Notícias do Dia

O xadrez do impeachment de Temer-2018 pela lei da ficha limpa
O fato novo, que surgiu no fim da noite de ontem, foi a provável inabilitação de Michel Temer para as próximas eleições, como efeito de sua condenação em segunda instância, pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de São Paulo. É (...)

Janot vai a STF para investigar Dilma e pedir que Lula vire réu na Lava Jato
O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, colocou nesta terça-feira o ex-presidente Luiz Inácio da Silva no centro da trama da Lava Jato e arrastou também Dilma Rousseff para o escândalo. O procurador tomou, de acordo com meios (...)

Banner
Banner
15 Mar

O que significa infalibilidade?

O jornal "La Repubblica" publicou, dia 09 de março, a introdução ao quinto volume das obras completas do teólogo Hans Küng, no qual foi reimpresso seu famoso "Infallibile? Una domanda" (Queriniana, 1970), juntamente com os escritos relativos ao acalorado debate que provocou. O texto põe em questão a doutrina da infalibilidade papal, e esteve na origem do inquérito que levou à retirada da autorização de ensinar teologia católica. Küng, no entanto, manteve-se como padre da igreja católica. Na publicação referida acima, que teve ampla ressonância internacional, o teólogo queria repropor essa questão como crucial para a reforma iniciada pelo Papa Francisco. Hoje, 10 de março, "Repubblica" apresenta um artigo de Alberto Melloni que, contextualiza historicamente a doutrina da infalibilidade, seu alcance e seu efetivo uso no magistério.

"Há pelo menos duas maneiras de ler a prerrogativa da infalibilidade pessoal do pontífice romano, definida no Concílio Vaticano I, em 1870: uma excitante e outra rigorosa" escreve Alberto Melloni, historiador da Igreja italiano, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII de Bolonha, em artigo publicado por La Repubblica, 10-03-2016. A tradução é de Ramiro Mincato.

A primeira forma, não estranha a Pio IX, é a que coloca a ênfase nesta definição, fazendo da infalibilidade pessoal uma infalibilidade tout court. Maximalistas do tempo e do espaço, estes leitores do Vaticano I apesentam, ora por razões apologéticas, ora polêmicas, o dogma da infalibilidade como um poder, não nascido da luta do século XIX entre igreja e modernidade, mas de uma necessidade teológica.

Pio IX - mas não foi o primeiro nem o último - não via naquela luta a agonia do regime de cristandade, que tinha dado poder à igreja, mas tinha conspurcado sua "autenticidade evangélica”, mas a via apenas como uma ameaça. Se, então, fosse dado o caso de uma perversão geral da Igreja, teria permanecido no "papa solus" todo o poder para dizer de forma solene, portanto, "ex cathedra", a verdade da fé. Isto, de acordo com os maximalistas, mudou o estatuto mesmo do papado: tornava, em suma, indispensável até mesmo alguma "devoção ao papa", como último guardião do tesouro essencialíssimo das verdades da fé e da moral. Mas, sobre este ponto, estava de certo modo de acordo também quem - como Hans Küng - nos anos setenta, via na infalibilidade o entrave para o ecumenismo e a consagração do regime monárquico do catolicismo, que inspirou, em parte, os últimos dez séculos.

A outra maneira de pensar a infalibilidade do papa foi e é menos emocionante: não excita o super-papismo e não agrada tanto nem mesmo aqueles críticos que veem ali o núcleo identitário do catolicismo. É o modo dos que sublinham que na definição do Vaticano I não se cria nada: na verdade, delimita-se tal prerrogativa tão bem, que a torna praticamente inutilizável.

Desde o direito canônico medieval se discutia sobre a possibilidade de que na apostasia geral, o Espírito guardaria a fé de alguns, muito poucos, ou, como pensava Ockham, de um só. E foram precisamente os franciscanos, ditos “espirituais", ligados à prática rigorosa da pobreza sancionada pelo papa, que apoiaram e defenderam a irreformabilidade das primeiras decisões papais contra aquelas mais permissivas tomadas pelos sucessores. Então, para proteger o princípio do pauperismo extremo, tiveram que tornar-se extremamente "papistas".

Mais tarde, no Concílio de Florença, de 1438-1439, foi codificado o princípio que a "infalibilidade da Igreja em crer pudesse concentrar-se, em circunstâncias extremas, no único papa de Roma: e, a partir daí, foi possível, no Vaticano I, chegar a uma definição bem pouco utilizável. Porque, como diz a história, na verdade, a infalibilidade pessoal do pontífice nunca foi praticamente usada, nas condições extremas previstas por Pio IX.

O dogma da Assunção de Maria - também comum no Oriente cristão, que o chama de "dormição" - foi proclamado por Pio XII, no Ano Santo de 1950, mas não com a infalibilidade pessoal. A Munificentissimus Deus, do Papa Pacelli, diz de fato: o dogma responde "ao consenso singular" dos bispos e fiéis, ao "consenso universal" do magistério e dos cristãos e ao "quase unanime consenso" do episcopado consultado. Não, portanto, uma infalibilidade pessoal e solitária do papa, mas uma concordância à qual o Papa dá voz.

