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07 Jul

O Equador já mudou

No prefácio do livro ‘Balance Crítico del gobierno de Rafael Correa’, o economista equatoriano Alberto Acosta afirma que “os autores desmascaram o Correísmo. Trata-se de um regime bonapartista e populista, com profundos traços moralizantes, que consolida novas formas de dominação. No Correísmo se condensa a nova forma de domínio de classe pela qual o líder carismático - Correa, o caudilho do século XXI - tenta convencer e dirigir ideologicamente a sociedade sobre a necessidade do processo de modernização em marcha. Ao mesmo tempo em que, para conseguir tal feito, precisa reprimir e manter a ordem e a estabilidade social” . O texto é publicado por Rebelión, 06-07-2015. A tradução é do Cepat.

Eis o prefácio.

“Se queremos que tudo continue como está, é necessário que tudo mude. E agora o que acontecerá? Bah! Tratativas repletas de tiroteios inócuos e, em seguida, tudo será igual, apesar de que tudo haverá mudado... uma dessas batalhas que se trava para que tudo continue como está”. (Giuseppe Tomasi di Lampedusa -1896-1957)

Estudar o que aconteceu nestes últimos oito anos de governo, o de maior duração de toda a história republicana e que ainda continua, é um desafio. Não só porque ainda estamos imersos em um processo inconcluso, mas porque de uma forma ou de outra, uns mais e outros menos, estamos atados pelas urgências do momento político. Estas limitações, no entanto, não impedem a necessidade de dispor de pesquisas que permitam dar conta do que acontece no país. Estas são indispensáveis.

Esse é, justamente, o empenho deste livro. Seu objetivo expresso é o de procurar “desvendar a natureza e características do poder e a estruturação do estado, o padrão de reprodução e a orientação política e econômica na presente fase histórica, de especial importância, do governo de Rafael Correa”. E faz isto tendo como referência política outros momentos da vida nacional, sintetizados em épocas dominadas por caudilhos maiores, como o ‘Alfarismo’, o ‘Garcíamorenismo’ ou o ‘Velasquismo’. Nesta perspectiva, este livro propõe um balanço crítico sobre o ‘Correísmo’.

A abordagem investigativa se dá a partir da economia, da política e da economia política. Um esforço sem dúvida complexo, na medida em que é difícil estabelecer os possíveis limites nestes três campos, que, como bem sabemos, estão profundamente relacionados. No entanto, sendo este um ponto crítico, por sua vez, reflete um dos aspectos potentes do livro. Na realidade, seria necessário falar de três pesquisas realizadas por uma equipe da Universidade Central, dirigida por Francisco Muñoz e por uma equipe docente formada por Santiago Garcia, Diego Carrrión, Francisco Gachet e Mario Unda, a quem se somou um considerável grupo de profissionais. Tarefa que foi enriquecida com boas discussões em oficinas onde foram debatidos os avanços do projeto.

Em suma, como um primeiro ponto a ser ressaltado de um livro que contribui para conhecer melhor o Equador de inícios do século XXI, temos uma pesquisa ampla e profunda, com uma grande quantidade de informações e de reflexões feitas “sobre a trajetória”, enriquecida com uma abordagem diversa e realizada por pessoas com reconhecida experiência acadêmica.

O Equador já mudou?

A questão não é pequena. Há mudanças, ninguém duvida disso. Tantos anos de um governo que contou com os maiores ingressos fiscais de toda a história republicana e que está no poder o maior período registrado até agora, respaldado com um amplo agrado político, não poderia passar despercebido. Algo ou muito mudou, não há dúvida.

A partir das fileiras dos governistas, da lógica de sua bateria propagandística, conclui-se, sem sombra de dúvidas, que o Equador mudou. Para melhor, segundo eles. As obras que listam, sobretudo de ordem material, são amplas. Outras pessoas também chegam a esta conclusão positiva, de maneira simplista, o que é preciso dizer com clareza, fazem comparações com os governos anteriores: não vi outro presidente que tenha feito o que este presidente fez no Equador, afirma alguém soltamente.

A partir de diferentes setores da oposição, com muita frequência, só se lê o ocorrido como continuísmo neoliberal ou então como construção de um caminho ao comunismo, para mencionar os extremos destas posições opositoras, sustentadas a partir das esquerdas e das direitas, respectivamente.

Nenhuma destas abordagens é satisfatória. A resposta é mais complexa. E ela, é preciso deixar claramente assentado, não está simplesmente no tão trilhado termo médio. Não se pode negar o que foi realizado, no exercício de uma oposição míope, como também não se pode assegurar que a mudança é profunda e positiva, em um ato instantâneo de apoio ao governo.

Sim, o Equador mudou. O que é necessário perguntar é no que mudou, em benefício de quem mudou, para onde está mudando... Esta pesquisa faz isto a partir do conceito de “padrão de acumulação” ou “modalidade de acumulação” como elemento analítico para avaliar o governo de Rafael Correa. A partir dele é que analisa o ocorrido.

Os resultados estão à vista. Nestes anos, registra-se a consolidação de certos eixos de acumulação do capital, concentrados nos setores próprios de uma economia extrativista rejuvenescida, que caracteriza as diversas esferas da produção e da circulação de uma modalidade de acumulação primário-exportadora. A análise não perde de vista o contexto internacional e o processo histórico nacional no qual as diversas estruturas de poder se consolidam.

As conclusões deste trabalho efetivado pela Universidade Central são precisas. Resumindo, do que foi realizado não se pode desprender uma mudança revolucionária. Para além dos discursos grandiloquentes e das ofertas de mudanças radicais, não há uma transformação da modalidade de acumulação, mantém-se a essência extrativista e não se quer atingir a concentração da riqueza. Este esforço representa, na realidade, como diria o grande pensador equatoriano Agustín Cueva, uma modernização periférica do capitalismo equatoriano, após ter falhado o intento modernizador neoliberal, quando os setores dominantes em disputa – demonstrado nesta pesquisa – não tiveram a capacidade para dirigir, política e ideologicamente, o conjunto da sociedade.

Na realidade, nesses oitos anos, são registradas mudanças para que mude profundamente. O próprio presidente Correa reconhece este fato. Quando sua gestão completou cinco anos, em entrevista ao jornal governista El Telégrafo, no dia 15 de janeiro de 2012, disse: “Basicamente estamos fazendo melhor as coisas com o mesmo modelo de acumulação, ao invés de mudá-lo, porque não é nosso desejo prejudicar os ricos, mas, sim, é nossa intenção ter uma sociedade mais justa e equitativa”. Disse de maneira clara. O caudilho não acredita nessas redistribuições, que são eixos básicos da Constituição de 2008. Ele repetiu isso em várias oportunidades, como em relação à redistribuição da terra, para mencionar um exemplo: “a pequena propriedade rural vai contra a eficiência produtiva e a redução da pobreza... repartir uma propriedade grande em muitas pequenas é repartir pobreza”. (1º de outubro de 2011)

A redução da pobreza é um dos pontos destacáveis deste processo. Um passo positivo que se explica pela existência de muitos recursos fiscais obtidos, sobretudo, pela bonança petroleira e não pela redistribuição da riqueza. Por isso, não é arriscado afirmar que os pobres estão menos mal e os ricos estão muito melhor.

Poderíamos concluir, então, que as agulhas da bússola governamental que, em 2007, apontavam para uma transformação estrutural e radical, cujos princípios foram plasmados na Constituição de Montecristi, hoje apontam para uma mudança leopardista.

