Francisco: “A Igreja missionária não se fecha em si mesma”

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21 Outubro 2015

As cátedras dos não crentes, primeiro volume (aos cuidados de Virginio Pontiggia) da Opera omnia de Carlo Maria Martini, sai quinta-feira dia 22 de outubro por Bompiani (1.296 pp., 25 euros). O livro, que reúne as intervenções da “Cátedra dos não crentes”, testemunho do empenho ao diálogo de Carlo Maria Martini, abre com o prefácio do Papa Francisco.

O prefácio foi publicado por Corriere della Sera, 19-10-2015. A tradução é de Benno Dischinger.

“Eu acho que cada um de nós tenha em si um não crente e um crente, que se falam internamente, se interrogam um ao outro, se enviam continuamente um ao outro interrogações pungentes e inquietantes. O não crente que está em mim inquieta o crente que está em mim e vice-versa: com estas palavras Carlo Maria Martini abria a primeira “Cátedra dos não crentes”, em 1987. Iniciava assim um longo caminho de diálogo (em 12 edições, até 2002) desejado pelo cardeal para dar palavra aos não crentes.

O livro será apresentado às 18h, do dia 20 de outubro, no Auditório San Fedele de Milão (Via Hoepli 3/b): intervirão Carlo Casalone SJ, presidente da Fundação Carlo Maria Martini, Guido Formigoni, coordenador do comitê científico da Opera omnia, e os filósofos Salvatore Natoli e Carlo Sini.

Leia na íntegra o prefácio escrito pelo papa Francisco para o livro. 

Eis o prefácio.

O diálogo e a herança de Martini

A herança que nos deixou o cardeal Martini é um dom precioso. Sua vida, suas obras e suas palavras têm infundido esperança e sustentado muitas pessoas no seu caminho de busca. Quantos de nós na Argentina, no “fim do mundo” temos feito os Exercícios espirituais a partir dos seus textos! Homens e mulheres de diversos tipos de fé, não só em âmbito cristão, encontraram e continuam encontrando encorajamento e luz nas suas reflexões. Temos, portanto, a responsabilidade de valorizar este patrimônio, de modo que possamos ainda hoje alimentar percursos de crescimento e suscitar uma autêntica paixão pela cura do mundo. Nesta perspectiva desejo por em evidência três aspectos que considero particularmente relevantes na figura do cardeal.

O primeiro diz respeito à sua atenção em promover e acompanhar, no interior da comunidade eclesial, o estilo de sinodalidade tão desejado pelo Concílio Vaticano II. Isto requer, de uma parte, um comportamento de escuta e de discernimento de quanto o Espírito move na consciência do Povo de Deus, na variedade dos seus componentes; de outra parte, o cuidado para que as diferenças não degenerem em conflito destrutivo.

Embora sem ter medo das tensões, ou até mesmo das contestações, que cada impulso profético necessariamente traz consigo (pro veritate adversa diligere [pela verdade gostar das coisas adversas] era o seu slogan episcopal), o cardeal sempre procurou neutralizar a carga destrutiva e, com sensibilidade e afeto pela Igreja, transformá-las em ocasiões importantes de um processo de mudança e de crescimento na comunhão.

Também diante de situações de conflito, ele sempre evitou a contraposição que não conduz a nenhuma solução, pensando antes criativamente em termos de alternativas. Ele não queria fazer concessões a modos ou a indagações sociológicas, mas era levado a uma única questão e fundo: “de que modo Jesus Cristo, vivo na Igreja, é hoje fonte de esperança?”, assumindo com fidelidade a missão da Igreja de anunciar misericórdia e verdade.

Ao mesmo tempo, era consciente da presença na Igreja de tantas sensibilidades diversas segundo os contextos culturais, que não podem ser integrados sem um livre e humilde debate. Propunha a necessidade de um instrumento de confronto universal e autorizado para enfrentar os temas “com liberdade, no pleno exercício da colegialidade episcopal, na escuta do Espírito e visando o bem comum da Igreja e da humanidade inteira”. Quando se procura a vontade de Deus há sempre pontos de vista diversos e é preciso procurar espaços para escutar o Espírito Santo e permitir-lhe atuar em profundidade, como estamos experimentando por ocasião do Sínodo sobre a Família.

Com este espírito pastoral e espiritual de diálogo o cardeal Martini não procurou somente envolver os membros da comunidade eclesial. Procurou também ativamente encontrar quem, na comunidade dos que creem, não se reconhecia, imediatamente. É este o segundo traço do cardeal que quero recordar. Ele lançou o olhar além dos limites consolidados, favorecendo uma Igreja missionária e “em saída” e não fechada sobre si mesma, fazendo emergir a mensagem universal do Evangelho, portador de luz e de inspiração para todas das pessoas. O exemplo de maior ressonância também internacional deste novo modo de dialogar com o mundo contemporâneo foi a Cátedra dos não crentes, que justamente é apresentada em sua inteireza precisamente no primeiro volume desta Opera omnia.

