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21 May

Inovação tecnológica para o desenvolvimento... mas de quem?

“É hora de pensarmos qual futuro queremos. Qual vai ser nossa inserção internacional? Qual será o perfil de nossa economia e do emprego que será criado para as novas gerações?”, indaga o documento ‘Compromisso pela Inovação’, divulgado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) em 2011.

A reportagem é de André Antunes, publicada no portal da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), 15-05-2013.

A resposta a essas perguntas vem logo abaixo: se deseja ter uma “inserção mais dinâmica na nova economia global”, o Brasil precisa vencer o desafio da inovação, “nossa capacidade de converter ideias em valor”, na definição da CNI, mobilizando “a criatividade, a tecnologia e a ciência para atender melhor demandas antigas ou resolver novos problemas”. Mas para inovar é preciso mais do que mobilizar o setor empresarial, é necessário um compromisso social, uma vez que a inovação, para a CNI é, ao mesmo tempo, um “tema próprio das empresas” e “uma agenda que interessa a todos, aos trabalhadores, à academia e ao governo”.

Nesse processo, segundo a Confederação, cabe ao setor privado exercer um protagonismo, no sentido de “apontar caminhos que nos permitam organizar melhor o que fazemos e aprimorar a relação entre universidades e empresas, entre o governo e o setor privado. Significa também contribuir para melhorarmos nossas políticas públicas”.

Se as políticas públicas estão sendo “melhoradas” com a influência da CNI e do discurso que associa as inovações tecnológicas com o desenvolvimento econômico é questão a ser discutida, mas o fato é que essa racionalidade, que coloca a ciência e a tecnologia a serviço do mercado e as empresas privadas como atores centrais no processo de desenvolvimento, é cada vez mais marcante nas falas de membros do governo, do setor privado e da academia. A incorporação do termo ‘inovação’ ao nome do ministério dedicado ao tema em 2010 é um exemplo prosaico, porém emblemático dessa tendência. Outro componente é o aumento significativo, a partir dos anos 2000, dos recursos públicos destinados a promover a inovação no setor empresarial, como você verá mais adiante nesta matéria.

E exatamente essa área ganhou um reforço de peso em março, com o lançamento do programa ‘Inova Empresa’ pelo governo federal. O programa irá destinar, até 2014, R$ 32,9 bilhões a projetos que visem a aumentar a competitividade das empresas brasileiras no mercado internacional por meio da inovação tecnológica, através do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

O Inova Empresa coaduna-se com as definições da Estratégia Nacional de Ciência Tecnologia e Inovação (ENCTI), que coloca metas para a área no período 2012-2015 e tem como um de seus eixos orientadores a promoção da inovação nas empresas, afirmando que “o fortalecimento da inovação empresarial com vistas ao aumento da competitividade industrial continua a ser um objetivo comum, especialmente em termos da elevação da produtividade, do crescimento do emprego e da melhoria da qualidade de vida”. O documento estabelece diversas metas, entre elas a de aumentar o dispêndio nacional em pesquisa e desenvolvimento em relação ao PIB de 1,19% em 2010 para 1,80% em 2014 e aumentar o dispêndio empresarial na área em relação ao PIB de 0,56% do PIB para 0,90%

Bolsa Família da inovação

No lançamento, que ocorreu durante uma reunião da Mobilização Empresarial pela Inovação – movimento da CNI que atua no lobby sobre inovação junto ao poder público – no Palácio do Planalto, no dia 14 de março, a presidente Dilma Rousseff afirmou que o programa seria importante para tornar o país “menos desigual”, aumentando a capacidade de a economia “ser produtiva e competitiva”. Antonio Elias, secretário-executivo do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), explica que o crescimento do mercado consumidor interno, com a ampliação da renda e do acesso ao crédito de “40 milhões de brasileiros”, permitiu “impulsionar as cadeias produtivas brasileiras e também a área de serviços, gerando uma expectativa e uma demanda maior por processos inovativos”.

“O Brasil se transforma numa plataforma para a América Latina, com possibilidade de fazer um maior intercâmbio comercial com os países vizinhos desde que rompa os movimentos restritivos ao crescimento da economia”, continua Antonio Elias, para em seguida explicar: “o Brasil tinha uma baixa diversidade produtiva, uma especialização na agricultura e na mineração. Hoje isso não é realidade: com a área de serviços crescendo, a microeletrônica cresceu, impulsionada pela cadeia do petróleo, a área de bens de capital cresceu, há um conjunto de outras áreas que estão crescendo com agregação de valor”.

Durante o lançamento, a presidente Dilma também destacou que o programa seria uma espécie de “bolsa família” da inovação, integrando ações e recursos do governo destinados à inovação que estavam dispersos. “Não havia uma matriz montada que pudesse aglutinar toda uma capacidade de recursos e que estivesse numa mesma vertente focada. O que fez o plano? Justamente pensar essas oportunidades, articulando a política industrial com a política de ciência e tecnologia numa matriz para corrigir as assimetrias existentes em setores e áreas estratégicas”, afirma Antonio Elias.

São sete as “áreas estratégicas” definidas pelo plano, que deverão receber a maior parte dos recursos, R$ 23,5 bilhões: cadeia agropecuária (R$ 3 bilhões), energia (R$ 5,7 bilhões), petróleo e gás (R$ 4,1 bilhões), complexo da saúde (R$ 3,6 bilhões), complexo aeroespacial e defesa (R$ 2,9 bilhões), tecnologia da informação e comunicação (R$ 2,1 bilhões) e sustentabilidade socioambiental (R$ 2,1 bilhões).

Pari passu com algumas das demandas apresentadas pela CNI em seu Compromisso pela Inovação, o programa tem como meta, segundo o governo federal, “o fortalecimento das relações” entre instituições de pesquisa, empresas e setor público. Para isso foi criada a Empresa Brasileira para Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), com investimentos previstos da ordem de R$ 1 bilhão até 2014. Segundo Dilma, ela deverá espelhar-se na atuação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), promoverá um “casamento” entre instituições públicas de pesquisa e as empresas privadas.

Entre seus objetivos, estão a promoção de “estratégias de inovação decorrente das demandas empresariais”, o estímulo a que instituições de pesquisa realizem “prospecção de projetos empresariais e arranjos cooperativos para inovação” e o estabelecimento de um “ambiente favorável à formação e capacitação de recursos humanos”, tendo a inovação como preocupação central. O Inova Empresa prevê que os projetos deverão ter financiamento tripartite: um terço do governo federal – por meio de crédito, subvenção ou recursos não reembolsáveis –, um terço da instituição de pesquisa envolvida e um terço da empresa interessada. Cabe ressaltar: no caso de o projeto envolver uma instituição pública de pesquisa, o governo acaba arcando com dois terços do financiamento.

Inovacionismo

Para Rafael Dias, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o programa não traz nada de novo em relação às políticas públicas que vinham sendo implementadas na área de ciência e tecnologia nos últimos anos. “É mais do mesmo, um programa que segue essa tendência que já vem sendo aventada a um tempo de estimular a inovação na empresa, reconhecendo-a como o vetor do desenvolvimento econômico. A ideia que está por trás é de que, com a criação de determinados mecanismos, pode-se fomentar a atividade inovativa na empresa e com isso vamos ter um aumento da competitividade das empresas brasileiras, que traria desenvolvimento econômico e também social”, aponta Rafael. Segundo ele, o que há de novo é o montante de recursos do programa. “A diferença para mim é quantitativa, o volume de recursos que esse programa pretende mobilizar é algo realmente que não temos visto no âmbito da política de ciência e tecnologia e inovação no Brasil”.

