Lobinger, essa não deveria ser uma divisão de trabalho temporária, mas permanente nas Igrejas locais. Utópico? Não me parece; parece-me muito realista. 

Que riscos pode haver tanto no engajamento de pessoas casadas como no das mulheres nos novos ministérios, se não se deixa claro que o ministro existe em favor da comunidade, e se se continua pensando na vocação ao diaconato ou às novas formas de presbiterado como um chamado individual, desconectado da comunidade e ligado ao exercício do poder? 

Ministérios e comunidade devem ser pensados em conexão. Não há o menor sentido comunidade sem ministérios e ministérios ou ministros sem comunidade. São como os dois lados da mesma moeda ou, na metáfora paulina, diferentes órgãos de um corpo, de um mesmo corpo! 

Mas atenção: o fim, a meta, o foco é a comunidade! Esta relação estrutural entre ministros e comunidade na Igreja antiga era tão clara que, diante da prática nova/inovadora de ordenar presbíteros independentemente da necessidade de seu serviço a uma comunidade, o Concílio de Calcedônia em 451 decretou que "ninguém deve ser ordenado sacerdote, ou diácono, ou estabelecido em qualquer função eclesiástica, em modo absoluto ["ab-soluto", aqui, significa solto de, sem relação a, sem relação com]. Quem é ordenado, ao contrário, deve ser designado para uma igreja da cidade ou de uma povoação, ou para a capela de um mártir, ou para um mosteiro. O Santo Sínodo comanda que uma ordenação absoluta seja nula e que o ordenado não possa exercitar o ministério em nenhum lugar, "para vergonha de quem o tiver ordenado" (can. 6). 

Ministério não é um prêmio, uma honra, uma condecoração, um título de reconhecimento pelos serviços prestados. Ministério é um serviço específico para uma comunidade específica, para responder a necessidades específicas. A vocação pode ser pensada como um chamado pessoal, mas sempre para o serviço a uma comunidade, para uma necessidade concreta. Muitos na Igreja antiga foram chamados por suas comunidades a assumirem uma função – por exemplo, como bispos – porque aquela Igreja o necessitava – ou os necessitava – não porque sentissem um chamado interior para aquilo. Às vezes eles eram até forçados a aceitarem o cargo; na história dos ministérios, a este respeito, fala-se de ordenações "invitus" (em latim), que quer dizer "contra a sua vontade". 

A partir dessa perspectiva comunitária, seria o caso de abandonar as soluções geralmente sugeridas, como a dos "viri probati", e situar-nos em um novo paradigma eclesiológico, com insistência nas “comunidades provadas” e mais inclusivo com as mulheres? Como se poderia traduzir isso na prática? 

A ideia de ordenar "viri probati" não é ruim, mas é insuficiente, precisamente porque falta a perspectiva da comunidade. Daí a ideia de ordenar alguém presbítero (de preferência uma pequena equipe de presbíteros) inserido em uma comunidade, escolhido pela comunidade, para exercer seu ministério naquela comunidade. Não apenas por razões eclesiológicas, mas também por razões estritamente pastorais. 

Pensamos que seja uma oportunidade de enfrentar também institucionalmente os problemas do clericalismo, do autoritarismo e do isolamento demasiado presentes no clero atual. Do nosso ponto de vista, não se trata apenas de dar uma resposta ao déficit de presbíteros, e, sim, de buscar um novo modelo de presbíteros. Esta proposta não pode ser encarada como um recurso provisório para a escassez de clero. 

Cito Lobinger (depois de falar sobre comunidades com seus próprios ministros e sobre uma pequena equipe de presbíteros em cada comunidade): "Temos que evitar soluções temporárias de emergência em relação ao ministério nas comunidades cristãs. Temos que procurar soluções permanentes, de preferência". E fundamenta: "É o modelo original dado pela Bíblia." 

Mas, se já é difícil encontrar candidatos ao presbiterado, não será mais difícil ou quase impossível encontrá-los em número suficiente para formar equipes?

