Igreja e internet: uma relação de amor e ódio. Entrevista especial com Moisés Sbardelotto

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25 Junho 2011

Embora a Igreja tenha mantido uma relação de amor e ódio com os meios de comunicação e, em especial, com as mídias digitais, é inegável a vivência da fé em ambientes digitais nas últimas décadas. Em uma sociedade em midiatização, explica o jornalista, "o religioso já não pode ser explicado nem entendido sem se levar em conta o papel das mídias" porque elas "não são meros meios de transmissão de informação, nem apenas extensões dos seres humanos, mas sim o ambiente no qual a vida social se move".

Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail, Moisés Sbardelotto enfatiza que a fé praticada nos ambientes digitais "aponta para uma mudança na experiência religiosa do fiel e da manifestação do religioso" e, portanto, que a religião tradicional está mudando. "Junto com o desenvolvimento de um novo meio, como a Internet, vai nascendo também um novo ser humano e, por conseguinte, um novo sagrado e uma nova religião", constata.

Moisés Sbardelotto abordará o tema desta entrevista no IHU ideias da próxima quinta-feira, 30-06-2011, quando apresentará a dissertação de mestrado intitulada E o Verbo se fez bit: Uma análise de sites católicos brasileiros como ambiente para a experiência religiosa. O evento iniciará às 17h30min, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros – IHU.

Sbardelotto é mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos, na linha de pesquisa Midiatização e Processos Sociais. Atualmente, é coordenador do Escritório da Fundação Ética Mundial no Brasil (Stiftung Weltethos), um programa do Instituto Humanitas Unisinos - IHU, em São Leopoldo-RS. É bacharel em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como a Igreja se posicionou diante das novas tecnologias e do uso da internet?

Moisés Sbardelotto – Pelo que temos visto especialmente nos últimos anos, a Igreja Católica tem mantido uma relação de "amor e ódio" com os meios de comunicação e particularmente com as mídias digitais, tendo estado no centro de inúmeras crises. Nesse processo de reviravolta sociocomunicacional, a Igreja ainda está tateando em busca de um reposicionamento institucional.

Em 2009, em um gesto histórico, o papa enviou uma carta a todos os bispos do mundo, na qual reconheceu que cometera um erro "comunicacional". Referindo-se ao fato de não ter se informado anteriormente sobre um bispo ultratradicionalista recém reintegrado à Igreja que havia negado a existência das câmaras de gás durante o Holocausto, Bento XVI afirmou: "Disseram-me que o acompanhar com atenção as notícias ao nosso alcance na internet teria permitido chegar tempestivamente ao conhecimento do problema. Fica-me a lição de que, para o futuro, na Santa Sé, deveremos prestar mais atenção a esta fonte de notícias". Ou seja, o papa assumiu que bastaria ter dado uma simples "googlada" para saber quem era esse bispo.

Em termos oficiais, no nível da alta esfera, o Vaticano tem publicado documentos que abordam a relação entre a Igreja e as mídias digitais, como, por exemplo, as mensagens por ocasião do Dia Mundial das Comunicações Sociais. A última, do dia 5 de junho de 2011, trata do tema "Verdade, anúncio e autenticidade de vida, na era digital". Ou seja, essa nova ambiência é uma temática que interroga a Igreja, que se encontra tão enraizada na cultura escrita impressa e nos meios de comunicação de massa, recolhendo ainda os despojos do papado multimidiático de João Paulo II. Nessa mensagem, há um avanço quando se reconhece que "as novas tecnologias estão mudando não só o modo de comunicar, mas também a própria comunicação em si mesma, podendo-se afirmar que estamos perante uma ampla transformação cultural".

Por outro lado, na mensagem, Bento XVI afirma que "como qualquer outro fruto do engenho humano", as novas tecnologias da comunicação, se "usadas sabiamente, podem contribuir para satisfazer o desejo de sentido, verdade e unidade que permanece a aspiração mais profunda do ser humano". Embora reconhecendo o alcance sociocultural das mídias digitais, a Igreja ainda se centra na questão do seu uso – que poderia ser, nesse entendimento, bom ou ruim (no final, o papa diz: "Convido sobretudo os jovens a fazerem bom uso da sua presença no areópago digital").

A preocupação, no entanto, deveria ir muito além disso. A internet, embora sendo "fruto do engenho humano", está ligada também a formas e práticas de vida intrínsecas a ela. Como analisa Gordon Graham, novidades tecnológicas como a internet não são positivas apenas por serem novas, nem negativas apenas por serem tecnológicas. Mas também não são neutras: nas mídias digitais online, por exemplo, p