Segundo Rafael, a análise do que vem ocorrendo nos últimos anos no Brasil mostra que o processo que alguns autores têm chamado de assunção do “inovacionismo” como modelo de política na área de ciência e tecnologia – do qual o Inova Empresa representa mais uma etapa – vem ganhando força, com a injeção de cada vez mais dinheiro público para fomentar a inovação no setor privado, com foco na hipótese de que o desenvolvimento nacional vai advir da inovação empresarial. Carolina Bagattolli, pesquisadora do Grupo de Análise de Políticas de Inovação (Gapi) da Unicamp, explica que foi no bojo das privatizações de empresas estatais brasileiras com as políticas neoliberais a partir da década de 1990 que teve início o inovacionismo no país, com a criação dos Fundos Setoriais, no âmbito da Finep, a partir de 1999. “Os fundos setoriais foram uma forma de não reduzir o investimento em pesquisa e o desenvolvimento com as privatizações, porque das empresas que faziam essa atividade no Brasil a grande maioria eram as públicas que deixariam de ser públicas. Eles surgiram como uma proposta de que fosse compulsório que as empresas que comprassem as públicas separassem o mesmo percentual de recursos para que eles fossem investidos em pesquisa e desenvolvimento na área”, escreve, em sua tese de doutorado.

Segundo Renato Dagnino, professor da Unicamp, até esse momento a pesquisa científica no país era levada a cabo por instituições e empresas públicas, pautada no interesse pelo desenvolvimento científico em áreas consideradas prioritárias para a soberania nacional. “Temos marcos como a Petrobras e a Embraer, que mostram que, no Brasil, foi possível desenvolver pesquisa original e ligar com a produção de bens e serviços onde havia interesse do Estado ou de alguma elite, mas que de qualquer forma passava pelo Estado”, diz.

Segundo ele, isso mudou com a chegada do neoliberalismo. “A partir daí, o Estado foi convertido em vilão e a empresa privada no ‘demiurgo da modernidade’, que poderia salvar o Brasil e conduzi-lo para o primeiro mundo, de forma que as políticas públicas se orientaram para enxugar o Estado e endeusar a empresa”, ressalta. Segundo Rafael Dias, aí começaram a secar as fontes públicas de financiamento para pesquisa que existiam desde a institucionalização da política científica e tecnológica no Brasil, com a criação da Capes e do CNPq, na década de 1950. “Nesse momento, começou a ganhar força o uso do próprio termo ‘inovação’ no discurso dos cientistas inclusive, como uma forma de legitimar uma mudança do foco.Era algo mais ou menos do tipo: ‘se não podemos mais contar com o governo para ter acesso a recursos vamos procurar outro parceiro, as empresas privadas’”.

Aumento dos recursos para a inovação

Como escreve Carolina em sua tese de doutorado, os Fundos Setoriais elegeram a empresa privada como ator central e os arranjos cooperativos universidade-empresa como a maneira de se promover o financiamento e a execução da pesquisa científica e tecnológica pela empresa. Seus recursos são destinados ao apoio de programas e projetos de atividades de ciência, tecnologia e inovação, como a transferência de tecnologia e o desenvolvimento de novas tecnologias de produtos e processos, de bens e de serviços, entre outros. As empresas acessam o dinheiro de duas formas: a modalidade recursos reembolsáveis, destinada ao financiamento de projetos de desenvolvimento tecnológico em empresas, é operada na forma de empréstimos pela Finep; na modalidade recursos não reembolsáveis, os recursos dos fundos setoriais financiam, por exemplo, despesas para projetos de cooperação entre universidades e centros de pesquisa com empresas e dá subvenção econômica para empresas.

Existem hoje 16 fundos setoriais, sendo 14 destinados ao fomento à inovação empresarial em áreas específicas, como agronegócio, saúde, petróleo e energia, entre outros, e dois transversais: um voltado à promoção da interação universidade-empresa e geração de inovação empresarial e o outro destinado a apoiar a melhoria da infraestrutura de instituições de pesquisa. O número de projetos financiados pelos fundos saltou de 204 em 1999, que totalizaram R$ 78,4 milhões em investimentos, para 5.486 em 2010, totalizando R$ 1,6 bilhão, segundo dados do MCTI.  

O aumento significativo no montante investido pela Finep por meio dos Fundos Setoriais ao longo dos anos 2000 corrobora a visão dos pesquisadores que veem uma inflexão forte em direção ao inovacionismo a partir da primeira década do século 21 no Brasil. Carolina Bagattolli destaca outros marcos importantes nessa trajetória que aconteceram nesse período: a Lei da Inovação, de 2004, e a Lei do Bem, de 2005.

A primeira é entendida como uma ferramenta jurídica para facilitar as “parcerias” entre universidades e empresas. Segundo Renato Dagnino, também professor da Unicamp, a relação universidade-empresa já estava presente desde a institucionalização da política científica e tecnológica no país. “Ela era uma política muito preocupada em consolidar a chamada infraestrutura cientifico-tecnológica: formação de recursos humanos, pesquisa básica. Era uma política linear porque acreditava que existia uma cadeia linear de inovação — que se faz pesquisa básica, depois aplicada, depois há o desenvolvimento econômico e depois o social —, coisa que lamentavelmente ainda faz parte do discurso de boa parte da comunidade científica. Ela era também ofertista porque considerava que cabia ao governo e à comunidade de pesquisa oferecer recursos humanos e conhecimento e, ao fazê-lo, a empresa passaria a incorporar esses resultados de pesquisa e recursos humanos. Isso não aconteceu, só em poucos casos onde a iniciativa estatal estava por trás”.

Segundo Carolina, isso muda com o fortalecimento do discurso da inovação. “Quando começou esse discurso mais inovacionista a discussão era de que a inovação era um processo complexo e sistêmico e não linear. Uma das implicações disso é que não é adequado a universidade transferir conhecimento para a empresa, ela tem que produzir conhecimento junto com a empresa”, compara.

Essa é a visão do secretário-executivo do MCTI, Antonio Elias. “Eu não preciso ter o pesquisador dentro da empresa, as empresas em geral querem os laboratórios de que elas podem se servir e querem fazer projetos cooperativos porque assim diminuem custo, porque um doutor na empresa subentende eu pagar o salário, INSS, etc. Eu não preciso ter o pesquisador dentro da empresa, ela tem que se servir do pesquisador”, afirma.

O resultado disso é a baixa absorção de profissionais com pós-graduação pelas empresas privadas, como aponta Renato Dagnino:  “Enquanto formamos 90 mil mestres e doutores em ciência dura, ou seja, engenharia, física, química, biologia, tudo aquilo que a empresa necessita para se tornar produtiva ou competitiva, entre 2006 e 2008, nesses três anos, diferentemente do que seria de se esperar só 68, de 90 mil, foram assimilados pelas empresas brasileiras. Então, isso mostra de forma irretorquível que a empresa brasileira não faz pesquisa”, destaca. Aqui é importante ressaltar para não haver dúvidas: foram apenas 68 mestres e doutores assimilados pelas empresas privadas entre 2006 e 2008, e não 68 mil.