No modelo atual, sem dúvida; é o que temos vivido por muitas décadas. Para o modelo que propomos para o futuro, não. Em nossas “comunidades maduras” (é claro que não são todas!) encontramos muita gente consciente, ativa, comprometida com a vida e a missão da Igreja naquela comunidade concreta. 

Há um bom número de pessoas que já estão realizando nelas verdadeiros ministérios; não o fazem individualmente, mas em equipe, em pequenos grupos, pequenas comunidades. É claro que não se pensa em ordenar indiscriminadamente, qualquer um, e sim homens – até agora a porta para ordenar mulheres está fechada (Papa Francisco) – solteiros ou casados que sejam pessoas normais - não só psicologicamente - bons cristãos, sinceramente entregues à comunidade e à sua missão, com uma formação teológica e pastoral adequadas ao ambiente em que vão atuar, em comunhão com a Igreja local e com a Igreja universal

Veja que não é pouco! Não somos tão ingênuos de pensar que inventamos a roda ou encontramos a pedra filosofal. Não se trata de uma panaceia para o enorme problema da falta (relativa ou absoluta) de presbíteros; no entanto, é um modelo viável em muitas comunidades. 

Há dois documentos eclesiais, dos quais fala em seu livro Novos ministérios. A necessidade de um salto à frente (Paulinas, 2013): Christifideles laici, que se seguiu ao Sínodo dos leigos (1987) e o documento De Ecclesiae Mysterio (1997), (ambos do pontificado de João Paulo II), que representaram um freio e um obstáculo no desenvolvimento de novos ministérios. O que você diria sobre esses documentos? O que está por trás deles em termos de atitudes? Existem documentos antigos, de muito mais importância eclesial do que os dois mencionados aqui, que iriam em outra linha e que não podemos deixar de ter em mente... Poderia citar alguns? 

Concordo que eles foram um obstáculo e, no final, um freio, especialmente porque os dois estão idealmente e institucionalmente conectados. Christifideles laici assumiu como paradigma a "teologia do laicato" desenvolvida no pré-Concílio, recusou-se a embarcar no modelo "comunidade/carismas e ministérios", que se propunha a superar aquela teologia (relevante e significativa e fecunda em outros contextos) e era protagonizada por nomes como Congar (a partir de 1971), Parent, Bruno Forte, Severino Dianich e outros. 

"De Ecclesiae Mysterio" cumpre o que pedia Christifideles laici nos parágrafos 21-23. Publicado dez anos depois de Christifideles laici e no jubileu de prata de Ministeria quaedam (1972), teve o efeito de uma bomba, já que o espaço dos leigos e leigas que desempenham certos ministérios na Igreja foi restringido ao máximo. Este documento, assinado pelos Prefeitos de sete Congregações vaticanas, restringe-se, sem dúvida, aos chamados "ministérios de suplência", mas sem perceber duas coisas: 

a) uma, teologicamente: se um leigo (ou leiga) pode suprir um ministro ordenado em certas ocasiões, por causa da falta ou impossibilidade do ministro ordenado competente, é porque está, de um ponto de vista teológico, fundamentalmente habilitado pelos sacramentos da iniciação a fazê-lo em qualquer circunstância; 

b) outra, historicamente, porque trabalha com a hipótese, improvável, pelo menos a curto e médio prazo, de que a atual situação de déficit de padres vá passar (quer dizer, que seja transitória). 

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil faz uma consideração que eu acho muito oportuna a este respeito: "Se estas funções, embora próprias e típicas do ministério ordenado, podem, em certas circunstâncias, ser assumidas por leigos e leigas, por que não se pode pensar em uma reorganização ousada dos ministérios eclesiais, criando verdadeiros e próprios "ofícios" a serem conferidos a leigos e leigas de forma estável e com responsabilidade própria e não simplesmente como "suplência"?" (CNBB, Missão e Ministérios dos cristãos leigos e leigas, n. 89). Há que se revisar radicalmente esta questão da suplência! 