Muito menos o pontificado sucessivo usou dessa prerrogativa, que o Vaticano II reconduz para dentro do leito de uma concepção de Igreja como comunhão. Apenas uma linha da Evangelium Vitae - aquela em que João Paulo II diz querer "confirmar" que o aborto é "desordem moral grave"- pode ser considerada infalível. Muitos afirmam que foi mérito de Joseph Ratzinger ter circunscrito com aspas as três palavras da declaração papal. Porém o crisma da solenidade doutrinária ou da infalibilidade pessoal foi aplicado a um princípio compartilhado pelos teólogos.

O perímetro tão apertado da infalibilidade tem, de fato, impedido que a condenação da contracepção hormonal ou mecânica, de Paulo VI, fosse lida, como alguém tentou fazer, como declaração infalível. E empurrou o próprio Ratzinger, como prefeito de cúria, a construir uma terceira figura - a do magistério "definitivo" - na ilusão de proteger no abrigo de um adjetivo diferente, temas, na sua opinião, muito relevantes, e que, ao invés disso, como notava, não sem alguma mágoa num discurso do ano 2000 que, exatamente por isto, foram discutidos e muitas vezes desconstruídos pelos teólogos.

Por isso é difícil de acreditar que o problema das reformas do Papa Francisco passe do impensável cancelamento de um ato conciliar de 1870. É no máximo a compreensão histórica daquele texto e da sua eficácia que pode mudar o "funcionamento" também no sentido ecumênico. Porque quando Francisco diz que o bispo tem que estar ora na frente, ora no meio, ora atrás de um rebanho de que reconhece a intuição de fé (o "sensus fidei"), está desenhando uma outra forma de exercício do múnus episcopal e, portanto, também da função do bispo de Roma e do ministério como papa, na comunhão entre as igrejas, que deixa aquelas discussões de uma temporada violenta da vida católica - aquela das condenações do pós-Concílio, das quais, Küng foi um alvo retrorrefletivo - e aspira por uma temporada em que a infalibilidade da igreja volte a expressar-se no consenso que o esforço de comunhão das igrejas encontra.

E-mail
Imprimir
PDF
15 Mar

A arquidiocese de Lima na tempestade

É fora de dúvida que o Papa Francisco está encontrando grandes dificuldades também no seu continente latino-americano. São conhecidas as oposições na América do Norte e igualmente conhecidas são as diversidades de leitura da realidade entre ele e algumas Conferências do ex-bloco soviético: Polônia, Hungria, República Checa, vindas à luz tanto para a Laudato Si’, como para o andamento dos dois sínodos sobre a família e, sobretudo para a questão da imigração.

O comentário é de Francesco Strazzari, professor de Ciência Política, em Pisa, Itália, publicado por Settimana, 13-03-2016. A tradução é de Benno Dischinger.

O Papa Francisco conhece os problemas da América Latina e não perde ocasião para impelir os episcopados a renovarem o modo de ser Igreja-hospital de campo. A missão continental promovida desde Aparecida não decola. O discurso aos bispos mexicanos para alguns fez transbordar o vaso e há literalmente enraivecidos, acusando o Papa de não se ter documentado bem e de não ter conselheiros objetivos. Cita-se o nome do arcebispo da Cidade do México, o cardeal Rivera Carrera Norberto, que seria o chefe da fileira dos dissidentes perante a atual orientação da Igreja com o Papa Francisco.

Os sermões papais não lhe desceram goela abaixo e pensou em sua revisão. Desde a fé do arcebispado a descer em defesa do cardeal. As fortes chamadas papais fizeram a volta do mundo, sobretudo na América Latina e deram isca a quantos há tempo acusam certos cardeais, arcebispos e bispos de não caminharem como indica o Papa. É o caso da arquidiocese de Lima, com o cardeal Juan Luis Cipriani na ponta e que faz ouvidos de mercador. A documentação dos danos, que o seu comportamento provoca, se adensa e deixa prever que deverá descer a campo a própria Santa Sé para acalmar os ânimos. O próprio Opus Deis, ao qual o cardeal pertence, parece não estar mais em condições de defendê-lo das acusações. Faltam ainda para a verdade pelo menos dois anos até a renúncia do cardeal Cipriani. A situação da arquidiocese de Lima foi sempre mais degenerando neste últimos anos por causa dos escândalos.