Preocupada em estimular as parcerias entre universidades e empresas, a Lei da Inovação, promulgada em 2004, trata dos incentivos à inovação e à pesquisa científica e tecnológica nas empresas a partir de três eixos: a constituição de um ambiente propício a parcerias entre universidades, instituições de pesquisa e empresas; o estímulo à participação de instituições de pesquisa no processo inovativo e o estímulo à inovação na empresa.

Como explica Carolina em sua tese, a lei possibilita às instituições de pesquisa compartilhar seus laboratórios e estruturas físicas com empresas para o desenvolvimento de atividades voltadas à inovação tecnológica, celebrar contratos de transferência de tecnologia e de licenciamento de direitos de uso ou exploração de criações desenvolvidas pela instituição, prestar serviços em atividades voltadas à inovação e à pesquisa científica e tecnológica em empresas e conceder aos seus pesquisadores licença não remunerada de até três anos, renovável por mais três, para constituir empresa inovadora. A lei ainda prevê que União, instituições de pesquisa e agências de fomento à pesquisa promovam o desenvolvimento de processos e produtos inovadores nas empresas mediante concessão de recursos financeiros, humanos, materiais ou de infraestrutura. “O aporte de recursos financeiros pode se dar sob a forma de subvenção econômica, financiamento, participação acionária, ou através de ‘encomendas tecnológicas’ por parte do governo”, escreve Carolina.

A Lei do Bem, por sua vez, dispõe sobre incentivos fiscais para a inovação tecnológica, entendida como “a concepção de novo produto ou processo de fabricação, bem como a agregação de novas funcionalidades ou características ao produto ou processo que implique melhorias incrementais e efetivo ganho de qualidade ou produtividade, resultando maior competitividade no mercado”. Rafael Dias explica que o conceito mais tradicional de inovação é o atribuído ao economista Joseph Schumpeter, que a entendia como um novo produto ou processo produtivo que a empresa faz “para se diferenciar temporariamente das suas concorrentes no mercado e gerar uma situação de desequilíbrio de concorrência que permite que ela explore um lucro diferenciado por determinado período de tempo”. Rafael completa: “A inovação é intrinsecamente ligada ao mercado, à obtenção de lucro”. Segundo ele, embora o governo federal não adote explicitamente o conceito de inovação proposto por Schumpeter, ao colocar o foco das políticas no mercado, como na definição da Lei do Bem, mostra que essa formulação tem aderência na esfera pública. Dentre os incentivos fiscais previstos por essa lei estão: reduções de imposto de renda e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), redução de 50% do Imposto sobre Produtos Industrializados incidentes sobre equipamentos e maquinas destinados à pesquisa e desenvolvimento tecnológico, entre outros.

Segundo Carolina, a Lei da Inovação e a Lei do Bem institucionalizaram os mecanismos de subvenção econômica à inovação no Brasil, com a concessão de recursos não reembolsáveis para empresas públicas ou privadas que desenvolvam projetos de inovação considerados estratégicos, que resultaram em um aumento significativo dos recursos públicos destinados à inovação empresarial por meio da renúncia fiscal. De R$ 953 milhões em 1998, esse montante passou a R$ 6,7 bilhões em 2012, segundo dados do MCTI reunidos por Carolina, que destaca que, em 2010, a renúncia fiscal total do governo federal associada a essas isenções foi equivalente a 90% de todo o dispêndio em ciência e tecnologia realizado pelo MCTI. “Ou seja, os incentivos concedidos às empresas mediante a renúncia fiscal foi apenas 10% menor do que os recursos aplicados pelo MCTI em todos os seus programas (87 no total)”, escreve ela.

Resultados aquém do esperado

Mas qual foi o resultado de tanto investimento? A Pesquisa de Inovação (Pintec), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com apoio da Finep e do MCTI, dá algumas pistas. Segundo Carolina, é possível ver ali dados que corroboram o discurso oficial, que comemora, por exemplo, o aumento dos gastos das empresas em pesquisa e desenvolvimento, que passaram de R$ 2,19 bilhões em 2006 para R$ 8,62 bilhões em 2010. “Isso poderia significar que a política esta alcançando o resultado que pretende, mas a questão está numa análise mais fina, quando olhamos não só quanto mas como ela está gastando e de onde vêm os recursos”.

Segundo ela, o gasto das empresas nessa área como proporção do PIB, deduzidos os valores de renúncia fiscal, vem decrescendo nos últimos anos, passando de 0,25% em 2008 para 0,19% em 2010. “O que a gente observa é a substituição de recursos, as empresas não estão investindo mais e sim menos. O que significa que esses recursos públicos estão sendo usados como substituição e não têm o efeito multiplicador que o governo gostaria”. Além disso, aponta Carolina, a parcela das empresas inovadoras que fez pesquisa e desenvolvimento caiu de 33% em 1998 para 11% em 2008. “Mais do que isso, a percepção das empresas inovadoras com relação à pesquisa também caiu: em 1998, 34% das que inovaram e fizeram pesquisa acharam que ela era de alta e media importância, em 2008 esse número caiu para 12%”, ressalta.

Reflexo disso foi que apenas 0,7% dos produtos e 0,2% dos processos industriais foram considerados novos para o mercado mundial em 2008. Além disso, como destaca Rafael Dias, as políticas de ciência e tecnologia e inovação implementadas hoje no Brasil advogam um conceito de inovação muito amplo. “Por exemplo, a definição da Pintec considera inovação como algo que é novo para a empresa. Pode ser que, em uma determinada indústria, uma empresa seja a última a gerar um novo produto ou processo. Ainda assim aquilo é considerado uma inovação”. De fato, os dados da Pintec mostram que a principal atividade de inovação de cerca de 60% das empresas consideradas pela pesquisa nos últimos dez anos foi comprar máquinas e equipamentos.

Em sua tese, Carolina procurou entender justamente o porquê desse comportamento do empresariado brasileiro. “Temos uma inserção no capitalismo bastante periférica: seis produtos primários respondem por 50% da pauta de exportação:  café, minério de ferro, petróleo bruto, soja, carnes e açúcar”, aponta. Segundo ela, além de não demandar grandes aportes de conhecimento e tecnologia, essa produção também contribui para o quadro de desigualdade social existente no país, por estar a produção de bens primários concentrada nas mãos de poucos produtores.

“Mesmo com todas as melhorias na área social, ainda somos um dos países mais desiguais do mundo: 50% das famílias têm até um salário mínimo para sobreviver. Até 2010, o eletrodoméstico mais presente nas casas era um rádio. Tem uma demanda reprimida de produtos que já existem. Quando a gente pensa em inovação, a ideia é produzir um novo produto para um mercado de massa. Estamos num país onde metade da população tem esse perfil de renda e onde, além disso, a pauta de consumo da população dos mais ricos é exatamente a pauta de consumo dos países avançados. O carro dos sonhos do milionário brasileiro é o carro dos sonhos que já existe na Europa, o celular que todo mundo quer no Brasil é o celular que já existe lá fora. Não tem por que inovar”, aponta Carolina.