O que as conferências latino-americanas oferecem para o tema dos ministérios, particularmente a última, celebrada em Aparecida (Brasil)? 

O Documento 11 (Sacerdotes), de Medellín, embora, graças ao Concílio, seja profundamente inovador, especialmente quando comparado com a Conferência do Rio de Janeiro (1955), é ambíguo em alguns pontos. Apesar de seus limites, permanece, porém, atual em vários pontos: a necessidade de outros modelos de presbíteros; certos elementos da análise da crise de sacerdotes; a importância da comunidade eclesial; a exigência de uma solidariedade especial dos sacerdotes com o mundo; o papel indispensável do presbítero no processo de desenvolvimento do continente; a tarefa de formar e incentivar os leigos a participarem ativamente e com consciência cristã na elaboração do progresso; a especificidade da espiritualidade laical; a tensão entre o carisma pessoal no modo de viver o presbiterado e a necessidade do conjunto; a denúncia do isolamento dos sacerdotes e a proposta de formação de equipes sacerdotais, etc. 

Puebla é particularmente importante para a questão dos ministérios não ordenados, com contribuições muito relevantes e frutíferas, especialmente nos parágrafos 804-805, 811-814, 815-817, 833, 845, mas também nos parágrafos 858 ("suscitados pelo Espírito") e 859 ("as vocações leigas... não podem ser uma compensação suficiente"). 

Aparecida é mais sóbria, mas não menos incisiva: ela os valoriza ("os ministérios confiados aos leigos e outros serviços pastorais, como delegados da Palavra, animadores de assembleia e pequenas comunidades, incluindo as comunidades eclesiais de base, os movimentos eclesiais e uma série de pastorais específicas") (n. 99c) e impulsiona ("também os leigos estão chamados a participar da ação pastoral da Igreja, primeiro com o testemunho de sua vida e, em segundo lugar, com ações no campo da evangelização, na vida litúrgica e noutras formas de apostolado, de acordo com as necessidades locais sob a orientação de seus pastores. Eles estarão dispostos a abrir-lhes oportunidades de participação e a confiar-lhes ministérios e responsabilidades em uma Igreja onde todos possam viver de forma responsável seu compromisso cristão. Aos catequistas, delegados da Palavra e animadores de comunidades, que realizam um trabalho magnífico dentro da Igreja (cf. LG 31,33; GS 43; AA 2), nós lhes reconhecemos e encorajamos a continuarem o compromisso que adquiriram no batismo e na confirmação" (DAp 211).

O que podemos esperar, também neste sentido, do Sínodo da Amazônia? Embora, lá, o tema dos ministérios seja subsidiário de outros temas mais centrais, não deixa de ter uma enorme importância nas comunidades que possuem uma grande diversidade cultural e que estão desprovidas da celebração da Eucaristia e de outros cuidados pastorais.

Não sou profeta nem filho de profetas, dizia Amós! O tema vai estar presente e espero que seja aprofundado em todos os seus aspectos, para que o Sínodo possa aprovar indicações relevantes. Acreditamos que o que se concluir no Sínodo para a Amazônia em matéria ministerial terá implicações para toda a Igreja.

Vale a pena lembrar que foi exatamente a um bispo da Amazônia, o austríaco naturalizado brasileiro Erwin Kräutler, emérito da Prelazia do Xingu, no Brasil, que o Papa Francisco pediu propostas corajosas para a situação de dezenas de milhares de comunidades sem a possibilidade de celebrar regularmente a Eucaristia devido à falta de sacerdotes. Aquela prelazia é a maior circunscrição eclesiástica do Brasil (368.086 km2). Com um território maior do que a Itália (301.338 km²) e uma população de 575,348 habitantes (densidade populacional de 1,2 habitante por km2), está organizado em 6 regiões pastorais, 15 paróquias e mais de 800 comunidades de base. Contando a Prelazia do Xingu com apenas 29 sacerdotes, digam-me se é possível garantir um serviço presbiteral adequado nessas condições. O Sínodo da Amazônia terá que ter o discernimento e a coragem de fazer história!

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