Se houve pecado utópico ou ilusão liberal nos debates constituintes dos anos 2007 e 2008 é um tema a ser debatido. O certo é que nessa Assembleia Constituinte, um espaço de ampla participação democrática, foi assentada as bases para uma grande transformação do Equador, que não se esgotam em algumas mudanças que não representam revolução alguma.

Sendo assim, o Equador já mudou e continua mudando para conservar o todo, sem que nada realmente mude. No bom romance, não está posta a superação do capitalismo, mas simplesmente a modernização do Estado capitalista. Superar o capitalismo deveria ser a meta indispensável, caso realmente se queira impulsionar o Bem Viver ou Sumak Kawsay, tema que se procura abordar na parte final deste livro.

Em complemento ao anterior, na pesquisa, no âmbito do político, são analisadas as mudanças no bloco no poder. Bloco que sintetiza a forma de governo e os conflitos governamentais de caráter político, onde confluem as alianças e as ideologias dos atores e as alianças diversas, que nestes já longos oito anos consolidaram os grupos tradicionais de poder em vinculação com os grupos emergentes. Estes grupos burgueses emergentes, que escalam posições desde a crise de 1999, acabaram encontrando em Rafael Corrrea o caudilho que lhes abre caminho dentro do aparato de Estado, antes papel da velha oligarquia.

Algo mudou na superfície da velha hegemonia, por meio da metamorfose, sem maiores rupturas, como tantas outras vezes na história republicana. Como exemplo, os bancos, que sofreram severos ataques discursivos e que foram obrigados a aceitar algumas regras para sua racionalização, estão entre os que mais benefícios acumularam no período analisado, algo que também se dá em outros segmentos da economia, cujas estruturas e, inclusive, práticas oligopolistas ou mesmo monopolistas continuam intactas. E, por fim, o que se constrói com o Correísmo é uma nova modalidade de dominação burguesa, que soube se apresentar como revolucionária, sem ser.

Esta nova estrutura de poder – sempre em amadurecimento – está apoiada em um clientelismo efetivo, sustentado por muitos investimentos sociais, que perversamente, em vários casos, contribuíram para enriquecer ainda mais a poderosos grupos econômicos, como acontece no setor da saúde, para mencionar um caso. Outro de seus núcleos está em uma retórica anti-imperialista, avalizada por uma rede regional e internacional favorável, que permitiu sustentar uma imagem internacional progressista do caudilho modernizador do capitalismo no interior do país. A tutelagem estatal e de submissão da sociedade civil ocorre através de múltiplas vias, com no caso de transformar a comunicação em um simples serviço público.

No econômico, destaca-se a busca de padrões de eficácia e rendimento abertamente capitalistas, mediante a modernização tecnológica da administração pública. Tudo isto pela mão da monopolização e transnacionalização do processo de acumulação, que em sua versão neoextrativista demanda cada vez mais capitais estrangeiros, tendo a China na primeira linha, já não os capitais estadunidenses ou europeus. Esta é outra mudança a ser destacada.

O desmantelamento de toda forma de organização social autônoma merece uma menção especial. O Correísmo, em um exercício próprio do totalitarismo, já conseguiu subjugar as diversas funções do Estado e avança na dominação das organizações sociais, que foram as que construíram o cenário para o triunfo eleitoral de Rafael Correa e foram, no início deste processo, as portadoras das ideias e propostas revolucionárias, concebidas na Constituição de Montecristi. Como bem se anota nestas páginas, o movimento popular expressa momentos significativos nos quais as lutas sociais conseguem se articular entre si, mas sem constituir um projeto e rumo político compartilhado, razão pela qual, depois, como aconteceu neste caso, não conseguem mudar as estruturas hegemônicas de dominação capitalista. Sua dispersão e enfraquecimento, explicáveis por razões endógenas e erros históricos, hoje encontram outra severa ameaça na modernização capitalista que é impulsionada pelo Correísmo.

Como se lê nestas páginas, Rafael Correa, primeiro, apresentou-se como aliado dos movimentos e organizações sociais, e inclusive da esquerda partidarista, buscando posteriormente cooptar – via propaganda e clientelismo – sua base social com certa consciência anti-oligárquica, forjada ao longo de muito tempo de luta social, para depois fragilizá-la seriamente e retirá-la de cena. No livro, desvenda-se a política de cooptação e coação do Correísmo, encaminhada para rachar, desarticular, instrumentalizar e até dividir o movimento social e, particularmente, ao movimento indígena, especialmente a CONAIE.

Com uma grande traição histórica, nesse momento, o Correísmo criminaliza o protesto popular, persegue e calunia os dirigentes sociais, desarma a esquerda organizada e pretende subordinar os movimentos e organizações sociais. Após fragilizá-los, desmantelá-los ou dividi-los, avança com a cooptação ou, inclusive, com a construção de organizações sociais próprias, como se viu com os estudantes, professores, indígenas e trabalhadores. Tudo imerso na lógica de um Estado total. O paralelismo com as lições totalitárias, por exemplo, hitlerianas, é evidente: Adolfo Hitler, em Minha Luta (Mein Kampf) já refletiu sobre este tema e chegou à conclusão de que, na busca do poder total, é necessário construir uma instituição sindical própria, para não se tornar responsável por – o que ele considerava – experimentos fracassados; instituição criada para combater o sindicalismo marxista, entretanto, este sindicalismo reconhecia a existência da luta de classe, não aceita por Hitler (1).

O caudilhismo do século XXI

A figura carismática de Rafael Correa, em uma espécie de encarnação de um bonapartismo ou cesarismo, próprio de outras épocas da história equatoriana e latino-americana, constitui um dos traços que define sua atuação política, dizem-nos os pesquisadores mencionados. Porém, definitivamente, não explica tudo.

Desta pesquisa surgem vários aspectos que nos permitem caracterizar o Correísmo como um regime caudilhista. Por um lado, existe a subordinação de todos os poderes ao executivo, encarnado na figura de um líder carismático como o representante de toda a nação e como árbitro imparcial frente aos interesses contrapostos das classes sociais em conflito.

A base social de sustentação deste bonapartismo do século XXI é dada pelo apoio – sobretudo forçado – de diversos setores sociais: camponeses e lupemproletariado; assim como também de setores médios e, cada vez mais, de frações da classe dominante, cujos interesses são representados pelo caudilho. A política social é destinada a satisfazer as demandas de amplos grupos sociais e, ao mesmo tempo, é a justificativa para continuar ampliando o extrativismo. Sua legitimação, até o ano de 2011, foi reforçada pela via plebiscitária.

Para além da discussão sobre a maior ou menor autonomia relativa do Estado em relação aos grupos de poder nacionais e transnacionais, o que conta no Correísmo é colocar em marcha uma máquina burocrática legalizada e eficiente, dócil e ativa. Há que normalizar, disciplinar e ordenar a sociedade, para isso serve o novo código penal, com claros traços repressivos, perseguir o humor dos cartunistas e, inclusive, a proibição de vender cerveja aos domingos.

Este regime disciplinar se sustenta com um massivo exercício de propaganda: o marketing com o qual o Correísmo, em certas ocasiões, consegue montar até um mundo fictício, acomodado aos interesses do poder. Conceitos chave, como esquerda, revolução, Sumak Kawsay e Direitos da Natureza fazem parte de um novo glossário, que se ajusta às conveniências do momento.