Inovação e interesse público

Renato Dagnino complementa, argumentando que o comportamento da empresa é, portanto, racional do ponto de vista competitivo. “No entanto, a comunidade de pesquisa diz de uma forma muito enfática que eles são atrasados, que não sabem o valor da pesquisa. Se temos um parâmetro para avaliar um empresário, esse parâmetro é a taxa de lucro e, sendo assim, o brasileiro está entre os melhores, e por isso não faz pesquisa”. Segundo ele, os dados mostram que a política de ciência e tecnologia voltada para o favorecimento da empresa é “contrafática” e contra a racionalidade do capitalismo. “Enquanto estamos gastando dinheiro numa coisa que não vai ocorrer e que caso ocorresse tenderia a agravar e não a melhorar a desigualdade, nós não estamos gastando recursos para desenvolver tecnologia e formar recursos humanos na área que chamamos de tecnologia social, por exemplo”. Ele chama a atenção para a disparidade na alocação de recursos no interior do MCTI: “O ministério tem uma recém-criada Secretaria de Ciência e Tecnologia para Inclusão Social, mas ela absorve apenas 2% do orçamento; as empresas levam 40%, a comunidade científica 30% e outros 28% vão para grandes projetos de interesse do ministério, como submarino nuclear, projetos na área de defesa”.

Rafael Dias segue a mesma linha: “Com o Inova Empresa, não são apenas R$ 30 bilhões que estão saindo do governo e indo para as empresas, são R$ 30 bilhões que estão deixando de ir para outras coisas, como escola pública, hospital, universidade e todas essas coisas. Com esse discurso de que qualquer ciência é boa, as pessoas não questionam muito a legitimidade desse tipo de destinação do recurso público”, alerta. Mas ele acha que essa ideia deve ser colocada em discussão. “Sabemos que determinada tecnologia favorece mais a um grupo do que a outro. O bonde elétrico, que já circulou por muitas cidades brasileiras, foi aposentado faz tempo em nome do carro. Isso é um exemplo de tecnologia que favorece a alguns interesses, como as montadoras de automóveis e quem tem mais dinheiro para comprar um carro, e desfavorece aqueles que poderiam se beneficiar do transporte público”, diz o professor da Unicamp. Rafael afirma que outro fator que evidencia como as políticas públicas nessa área atendem a interesses particulares é a análise do que elas deixam de contemplar. “Planos como esse preveem, por exemplo, estímulos à produção do etanol, então claramente atendem interesses de grandes produtores rurais, mas nele não estão contempladas demandas sociais mais amplas. Por que não vamos contemplar inovações para combater problemas associados à pobreza, à exclusão social, desenvolver processos adequados para cooperativas, para pequenas propriedades familiares? É significativo pensar também naquilo que deixa de estar presente na política pública”, opina.

No artigo ‘Sobre a mercantilização da ciência: a dimensão programática’, Marcos Barbosa de Oliveira, professor da Universidade de São Paulo (USP), defende que o conceito de inovação é o cerne da principal estratégia neoliberal para promover a mercantilização da ciência. Para ele, a alocação de recursos públicos para a pesquisa nos moldes do inovacionismo afeta negativamente o que ele chama de “ciência do interesse público”, entre outros domínios. “A ciência do interesse público pode, para nossos propósitos, ser definida como a ciência direcionada pelo interesse público, especialmente os dos setores mais pobres da população, e voltada para os problemas não susceptíveis de superação pelos mecanismos do mercado. Em muitos casos, os resultados de tais pesquisas não apenas não geram aplicações rentáveis, mas prejudicam os lucros das empresas”, escreve Marcos, dando como exemplos várias áreas com interface com a saúde, como os problemas ambientais, os riscos das novas tecnologias como os transgênicos, as consequências “nefastas” do modelo tecnológico da agricultura e, mais especificamente, a medicina preventiva, que procura avaliar o impacto sobre a saúde humana das várias formas de poluição, e das substâncias químicas encontradas nos  alimentos, bem como as chamadas doenças negligenciadas, que afetam majoritariamente as populações dos países pobres, carentes do poder aquisitivo necessário para tornar rentáveis as pesquisas voltadas para seu tratamento ou prevenção. Dados da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma) mostram que o setor investiu em todo o mundo US$ 63,2 bilhões em pesquisa e desenvolvimento (P&D) em 2007.

No entanto, um estudo intitulado ‘G-FINDER’, que faz um levantamento sobre o financiamento mundial de inovação para doenças negligenciadas (custeado pela Fundação Bill e Melinda Gates) mostrou que os investimentos nessa área somaram apenas US$ 2,5 bilhões naquele ano. Um exemplo é que, dos 1.556 novos remédios registrados entre 1975 e 2004, apenas 21 foram desenvolvidos para doenças negligenciadas que, de acordo com a OMS, são responsáveis por 12% da carga global de doenças e afetam cerca de 1 bilhão de pessoas em 149 países.

Além disso, continua Marcos em seu artigo, apenas 10% do montante investido em pesquisa pela indústria farmacêutica vai para doenças que afetam mais os países pobres, onde moram 90% da população. “Não é difícil entender isso, no capitalismo o interesse é acumular capital e não necessariamente isso vai ser compatível com o que a população espera em termos de atenção a demandas por saúde. Basta você ver o que é desenvolvido em termos de medicamento: em que a indústria investiu uma fortuna? Remédio para disfunção erétil”, aponta Kenneth Camargo Júnior, professor do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/Uerj), que vê com preocupação a predominância do discurso da inovação.

“Temos que pensar o quanto isso está ligado a uma concepção privatista da questão da propriedade intelectual, que é outra grande fronteira de batalha no mundo inteiro, que bate na questão das patentes. Esse modelo de patentes para a indústria farmacêutica vem sendo crescentemente criticado”, diz, chamando a atenção para o perigo que o sigilo exigido pelas empresas acarreta para a área da saúde pública. Ele cita um exemplo que, embora tenha acontecido nos Estados Unidos, ilustra bem a importância da livre circulação do conhecimento na área. “Houve um caso de dez anos atrás que ficou célebre: uma empresa que estava fazendo um ensaio de uma droga para tratamento de doença fibrocística, e em dado momento, a médica pediatra que era a investigadora principal de um dos ensaios clínicos viu que a droga estava criando problemas hepáticos graves. Ela suspendeu o ensaio e divulgou isso para a imprensa. O resultado é que ela foi processada pelo laboratório que estava produzindo a droga por conta de uma cláusula que ela assinou que proibia a divulgação da pesquisa. Isso está cada vez mais frequente, e essa coisa do interesse do sigilo é frontalmente contra uma peça chave da ciência, que é a livre circulação do conhecimento. Essa é uma coisa que me preocupa”, diz.

Rafael Dias identifica o mesmo problema na penetração das empresas nas universidades públicas. “Há uma crescente participação de empresas privadas em convênios de pesquisa, empresas financiando projetos de pesquisa em universidades públicas, com participação de alunos de pós-graduação. Em algumas universidades começamos a observar uma pratica que é nova e está ligada a esse processo, que é a defesa de teses a portas fechadas. Quer dizer, o sujeito está produzindo conhecimento em uma universidade pública, usando infraestrutura pública e defende a tese a portas fechadas porque tem segredos industriais envolvidos. É um exemplo pontual, mas é extremamente simbólico de como esse processo de privatização do espaço público esta se dando de forma muito sutil”, alerta.

