A vida luxuosa da hierarquia católica e a corrupção moral: despesas de bispo dos EUA expõem problema profundo

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07 Junho 2019

Uma Igreja pobre e para os pobres.” Foi isso que o Papa Francisco disse que queria logo após a sua eleição como papa em 2013. Eu suspeito que a maioria de nós leu o seu comentário como uma espécie de convite para nos dedicarmos novamente aos ensinamentos da Igreja sobre justiça social, talvez até como um empurrão para sermos mais generosos com a Catholic Charities ou com o Catholic Relief Services [órgãos membros da Cáritas Internacional]. O sentimento era louvável e tinha o sabor do Evangelho. Mas eu não conheço uma única pessoa que, nos anos subsequentes, tenha dito, prontamente, que o desejo do papa fez com que ela reavaliasse seu estilo de vida ou até mesmo seus hábitos de consumo.

O comentário é de Michael Sean Winters, publicado por National Catholic Reporter, 06-06-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No Washington Post dessa quarta-feira, 5, Michelle Boorstein, Shawn Boburg e Robert O’Harrow Jr. revelaram a história dos supostos hábitos de consumo e do estilo de vida luxuoso de Dom Michael Bransfield como bispo de Wheeling-Charleston, na Virgínia Ocidental.

De acordo com uma investigação realizada por cinco leigos e supervisionada por Dom William Lori, arcebispo de Baltimore, Bransfield gastou 1.000 dólares por mês com bebidas alcoólicas e 100 dólares por dia com flores frescas para a Cúria, deu presentes que somaram um total de 350.000 dólares a outros clérigos e gastou 4,6 milhões de dólares na reforma da residência episcopal depois de um incêndio em um dos banheiros. Eu não consigo nem imaginar como é difícil gastar 4,6 milhões de dólares com imóveis em Wheeling, na Virgínia Ocidental.

Esse estilo de vida luxuoso foi possível graças à generosidade de Sara Catherine Aloysia Tracy, que morreu em 1904 e deixou a maior parte de seus bens para a diocese. A herança incluía terras no Texas que depois se descobriu que se encontravam em cima de muito petróleo e que rendeu cerca de 15 milhões de dólares por ano para a diocese, que agora tem bens no valor de 230 milhões de dólares. A maior parte desse dinheiro, claramente, foi para ajudar o povo da Virgínia Ocidental, um Estado que é desesperadamente pobre. Os católicos são apenas 4% da sua população, mas a Catholic Charities é muito ativa. Bransfield publicou uma das melhores cartas pastorais sobre a pobreza que eu já li e outra sobre como cuidar dos idosos que era excelente.

Mesmo assim, lendo sobre os cheques destinados para outros bispos, os gastos extravagantes e algumas supostas falcatruas financeiras para garantir que o dinheiro viesse da diocese e não do bispo, tudo isso nos deixa com enjoo. Isso é corrupção, senão no sentido legal, pelo menos no sentido moral.

No Evangelho de Mateus, lemos que Jesus disse aos 12 apóstolos: “Curem os doentes, ressuscitem os mortos, purifiquem os leprosos, expulsem os demônios. Vocês receberam de graça, deem também de graça! Não levem nos cintos moedas de ouro, de prata ou de cobre; nem sacola para o caminho, nem duas túnicas, nem calçados, nem bastão, porque o operário tem direito ao seu alimento”. Aparentemente, alguns dos sucessores dos apóstolos se esqueceram dessa passagem.

No fim do século XIX e início do século XX, nos EUA, os bispos católicos eram líderes de suas comunidades majoritariamente imigrantes, e as pessoas se orgulhavam quando o bispo construía uma grande casa para si. A residência do cardeal em Brighton, Massachusetts, era uma magnífica “villa” de estilo italiano, mais parecido com o Palácio Livadia dos czares em Yalta do que com uma mansão da Nova Inglaterra. Uma vez eu fiquei em um hotel em San Francisco que tinha sido a casa do arcebispo, e era bastante grandioso.

