Um terço dos refugiados que chegaram à Itália sofreu torturas ou violências

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29 Julho 2015

Um terço dos refugiados e requerentes de asilo na Itália sofreu torturas, violências ou abusos. É a estimativa do Centro Astalli, o serviço dos jesuítas para os refugiados na Itália, que, enquanto nestes meses as notícias relatam desembarques contínuos de migrantes nas costas meridionais italianas, também ressalta outro fenômeno pouco conhecido, os problemas psiquiátricos, muitas vezes ignorados, de uma consistente cota de refugiados que chegam à Itália a partir de zonas de guerra ou de extrema pobreza na África ou no Oriente Médio.

A reportagem é de Iacopo Scaramuzzi, publicada no sítio Vatican Insider, 24-07-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Um dado que muitas vezes não se lembra é que cerca de um terço das pessoas refugiadas ou requerentes de asilo são vítimas de tortura, violências ou maus-tratos, sofridos no país de origem ou durante a viagem", conta o padre Camillo Ripamonti, presidente do Centro Astalli.

"As vítimas são principalmente mulheres, mas os homens também não são poupados. Eles são espancados, amarrados, as mulheres estupradas. Ocorre nos países de onde fogem ou durante a viagem, por exemplo, nos centros de detenção na Líbia."

Soma-se a isso o problema das doenças psiquiátricas desenvolvidas por muitos requerentes de asilo, nem sempre fáceis de detectar, mas exacerbadas pela situação daqueles que, tendo chegado à Itália, não tem mais uma rede de apoio de familiares ou amigos, razão pela qual "se encontram em uma situação de vulnerabilidade ainda mais forte".

Em relação a quem foi vítima de violência, afirma-se no relatório de 2015 publicado nos últimos dias pelo Centro Samifo, estrutura para a saúde dos migrantes forçados nascida em 2006 a partir da colaboração entre a empresa USL Roma e o Centro Astalli, "subsiste uma obrigação por parte das instituições sanitárias públicas para fornecer o tratamento necessário".

Ainda mais grave é a condição dos refugiados com problemas mentais, consequências de traumas sofridos no país de origem ou durante a viagem, "mas também das condições de vida na Itália (insuficiência dos locais de acolhida, dificuldades de recepção que acabam afetando particularmente as pessoas mais vulneráveis)".

Nesse contexto, "as dificuldades objetivas das Empresas Sanitárias Locais para cuidar de usuários com características e necessidades tão específicas e o elevado fluxo de migrantes forçados que chegaram nos últimos dois anos, por causa das mudanças políticas e das guerras que envolveram diversos países, só agravaram uma situação por si só já crítica".

O problema das violências e dos transtornos psiquiátricos "sempre esteve presente", é a análise do padre Ripamonti, "mas nos últimos tempos os traficantes se tornaram mais impiedosos. É como se o negócio dos traficantes tivesse entrado em regime".

As notícias dos últimos meses relataram um fluxo crescente de migrantes que atravessam o Mediterrâneo, uma situação fora de controle na Líbia, embarcações fantasmas abandonadas pelos traficantes à deriva das costas de desembarque ou deixadas no último trecho nas mãos de menores egípcios que, por causa da sua idade, não arriscariam uma incriminação assim que chegassem ao seu destino.

Na Itália, chegam pessoas profundamente provadas, "e se não se cuida dessas situações podem-se desenvolver repercussões deletérias sobre a sua saúde mental". Sem contar que – a memória vai para Adam Mada Kabobo, o ganês que em 2013 matou três transeuntes em Milão com uma picareta – "se o Estado se encarrega dessas situações ele também põe em segurança a sociedade de acolhida", destacam no Centro Astalli.

O centro, junto com a Cáritas, a Comunidade de Santo Egídio, o INMP (Instituto Nacional para a Promoção da Saúde das Populações Migrantes e para o Combate das Doenças da Pobreza), o Cir, o Save the Children e outras organizações, amadureceu uma ampla experiência no campo. Tanto é que, com o Ministério do Interior e o da Saúde italianos, está ativa agora uma mesa para se chegar a redigir novas linhas de orientação para as pessoas vulneráveis.