A crise do clero é galopante. A posição do cardeal – segundo fontes bem informadas – é ferreamente conservadora, centralista, arbitrária e autoritária. O personagem menos conhecido, mas enormemente influente nestes anos, é mons. Raul Chau Quispe, com ainda não 49 anos, consagrado bispo auxiliar de Lima em abril de 2009. É ele que está correndo para a sucessão. Ordenado presbítero em 1998, não obstante a perplexidade de muitos sacerdotes consultados pelo cardeal Vargas Alzamora, arcebispo de Lima, por suas baixíssimas notas em teologia, sua excessiva vizinhança ao secretário do cardeal, Martin Sanchez. É ultra conhecida sua ambição de chegar a tornar-se o secretário pessoal do arcebispo para ter a possibilidade de aceder a dados “secretos”. Circulava já desde os tempos do seminário a fala: “Raul não se dedica a estudar, mas a tecer intrigas”.

Um carreirista de primeira ordem, astuto, chamado a ser o secretário pessoal do cardeal Vargas e depois de Cipriani. Circundou-se de sacerdotes implicados em escândalos de sexo, dinheiro e poder. De fato, o cardeal Cipriani não faz nada sem o parecer do mons. Raul Chau Quispe e aparece sempre mais como uma figura decorativa e mostra não interessar-se mais tanto da vida da arquidiocese. É impressão muito difundida que a reger a arquidiocese seja sempre mais o bispo auxiliar. Há uma expressão que circula: o cardeal “navega nas nuvens” ou “na lua”. Mas – observa-se – mons. Chau não conhece o clero e a Igreja de Lima: conhece somente os seus interesses voltados ao poder, não dialoga com ninguém, a não ser com os “seus”, desenvolve uma cadeia de espionagem, que gera mau humor em todos os setores da arquidiocese.

Chamado em causa é o próprio cardeal Cipriani, o qual muda ao seu bel prazer (ou o do mons. Raul Chau Quispe) os padres segundo cálculos, intrigas, interesses. Os maus humores estão nas estrelas, porque o cardeal age sem conhecer o seu clero, a não ser aquele que lhe está próximo. Mas, a fazer os jogos e, no final das contas, o costumeiro Raul Chau Quispe, do qual se diz que foi um péssimo estudante no seminário; não tem sequer uma licença em teologia e falta-lhe experiência pastoral, não tendo jamais estado em paróquia ou numa comunidade. Não foi nem vigário nem pároco, mas predileto e protegido por então núncio Rino Persegato, próximo ao Opus Dei.

O que muitos setores lamentam é que neste tempo, até a retirada de Cipriani em 2018, a arquidiocese de Lima está nas mãos de um lobby que a governa a bem 16 anos, continuando a produzir graves danos na pastoral, desilusão nos fiéis e na comunhão eclesial, dada a avidez do poder e do dinheiro que caracteriza o grupo do mons. Chau, do qual se conhecem nome e sobrenomes e atividades, em estreita e ambígua relação com o Opus Dei e ambientes conservadores.

A Santa Sé não aceitou, em 2015, a solicitação de novos auxiliares. E desde então o grupo-Chau está se organizando para ter o controle de toda a arquidiocese para fazer frente à nomeação do novo arcebispo, que se presume seja estilo Papa Francisco. O reforçamento do poder continua e a isso contribuem o discutido Sodalício de vida cristã, os movimentos Pro-Ecclesia Sancta, Lumen Dei e significativamente o Opus Dei e um bom grupo do clero diocesano ordenado nestes anos. Muitos se perguntam: vale a pena continuar trabalhando numa Igreja onde tudo parece andar por água abaixo, onde jamais em 16 anos se valorizou, estudou e pôs em ato o concílio Vaticano II, as conferências de Medellín, Puebla, Sant Domingo e, sobretudo Aparecida, dos quais não falam jamais nem o cardeal nem o auxiliar Chau? Muitos escolheram o abandono. Impressionante o número de padres que deixara durante o episcopado de Cipriani: 36 em 16 anos. A solicitação dirigida à Santa Sé de um visitador apostólico permaneceu até agora sem resposta. E o núncio cala.

E-mail
Imprimir
PDF
15 Mar

Reflexões políticas. Subsídios para um diálogo sobre o Brasil

“O Brasil está em perigo. (...) O perigo está no ódio, na fobia que está sendo estimulada contra o PT, contra o candomblé, contra os homossexuais, contra o povo simples e contra as esquerdas. Contra aqueles que não se alinham às posições da grande mídia (revista Veja, Isto É, do jornal O Globo, do Estadão e das TVs, etc e tal ). O ódio está se transformando em ações. As esquadras do fascismo já se apresentam para atacar artistas, intelectuais e líderes políticos do PT e seus aliados, terreiros, negros e gays. Na intimidade dos egos esta intolerância até podia existir, mas era contida por este mecanismo cultural poderoso que a mídia está estimulando a romper-se para satisfazer interesses momentâneos de poder. E que poderá nos custar muito caro, provocando um confronto interno destruidor (uma espécie de mediorientização) e ameaçando até a própria integração nacional em um único país”, escreve Luiz Gonzaga de Souza Lima [1], cientista político.