Os cardeais de Chicago viviam em uma famosa mansão de 19 chaminés. Mas o cardeal Sean O’Malley vendeu a mansão em Brighton e mudou-se para a Cúria da catedral, o arcebispo Salvatore Cordileone mora em um apartamento no campus da catedral em San Francisco, e o cardeal Blase Cupich mora na Cúria da Catedral do Santo Nome. Isso deve se tornar a norma, e não a exceção.

A ironia é que as mansões – na verdade, toda a infraestrutura da Igreja nos EUA que conhecemos – foram construídas com dinheiro do povo simples.

A reportagem sobre Bransfield expõe um tipo mais profundo de corrupção, que me preocupa mais do que o fato de um bispo em particular gastar demais com bebidas e flores frescas. No nosso tempo, os bispos, assim como os reitores de universidades, devem passar grande parte do seu tempo “puxando o saco” de pessoas ricas e arrecadando dinheiro. Eles aprendem como hospedá-las em suas casas com estilo e quais restaurantes são luxuosos o suficiente para os grandes doadores. Os conselhos das nossas instituições católicas estão povoados por católicos abastados. A conexão com os operários e operárias se atrofia. Em pouco tempo, grandes projetos de construção de organizações católicas são construídos com trabalho não sindicalizado, um bispo aprende um pouco demais sobre vinhos finos, as preocupações dos ricos se tornam as preocupações da hierarquia, e a situação da classe operária se torna cada vez mais remota. “Eu vim para anunciar a Boa Notícia à classe média-alta e aos grandes ricos”, disse Jesus em Lucas 4, ou algo parecido...

Certos plutocratas católicos, como Tim Busch, Tom Monaghan e Frank Hanna, não procuram dar tanto quanto querem comprar: eles querem influência para os seus cheques. Mas o problema que estou discutindo hoje é mais profundo e mais difuso: afinal, existem plutocratas liberais que financiam seus animais de estimação também, mesmo que haja poucos católicos liberais capazes de igualar o peso financeiro de seus colegas conservadores. Não, o problema mais profundo é o mundanismo que se tornou parte da liderança da comunidade cristã, a necessidade de todos os bispos e pastores de obterem favores junto aos ricos a fim de financiar a nossa pastoral.

Toda a filantropia, em certo sentido, é a consequência de um fracasso social particular: a desigualdade de renda bruta. No início desta semana, eu chamei a atenção para uma história sobre MacKenzie Bezos, a recém-divorciada esposa do multibilionário Jeff Bezos. Ela foi embora do seu casamento levando 36 bilhões de dólares e agora se comprometeu a doar a metade disso. Abrir mão disso é indiscutivelmente melhor do que acumular, mas isso depende do que ela decidir financiar. Eu suspeito que eu poderia fazer muito bem se tivesse 18 bilhões de dólares para gastar, mas muitas pessoas não gostariam das instituições de caridade ou das organizações ativistas que eu poderia escolher. Não faço ideia de quais causas a Sra. Bezos escolherá. Mas por que uma pessoa – e, por extensão, uma pequena parte da população – pode decidir quais entidades sem fins lucrativos vão viver e quais irão morrer? Como a desigualdade de renda cresceu tanto a ponto de a filantropia se tornar a força vital das instituições católicas, em vez das doações dos fiéis comuns?

“Uma Igreja pobre e para os pobres.” Aqui está algo que os bispos precisam discutir na próxima semana em Baltimore [em sua assembleia geral]. Não as falhas de um bispo cuja extravagância foi extrema, mas sim o modo pelo qual todos eles devem gastar grande parte do seu tempo adorando o bezerro de ouro da suposta filantropia e a necessária corrupção à qual tal adoração idolátrica convida. O problema com o dinheiro, para o cristão, é um problema espiritual, em primeiro lugar, e nós, cristãos norte-americanos, aperfeiçoamos a arte de não considerá-lo como tal.

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