A estrutura dos jesuítas, que se localiza na Via degli Astalli, a poucos metros da central Praça Veneza, fornece a cada dia cerca de 350 refeições todos os dias, das 14h às 17h30, junto com assistência médica e legal aos refugiados e aos requerentes de asilo, além de gerir quatro centros de acolhida, um guichê para a ajuda para encontrar trabalho e uma fundação que se ocupa, dentre outras coisas, de sensibilização da opinião pública italiana como o testemunho de um grupo de refugiados nas escolas da capital.

Afegãos, curdos, iraquianos, nigerianos são os mais presentes, enquanto outras nacionalidades (por exemplo, sírios) tendem a continuar a sua viagem para o norte da Europa. No refeitório do Centro Astalli, e em Roma em geral, o aumento durante o verão dos desembarques nas costas meridionais não provoca um aumento das presenças, porque ele é compensado por outros fenômenos, como a coincidência com o Ramadã recém-concluído (cerca de 80% dos hóspedes são de religião muçulmana), que prescreve o jejum nas horas diurnas, ou a partida de muitos estrangeiros rumo aos campos da região Sul da Itália para as colheitas sazonais.

Os botes dos imigrantes, porém, continuam chegando à Itália, e a União Europeia selou um acordo sobre a distribuição de 40 mil refugiados entre os países membros. "Reconhecemos que a União Europeia deu um primeiro passo para uma gestão unitária e programada do fenômeno migratório", comenta o padre Ripamonti.

"No entanto, parece que se continua pensando em políticas de fechamento das fronteiras que não permitem uma mudança de perspectiva em relação às grandes crises humanitárias que afetam o mundo. Mais uma vez, destacamos que, para a União Europeia, a segurança e o controle das próprias fronteiras são prioritárias em relação à acolhida e à proteção de quem foge de guerras e perseguições."

Em particular, "não se enfrentaram verdadeiramente as problemáticas geopolíticas dos países de origem e dos países de passagem desses fluxos e não se fala de canais humanitários e de vias de acesso legais, que, a nosso ver, são o único instrumento realmente eficaz para fazer guerra contra os traficantes", que, nesse caso, se encontrariam desprovidos da fonte dos seus negócios, os migrantes prontos para pagar uma viagem ilegal para chegar à Europa.

E se alguém, em Roma ou em Treviso, fala de "invasão" de imigrantes na Itália, o padre Ripamonti rebate: "Basta ver os números. Nós preferimos falar de pessoas, mas falemos um pouco de números. Nos primeiros meses de 2015, o aumento de imigrantes que chegaram na Itália é de 8% em relação ao ano passado. Em 2014, no entanto, desembarcaram na Itália 170 mil pessoas, em comparação com uma população europeia de 500 milhões de pessoas. No Líbano, que tem uma população de quatro milhões de pessoas, chegaram nesses últimos anos dois milhões de sírios. É como se na Itália chegassem 30 milhões de imigrantes. Então, se poderia falar de invasão".

Roma, ao contrário, acolhe números incomensuravelmente inferiores, "pessoas que foram forçadas a deixar a própria casa por causa de crises humanitárias, conflitos ou regimes ditatoriais. Trata-se em média de pessoas muito jovens, e, entre elas, muitas são as vítimas de tortura".

E ainda no dia 23 cerca de 40 migrantes se afogaram depois do naufrágio de um bote ao largo das costas da Líbia. Isso foi relatado por alguns dos sobreviventes que desembarcaram em Augusta do navio militar alemão Holstein, que socorreu um total de 283 refugiados.

O padre Camillo Ripamonti comenta a notícia e reitera: "Os refugiados não são uma emergência. São o fruto previsível de guerras e crises humanitárias que há anos afligem muitas regiões do mundo. Que a União Europeia se empenhe em trabalhar sobre as causas que geram as migrações forçadas e garanta padrões de segurança adequados para aqueles que são forçados a pedir asilo para salvar a própria vida".

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