Luiz Gonzaga de Souza Lima é cientista político mineiro e professor universitário. Estudou psicologia na PUC-Minas e é doutor em Ciências Políticas pela Universidade de Milão. Lecionou Sociologia do Desenvolvimento e Política Internacional na mesma instituição, de 1974 a 1979. Foi professor de Ciências Políticas e Política Internacional na PUC-Rio. A partir de 1992 foi professor da Faculdade de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, ensinando Teoria Política e Política Internacional, aposentando-se da universidade em 2008. Atualmente vive entre a Fazenda Inglesa, em Petrópolis, e Cumuruxatiba na Bahia, dedica-se a compartilhar suas reflexões e a escrever ensaios sobre a crise contemporânea. 

É autor de A Refundação do Brasil. Rumo à Sociedeade Biocentrada (Ed. Rima, São Carlos-SP, 2011) e Evolução Política da Igreja e dos católicos no Brasil (Ed. Vozes, Petrópolis, 1979).

Eis o artigo. 

Escrevo à luz do espírito e das preocupações de tantos amigos, de tantos jornalistas (Dines, Jânio de Freitas, Boechat, Amorim, Nassif, Sidney Rezende, Arnaldo Bloch, para citar os mais ilustres), de tantos escritores. Escrevo no espírito da crônica “Epa!” do Veríssimo

Nesse momento do Brasil, sinto algo parecido com o que ele escreveu nesta sua crônica, publicada há dias no jornal O Globo. Trata-se de um momento especial, tão grave quanto aquele dos anos 20 na Alemanha e na Itália.

A cidadania, nestes momentos, se demonstra mais pela clareza da posição de cada um do que pela omissão. Por isso resolvi falar, escrever.

O Brasil precisa de compreensão, de afeto. Precisa ser amado, não estraçalhado por interesses menores, irracionais, não dilacerado pelo ódio e por preconceitos injustificáveis. O afeto e o amor pelo Brasil - pela nossa gente, na maioria simples e pobre, gente honesta e trabalhadora, pela beleza do nosso território e pela complexidade maravilhosa da nossa identidade cultural – é, neste momento, um importante recurso para a construção da paz e da harmonia na nossa sociedade. É necessário e fundamental o amor e o respeito por nós mesmos, a aceitação da nossa diversidade fascinante. É necessário construir pontes e não muros, a modo do carpinteiro mencionado por Leonardo Boff em um de seus últimos textos.

* * *.

Há sempre alguns pressupostos no fundo de todos os pontos destas meditações. Explicitarei alguns.

Em um texto que escrevi, ainda em 2013, para a Unisinos (IHU). Resumo ao essencial. O PT que venceu as eleições em 2002 não foi o que governou. Não tendo maioria parlamentar, e com medo da ingovernabilidade, o PT vitorioso resolveu equacionar o problema ao velho estilo da elite política brasileira. Resolveu comprar uma maioria parlamentar através da distribuição de cargos e benesses políticas e financeiras à custa do Estado.

Essa é uma prática tradicional da elite política brasileira. Não foi o PT que a inventou. Antes dele, todos fizeram do mesmo jeito: compraram apoios políticos com recursos do Estado, inclusive após a redemocratização. Considerando somente os dois que governaram mais tempo, Sarney e Fernando Henrique, certamente se poderá recordar do modo como constituíram maiorias no congresso. O primeiro comprou apoio parlamentar, inclusive a prorrogação do seu mandato e o segundo seguiu seus passos, comprando uma maioria parlamentar que, além do cordado apoio político, modificou a constituição somente para permitir a sua reeleição. Quem pode esquecer a atuação do Antonio Carlos Magalhães, ministro das comunicações do governo Sarney e suas distribuições de canais de TV e favores do governo? O Fernando Collor se construiu politicamente criticando a corrupção do governo Sarney. Menos ainda se pode esquecer o ministro Sergio Mota, o Serjão, também ministro das comunicações, só que do governo FHC. Inesquecível. Como todos sabem, comprou a reeleição (o que foi posteriormente comprovado) e uma sólida e silenciosa maioria de parlamentares corrompidos.

Até os militares, que não precisavam de maioria parlamentar, mantiveram unidos os interesses da elite política, local, regional e nacional, através da distribuição destes benefícios. Ao longo do tempo, e há muito tempo, grandes fortunas e instrumentos de poder cresceram com os recursos do Estado, à sombra do poder.

Teria então o PT “envelhecido” do momento da eleição até a posse? Não sei, mas a verdade é que o partido resolveu a questão ao velho estilo. Ao manusear os recursos para a compra de apoios, fez brotar as figuras dos operadores, que todos os partidos possuíam e o PT ainda não. O PT teve até que pedir um emprestado ao PSDB – o famoso Marcos Valério – operador do mensalão. O fato é que a corrupção terminou por contaminar boa parte dos quadros dirigentes do PT, que ficaram, então, iguais aos dos outros partidos. Para todos os que botaram fé no “novo” que ele representava, foi uma grande decepção. Estou entre estes.