Engano e autoengano, com base no consumismo, sustentam o apoio popular do qual goza o Correísmo. Tudo em função de um espetáculo continuado, com um protagonista principal: Rafael Correa (e só ele), que se assume como o portador da vontade política coletiva, o ‘grande condottiere’, diríamos, utilizando as palavras de Antonio Gramsci. Um líder carismático, que se sente na capacidade de fixar uma direção à sociedade em seu conjunto, e superar com sua simples personalidade os problemas que se apresentam, seja em questões de fundo, bem como frente a trivialidades, como é o caso das crescentes chacotas das quais o presidente do Equador é objeto nas redes sociais.

Não há um projeto partidário, nem grupal à margem das estruturas de dominação burguesa, muito menos ainda comunitário contestatório ao verdadeiro poder. Trata-se de um caudilho empenhado em construir um Estado e um regime político que atua como mediador, árbitro e inclusive salvador da nação. Correa constitui a representação cesarista do poder através do carisma da personalidade heroica. Neste contexto, ganha força o “gesto heroico” de 30-S, aquela revolta policial elevada à categoria de golpe de Estado, na qual o grande líder assumiu o papel de mártir e herói.

Definitivamente, Rafael Correa não está para alternativas revolucionárias. Ao assumir sua missão modernizadora do Estado, confirma sua adesão à eficácia tecnocrática, à provisão de infraestrutura e, inclusive, ao fomento do consumismo. A recuperação do Estado, sem superar seus alicerces coloniais e patriarcais, que prejudica o fortalecimento da sociedade, está em linha com exercícios modernizadores que tem buscado acelerar o processo e queimar etapas na modernização do capitalismo. E para conseguir tal objetivo, assim como outros líderes modernizadores, Correa não oculta sua forma de entender a democracia, como um simples exercício eleitoral que determina quem deve tomar as decisões. Exercício eleitoral cada vez mais amoldado pelo controle de outras funções do Estado, por trás das quais se camufla seu crescente temor à resposta popular sobre temas de interesse nacional, como foi o caso da consulta impulsionada pelo Coletivo Yasunidos ou as mudanças na Constituição, que consideram, entre outros temas, a reeleição indefinida, prevista para perenizar o caudilho no poder.

Nesta etapa (pós-neoliberal ou de segunda geração do neoliberalismo?), com todas as formas de transformismo e modernização tecnocrática-capitalista do Estado, consolida-se um regime de exceção com um forte traço intervencionista e um presidencialismo cada vez mais reforçado.

Nestes elementos é que se escora a estrutura de dominação vertical e autoritária do Correísmo. Isso explica o estabelecimento de um Estado de direito como tirania, snedo que todas as funções do Estado declinam suas funções às decisões presidenciais e a Constituição vai se readequando para se ajustar às demandas do caudilhismo necessário para atualizar o capitalismo equatoriano.

Daí é que são derivadas suas práticas autoritárias, que são as empregadas para continuar com a modernização tecnocrática do capitalismo e para aprofundar o extrativismo. Modalidade de acumulação em essência autoritária e depredadora. Por isso, é preciso ressaltar uma das conclusões deste livro, relacionadas ao caráter do Correísmo em termos amplos e profundos, mais do que enfatizar unicamente o autoritarismo repressivo e sublinhar a personalidade do caudilho. Cabe revelar os motivos objetivos – cobertos ou encobertos – das classes dominantes e de seus aliados, ou patrões transnacionais, que requerem um caudilho para processar suas contradições, com capacidade de direcionar ideológica e culturalmente as classes subalternas. Ou seja, para consolidar o regime de acumulação capitalista em sua versão extrativista, que é o que se estende pela América Latina, seja com governos neoliberais ou “progressistas”.

Com bem se destaca no livro, não restam dúvidas de que o projeto extrativista foi imposto a partir das necessidades do novo padrão de acumulação global, em cujo marco a América Latina e o Equador foram designados como países provedores de bens primários, no contexto de uma renovada forma de dependência, principalmente liderada pela China. Caberia anotar que esta forma de dependência mantém intactas suas raízes coloniais. Inclusive, a proposta de matriz produtiva do governo se firma nessas raízes e constitui uma espécie de proposta para uma modernização inviável sem a massiva afluência do capital transnacional e, além disso, não deixa de ser retrógrada: avançar para continuar sendo um país fornecedor de matérias-primas.

Adicionalmente, pensando mais naqueles que sustentam o Correísmo, especialmente nos que acreditavam que com a “revolução cidadã” se incentivaria uma verdadeira transformação, tudo se justifica pelo “processo revolucionário”. Não importa a ninguém que os princípios originais, concebidos inicialmente no Plano de Governo do Movimento País, elaborados coletivamente no ano de 2006, e depois ratificados na Constituição de Montecristi, tenham sido traídos dentro do “processo.

Para cumprir as ordens do caudilho, ou seja, para executar “o processo”, não importa se é preciso subir uma colina de verdades ou de mentiras, mas é necessário dar conta da tarefa. Tudo ou quase tudo se justifica pelo “processo”, mesmo que este não seja em nada revolucionário.

A partir desta vertente de análise política, pode-se apreciar outro ponto inocultável na lógica do leopardismo dominante: a velha partidocracia do século XX tornou-se a partidocracia do XXI, encabeçada pelo gelatinoso agrupamento político-eleitoral, mimetizado no governo, chamado Aliança País, cujas práticas – não cansamos de nos surpreender – superam cada vez mais as ações dos velhos partidos políticos.

Neste processo, na prática, exagera-se a autonomia relativa do Estado e da política institucional para ser apresentadas como ferramentas de mudança social. O discurso de mudança revolucionária não pode ocultar a realidade do Estado enquanto forma de relação social que encarna elementos básicos de dominação das relações sociais capitalistas. Esta realidade deixa no desamparo os intelectuais do Correísmo que se assumem como tecnocratas autônomos de tais relações capitalistas.

Como se escreve neste trabalho, dirigido por Francisco Muñoz, estamos frente a uma nova camada de tecnocratas, alguns com elevada formação acadêmica, que assumiu posições e funções importantes, em lugares privilegiados do Estado em transição. Este grupo humano é a nova imagem do intelectual orgânico a serviço do Estado bonapartista/cesarista do Correísmo.

É petulante acreditar que a intervenção do Estado, por meio da tecnoburocracia, promova uma mudança estrutural. Esta tecnoburocracia não conseguirá convencer da necessidade de um novo padrão de acumulação do capital apenas mediante a gestão de um Estado intervencionista que, para além dos discursos, resulta em servidor dos interesses estratégicos de classe, que –modernizado – continua reproduzindo suas práticas oligárquicas e coloniais.

Restam muitas interrogações na pesquisa apresentada. Essa é outra de suas potencialidades: abrir portas para novas pesquisas e dar margem a novas interrogações. Perguntamo-nos, por exemplo, se é certo que as diversas frações burguesas emergentes e ainda as tradicionais, que lucraram como nunca antes na história do Equador, ver-se-ão representadas pelo neodesenvolvimentismo aplicado. Será que a confiança dos empresários aumentou e o caudilho conseguiu que as diferentes frações dominantes confluam no marco de seu projeto econômico, para adequar o capitalismo equatoriano às exigências transnacionais (?). Ou será simplesmente que estes grupos de poder tiveram que aceitar o Correísmo como um período de transição, que lhes é muito útil, mas que não consideram como seu filho legítimo (?).

Por isso, parafraseando a citação de Agustín Cueva, incluída neste livro, quando analisa o Velasquismo, sem pretender chegar a comparações lineares destes dois processos, podemos dizer que o Correísmo representa “uma visão histórica de conjunto, (...) não pode aparecer a não ser como o que objetivamente é: um elemento de conservação da ordem burguesa, altamente ‘funcional’ por ter permitido ao sistema absorver suas contradições mais visíveis e superar ao menor custo suas piores crises políticas, mantendo uma fachada ‘democrática’ ou ao menos civil... foi a solução mais rentável para as classes dominantes”. E em sua “complexidade aparece como uma forma não ortodoxa, quase bastarda de dominação”.