A iniciativa nasceu da convicção de que todos, dos que creem e dos não crentes, estamos na busca da verdade e não podemos dar nada por descontado. Todo aquele que crê traz em si a ameaça da não crença e todo aquele que não crê traz em si o germe da fé: o ponto de encontro é a disponibilidade em refletir sobre as questões que todos temos em comum. O próprio Martini jamais deixou de ser um cristão que se interrogava com honestidade sobre sua própria fé, na consciência de que isto não obstaculizava, mas até reforçava, o seu ministério de bispo chamado a apascentar o rebanho a ele confiado. Neste sentido, encarnou magistralmente o famoso dito de Agostinho: “Vobis enim episcopus, vobiscum sum christianus” (Para vós de fato sou bispo, convosco sou cristão, Sermão 340,1). 

O cardeal tinha intitulado a fecundidade da contribuição que as comunidades cristãs podem dar à sociedade civil, se cumprem este esforço de mediação no plano ético e antropológico: os princípios da fé, longe de transformar-se em motivo de conflito e de contraposição no interior da convivência civil, podem e devem resultar visíveis e atraentes também para os outros, no maior consenso e concórdia possíveis e motivar em profundidade o empenho pela justiça e pela solidariedade.

O convite a “tornar próximo” perante aqueles que são postos da parte que caracterizou o magistério do cardeal Martini ressoou com força e eficácia no interior da sociedade civil e no mundo da política, mesmo além dos âmbitos da cidade de Milão, à qual com frequência era imediatamente direcionado. 

O terceiro aspecto, que apoia e fundamenta os outros dois: a familiaridade do cardeal com a Palavra de Deus. E nele esta competência se unia ao talento pastoral de saber comunicá-la a todos, fiéis e leigos, intelectuais e pessoas simples. Assim ele foi para muitos de nós que escutamos as suas palavras ou daqueles que leram os seus textos um mestre em fazer conhecer e apreciar a Bíblia, apresentando-a principalmente como dom, mais do que como exigência e tornando disponível sua extraordinária fecundidade em fazer amadurecer as consciências e as culturas. Precisamente sua constante atenção ao tesouro da Escritura faz com que as palavras do cardeal Martini não podem ser vista como considerações ditadas pelo bom senso ou por teorias políticas; em sua simultânea simplicidade e profundidade elas exprimem toda a riqueza da tradição, chegando a interpelar cada pessoa e todo o povo.

Em particular, ele indicou percursos para conectar a Palavra à vida, mostrando sua pertinência e relevância para o própria experiência pessoal. Assim ela pode tornar-se agente de conversão, alimentando uma vida mais fraterna e mais justa, impedindo refugiar-se na sombra de cômodas seguranças pré-confessionais. A propósito, quero aqui recordar a iniciativa da “Escola da Palavra” que o cardeal promoveu em sua cara arquidiocese de Milão, mas que se difundiu também em outros países, permitindo a muitos, especialmente aos jovens que lhe estavam particularmente a peito, de degustar a permanente novidade que brota da leitura do texto bíblico. Não eram cursos de exegese, mas ocasiões de leitura sapiencial da vida, que permitiram a muitos experimentar aquele fogo no coração que aqueceu os dois discípulos na estrada de Emaús. Nesta sua tendência à escuta e à pregação da Palavra o cardeal Martini valorizou de modo original a espiritualidade da Companhia de Jesus. Atingiu amplamente a pedagogia inaciana, em particular inspirando-se nos Exercícios espirituais.

Ele concretizou a contribuição específica que os Exercícios fornecem à Lectio divina: discernir o desejo mais autêntico e chegar a determinações concretas (discretio et deliberatio), de tal modo que a escuta não permaneça em suspenso, mas incida sobre a prática e transforme a vida. O cardeal soube também servir-se com sapiência e eficácia das indicações de Santo Inácio para envolver na prece todas as dimensões da pessoa, corporeidade e afetividade inclusas, indicando a via para articular adequadamente ação e contemplação. Estes três aspectos – sinodalidade, diálogo e, como fundamento, Palavra de Deus – não exaurem, por certo, a atualidade da figura do cardeal.

Muitos outros deveriam ser postos em evidência, tanto entre aqueles conhecidos, como entre aqueles que um conhecimento mais aprofundado de sua obra permitirá descobrir e precisar. Por isso, estou muito reconhecido com todos aqueles que se empenham na iniciativa de recolher, ordenar e pôr à disposição de modo orgânico a grande quantidade de intervenções e de escritos do cardeal Martini, situando-os no contexto histórico e nas circunstâncias nas quais foram elaborados. Será assim possível captar de que solicitações brotaram e compreender melhor seu significado e dinâmica profunda. Deste modo, também graças à competência do grupo de peritos que foi convocado para executar o trabalho, que será uma obra de referência.

Espero, portanto, que a publicação da Opera omnia proceda segundo o plano estabelecido e chegue aos objetivos que se propõe, porque então ela constituirá um convite contínuo a refletir conjuntamente sobre o modo pelo qual estamos construindo o futuro do nosso planeta e procurando caminhos compartilhados de libertação e de esperança. Estes poderão ser de grande ajuda no nosso mundo tão marcado por forças desagregadoras e desumanizantes, para inspirar uma vida mais rica de sentido e uma convivência mais fraterna.

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