O Brasil perdia assim a chance de experimentar uma atmosfera diferente daquela que sempre existiu no Estado Econômico Internacionalizado, o tal Estado de Negócios, conforme denomino em meu último livro sobre o Brasil.[3]

Mas tenho claro para mim que não é porque o grupo dirigente do PT adotou a política tradicional do Brasil de comprar uma maioria parlamentar, através de atos de corrupção, não é por isso que o PT é um partido de corruptos e corruptores.

Seus eleitores, simpatizantes, militantes, quadros, etc. não são “petralhas”, canalhas, ladrões, etc. Assim como os eleitores de Alckmim e os membros do PSDB de Sampa não são ladrões de merendas escolares, nem os eleitores e simpatizantes dos partidos dos líderes evangélicos são corruptos e se vendem para prejudicar a Petrobrás.

* * *

Também não estou satisfeito com o governo da Dilma. Não gostei do tipo de ajuste proposto por ela (um ajuste para economizar a metade do dinheiro que só uma empresa, a Vale, deve ao governo). Não gostei da submissão aos bancos - os juros altos servem somente para eles ganharem mais com o débito público, transferindo para eles mais e mais do dinheiro público, o nosso dinheiro. Está escandalosa e perversa a competição entre os bancos pelos recordes de lucros!. Não gostei da recessão que foi criada, não gostei da presença dos latifundiários e a direita do agronegócio no governo – eles perderam as eleições – e não gostei das consequências desta presença na política para os sem-terra e para os índios. Não gostei também, da média que ela fez com a oposição (e com as multinacionais do petróleo) no caso do pré-sal. Não gostei de tantas outras políticas, decisões, orientações de governo, etc..

Mas ela é a presidente que a maioria do povo brasileiro elegeu, em uma eleição livre e realizada sem fraude. Por decisão do povo brasileiro, ela governará até 2018, salvo se for comprovado que ela cometeu os tais crimes de responsabilidade e for afastada dentro da lei.

***

É lamentável que o noticiário sobre a política brasileira tenha sido reduzido pela mídia a uma crônica policial. É lamentável, mas perfeitamente compreensível. A mídia no Brasil se posicionou como um ator ativo no campo da política brasileira, com um projeto próprio: derrubar o governo vitorioso nas eleições de outubro de 2014.

Este projeto vem sendo desenvolvido e é construído sobre mentiras, ocultamento da verdade, parcialidades, interpretações que ultrapassam o bom senso e alcançam níveis do absurdo. E se transformou em um linchamento político do PT, seus dirigentes e seu governo. Este projeto surge, e é bom lembrar, pela fragilidade política das oposições ao governo do PT.

A derrota eleitoral em quatro eleições presidenciais consecutivas tem mostrado a incapacidade das oposições conservadoras saírem vitoriosas em um confronto eleitoral. Esta fragilidade deu vida a este papel da mídia como principal ator político das forças conservadoras. Este projeto próprio da mídia brasileira é permeável a interesses externos e acomodado aos interesses do império americano, como é evidente da análise do noticiário desde a última derrota eleitoral das oposições. O noticiário político, enquanto se traveste de crônica policial, esconde debates essenciais para o Brasil e para o cenário político internacional. como o surgimento de um novo polo no cenário mundial, os BRICs. A crônica político-policial esconde também pautas importantes como os debates em torno do pré-sal.

A mídia transformou a política brasileira em um espetáculo televisivo que ela quer dirigir e dar o desfecho de seu interesse, como se o Brasil fosse uma novela, um programa. É o que Guy Debord chama de “sociedade do espetáculo”.

“Toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos...o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens...”[2].

***

Atualmente assistimos ao surgimento de um outro ator importante na política brasileira. Trata-se da ação simultânea e articulada de várias instâncias do Judiciário, que terminaram por unir-se à mídia na tentativa de derrubar o governo que o povo elegeu em 2014 e criminalizar o partido político vitorioso nas últimas eleições.

Não se sabe exatamente por quais caminhos seguirá a política no Brasil a partir do surgimento desta nova força política, constituída por esta articulação Judiciário/mídia com um projeto político próprio de poder. Neste momento o objetivo é derrubar o governo eleito, perseguir e enfraquecer ou aniquilar com o PT. Mas se este projeto alcançar êxito positivo, esta força política transformará a própria política brasileira em refém. Refém de forças que não precisam ser eleitas pelo voto popular.

Nestas circunstâncias, observa-se que democracia em nosso país está correndo riscos imensos. Qualquer governo que eventualmente poderá emergir desta crise será refém desta força política de tipo novo, que exerce e condiciona o poder e não necessita disputar eleições escapando assim ao controle da sociedade.