Kenneth também aponta a questão do conflito de interesses como preocupante nesse cenário de inserção da empresa privada nas instituições de pesquisa. “Há alguns anos houve uma reunião do comitê da associação cardiológica americana que decidiu que o valor ideal para o colesterol tinha que ser abaixado em um miligrama por decilitro de sangue. Ao fazer isso,  instantaneamente o mercado potencial de consumidores de estatina [droga para o controle do colesterol] pulava de 13 milhões para 36 milhões. Isso só nos Estados Unidos, imagina no resto do mundo? Ai descobriu-se que dois terços dos médicos que faziam esse painel eram financiados por indústrias que produziam estatina”, relata Kenneth, completando: “Não dá para ser ingênuo e achar que o mercado dá conta de todos os problemas”.

Substituição de recursos

A análise dos dados da Pintec permite deduzir que os recursos públicos direcionados para a inovação não estão tendo um efeito multiplicador como o governo almeja, como aponta Carolina. “As empresas estão deixando de usar recursos próprios e de financiamento para usar recursos de subvenção e isenção fiscal. Então é bastante compreensível a CNI e outras entidades empresariais defenderem a manutenção e mesmo o reforço desta estratégia: que empresário não gostaria de substituir recursos próprios por públicos, principalmente os que não exigem o reembolso à instituição financeira, como é o caso dos incentivos fiscais e subvenção?”, indaga.

Além disso, completa Carolina, as empresas têm seguido uma tendência de investir os recursos públicos em atividades que, embora sejam consideradas inovativas, não geram novos produtos e processos e acabam agravando a dependência externa ao fiar-se na importação de conhecimento tecnocientífico, como é o caso da compra de máquinas e equipamentos. Para piorar, como aponta a pesquisadora, para ser considerada brasileira, basta que a empresa tenha sede no Brasil, fazendo com que as multinacionais também tenham acesso aos recursos de fomento à inovação. “Como as empresas brasileiras não têm por padrão inovar, quem usa os recursos em geral são multinacionais, fazendo com que, por exemplo, a Nokia e a Motorola, entre outras tantas multinacionais, tenham acesso à subvenção no Brasilo que é ainda mais gritante”, explica.

Márcia Teixeira, professora-pesquisadora da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), critica o que chama de “superfinanciamento” da inovação. Segundo ela, o Brasil está emulando o modelo norteamericano, onde 70% dos pesquisadores estão empregados nas empresas, que contam com laboratórios industriais, situação que não é identificada no Brasil. “Aqui, em geral, a saída das empresas é dizer ‘vamos fazer pesquisa através de parcerias com o público’, o que significa utilizar a infraestrutura, os pesquisadores, técnicos e tecnologistas de universidades e centros de pesquisa. É um superfinanciamento para as empresas. Além daquele que você está dando por meio da subvenção e isenção fiscal, tem uma parte que é invisível, porque se usa o lado público”, ressalta.

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22 May

Avanços e retrocessos na luta antimanicomial

Há 35 anos, quando trabalhadores da saúde e familiares fundaram o Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM), foi dado início a uma das maiores conquistas da saúde no Brasil: a luta antimanicomial que deu origem à Reforma Psiquiátrica. A partir da criação do movimento ‘Por uma sociedade sem manicômios' é que começou a ficar evidente que o modelo implementado até então não era o mais adequado. Depois de muitas denúncias das violências praticadas nos manicômios, da questão da mercantilização da loucura, com extensa rede privada na assistência e do despreparo dos profissionais, este modelo começou a entrar em decadência. Quase uma década depois surgiu o primeiro Centro de Atenção Psicossocial no país (Caps), na cidade de São Paulo. De acordo com o documento do Ministério da Saúde ‘Reforma Psiquiátrica e política de saúde mental no Brasil', o processo de intervenção do Hospital Anchieta, em 1989, e a criação do primeito Caps foram dois marcos de que ‘ a Reforma Psiquiátrica, não sendo apenas uma retórica, era possível e exequível'.

A reportagem é de Viviane Tavares, publicada no portal da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), 16-05-2013.

O dia 18 de maio surge nesse contexto para deixar registrado no calendário que essa luta não deveria ser esquecida. O Presidente Nacional da Associação Brasileira de Saúde e um dos fundadores da Reforma Psiquiátrica, Paulo Amarante, conta que a data surgiu no ano de 1987 durante o I Encontro Nacional dos Trabalhadores da Saúde Mental, na cidade de Bauru, em São Paulo. "O movimento começou com trabalhadores da área de saúde mental, mas depois vimos que era muito importante envolver a sociedade, levar a nossa luta para outros atores, entre os quais, os próprios pacientes, os familiares e outros atores de movimentos sociais, como os de direitos humanos e da diversidade. Por isso é importante marcar uma data especial para esta luta. A ideia de manicômio passou a ser reconfigurada, não só como estabelecimento do hospício, mas do conjunto de saberes e práticas que falam sobre a loucura, a doença, saberes que são estigmatizadores, segregadores etc.", relembra.

Avanços e retrocessos

Segundo o professor, esta luta está vivendo um novo capítulo agora. Entre os pontos de retrocesso estão a privatização da saúde, inclusive na área da saúde mental, com o crescente incentivo às comunidades terapêuticas, e a internação compulsória. Por outro lado, pesquisadores e trabalhadores da área reconhecem que também houve muitos avanços: ao longo destas quase três décadas, os investimentos do Ministério da Saúde mudaram da medicalização para o tratamento, exemplo disso, é a criação dos Centros de Atenção Psicossociais (Caps), além da mudança de pensamento da população que atualmente acredita em maneiras alternativas de cuidado com os pacientes de doenças mentais.

A professora-pesquisadora da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) Nina Soalheiro indica também os fechamentos dos leitos de hospitais psiquiátricos como uma grande conquista. "O Brasil tinha um parque manicomial estimulado durante o período da ditadura e financiado pelo Estado, o chamado estímulo à indústria da loucura. Depois de muitos debates e com a aprovação da lei em 2001 - Lei 10.216/2001 (Lei da Reforma Psiquiátrica) - começa a surgir de maneira mais forte a substituição deste modelo hospitalocêntrico e de exclusão por uma rede de serviços que vai sendo configurada no país inteiro", explica.

Paulo Amarante aponta também como conquista a grande mobilização em torno desta temática. Ele lembra que autores como Boaventura de Sousa Santos chega a reconhecer a luta antimanicomial como um dos maiores movimentos sociais do Brasil e da América Latina. "O mais interessante disso tudo é que a luta é um movimento, não é uma associação nem entidade. Mas tem legitimidade e representação no Conselho Nacional de Saúde e vários estaduais e municipais. Isso criou uma dimensão de participação muito grande em todo o país. Agora, o 18 de maio ficou pequeno, já falamos em semana da luta antimanicomial e até já chamamos o mês de maio de mês da luta antimanicomial", reflete.

A importância do Caps

Com a Publicação da Portaria GM nº 3088, de 23 de dezembro de 2011, instituiu‐se a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) para pessoas em sofrimento decorrente de transtorno mental, consumo de crack, álcool e outras drogas no âmbito do Sistema Único de saúde (SUS). Fazem parte da rede o Centro de Atenção Psicossocial , Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT), Centros de Convivência e Cultura, Unidades de Acolhimento, leitos de atenção integral, além de outras iniciativas, como o programa De Volta para Casa, que oferece bolsas a pacientes egressos de longas internações em hospitais psiquiátricos.