Por fim, é necessário resgatar que o Correísmo transitou na contramão da proposta revolucionária de seu início (2), até se converter no portador da tese e no executor das ações de um projeto de restauração conservadora econômica, política e cultural. Basta recordar o retorno ao redil do FMI e do Banco Mundial, a assinatura de um TLC com a União Europeia e suas práticas ‘curuchupas’ (tendência política conservadora e fundamentalista religiosa) em relação a temas da liberdade sexual.

Neste empenho, os autores desmascaram o Correísmo. Trata-se de um regime bonapartista e populista, com profundos traços moralizantes, que consolida novas formas de dominação. No Correísmo se condensa a nova forma de domínio de classe pela qual o líder carismático - Correa, o caudilho do século XXI - tenta convencer e dirigir ideologicamente a sociedade sobre a necessidade do processo de modernização em marcha. Ao mesmo tempo em que, para conseguir tal feito, precisa reprimir e manter a ordem e a estabilidade social. Mais ainda, quando se trata de defender a atividade produtiva extrativista em benefício da acumulação capitalista e para sustento do orçamento do Estado, que, por sua vez, é, segundo o caudilho mais pró-extrativista da história republicana, a via para conseguir os recursos que permitirão diminuir a pobreza e modernizar o país. Realmente, uma pobreza de argumentação.

Neste contexto, seguindo os autores, combinam-se fatores como a estruturação hegemônica, o desdobramento de uma condução ideológico-cultural, a modificação jurídica e institucional, com forte conteúdo burocrático e centralização do Estado, e finalmente a modificação da representação e organização partidária, em função das demandas modernizantes ou não próprias da acumulação do capital.

Este livro fará história. Será uma referência para a análise do Correísmo. E suas conclusões só poderão ser comprovadas ou descartadas pela própria história. Ela nos dirá se o Correísmo terminará marcando uma época ou se será simplesmente um período de transição, como foram o dos governos de Ignacio de Veintimilla e León Fébres Cordero, protótipos de caudilho, funcionais em seu tempo ao sistema, mas que não passaram de figuras secundárias na História do Equador.

Dezembro de 2015.

Observação: O presente texto incorpora alguns ajustes formais em relação à versão publicada.

Notas

1. O presidente Rafael Correa, curiosamente, concorda que o socialismo no século XXI, que ele diz incentivar, não tem nada a ver com a luta de classes... Ver em https://www.youtube.com/watch?v=7LlY1tyqY3E  

2. O já mencionado Plano de Governo 2007-2011, do movimento Aliança País, elaborado em 2006.

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07 Jul

Manifesto Eco Modernista e a crença tecnológica como superação da crise ambiental. Entrevista especial com Maurício Waldman

“O Manifesto Eco Modernista se indispõe com o que acredito ser uma das maiores contribuições do ambientalismo: a defesa da justiça social”, critica o pesquisador.

Imagem: revistaemdia.com.br

O Manifesto Eco Modernista, lançado recentemente por pesquisadores de universidades britânicas e americanas, “não tem como ser ignorado”, mas isso “não implica aceitar as teses” propostas no documento, pontua Maurício Waldman em entrevista à IHU On-Line, concedida por e-mail.

Na avaliação do pesquisador, o Manifesto “revela adesão apaixonada ao ideário da ecoefiência, matriz de linhas de pensamento como o capitalismo ecológico ou a economia verde. Isto explica a razão de as considerações associadas ao meio natural e à noção de justiça ambiental serem raras ou inexistentes”.

Entre os pontos centrais do Manifesto Eco Modernista, destaca-se a discussão sobre o papel das tecnologias para resolver os problemas ambientais, em oposição aos impactos promovidos pelo moderno estilo de vida. “Note-se que o Manifesto sequer menciona os impactos promovidos pelo moderno estilo de vida e seus sucedâneos, o consumismo e a sociedade do descartável. Isto apesar de serem inseparáveis dos mecanismos que estão alimentando a crise ambiental dos tempos modernos. (...) A aposta básica do documento é a intensificação das atividades humanas respaldadas por técnicas avançadas, tendo por meta o avanço da modernização”, frisa.

Waldman também comenta rapidamente a Encíclica Laudato Si’, chamando atenção para o fato de o documento ter sido publicado num momento marcado por uma “encruzilhada ambiental, impondo a necessidade de instauração de um novo equilíbrio a zelar pelo ambiente”. Mas essa harmonia, ressalta, “somente será assegurada com avanços sociais, posição consignada pela Encíclica juntamente com a crítica ao consumismo e à sociedade do descartável”.

Maurício Waldman é doutor em Geografia, mestre em Antropologia e graduado em Sociologia pela Universidade de São Paulo – USP. Cursou pós-doutorado em Geociências pela Universidade de Campinas - Unicamp e em Relações Internacionais pela USP. Iniciou em janeiro de 2014 seu 3º pós-doutorado, pesquisa centrada na área do meio ambiente com foco na questão dos catadores, incineração e reciclagem dos resíduos sólidos. A investigação possui respaldo institucional da Universidade do Oeste Paulista - Unoeste, de Presidente Prudente, e financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq. Maurício Waldman foi Chefe da Coleta Seletiva de Lixo da Capital paulista e Coordenador do Meio Ambiente em São Bernardo do Campo. Realizou duas traduções de monta: El Ecologismo de los Pobres - Conflictos Ambientales y Lenguajes de Valoración (de Joan Martinez Alier) e Fifty Major Philosophers (de Diané Collinson). Mais informação no Portal Acadêmico do Professor Maurício Waldman: www.mw.pro.br.

Confira a entrevista.

Foto: Arquivo Pessoal

IHU On-Line - O que é o Manifesto Eco Modernista?

Maurício Waldman - O Manifesto é um documento lançado em abril de 2015, assinado por 18 personalidades de proa do campo ambiental. Este texto contesta muitas teses clássicas do ambientalismo. Em particular, coloca em discussão as percepções presentes no imaginário social a respeito da natureza. Nesta linha de compreensão e independentemente da opinião que venha a ser formada sobre o material o Manifesto cria um fato midiático, conceitual e político. Isto é inerente ao fato de o documento fazer uso da nomenclatura Manifesto.

Manifesto sempre é uma declaração pública e solene, trazida a público com o fito de externalizar uma dada posição ou programa, adotada por pessoas interessadas em questionar determinado estado de coisas. Se, como lembram os manuais de ciência política, todos os atos humanos possuem um reflexo político, isto é ainda mais verdadeiro quando um texto é investido do caráter de Manifesto.

IHU On-Line – Quais são os questionamentos propostos pelo Manifesto?

Maurício Waldman - Atente-se que o Manifesto vem à luz num momento extremamente crítico para a humanidade. Especialmente pelo acirramento de uma crise ambiental historicamente sem precedentes. Para piorar, os programas existentes que tentam dar conta da destruição do meio ambiente, têm fracassado. Demonstram soberba incompetência até mesmo para mitigar as sequelas ambientalmente mais imediatas da crise. Só por isso, o material não tem como ser ignorado. Contudo, isto não implica em aceitar as teses do Manifesto. Até por friccionar com amplos setores da comunidade ambientalista, o documento defende propostas de difícil pactuação.

IHU On-Line – Há resistências ao Manifesto? Por quais razões?