***

Estou entre aqueles cidadãos que consideram um avanço da democracia a investigação sobre as relações financeiras obscuras que existem entre as grandes empreiteiras, as grandes estatais e o financiamento aos partidos políticos e as campanhas eleitorais. Esta investigação poderia, finalmente, adentrar-se na escuridão dos túneis invisíveis que alimentam o financiamento político dos partidos e das campanhas eleitorais no Brasil. Poderia ser possível, assim, desvendar os mecanismos operacionais de um gigantesco processo de corrupção.

Estas relações e esta corrupção deixam um rastro de negatividade sobre a sociedade brasileira. Como envolve todos os postulantes ao exercício do poder, estas relações espúrias condicionam assim todas as esferas do poder em nosso país. Qualquer que sejam os resultados apresentados pelas urnas, este mecanismo estará condicionando o exercício dos mandatos, tanto nos executivos quanto nos legislativos, em todos os níveis, nacional, estadual e municipal. Estes mecanismos de corrupção e financiamento político possuem aspectos sobre os quais é bom meditar. Coloco em relevo alguns deles,

- É feito com recursos públicos. As empreiteiras retiram da sociedade os recursos para financiarem os principais partidos e candidatos. São recursos dos nossos impostos que são subtraídos através do mecanismo de elevação dos custos dos serviços prestados por estas empresas para serem repassados a quem exerce o poder e também a quem postula seu exercício com alguma possibilidade de êxito.

- Com o poder refém dos grandes empresários, são estabelecidas prioridades de governo. É assim que nascem obras faraônicas, inoportunas, não prioritárias e até nocivas ao Brasil e a sua população. A realização destas obras na realidade é o cumprimento de um pacto pré-eleitoral quando os partidos recebem recursos destas empresas gigantescas. São estas falsas prioridades que consomem os recursos que deveriam ser empregados na educação, saúde, habitação, saneamento, etc.

Desde os anos noventa do século passado, este processo de definição de prioridades se sofisticou ainda mais, gerando o que poderia ser chamado de macro-apropriação de recursos públicos pelas grandes empresas. Estas obras, construídas com os recursos subtraídos dos orçamentos públicos, alimentam a compra da classe política e estão sendo entregues aos grupos privados, os mesmos que ganharam com suas construções, para que se apropriem dos lucros gerados por estas obras. A esta transferência de ativos se dá o nome de concessões (estradas, aeroportos, portos, usinas, etc.). Este processo se combina e segue a simples entrega de ativos públicos – construídos no passado com os recursos de toda a sociedade – que foram as privatizações. Estes dois processos encerram grandes negociatas que envergonharão os brasileiros do futuro.

O efeito destas relações espúrias entre economia e política é devastador. Empobrece a cultura política brasileira. Atrela, coloca na canga, toda a classe política. Em seus séculos de funcionamento, estes mecanismos de apropriação de recursos públicos por parte de grandes empresas para serem empregados para a corrupção política terminaram por transformar os partidos políticos brasileiros em confraria de negócios, às vezes até hereditárias, como se pode observar pelos sobrenomes da classe política brasileira. Em todos os níveis. Só o PT escapa a este modelo de organização política. Possui outra origem. Uma origem que foge da lógica dos negócios.

Vivemos na era do capitalismo monopolista, com hegemonia do capital financeiro sobre o conjunto do sistema. Portanto, quando dizemos grandes empreiteiras estamos nos referindo a um conjunto que envolve os grandes bancos, a grande indústria e as grandes empresas de serviços, engenharia, etc. Então é óbvio quando falo destes mecanismos, não estou me referindo a um desvio de conduta de gestores de grandes empreiteiras, mas ao “modus operandi” do capitalismo nesta fase da história.

- A ação destes mecanismos de apropriação de recursos públicos pelo grande capital e corrupção da classe política para permitir esta apropriação tem um peso aumentado aqui no Brasil. Em um grande número de sociedades o Estado é uma construção social que envolveu a maioria da população. Nestes casos, o capital monopolista precisa subtrair o Estado à sociedade para construir mecanismos que permitam a apropriação dos recursos para si e para corromper a classe política.

No caso brasileiro a diferença é que o Estado já foi fundado tendo o grande capital mundial como um ator ativo. Foi assim que surgiu na história o Estado de Negócios, diferente do Estado Nacional. [3]

***

Uma investigação que revelasse para todos nós brasileiros este processo obscuro encheu-nos de esperança. Finalmente seria revelado aos brasileiros o modo como perdemos grande parte dos nossos recursos públicos, gerados com o nosso trabalho. Seria revelado também o modo como estes recursos são apropriados e privatizados pelos grandes grupos, que sempre dominaram a nossa economia, e o modo como corrompem a elite política.

Mas assim como o grupo dirigente do PT gerou uma frustração ao repetir o modo tradicional de exercício do poder em nosso país, deixando de presentear a sociedade com uma “nova política”, a investigação da Polícia Federal denominada de Lava Jato foi uma grande decepção.