Dentre estes, o Caps é considerado a principal alternativa ao modelo de manicômios. Eles são divididos em Caps dos tipos I, II e III, Capsi (para crianças e adolescente) e Caps ad (álcool e outras drogas), de acordo com o tipo de cuidado e complexidade do caso. Atualmente, conforme dados do Ministério da Saúde, existem 1.981 Caps em todo o território nacional.

Amarante reconhece que o número de Caps aumentou, mas considera ainda insuficiente por conta da demanda. O próprio Ministério da Saúde mostra que 3% da população geral sofre com transtornos mentais severos e persistentes, ou seja, 5,7 milhões pessoas. Outras 12 milhões apresentam transtornos psiquiátricos graves decorrentes do uso de álcool e outras drogas; e 12% da população, ou cerca de 23 milhões de pessoas, necessitam de algum atendimento em saúde mental, seja ele contínuo ou eventual. "Houve um certo desinvestimento do Estado. Mas não é particular da Saúde Mental, é do SUS como um todo. Paradoxalmente, estamos diante de um governo popular que está assumindo mais os interesses privados, como o estimulo aos planos de saúde, as filantrópicas".

Comunidades terapêuticas

O Conselho Federal de Psicologia apresentou em 2011 o ‘Relatório da 4ª Inspeção Nacional de Direitos Humanos: locais de internação para usuários de drogas ' em que mostra violações das mais diferentes formas em 68 comunidades terapêuticas em 25 estados diferentes. ‘Há claros indícios de violação de direitos humanos em todos os relatos. De forma acintosa ou sutil, esta prática social tem como pilar a banalização dos direitos dos internos. Exemplificando a afirmativa, registramos: interceptação e violação de correspondências, violência física, castigos, torturas, exposição a situações de humilhação, imposição de credo, exigência de exames clínicos, como o anti-HIV - exigência esta inconstitucional -, intimidações, desrespeito à orientação sexual, revista vexatória de familiares, violação de privacidade, entre outras, são ocorrências registradas em todos os lugares', diz o relatório.

Paulo Amarante lembra que há um distanciamento do projeto original das comunidades terapêuticas. "O termo comunidade terapêutica diz respeito a um projeto muito importante surgido na Inglaterra no pós-guerra de democratização das instituições psiquiátricas. Militares, inclusive, naquela visão de reconstrução da democracia, queriam, por meio das comunidades terapêuticas, desenvolver um projeto para envolver aqueles pacientes crônicos abandonados, sem perspectiva de tratamento em atividades cotidianas, como ajudar a fazer comida, a discutir o que está ruim e o que está bom, no tratamento em geral. E isso teve efeitos terapêuticos maravilhosos", lembra e completa: "A princípio, a comunidade terapêutica não pode ser um local fechado, onde há violência, onde não tenha direitos, ou seja, tudo ao contrário do que essas comunidades estão apresentando. Além disso, elas dizem respeito a um serviço de saúde e não são. São serviços muitas das vezes de caráter religiosos e que visam ao lucro. Agora a novidade é que todo mundo descobriu como tirar dinheiro do SUS e essa é uma nova fonte", analisou.

O deputado Adriano Diogo (PT/SP), que é presidente da Frente Parlamentar de Luta Antimanicomial, defende que as comunidades terapêuticas são manicômios disfarçados. "Agora o poder público dá este nome pomposo, mas não passam de centros manicomiais. Elas continuam usando o sistema de tranca, de isolamento, de incomunicabilidade. A maioria é de pessoas que usam isso como negócio, para ganhar dinheiro com poucas e honrosas exceções. É um depósito de gente", diz.

A presidente do Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro, Vivian Fraga, denuncia que o Estado deveria investir mais dinheiro no SUS no lugar de financiar este tipo de tratamento. "Organizações religiosas não deveriam receber subsídios do Estado. Infelizmente, tal prática não está isolada em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Estamos falando de uma diretriz do próprio Ministério da Saúde e financiada, em alguns estados, pela política de assistência social", aponta.

A professora da EPSJV Nina Soalheiro relembra que durante a ditadura militar houve um crescimento estrondoso de leitos privados e que agora esse fenômeno vem se repetindo. "È evidente que a Saúde Mental optou estrategicamente por fazer o credenciamento de instituições por pressão dos setores evangélicos do Congresso e agora passa a regulá-las. Em relação ao incentivo a este modelo, vemos isso de forma clara como o recente programa instituído pelo estado de São Paulo, que entrega um valor à família e já destina o seu uso. É uma bolsa que garante a essas clínicas uma clientela cativa. O Estado então se exime da responsabilidade, financiando um setor privado, que além de tudo tem muitos problemas", informa,citando o programa ‘Cartão Recomeço', que destina uma bolsa de R$ 1.350 por mês para custear o tratamento do usuário de crack, mas este benefício só pode ser gasto em comunidades terapêuticas conveniadas ao programa.

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21 May

Pensamento mediano

"O mundo social não é apenas dinheiro e o que o dinheiro compra. O mundo social é também construído por ideias que lhe dão compreensibilidade e orientam o comportamento prático das pessoas", escreve Jessé de Souza, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora e autor de Os Batalhadores Brasileiros - Nova classe média ou nova classe trabalhadora? (Editora UFMG), em artigo publicado no jornal O Estado de S.Paulo, 18-05-2013.

Segundo ele, "o fundamento do privilégio da classe média é, antes de tudo, o "conhecimento" valorizado - que exige tempo para ser apropriado - indispensável à reprodução de mercado e Estado. Essa "luta de classes", invisível e cotidiana, tipicamente brasileira, ninguém vê porque nesse mundo absurdo da irresponsabilidade social também a desigualdade é culpa da corrupção e do patrimonialismo do Estado".

Eis o artigo.

A professora Marilena Chauí propõe uma discussão interessante e oportuna acerca da classe média brasileira. Seu julgamento indignado é certeiro, ainda que abstrato e indiferenciado. Mais interessante que o burburinho causado é perceber a "justificação" do privilégio dessa classe para que possamos compreendê-la. Antes de tudo, o que é "privilégio"? E como ele se reproduz? Em todas as sociedades modernas, como a brasileira, os privilégios que asseguram acesso diferencial aos bens ou recursos que todos desejamos, sejam materiais, como carro e casa, sejam imateriais, como o prestígio e o charme que asseguram a conquista de um parceiro erótico, por exemplo, são explicados a partir da apropriação diferencial de certos "capitais" - que vão pré-decidir toda a competição social por todos os bens escassos, materiais e imateriais, que todos desejamos as 24 horas do dia. Esses "capitais impessoais", antes de tudo o capital econômico e o capital cultural, são, portanto, o fundamento opaco e nunca assumido de toda a dominação social injusta.

A regra básica da cegueira na qual todos vivemos é que percebemos o "capital econômico", mas nunca percebemos o "capital cultural". É que o capital cultural não são apenas os títulos escolares de prestígio que garantem à classe média seus empregos bem pagos e reconhecidos. Capital cultural é também e principalmente toda a herança imaterial e invisível, tanto emocional quanto cognitiva e moral, que recebemos desde tenra idade, sem esforço, no convívio familiar, como a habilidade para o pensamento abstrato, o estímulo à concentração - que falta às classes populares e a condenam ao fracasso escolar -, a capacidade de perceber o futuro como mais importante que o presente, etc. Isso tudo somado constrói o indivíduo das classes alta e média como "vencedor" na escola e depois no mercado de trabalho, não por seu "mérito individual", como os indivíduos dessas classes gostam de pensar, mas por uma "vantagem de sangue", familiar e de classe, como em qualquer outra sociedade tradicional do passado.