Maurício Waldman - Note-se que o ambientalismo nunca configurou um corpo de ideias coeso. Aliás, o ambientalismo é refratário ao monolitismo. Nesta perspectiva, Joan Martinez Alier, em sua obra icônica O Ecologismo dos Pobres, alerta que o ecologismo exibe três vertentes básicas: o evangelho da ecoeficiência, o culto ao silvestre e o ecologismo dos pobres ou justiça ambiental. Ao mesmo tempo, Alier recorda que a despeito das diferenças existentes entre estas três correntes, a regra é que na materialidade social encontramos grupos, pessoas e instituições que combinam de modo variável as três linhas. Entretanto, até porque o que está em foco é uma narrativa autointitulada Manifesto, o que se tem são proposições muito centradas numa tomada de posição específica.

IHU On-Line – Qual é a posição sugerida pelo Manifesto?

Maurício Waldman - O Manifesto revela adesão apaixonada ao ideário da ecoeficiência, matriz de linhas de pensamento como o capitalismo ecológico ou a economia verde. Isto explica a razão de as considerações associadas ao meio natural e à noção de justiça ambiental serem raras ou inexistentes. Quando o texto em algum momento sinaliza nesta direção, é sempre articulando tais concepções enquanto ator coadjuvante, expurgadas de papel determinante. A viga mestra do documento está firmemente calçada na apologia da ecoeficiência. A mais ver, seria do mesmo modo pertinente advertir que a despeito de as teses do Manifesto não configurarem unanimidade, nada disto retira validade do documento. Pelo contrário, o debate proposto pelo Manifesto é útil, necessário e fundamental. 

"Por friccionar com amplos setores da comunidade ambientalista, o documento defende propostas de difícil pactuação"

IHU On-Line – Quais são as propostas básicas do Manifesto para o meio ambiente?

Maurício Waldman - Um ponto essencial diz respeito à tecnologia, pautada com insistência ao longo de todo o Manifesto. Porém, é importante rubricar que as técnicas estão imersas em totalidades sociais, que as sancionam ou não. Não é a técnica que faz a história. O contrário é que estaria mais próximo da verdade. A matriz social é pressuposto básico para que novas criações ou ideações se integrem ao universo concreto. Inclusive à revelia das próprias condições materiais. Afinal, a Idade da Pedra não acabou por falta de pedra. A humanidade parou de lascar pedra em face da mudança das prioridades sociais, instigando-a a explorar novos patamares ecológicos. Portanto, ao empossar as tecnologias do papel de protagonista, o Manifesto tende a enveredar por uma visão tecnicista.

IHU On-Line – O Manifesto sugere que a técnica é fundamental para superar a crise ecológica. Como vê essa proposta?

Maurício Waldman - Sem dúvida alguma. Ausentes tecnologias versáteis e eficientes, o quadro de calamidade ambiental que observamos não tem como ser revertido. De maneira alguma. Por outro lado, não é simplesmente por existirem que as técnicas, por um passe de mágica, passarão a ser adotadas. Isso sem contar que o tecido social da Modernidade está perpassado por clivagens e contradições de todo tipo, transformando qualquer prognóstico num precário exercício de futurismo. Decerto, o Manifesto expõe alternativas que podem, por exemplo, revolucionar a matriz energética em vigor. Contudo, são necessárias diversas outras flexões para que as formas de geração de energia que estão carbonizando a atmosfera sejam definitivamente abolidas.

O Manifesto defende o ciclo combustível do tório, opção contraposta às usinas nucleares convencionais, baseadas na fissão do urânio. Mas os signatários do Manifesto parecem ignorar que o protótipo dos reatores à base de tório remonta aos anos 50. Ou seja: 60 anos atrás. Apesar de serem menos perigosos que os reatores abastecidos com urânio, gerarem menos lixo nuclear e emitirem níveis mais baixos de radioatividade, o ciclo combustível do tório não vingou. Basicamente por ter contrariado o nascente lobby nuclear pró-urânio e por dificultar a construção de artefatos nucleares. No clima da Guerra Fria, tal particularidade sentenciou à morte os programas energéticos à base de tório.

O quadro hoje é, sem dúvida alguma, diferente. Todavia, persevera sob a batuta de premissas políticas e econômicas. As nações que hoje estão implantando projetos baseados no ciclo combustível do tório são, no geral, países como o Chile e a Noruega, nações secundárias na ordem mundial. Ou então são nações como Israel, China, Rússia e Índia, que, por motivos variados, estão no encalço de um protagonismo próprio no cenário global. Chama a atenção que países como os EUA, França e Reino Unido continuem fiéis ao urânio, tanto por motivações políticas quanto pela influência dos complexos industriais e tecnológicos existentes. Portanto, não são as possíveis virtudes do tório que justificam novos programas energéticos. Pelo contrário, são prescrições políticas, sociais e econômicas que uma vez mais direcionam, comandam e certificam a pauta tecnológica.

IHU On-Line – Além da questão tecnológica, o manifesto gera outras polêmicas?

Maurício Waldman - Sem dúvida. Exemplificando, no Manifesto, a Modernidade é avaliada como parteira dos avanços técnicos, do progresso econômico e da igualdade de gênero. Outros feitos seriam a dinamização da vida urbana e de novas formas de relacionamento político e social. Em si mesmas, não há como contestar a factualidade destas mudanças. Sob impulso da Modernidade, ocorreram transformações consideráveis no modo de vida da humanidade, das quais vastos setores não se dispõem a abrir mão. Assim, a Modernidade se tornou um elemento central para a história humana. Entretanto, o Manifesto omite qualquer tipo de visão crítica, um dado complicado se pensarmos as formas de reprodução social que a Modernidade implantou.

Note-se que o Manifesto sequer menciona os impactos promovidos pelo moderno estilo de vida e seus sucedâneos, o consumismo e a sociedade do descartável. Isto apesar de serem inseparáveis dos mecanismos que estão alimentando a crise ambiental dos tempos modernos. Nesta lógica, o Manifesto se indispõe com o que acredito ser uma das maiores contribuições do ambientalismo: a defesa da justiça social. Digo também que não poderia ser diferente disso. Não há como fechar os olhos diante dos gritantes contrastes difundidos na sociedade contemporânea.

"O meio urbano está no centro do debate ambiental"

 

 

 

IHU On-Line – Como o manifesto se posiciona diante da questão da pobreza?

Maurício Waldman - Sabe-se de longa data que as disparidades de renda e de consumo estão firmemente apoiadas em estacas socioeconômicas. Porém, não é desta forma que o Manifesto aborda a questão. A narrativa do documento tem por pressuposto a compreensão de que a pobreza é um problema em si. Adotando este axioma como princípio, no Manifesto os processos de pauperização são dissociados da lógica estrutural que gera dessimetrias sociais e econômicas que excluem povos, grupos e pessoas.

Tal como noutras abordagens carentes de sociologia e de economia política, o Manifesto subverte os dados da questão. A pobreza seria um acaso, um desvio de percurso, um evento aberrante que pouco ou nada tem a ver com o funcionamento do sistema econômico. Portanto, as desigualdades econômicas seriam passíveis de serem zeradas ou corrigidas via aplicação mais intensa - e poder-se-ia adjetivar - mais radical das normas econômicas existentes. Dito de outro modo, with more of the same. Isto é: com mais do mesmo. No horizonte utópico do Manifesto, um remake ou repaginação modernizante não só livraria o Planeta dos problemas sociais, como também pavimentaria caminhos para a preservação do meio natural. Isto explica a razão do Manifesto advogar a aceleração da desconexão entre desenvolvimento e natureza como solução para a crise ambiental.