Esta operação, que tantas esperanças chegou a produzir, não está sendo um processo para apurar a corrupção que predomina em todas as relações da elite do poder no Brasil, mas um processo político contra o PT.

***

Sou contra a corrupção, mas TODA corrupção. Sou dos que pensam que não existem corruptos do bem e corruptos do mal. Sou a favor de punir os corruptos, mas TODOS os corruptos. Mas estou também entre os que se decepcionaram com a operação Lava Jato. Esta operação perdeu seu rumo e terminou por articular-se com outras forças para romper as regras da democracia no Brasil e enfraquecer setores dinâmicos da economia brasileira. Enfraquecer a democracia e o Brasil.

Por muitas razões, algumas ainda desconhecidas, a operação Lava Jato transformou-se em uma forma de perseguição política, e até mesmo em uma perseguição política pessoal. Seduzidos pelos holofotes de uma mídia interessada em subverter os resultados das eleições políticas de 2014, os procuradores, juízes e policiais federais se perderam, abandonaram seus deveres constitucionais e se transformaram em atores de uma escalada para derrubar o governo que o povo elegeu.

Abandonaram os objetivos iniciais, e a única finalidade da operação passou a ser criminalizar o PT e absolver todo o resto da classe política que há muitas décadas governam nosso país, a mesma que criou o modelo que o PT copiou. Sendo assim, as denúncias contra qualquer ator da oposição ao governo do PT são arquivadas ou escondidas.

Os procuradores, os juízes e os delegados da PF envolvidos nesta operação decepcionaram a sociedade. Traíram seus juramentos da Constituição e aceitaram o papel de atores políticos para uma virada de mesa.

Esta articulação política entre a mídia e segmentos do Judiciário, que está ocorrendo sob nossos olhos e com a complacência do STF, está se constituindo em uma força política extra-constitucional que é uma ameaça real à democracia brasileira que tanta luta custou.

***

Para alcançar seus objetivos políticos antidemocráticos a mídia vem construindo, desde outubro, a intolerância e o ódio contra os vitoriosos nas urnas, contra o PT. Este ódio não existia até se conhecer o resultado do segundo turno das eleições presidenciais de 2014. Terminada a apuração, inicia-se a construção do ódio.

Desde então a sociedade vem sendo incentivada exaustivamente – uma verdadeira lavagem cerebral - à pratica da intolerância, do ódio, de uma verdadeira fobia contra o PT, contra seus eleitores, militantes, simpatizantes,

Os grandes criadores da cultura brasileira que votaram no PT e na Dilma - ex-ministros, intelectuais, artistas, sindicalistas - estão sofrendo agressões pessoais sob o aplauso da mídia. São atacadas sedes de sindicatos, entidades estudantis, partidos e organizações de esquerda ou de defesa de direitos humanos. É o fascismo chegando.

Para a construção deste ódio – nunca antes apresentado pela sociedade brasileira - estão sendo empregadas mentiras, vazamentos seletivos de depoimentos prestados sobre segredo de justiça na operação Lava Jato assim como estapafúrdias e ilegais ações dos dirigentes e responsáveis por esta operação. O ódio vem se estendendo, vem aumentando o seu volume.

Mas este ódio não faz parte de nós. Não cabe no nosso universo cultural a agressão a Mantega, a Chico Buarque, a Jorge Ben e a todos aqueles que declaram ter votado na Dilma. Está se apresentando no horizonte social brasileiro - acho que pela primeira vez - a possibilidade de rompimento de um mecanismo cultural de convivência social pacífica que a cultura brasileira criou e que tem protegido nosso país de rupturas raciais, religiosas, étnicas e culturais, mesmo sendo o Brasil o país das diversidades e o que possui uma das mais perversas e injustas estruturas sociais entre todas aquelas existentes na face da Terra. .

O Brasil está em perigo. Este equilíbrio cultural está em perigo. O perigo está no ódio, na fobia que está sendo estimulada contra o PT, contra o candomblé, contra os homossexuais, contra o povo simples e contra as esquerdas. Contra aqueles que não se alinham às posições da grande mídia (revista Veja, Isto É, do jornal O Globo, do Estadão e das TVs, etc e tal ).

O ódio está se transformando em ações. As esquadras do fascismo já se apresentam para atacar artistas, intelectuais e líderes políticos do PT e seus aliados, terreiros, negros e gays. Na intimidade dos egos esta intolerância até podia existir, mas era contida por este mecanismo cultural poderoso que a mídia está estimulando a romper-se para satisfazer interesses momentâneos de poder. E que poderá nos custar muito caro, provocando um confronto interno destruidor (uma espécie de mediorientização) e ameaçando até a própria integração nacional em um único país.

* * *

Para mim é uma surpresa que parte consistente da opinião pública do Brasil não esteja compreendendo o real objetivo desta operação, que é a perseguição policial contra o PT, uma força política importante, que há catorze anos dirige o país, sempre conduzida ao poder por eleições livres e diretas, que é também um partido legal, com registro no TSE. Como é possível uma perseguição policial a uma força política legal em uma democracia?