Como a herança do capital cultural, enquanto pressuposto emocional, cognitivo e moral de todo privilégio, é invisível e opaca à consciência cotidiana, a falácia do "milagre" do mérito individual pode campear á vontade. Esse falso milagre é o fundamento que legitima todo tipo de apropriação injusta de privilégios permanentes, condenando os indivíduos que tiveram o azar de nascer na família e na classe errada à miséria e à humilhação, como se alguém pudesse "escolher" ser pobre e desprezado. A dominação social moderna é produzida por um engodo, uma fraude, uma mentira compartilhada por todos os privilegiados. Mas isso acontece exatamente do mesmo modo nas sociedades que admiramos e imitamos como França, Alemanha ou Estados Unidos.

Mas o que há de especificamente perverso nas classes dominantes brasileiras que não existe nessas outras sociedades? É que no Brasil as classes média e alta não apenas repetem a distorção da realidade que permite perceber o privilégio herdado como se tivesse nascido do próprio esforço, mas também "tiram onda" de que são generosas e críticas. Essa é uma fraude que um republicano americano típico jamais faria. Como isso se tornou possível? Ainda que poucos percebam, o mundo social não é apenas dinheiro e o que o dinheiro compra. O mundo social é também construído por ideias que lhe dão compreensibilidade e orientam o comportamento prático das pessoas. O Brasil moderno tem como seu "mito fundador" - mito esse que coloniza todos os partidos políticos indistintamente - uma reformulação peculiar operada por Sérgio Buarque no "mito nacional" sintetizado por Gilberto Freyre. São de Sérgio Buarque as bases ideais do Brasil que se compreende como oposição entre um Estado ineficiente e corrupto e um mercado virtuoso, santo e eficiente.

Essa ideia absurda - afinal não existe corrupção no Estado que não seja estimulada por interesses do mercado - é hoje uma espécie de segunda pele dos brasileiros, muito especialmente nas classes médias. Por quê? Porque ela confere algo indispensável ao privilegiado que é a necessária "boa consciência" que essas classes precisam ao localizar em um "outro", que ninguém define, uma "elite abstrata" que pode ser todos e ninguém, a fonte de todo mal nacional e se eximir de toda a responsabilidade. Afinal, se todo o mal está no Estado corrupto então se pode continuar, com boa consciência e se achando uma pessoa muito legal, a explorar cotidianamente o trabalho mal pago das classes baixas, que poupa o tempo da classe média para que essa possa se dedicar a incorporar ainda mais capital cultural para reproduzir, em escala ampliada, seus próprios privilégios de classe. O fundamento do privilégio da classe média é, antes de tudo, o "conhecimento" valorizado - que exige tempo para ser apropriado - indispensável à reprodução de mercado e Estado. Essa "luta de classes", invisível e cotidiana, tipicamente brasileira, ninguém vê porque nesse mundo absurdo da irresponsabilidade social também a desigualdade é culpa da corrupção e do patrimonialismo do Estado.

A ideologia do patrimonialismo - leitura, aliás, superficial e distorcida de Max Weber compartilhada por Buarque e pela maioria dos intelectuais brasileiros de hoje - domina, com sua institucionalização partidária, escolar e midiática, toda a vida política do Brasil moderno, abrangendo, por exemplo, em igual medida, tanto o PSDB quanto o PT. Essa é a ideologia da "irresponsabilidade social praticada com boa consciência", que permite encobrir todos os conflitos verdadeiros ao criar falsas oposições e, assim, silenciar as dores e sofrimentos cotidianos de uma das sociedades mais injustas e desiguais do planeta. A nossa classe média é singularmente perversa e infantilizada, apenas por ser o suporte social mais típico de uma visão de mundo narcísica que transforma exploração em generosidade impedindo todo aprendizado possível e toda crítica. Mas a cegueira e o atraso da consciência moral comprometem a sociedade como um todo.

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22 May

Usuários de crack e infratores: cuidado ou prisão?

Na edição da Revista Poli n. 27, a matéria 'Crack, desinformação e sensacionalismo' mostra que faltam dados e sobra espetacularização por parte da mídia em relação ao número de usuários de drogas. "Para um problema como este, não adianta uma solução imediata, porque os casos são complexos e são necessárias soluções complexas. Os Caps Ad que se estruturam para o cuidado de pacientes com uso prejudicial de álcool e drogas são o melhor caminho, que oferece toda uma estrutura para o paciente ter o direito de ir e vir, de reorganizar sua vida. O Relatório Saúde Mental 10, do Ministério da Saúde, mostra que em todo o Brasil existem 277 unidades, destes apenas cinco são do modelo III, ou seja, com atendimento 24 horas", explica a professora-pesquisadora da EPSJV/Fiocruz Nina Soalheiro.

A reportagem é de Viviane Tavares, publicada no portal da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), 16-05-2013.

De acordo com a lei federal 10.621, a internação psiquiátrica somente poderá ser realizada por meio de um laudo médico circunstanciado que caracterize os seus motivos. A compulsória exige ainda uma determinação judicial. Nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo, essa legislação vem sendo usada para legitimar a internação compulsória para usuários de crack. Tramita no Senado ainda o PLS 111/2010 que prevê esta internação em âmbito nacional. O texto foi aprovado na Comissão de Assuntos Sociais (CAS) no mês de abril e seguirá para a Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) e de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ).

A presidente do Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro, Vivian Fraga, assegura que esta visão precisa ainda ser desmitificada. "Tem sido propagado que todo o usuário de drogas precisa ser internado, e, baseado em um discurso muitas vezes com viés moral, tem-se fomentado práticas de gestão pública que internam pessoas. O que temos presenciado são práticas de sequestro chanceladas pelo poder público", defende. E completa: "Basear o tratamento a partir da lógica da internação significa a permanência da lógica manicomial. Obviamente que, se não temos serviços nos territórios, a opção para um ‘tratamento' será sempre a internação. Eu pergunto: e aquelas pessoas que não conseguirem se manter abstêmias? Ficarão internadas para sempre?".

Prisão perpétua

Divulgado no início deste ano, o Censo nos Estabelecimentos de Custódia e Tratamento Psiquiátrico 2011 apontou que havia cerca de 4 mil pacientes vivendo em regime de clausura para tratamento psiquiátrico compulsório por determinações judiciais. Estas prisões são dadas por um diagnóstico psiquiátrico e sua liberdade também deve se dar por um parecer médico, podendo então, estes presos, por falta de profissionais ou por demora na análise, ficarem em prisão perpétua, que é proibida no Brasil.

O censo mostra que o atraso nos processos é alarmante. A média de atraso de laudos psiquiátricos é de dez meses, quando o prazo determinado é de 45 dias; os exames de cessação de periculosidade - quando a pessoa não está mais ‘doente' - são de 32 meses, quando o prazo máximo é de 12 meses. O relatório informa que há 606 indivíduos internados há mais tempo do que a pena máxima permitida de acordo com o ato infracional cometido e 18 internados há mais de 30 anos.

