Uma Europa doente, onde o passado volta para se vingar. Entrevista com Agnes Heller

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14 Novembro 2017

“O passado volta ao nosso meio, com o rosto da vingança.” Ágnes Heller, grande voz da intelligentsia da Europa Central, comenta desse modo a imponente marcha de sábado na Polônia.

A reportagem é de Andrea Tarquini, publicada no jornal La Repubblica, 13-11-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Sessenta mil nacionalistas na praça de Varsóvia: o que você diz a respeito?

Sessenta mil pessoas na praça gritando aquelas frases são muitas. O patriotismo se torna nacionalismo. O pano de fundo é uma Europa que parece doente por toda a parte ou quase, e os partidos democráticos históricos estão em crise.

Qual foi a sua primeira reação?

Uma situação feia, realmente. A história passada, repito, volta ao nosso meio, irrompe no presente como vingança. Insisto, sessenta mil nacionalistas na praça com aqueles slogans no maior país do grupo de Viségrad são um grande sinal. E a contra-demonstração foi muito pequena. Estamos decaindo, a Europa parece doente.

A dissidência no Centro-Leste era multicultural. Hoje, é uma soma de nacionalismos. Por quê?

Os movimentos pela liberdade, como muitas décadas antes foi a Áustria-Hungria, eram unidos por momentos de passado comum. O Centro-Leste tem um passado diferente do resto da Europa: a ocupação soviética. O nacionalismo do grupo de Viségrad vem desse passado.

Por que essa sensação comum de desejo de nacionalismo?

O passado criou posições políticas diferentes, interesses diferentes, terreno fértil para os populismos. Todas as nações europeias tornaram-se nacionalistas depois da Primeira Guerra Mundial, mas, no Leste, não houve o pós-guerra democrático. Subestimamos o perigo: as tendências atuais no grupo de Viségrad podem ser perigosas para a União Europeia, assim como o Tratado de Trianon foi para Hungria, ao levar à perda de vastos territórios e a desdobramentos nacionalistas.

Será possível manter os países de Viségrad na União Europeia?

Depende, se a União Europeia souber esclarecer o conceito de valores europeus. Os totalitarismos, que não nasceram nem na África nem na Ásia, também foram valores europeus. E é preciso saber enfrentar os conflitos entre centro e periferia da Europa.

Como fazer avançar a integração política europeia?

A integração é importante, mas requer coragem, como fizeram a França e a Alemanha, superando séculos de hostilidade. Devemos enfrentar as realidades históricas: a integração deve levar em consideração as feridas do passado naquela parte da Europa, se quisermos reconquistá-la. Em vez disso, a União Europeia cometeu diversos erros em relação a esses países.

Por que a vontade de identidade nacional assume tais facetas?

A identidade nacional importa para todos os países europeus. A questão é que tipo de identidade nacional emerge: é bem diferente se for chauvinista e fundamentada em ódios contra os outros. Aqui está o problema dos países de Viségrad: eles reagiram assim à ocupação soviética, ainda consideram todos como potenciais ocupantes, e isso abre espaço para populismos e para pequenos déspotas. Depois de 1989, infelizmente, as forças democráticas no Centro-Leste não levaram em conta o peso do passado. Pensaram na política apenas em termos parlamentares, não na sua dimensão de humores, interesses, necessidades sociais e memória, e aí está o resultado.

Por que, nos países de Viségrad, respiram-se medos e ódios contra os migrantes, mesmo quando não existem migrantes in loco?

Os autocratas são há muito tempo antiocidentais e vitimistas, desde antes da onda de migrantes. Basta evocar o medo de ser ocupado por outros, de ver a nação destruída. Basta a imagem do perigo, mesmo sem perigo real, com uma propaganda eficaz. O terreno fértil são traumas e desilusões pós-1989. E um passado que destruíra a cultura burguesa e judaica. Alguns definem os migrantes como perigosos também porque chegam com muitas crianças. É quase a Noite dos Cristais.

A União Europeia pode se salvar da ameaça?

A Europa leva a pensar em um doente de pneumonia que pode morrer ou se curar e se fortalecer.

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