Por trás dos venenos de Viganò, um complô contra Francisco. Artigo de Massimo Faggioli

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21 Setembro 2018

No dossiê contra o pontífice por parte do ex-núncio apostólico, não há apenas as ambições frustradas de um diplomata vaticano, mas também um complô sectário estadunidense que instrumentaliza o escândalo dos abusos sexuais.

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos Estados Unidos. O artigo foi publicado por Famiglia Cristiana, 20-09-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O caso aberto pelo documento publicado entre os dias 25 e 26 de agosto pelo ex-núncio Carlo Maria Viganò, com a ajuda de outros (alguns nomes são conhecidos; outros, ainda não), recém-começou. Ele se arrastará por muito tempo, em uma temporada de escândalos que é o segundo tempo da crise que estourou no início do século, entre o fim do pontificado de João Paulo II e o pontificado de Bento XVI.

Em comparação com a primeira etapa do escândalo dos abusos, que explodiu em Boston em 2002, estamos em uma nova fase, nos Estados Unidos e não só, por várias razões: mas principalmente porque, agora, a crise é claramente global, uma crise em que todas as estradas levam a Roma e ao Vaticano.

Isso ocorreu no último fim de semana com o memorial Viganò. Esse documento é filho das ambições frustradas de carreira de um diplomata vaticano e de uma agenda ideológica do catolicismo anglófono (com algumas filiais europeias) de marca tradicionalista. Essa agenda constitui a segunda grande diferença em relação a 2002, quando o pontificado de João Paulo II (com o cardeal Ratzinger no ex-Santo Ofício) constituía uma barreira em relação àquelas alas que, apenas alguns anos antes, tinham escolhido o caminho do cisma formal de Marcel Lefebvre.

As acusações contra o Papa Francisco contidas no memorial Viganò são perfeitamente coerentes com a mentalidade sectária desse catolicismo anglófono tradicionalista; surpreende um pouco mais que quem lhes dá voz é um diplomata vaticano, que se presta a uma agenda subversiva da comunhão católica.

A mistura entre o escândalo dos abusos sexuais cometidos pelo clero e as “guerras culturais” entre catolicismo tradicionalista, de um lado, e progressista, do outro, de fato, estão pondo em risco a própria unidade da Igreja Católica em um país como os Estados Unidos, que é o epicentro do escândalo, mas também um dos países mais importantes no catolicismo global hoje.

Ao contrário do que se podia esperar legitimamente, os bispos dos Estados Unidos não tomaram uma posição unitária em defesa de Francisco; alguns bispos até se posicionaram publicamente do lado daquele Viganò que pedia a renúncia do papa. Isso nos diz que enfrentar e superar a crise dos abusos sexuais não tem mais apenas a ver com a possível santidade da Igreja, mas também com a sua unidade – ou com a possível ruptura da unidade.

O papa está claramente sob ataque por motivos que não são mais apenas o surgimento da questão dos abusos sexuais e que devem ser buscados na rejeição por parte do conservadorismo católico norte-americano da teologia e da visão de Igreja do papa argentino e jesuíta. A preocupação de Francisco evidentemente não é a de defender a si mesmo, mas a Igreja. Nesse sentido, a escolha de não responder no avião às perguntas sobre o “memorial” do ex-núncio nos Estados Unidos revela em Francisco uma prudência e um senso de responsabilidade que falta a muitos na Igreja hoje.

No entanto, os fiéis e o agrupamento humano, especialmente nos Estados Unidos, esperam respostas a perguntas que o memorial Viganò levanta e que se referem a um período anterior à eleição do Papa Francisco: entre elas, como foi possível que um prelado do qual muitos conheciam o apetite sexual à custa de seminaristas e jovens padres, Theodore McCarrick, tornou-se bispo, depois cardeal de Washington, a capital dos Estados Unidos, e, durante décadas, uma das figuras de referência do establishment católico estadunidense.

O cenário estadunidense a partir de onde começa a operação Viganò é ideologicamente extremado e polarizado como em nenhum outro país ocidental: eu vivo nos Estados Unidos há 10 anos e posso testemunhar o animus conservador contra o Papa Francisco. Mas também posso testemunhar que, na base do ressentimento em relação ao Vaticano de Francisco, há também o choque dos estadunidenses diante do escândalo dos abusos sexuais – um choque não plenamente compreendido na Itália, onde a crise (ainda) não estourou.

Quando minha esposa e eu fomos ao curso de formação para os pais dos novos alunos da escola católica, perto da Filadélfia, eles nos indicaram, ao lado da sala de reuniões, uma sala para aqueles pais que não aguentavam as imagens e as palavras que narravam uma violência contra os mais indefesos, para aqueles pais que queriam ir chorar sem serem vistos: uma espécie de muro das lamentações.

É oportuno abrir os olhos para essa crise, também na Itália: não é uma crise passageira, mas sim uma crise que, em termos de dimensão e de consequências, poderia encontrar um paralelo na corrupção da Igreja que levou à Reforma Protestante, cinco séculos atrás.

É uma crise institucional, com mecanismos de controle do clericalismo, que não funcionam ou não existem; uma crise moral, dada a corrupção que permeia os mais altos níveis da hierarquia, assim como do laicato que, em vários casos, colaborou para encobrir os abusos; uma crise cultural, fruto da negação da realidade em matéria de sexualidade humana; uma crise política, porque enfraquece a voz da Igreja em um momento em que os últimos da terra só podem contar com ela em muitas partes do mundo; uma crise afetiva, porque redefine radicalmente o lugar que a experiência de Igreja tem no corpo de milhões de pessoas.

No caso Viganò, certamente há uma conspiração transatlântica em função anti-Francisco. Mas, aos olhos daqueles que não pertencem aos círculos dos especialistas e dos clérigos, e que leem cotidianamente esse novo gênero literário que é o “romance policial clerical”, está a verdadeira questão dos abusos sexuais, muito mais macroscópica do que a luta entre facções no Vaticano.

É o escândalo que definiu essas duas últimas décadas de história da Igreja e que poderia definir o século inteiro. É uma crise existencial para a Igreja, no sentido de que poderia determinar o seu lento fim ou o seu rebaixamento a instituição-pária, de intocáveis.

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