"Os hospitais para loucos infratores resistiram à Reforma Psiquiátrica; alguns foram, inclusive, inaugurados após a Lei 10.216 de 2001, ocasião em que houve uma reorientação do cuidado da loucura - do modelo asilar para o ambulatorial. Não há como prever quantos desses, atualmente em pior situação do que aquela em que estariam caso fossem apenados, se converterão em indivíduos abandonados e velhos em um hospital psiquiátrico de custódia. Os indivíduos anônimos e abandonados recebem diferentes nomes a depender do regime de classificação de cada unidade custodial do país: são os problemas sociais, os em longa permanência, os abrigados, ou, simplesmente, os esquecidos anônimos", informa a professora do Departamento de Serviço Social da Universidade de Brasília (UnB), Débora Diniz, no livro ‘A custódia e o tratamento psiquiátrico no Brasil ', em que analisa o Censo 2011.

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22 May

Cidadania não é consumo

"Há uma diferença crucial entre estimular o consumo e referendar a lógica do consumismo - diferença que o atual paradigma de gestão parece desconsiderar. No primeiro caso, a ampliação do poder aquisitivo é objetivo atrelado à consolidação e melhoria dos bens coletivos. No segundo, há um sucateamento desses mesmos bens e uma ampliação dos espaços privados e individuais de consumo", escreve José Garcez Ghirardi, professor da Direito GV/SP, em artigo publicado no jornal Valor, 21-05-2013.

Segundo ele, "o trânsito, como já se apontou, é uma dos indicadores mais precisos para revelar as opções de fundo feitas pelas sociedades e seus governantes. A dinâmica quotidiana do transporte público espelha, sem disfarces, o desenho e a qualidade da convivência democrática nos espaços político e social".

"O legítimo desejo do país de ser uma nova potência, deve começar pela opção de ser uma potência nova - afirma o professor de Direito. Isto requer criatividade e coragem para contrapor-se à lógica reinante que fomenta o reducionismo perverso de confundir consumo e cidadania".

Eis o artigo.

Os sorrisos de Camila Pitanga e de Ronaldo Gianecchini nos comerciais da Caixa e do Banco do Brasil, respectivamente, abriram caminho para a notícia de que os dois bancos superaram, com lucros recordes, seus rivais privados em 2012. A conjunção de apelo popular e dirigismo econômico não é acidente e ilustra uma das escolhas políticas mais decisivas da gestão da presidente Dilma Rousseff.

Acreditando que a fórmula para avançar na agenda social sem desagradar os mercados é criar um país de classe média ("no mínimo", para usarmos os termos da presidente), o governo tem abraçado a ideia de inclusão via consumo. Críticas a esse modelo são sumariamente rechaçadas como fruto de ressentimento ou de má-vontade. Mas é preciso ter a coragem de fazê-las porque as contradições entre as demandas muitas diversas de inclusão e consumo, silenciadas neste momento, ameaçam a qualidade de vida futura de todos os brasileiros. E o que é pior: arriscam fragilizar, de modo particularmente cruel, justamente aqueles grupos mais vulneráveis, tornando efêmeras as conquistas atuais.

É preciso deixar claro, em primeiro lugar, que há vários modelos de países de classe média - a Suécia, a Austrália e o Canadá, são exemplos dessas diferentes versões - e várias formas de se pensar a relação entre consumo e bem estar social, assim como há vários modos de construir a regulação que tal relação solicita do Estado. Dizer "país de classe média" não significa dizer, portanto, sociedade justa ou funcional, nem tampouco primazia do interesse coletivo.

No que tange aos pressupostos dessa premissa, não está dado que a expansão do consumo leve necessariamente à inclusão - a história recente dos Estados Unidos tem algo a nos ensinar nesse ponto. No que tange a questões mais diretamente econômicas - a pressão inflacionária, o crescente endividamento familiar, a fragilização estrutural do setor produtivo, apenas para citarmos alguns exemplos - não está dado que o modelo atual seja sustentável.

Além disso, e de modo mais grave, há uma diferença crucial entre estimular o consumo e referendar a lógica do consumismo - diferença que o atual paradigma de gestão parece desconsiderar. No primeiro caso, a ampliação do poder aquisitivo é objetivo atrelado à consolidação e melhoria dos bens coletivos. No segundo, há um sucateamento desses mesmos bens e uma ampliação dos espaços privados e individuais de consumo.

A recente opção do governo em relação à industria automotiva ilustra bem as implicações que resultam de uma escolha pelo segundo modelo. A agressiva ação governamental para que cada um adquirisse seu carro - por meio da longa e repetida redução de IPI e pela expansão do crédito- tornou mais evidente, pelo contraste, a timidez das iniciativas para efetivamente melhorar e ampliar a qualidade do transporte público.

A mensagem implícita é a de que o transporte é, em primeiro lugar, um problema individual e apenas residualmente um problema coletivo. Dentro dessa lógica, o melhor modo de saná-lo é transferir recursos (via crédito mais barato ou renúncia fiscal, por exemplo) para que cada um cuide do seu. O uso de ônibus, metrô e trem vai se tornando índice de falta de opção e não do seu oposto.

Esses meios coletivos de transporte atendem, em regra, àqueles que não podem adquirir seu veículo e, assim, livrar-se do desrespeito quotidiano de ter que submeter-se a condições muitas vezes desumanas para chegar ao trabalho e à casa. No processo, a qualidade geral de vida decai, e a locomoção nas cidades se torna cada vez mais lenta e cada vez mais desgastante.

O argumento do emprego que é tantas vezes utilizado para justificar tal opção, apenas confirma a tendência do consumismo de remediar o presente às custas do futuro. A manutenção e a ampliação sustentável do emprego, em médio e longo prazo, solicitam políticas mais complexas de inovação tecnológica e de qualificação profissional que não combinam com o afã imediatista do consumismo e do ganho político - sobretudo quando os próprios governantes tendem a absolutizar o hoje e a minimizar a importância de ajustes estruturais pregressos. Para quem promove esta agenda, a deterioração das cidades, o aumento dos custos mais básicos do dia a dia e o ataque ao meio-ambiente são secundários ao apoio político passageiro e ao fetiche da propriedade individual, em um movimento que revela o quanto têm em comum os imediatismos gêmeos do populismo e do lucro.

O trânsito, como já se apontou, é uma dos indicadores mais precisos para revelar as opções de fundo feitas pelas sociedades e seus governantes. A dinâmica quotidiana do transporte público espelha, sem disfarces, o desenho e a qualidade da convivência democrática nos espaços político e social. Viajando lado a lado, indivíduos com histórias, condições e interesses divergentes percebem que têm que saber construir juntos algo que sirva efetivamente a todos. Percebem que esta opção prevê regras de conduta e de cooperação, de respeito à diferença, de busca de aperfeiçoamento do que é coletivo, de zelo pelo que é patrimônio comum. Eles podem optar pela tarefa difícil de construir este espaço comum ou podem priorizar resoluções de cunho individual.

Se a alegoria do trânsito nos ajuda a refletir sobre questões mais amplas, a imagem que temos do país a partir da circulação nas ruas preocupa, e muito. Ela indica uma sociedade em que o individualismo consumista ganha força, em que o diálogo democrático se empobrece e em que grupos específicos têm excessiva capacidade de pressão junto ao governo, sendo capazes de impor agendas corporativas e de retardar agendas genuinamente coletivas. O legítimo desejo do país de ser uma nova potência, deve começar pela opção de ser uma potência nova. Isto requer criatividade e coragem para contrapor-se à lógica reinante que fomenta o reducionismo perverso de confundir consumo e cidadania.

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