IHU On-Line – De que modo o Manifesto dissocia desenvolvimento e meio natural?

Maurício Waldman - Os autores do Manifesto alegam - nisto apelando para um consistente e bem fundamentado universo conceitual acadêmico - que uma natureza propriamente natural não existe. Aliás, uma ideia que de nova não tem nada. Desde o século XIX estudos realizados por biólogos, geógrafos e antropólogos demonstram a decisiva influência dos humanos no meio ambiente. Assim, o que chamamos de natureza seriam espaços regrados por sansões sociais, e a naturalidade, uma decorrência da esculturação humana do espaço. Das intervenções humanas no meio natural resulta justamente o Antropoceno. No texto do Manifesto, Antropoceno é a palavra chave por excelência. Deste conceito advém a segunda noção básica do documento: o Bom Antropoceno.

IHU On-Line – O que o Manifesto apresenta como sendo o bom Antropoceno?

Maurício Waldman - Antes, seria importante esclarecer que a noção de Antropoceno está inserida de modo muito genérico no texto do Manifesto. Note-se que tal como a compreensão do papel dos humanos na construção da fisionomia da Terra, a noção de Antropoceno acumula décadas de discussões. Já no início do século XX o geoquímico e mineralogista soviético Vladimir Vernadsky deu os primeiros passos nessa direção. Vernadsky lança em 1926 o livro A Biosfera, sugerindo a hipótese de que a fisionomia terrestre foi biologicamente determinada. Avançando nesta discussão, concluiu que a paisagem terrestre não poderia ser desconectada das ações antropogênicas. Ou seja, transformações desenvolvidas pelos humanos. Este é o eixo que justifica uma famosa frase do cientista: “O homem tornou-se uma poderosa força geológica”. Mais adiante, o empenho de Vernadsky inspirou o biólogo norte-americano Eugene Stoermer a propor, nos anos 1980, o neologismo Antropoceno. Desde então, o conceito transita difusamente no meio acadêmico.

Foi dito que o Manifesto carece de sociologia. Infelizmente carece também de antropologia. Do modo como o Antropoceno integra a grade conceitual do Manifesto, a falta de perspectiva social e cultural compromete a argumentação do documento.

IHU On-Line – Por quê?

Maurício Waldman - Mesmo uma leitura superficial do Manifesto é suficiente para notar que o texto cita repetidamente o Antropoceno no singular, tal como se as paisagens humanizadas pelas diferentes sociedades ao longo da história fossem parte de um único processo. Acontece que a realidade é bem mais complexa. O geógrafo brasileiro Milton Santos na sua análise do espaço geográfico frisava que as múltiplas sociedades humanas criaram múltiplos espaços. Qual seja, muitas leituras da relação com o meio natural. Em comum, todas as antigas interpretações da territorialidade foram radicalmente diferentes do Antropoceno da Modernidade. No passado, rompimentos drásticos com os ciclos naturais ocorreram em caráter excepcional. Isto dificulta que se trace uma linha de continuidade entre as sociedades tradicionais e o mundo contemporâneo. Na história humana existiram Antropocenos e não O Antropoceno.

IHU On-Line – Quais os desdobramentos da forma como o Manifesto entende o Antropoceno?

Maurício Waldman - Um destes é que para o documento a oposição dos humanos ao meio natural é praticamente atávica. O Manifesto recorda, por exemplo, que as sociedades antigas derrubaram três quartos das florestas mundiais antes da revolução industrial. Certamente isto é verdade. Mas importa também sublinhar que este processo ocorreu ao longo de dois milhões de anos. E mais: que a quarta parte restante está sendo dizimada no frigir de poucas décadas. Ninguém ignora que as culturas tradicionais promoveram transformações de monta no ambiente natural.

Tanto isto é verdade que em certos contextos - como no bojo das civilizações Anashazi, Maia, Khmer, Sabá e da ilha da Páscoa - irromperam severas crises ecológicas. Mas em nenhum momento a ação dos humanos do passado colocou em perigo a biosfera como um todo. Tampouco ameaçando a existência da Humanidade. Portanto, nada nas formas assumidas pelo Antropoceno na antiguidade permite filiação direta com o que acontece na sociedade atual. A Modernidade é única quanto à ferocidade da devastação e fome insaciável por recursos. Trata-se de uma singularidade que, a propósito, constitui seu dilema civilizatório central.

 

 

 

"Na história humana existiram Antropocenos, e não o Antropoceno"

IHU On-Line – Como o Manifesto propõe um bom Antropoceno?

Maurício Waldman - No que considero um ponto alto do Manifesto, o texto frisa com muita propriedade que o meio urbano está no centro do debate ambiental. Não podemos esquecer que atualmente a população humana é majoritariamente urbana, tendência que escancaradamente se acentua a cada dia que passa. Basta consultar Planeta Favela, obra do geógrafo norte-americano Mark Davis, um trabalho que não admite contestação quanto à centralidade do fato urbano na vida moderna. Nesta ordem de considerações, o Manifesto contesta com razão um clássico imaginário ambientalista, altamente ideacionado, que desloca a questão ambiental para os espaços romanticamente carimbados como naturais: florestas, oceanos e paisagens sob domínio da vida selvagem. Mas, novamente enveredando por visões avessas ao contraditório, o Manifesto reporta a uma cidade alegórica, também romanceada. Exatamente por esta razão, não possui densidade conceitual suficiente para pensar o meio urbano.

Porque não leva em consideração que a cidade moderna constitui um tecido urbano umbilicalmente associado às contradições gerais da sociedade contemporânea. Novamente recorrendo a Milton Santos, a cidade moderna não é nem um pouco isonômica. Para as imensas massas de excluídos, a chamada rede urbana simplesmente não existe. A imagem de cidade exposta pelo Manifesto é uma caricatura da cidade real. É uma metrópole com altos arranha-céus cercados de verde. Mas onde estão os de fora da “cidade formal”? Nesta perspectiva, o chamado Bom Antropoceno poderá ser unicamente bom para alguns, para poucos.

IHU On-Line – Como fica a sustentabilidade nessa discussão?

Maurício Waldman - Na maneira como tem sido proposta, não fica. Contudo, não seria justo estigmatizar o Manifesto por conta disso. A sustentabilidade é um conceito que mostrou fragilidade e incapacidade em deter o avanço da crise ambiental. Entendo que conjunturalmente o Manifesto surge em função das lacunas operacionais do conceito de desenvolvimento sustentável. No tocante à dinâmica social, a tomada de posição do Manifesto não acontece por acaso. Presumivelmente, o documento expressa de um modo ou de outro uma corrente de opinião para a qual a sustentabilidade, além de ter malogrado, está conceitualmente desmoralizada.

O desenvolvimento sustentável enfrenta dúvidas e incertezas em duas frentes. Primeiro, existem problemas concretos. Após mais de 20 anos de consagração do conceito no Encontro do Rio-92, simplesmente inexistem avanços palpáveis da sustentabilidade em nível global. O Relatório Panorama Ambiental Global 2012, elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente - PNUMA, revela cenário desalentador. Nos últimos 40 anos apenas quatro dentre 90 metas ambientais estratégicas tiveram avanço significativo. Outros 40 objetivos avançaram minimamente. Para arrematar, 24 metas simplesmente estancaram. O fracasso é tão retumbante que até mesmo Gro Brundtland, mentora do Relatório Nosso Futuro Comum - ONU, expôs suas frustrações publicamente. Reverenciada como “Mãe” do conceito de desenvolvimento sustentável, Brundtland advertiu em entrevista concedida em 2012 que a sustentabilidade aguardava materialização como prática real. Mais: admoestou que o termo é utilizado abusivamente, desconectado de práticas reais. Desabafou por fim sem maiores delongas: “O desenvolvimento sustentável ainda não aconteceu”. Ora, se a própria mãe da sustentabilidade emite declaração deste tipo, quem somos nós a objetar?

