África, terra de contradições. Entrevista com Alex Zanotelli

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30 Novembro 2015

Há a África depredada e a que se deixa depredar. A África que combate guerras por conta de terceiros e a África que parece ter perdido as palavras de paz. A África rica de todos os bens, mas incapaz de protegê-los e de investir nos seus próprios valores. Acima de tudo e apesar de tudo, há a África que não deixa de esperar e que encontra no Papa Francisco o impulso para se levantar.

A reportagem é de Nello Scavo, publicada no jornal Avvenire, 27-11-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Para o padre Alex Zanotelli, missionário comboniano por muito tempo no Sudão e no Quênia, e agora nos densos becos napolitanos do distrito Sanità, a viagem de Francisco é ao coração das contradições do mundo, não só de um continente, e também um desafio para que o mundo olhe para a África para se deixar interrogar e inspirar.

Eis a entrevista.

Que África o Papa Bergoglio está encontrando?

Se há uma área que pode ser definida como "continente crucificado" é a África. O papa está tocando com a mão os resultados de um sistema que ele denunciou e denuncia, em que o chamado desenvolvimento é em benefício de poucos, enquanto a maior parte das pessoas é e continua sendo cada vez mais pobre. Uma contradição, se pensarmos que a África em si mesma é tudo, menos pobre.

Em outras palavras?

É o continente mais rico do mundo. E a riqueza é justamente a sua maldição. Das belezas paisagísticas à natureza, passando pelas jazidas energéticas e minerais, apenas para ficar nos recursos econômicos, sem citar os culturais, históricos, espirituais. Riquezas que vão para os bolsos de quem já as possui. A África dispõe de um patrimônio que não tem iguais e, por isso, é saqueada.

O papa quer ir para a República Centro-Africana, mesmo às custas de ter que se jogar de paraquedas, disse ele com uma piada ao comandante do avião. Nenhum líder do mundo foi lá. Alguns observadores locais dizem que "Bergoglio vai à guerra". Por quê?

No continente, não diminuiu o número dos conflitos. O papa falou nos últimos dias dos "malditos", referindo-se àqueles que fomentam e prosperam com as guerras, aos responsáveis políticos, aos fabricantes de armas, a quem as comercia. Armas que só servem para manter aqueles que têm privilégios baseados na exploração. Onde quer que os seus interesses sejam ameaçados, há uma guerra.

Guerras impiedosas dos ricos contra os pobres. Basta olhar para o que aconteceu na Somália, que, apesar de 30 anos de conflito e intervenções internacionais, não conhece um único dia de paz. Ou o Burundi, que está estourando de novo, como a República Centro-Africana, ferida por guerra civil assustadora, e depois o Sudão do Sul, o Sudão em guerra com as suas populações, e ainda toda a zona do Sahel, do Senegal ao Mali, passando pelo Níger. O papa chega em um momento-chave, e essa visita põe em discussão um sistema de poder baseado na violência.

De que modo?

As armas servem para manter a exploração. Bastaria pensar que, na Líbia, tínhamos Gaddafi, que era um ditador, mas não havia grupos fundamentalistas. Realmente fizemos a guerra para libertar o país do punho de um déspota? E o que é a Líbia hoje? Um país pacificado? E nós, italianos, que vendemos e continuamos vendendo armas sem fim, porque não nos questionamos? Depois da derrota de Gaddafi, todo o arsenal acabou nos conflitos do Sahel. Eis o efeito de certas guerras, que não pacificam, não trazem estabilidade, mas no máximo estendem os conflitos e aumentam os lucros dos "empresários de guerra". Francisco diz isso, estando perto das vítimas, e essa mensagem e essa coragem não vão passar despercebidas.

Que papel e que responsabilidades cabem à Igreja local?

Francisco pede uma Igreja pobre e dos pobres, capaz de caminhar com o povo, uma Igreja que não dependa quase que exclusivamente da caridade que recebe de fora, que não se deixe seduzir pelos estilos ocidentais, caso contrário não se faria nada mais senão replicar um modelo de vida e de desenvolvimento que não é viável e menos ainda sustentável na África. Mas nós, aqui na Europa e no Ocidente, também devemos nos deixar interrogar pela África.

Para encontrar quais respostas?

Há uma palavra em suaíli que indica a "comunidade", mas vai além. É ubuntu, que significa "eu sou porque nós somos", não porque "possuímos". O ser e o estar em relação contam mais do que o ter. Francisco vai lembrar isso para a África, e a África pode dizer isso para nós.

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