Lado a lado com vicissitudes operacionais, o desenvolvimento sustentável demonstrou fragilidade teórica. Dado estar esvaziado de sustentação metodológica, o conceito terminou facilmente assimilável a qualquer tipo de situação. É o que explica a notória polissemia do termo. Numa conjuntura em que a insustentabilidade se tornou regra geral, existe toda sorte de objetos e serviços “sustentáveis”. Tudo é sustentável: existem fogões, canecas, computadores, cemitérios, carros, detergentes e roupas sustentáveis. Eu até brinco em sala de aula dizendo que um dia inventarão professores e alunos sustentáveis.

IHU On-Line – Que tipo de avaliação o Manifesto faz da ideia de sustentabilidade?

Maurício Waldman - Para os autores do Manifesto, a sustentabilidade não é um paradigma central. A aposta básica do documento é a intensificação das atividades humanas respaldadas por técnicas avançadas, tendo por meta o avanço da modernização. Decerto, a maior tecnificação das redes produtivas propiciaria uso mais eficiente dos insumos naturais. Por extensão, contribuiria para conservar e proteger o patrimônio natural. Entretanto, esta noção pode ser questionada. Mantendo-se a tendência ao crescimento ilimitado típico da economia moderna, não está garantido que existirão limites na exploração dos recursos naturais. Com isso se recoloca novamente a questão do tipo de desenvolvimento apropriado para garantir um futuro viável para as gerações que herdarão a Terra. 

"A viga mestra do documento está firmemente calçada na apologia da ecoeficiência"

 

 

 

 

IHU On-Line – Está aberta a possibilidade de pautar novamente a sustentabilidade?

Maurício Waldman - Sim e não. Evidência sobre a qual não se permite calar, caso o desenvolvimento fosse em si mesmo sustentável, não haveria necessidade de adjetivá-lo. Fala-se em “desenvolvimento sustentado” porque o tipo de relação mantida pela economia com a natureza não tem nada de sustentável. Fosse a sustentabilidade plenamente operacional, o mundo já estaria livre dos problemas ambientais. Conforme foi destacado, a pregação da sustentabilidade não obteve a repercussão esperada. Nesta sequência, o Manifesto implicitamente reconhece que o desenvolvimento não é sustentável e ponto final. E talvez paradoxalmente - em coerência com o discurso da dissociação entre desenvolvimento e natureza - afirma que um futuro ambientalmente seguro seria viabilizado por mais, e não por menos desenvolvimento.

IHU On-Line – Que avaliação inicial faz da abordagem ecológica da Encíclica Laudato Si’?

Maurício Waldman - A discussão sobre o meio ambiente na esfera das religiões é extremamente importante. No âmbito das religiões inspiradas na Bíblia, a criação é sempre avaliada como um ato divino. Por conseguinte, cabe aos humanos a responsabilidade em zelar por este acervo. A Encíclica Laudato Si’ - Louvado Sejas, tendo por subtítulo Sobre o Cuidado da Casa Comum - se inscreveria, conforme foi colocado, num momento histórico marcado por uma encruzilhada ambiental, impondo a necessidade de instauração de um novo equilíbrio a zelar pelo ambiente. Mas esta harmonia somente será assegurada com avanços sociais, posição consignada pela Encíclica juntamente com a crítica ao consumismo e à sociedade do descartável. Lançada numa conjuntura na qual o debate ambiental está sendo reaberto, a Encíclica, portanto, amplia o debate numa direção correta. Uma importante contribuição a ser levada em consideração.

Por Patrícia Fachin

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06 Jul

Frases do dia

Namorado

“A presidente mudou muito. Na política econômica, no trabalho com Joaquim Levy [ministro da Fazenda]. O que os EUA fizeram [espionar a presidente], não deveriam ter feito. Foi importante a reação dela, de manifestar a posição do Brasil. Mas quem fica chateado é namorado. O homem de negócios tem de ser racional, depois tem de conviver” - Rubens Ometto, presidente do conselho de administração da Cosan – Folha de S. Paulo, 06-07-2015.

Energia para pular

“É bom às vezes ter seis meses ou um ano sem poder crescer tanto, para então voltar. O difícil é entrar no negócio de areia movediça, em que você não sabe a profundidade. Por isso, tem que fazer o ajuste. Estamos abaixando para ter energia para pular” - Rubens Ometto, presidente do conselho de administração da Cosan – Folha de S. Paulo, 06-07-2015.

Direção certa

“Acho que o governo está na direção certa. Temos que segurar a ansiedade. Sou capitalista, estou gostando de ver o direcionamento que ela está fazendo no segundo mandato. A melhor maneira de você melhorar a eficiência e diminuir a inflação é por meio da concorrência” - Rubens Ometto, presidente do conselho de administração da Cosan – Folha de S. Paulo, 06-07-2015.

O que quer cada um

“A convenção do PSDB evidenciou que, apesar de comungarem da avaliação de que a permanência de Dilma Rousseff caminha para se tornar insustentável, Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra divergem sobre o caminho que o partido deve seguir. Enquanto o senador mineiro e seu grupo defendem que a melhor alternativa seria a cassação da presidente e de seu vice, Michel Temer, pela Justiça Eleitoral, os paulistas preferem a saída em que o peemedebista assuma o Planalto” – Vera Magalhães, jornalista – Folha de S. Paulo, 06-07-2015.

Despudor

"É de um profundo despudor democrático e de um incontido revanchismo eleitoral falar em impeachment da presidente como têm falado alguns parlamentares da oposição" - José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça – Folha de S. Paulo, 06-07-2015.

Responsabilidade

"Quero elogiar a responsabilidade demonstrada hoje pelo PSDB. Impeachment é um instrumento da democracia para ser usado em casos excepcionais. Não pode se tornar num objetivo a qualquer custo de um grupo político” – Jacques Wagner, ministro da Defesa – Folha de S. Paulo, 06-07-2015.

Medo de avião

“Os petistas são hostilizados. Mas deputados e senadores de outros partidos não querem correr riscos. Muitos são os que não usam mais aqueles broches que adornavam seus paletós. Temem protestos corporativos e a militância antipolítica” – Ilimar Franco, jornalista – O Globo, 05-07-2015.

Mandioca da Dilma

“Quem pescou essa foi José Murilo de Carvalho. O projeto de Carta Magna redigido por Antônio Carlos Ribeiro de Andrada na Constituinte de 1823 exigia, para o exercício do voto, renda líquida anual de... 150 alqueires de mandioca! “Aquela ficou conhecida como a Constituição da Mandioca”, diz o historiador – Ancelmo Gois, jornalista – O Globo, 05-07-2015.

Como se sabe...

“Dilma, 192 anos depois, resgatou, outro dia, o valor da mandioca, ao fazer uma ode à raiz gostosa” – Ancelmo Gois, jornalista – O Globo, 05-07-2015.

Bermudas coloridas

“A decisão a favor do “Obamacare”, apelido do seu (Obama) plano de saúde, foi apenas uma das surpreendentes boas notícias que o Baraca recebeu do supremo tribunal americano, reconhecidamente conservador. A liberação do casamento homossexual em todo o país foi outra. Nos Estados Unidos estão comparando os juízes supremos a velhos sisudos que, de uma hora para outra, decidiram arrancar as togas e mostrar suas bermudas coloridas” – Luís Fernando Verissimo, escritor – Zero Hora, 06-07-2015.

A união nacional

"O PSDB não tem interesse num governo de união nacional dirigido pelo vice Michel Temer. Neste caso, a sigla seria chamada a participar e não poderia, politicamente, se recusar a integrar um esforço de salvação nacional. Especialistas avaliam ainda que os tucanos seriam convocados para cuidar da área em que têm PHD: a economia. Quem fez o Real, teria a tarefa de enfrentar a crise" - Ilimar Franco, jornalista - O Globo, 04-07-2015.

As duas apostas

"Os que acompanharam o impeachment do ex-presidente Collor dizem que essa não é a real intenção do PSDB, que amanhã faz convenção. Se fosse, eles estariam articulando, para reunir forças, e conspirando para derrubar a presidente Dilma. E, que, para isso teriam de contar com Temer e a cumplicidade do PMDB. O ideal para os tucanos é o TSE cassar a chapa (Dilma/Temer) e a convocação de novas eleições. Com o balão de ensaio do impeachment esvaziado, o PT não crê que o Tribunal casse a chapa. Sua tática, segundo um consultor, é levar o governo Dilma até o fim, do jeito que der, e domar o PMDB na expectativa de que a economia melhore até 2018" - Ilimar Franco, jornalista - O Globo, 04-07-2015.

Deslealdade

“Não vou deixar o governo não. Seria uma deslealdade. Estamos conversando sobre como atender a base depois que ela garantiu a aprovação do ajuste” - Michel Temer, vice-presidente da República - O Globo, 04-07-2015.

Somos todos Maju

“O querido frei David, da Educafro, pôs-se à disposição da coleguinha Maria Júlia Coutinho, 36 anos, para uma ação judicial contra os ataques racistas que a musa do tempo do “Jornal Nacional” vem sofrendo. Ontem, William Bonner, Renata Vasconcellos e toda a equipe do “JN” postaram um vídeo em sua defesa” – Ancelmo Gois, jornalista – O Globo, 05-07-2015.

Segue...

“Terça agora, a Educafro entrará com ação contra os três atletas da seleção de ginástica que ofenderam o colega negro Ângelo Assumpção” – Ancelmo Gois, jornalista – O Globo, 05-07-2015.

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06 Jul

Jesus Cristo é o Sol. A Igreja é a Lua", lembra Papa Francisco. "ninguém, à exceção de Jesus, tem luz própria"

"Desde o cume do Chimborazo até às costas do Pacífico, desde a selva amazónica até às Ilhas Galápagos, nunca percais a capacidade de dar graças a Deus pelo que Ele fez e faz por vós, a capacidade de proteger o humilde e o simples, cuidar das suas crianças e idosos, confiar na juventude, e maravilhar-se com a nobreza do seu povo e a beleza singular do seu país", disse o Papa Francisco, ao chegar em Quito, ontem, dia 05-07-2015, no seu primeiro discurso em terras equatorianas.

Eis o discurso.

Senhor Presidente,
Ilustres Autoridades do governo,
Irmãos no Episcopado,
Senhoras e senhores, amigos todos!

Dou graças a Deus por me ter permitido voltar à América Latina e estar aqui hoje convosco, nesta linda terra do Equador. Sinto alegria e gratidão ao ver as calorosas boas-vindas que me dão: é mais uma prova do carácter acolhedor que tão bem define as pessoas desta nobre nação.

Agradeço-lhe, Senhor Presidente, as amáveis palavras que me dirigiu, que retribuo com votos de todo o bem para o exercício da sua missão. Saúdo cordialmente as ilustres Autoridades do Governo, os meus Irmãos Bispos, os fiéis da Igreja no país e todos aqueles que hoje me abrem as portas do seu coração, da sua casa e da sua Pátria. A todos vós, o meu reconhecimento afectuoso e sincero.

Visitei o Equador em diferentes ocasiões por motivos pastorais; e também hoje venho como testemunha da misericórdia de Deus e da fé em Jesus Cristo. A mesma fé que, durante séculos, modelou a identidade deste povo e deu muitos frutos bons, entre os quais se destacam figuras insignes como Santa Mariana de Jesus, o santo irmão Miguel Febres, Santa Narcisa de Jesus ou a Beata Mercedes de Jesus Molina, beatificada em Guayaquil, trinta anos atrás, durante a visita do Papa São João Paulo II. Eles viveram a fé com intensidade e entusiasmo e, praticando a misericórdia, contribuíram para melhorar, em diferentes áreas, a sociedade equatoriana do seu tempo.

Hoje, também nós podemos encontrar no Evangelho as chaves que nos permitam enfrentar os desafios actuais, avaliando as diferenças, fomentando o diálogo e a participação sem exclusões, para que as realizações alcançadas no progresso e desenvolvimento possam garantir um futuro melhor para todos, prestando especial atenção aos nossos irmãos mais frágeis e às minorias mais vulneráveis. Para isso, Senhor Presidente, poderá contar sempre com o empenho e a colaboração da Igreja.

Amigos todos, com entusiasmo e esperança, começo os dias que se seguem. No Equador, encontra-se o ponto mais próximo do espaço exterior: é o Chimborazo, chamado por essa razão o lugar «mais próximo do sol», da lua e das estrelas. Nós, cristãos, vemos Jesus Cristo como o sol, e a lua como a Igreja, a comunidade; ninguém, à exceção de Jesus, tem luz própria. Possa nestes dias tornar-se mais evidente para todos a proximidade «do Sol que nasce do Alto», sendo nós reflexo da sua luz, do seu amor.

Daqui quero abraçar todo o Equador. Desde o cume do Chimborazo até às costas do Pacífico, desde a selva amazónica até às Ilhas Galápagos, nunca percais a capacidade de dar graças a Deus pelo que Ele fez e faz por vós, a capacidade de proteger o humilde e o simples, cuidar das suas crianças e idosos, confiar na juventude, e maravilhar-se com a nobreza do seu povo e a beleza singular do seu país.

O Sagrado Coração de Jesus e o Coração Imaculado de Maria, a quem foi consagrado o Equador, derramem sobre vós a sua graça e bênção. Muito obrigado!

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06 Jul

Cardeal Arcebispo do Rio novamente é assaltado

O arcebispo do Rio dom Orani Tempesta foi vítima de um assalto, no fim da noite deste domingo, em Quintino, na Zona Norte da cidade. O crime aconteceu por volta das 22h40m, quando criminosos abordaram o carro, um Kia Sorento de cor preta, onde estavam o cardeal, um casal de amigos, além do motorista, na Rua Goiás. O bando, formado por homens armados, rendeu as vítimas antes de levar o veículo. Eles conseguiram fugir. Ninguém foi preso.

De acordo com informações da Polícia Civil, o motorista do veículo onde estava o cardeal relatou que eles foram interceptados pelos criminosos que estavam em outro carro. Ninguém ficou ferido durante a ação. O caso foi registrado na 24ª DP (Piedade).

Dom Orani estaria voltando de um evento religioso na Paróquia Nossa Senhora da Paz, em Campo Grande, na Zona Oeste do Rio. A polícia realiza buscas para a localização do veículo roubado e também capturar os criminosos, que não foram identificados.

A informação é publicada pelo portal do jornal O Globo, 06-07-2015.

O portal também informa que o cardeal-arcebispo do Rio foi assaltado, em setembro do ano passado, ao sair da Residência Assunção, no Sumaré.

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