Esta perseguição política é conduzida pelo Moro e pela mídia, que transformou esta operação em um espetáculo, como me referi acima. As testemunhas interrogadas nesta operação Lava-Jato praticamente estão depondo para as revistas Veja, Época e Isto É e para as TVs. Nem os acusados,nem seus advogados podem conhecer os autos de acusação. Só as revistas e a TV podem vê-los e publicá-los. A minha pergunta é a seguinte: como a opinião pública aceita, concorda e até vibra com este desvio de conduta do Judiciário?

* * *

A polícia federal e a justiça, em vez de investigar os fatos, comprová-los, identificar os culpados, etc., se dedicam a encontrar delatores para premiar. Ora, delatores são bandidos. Nem sabemos se arrependidos. Acovardados na prisão, optam por denunciar seus cúmplices para obter vantagem. Não podem, portanto, ser a leitura e a representação de relações sociais complexas que constituem o funcionamento do poder. A história não pode ser compreendida pela fala dos delatores. Nunca foi. Em lugar nenhum.

No Brasil mesmo, temos um precedente. A delação premiada de Joaquim Silvério dos Reis, por exemplo, satisfez aos interesses daqueles que dominavam o Brasil e de uma classe média colonizada, que enfeitou suas sacadas e a frente das casas, colocou suas roupas domingueiras e se acotovelou para festejar, para ter a alegria de ver passar, bem de perto, o cortejo que levou Tiradentes a pé até a forca. A delação premiada com a qual a insurreição mineira foi processada e julgada satisfez somente a estes dois grupos.

O Brasil de verdade, seu povo, entendeu outra coisa da mesma cerimônia. Compreendeu os fatos de outra maneira. Porque os fatos são diferentes do que é relatado em uma delação. A delação não serve como testemunha da história, pois é o gesto de quem, culpado, quer se subtrair da justiça culpando os outros, sobretudo aqueles que o poder apurador quer culpabilizar e punir. O delator os ajuda em troca de recompensas.

Mesmo com estas ressalvas sobre a validade das delações (que não me deixam eufórico nem excitado, mas me deprimem), as denúncias que dizem respeito a membros do PT, mesmo antes de comprovada a sua veracidade, são seguidas imediatamente pela prisão dos mesmos, acompanhadas por manchetes garrafais na mídia e por chamadas nas rádios e TVs.

Enquanto isto personagens de outros partidos e de outras orientações políticas, mesmo citados na mesma delação, são deliberadamente ignorados, quando não absolvidos a priori. Toda a mídia noticiou a propósito da delação sobre Furnas e a distribuição da propina - 1/3 para Aécio, 1/3 para São Paulo e 1/3 nacional. No entanto, enquanto militantes petistas são imediatamente punidos nada ocorre com os membros do PSDB citados. Porque a tal de opinião pública não se interroga?

* * *

Não sou petista, não sou lulista. Fiz severas críticas políticas ao Lula. Críticas publicadas(*). Mas não aceito nem concordo com o linchamento. Nem dele nem de ninguém. Que façam um processo regular, com inquérito, investigação, julgamento, condenação, etc., como está sendo feito para o dono da Samarco, por exemplo. Na verdade estamos assistindo a um linchamento moral de um líder político como nunca se viu no Brasil, nem mesmo no caso do linchamento moral do Vargas pela Tribuna da Imprensa e pela tal “república do galeão”. O objetivo máximo deste processo político ao PT parece ser uma perseguição pessoal ao Lula.

Convido a opinião pública a se colocar a seguinte pergunta: porque os dirigentes de outros partidos não são investigados nem punidos, nem mesmo diante de provas?

Há poucos dias o Maluf recebeu o segundo mandato internacional de prisão (Interpol). Pois aqui no Brasil ele não é nem investigado, nem processado, nem condenado e nem perseguido pela mídia. Está livre. E olha que o Lula não foi condenado em lugar nenhum, por nada, nem mesmo após meses e meses de dedicada procura por um batalhão de procuradores.

Porque será que o hostilizado, o linchado é o Lula? Para impedir uma sua provável candidatura em 2018? Para isso vale tudo, até a quebra da legalidade e da democracia? Porque a oposição não pensa em vencer as próximas eleições, como ocorre nos países democráticos?

As regras da convivência civil e política em uma democracia não permitem linchamento de ninguém. Nem físico nem moral. Todas as constituições e direitos penais nas democracias se baseiam na presunção de inocência até o transitado em julgado.

O certo é que a mídia está fazendo o linchamento moral de uma pessoa pública que não foi e nem está sendo processada, que não foi condenada em nenhum julgamento. Está, há meses, sendo investigada, e o “crime” que lhe vem atribuído é a “suspeita” de ocultação de um patrimônio que pode ser considerado modesto para quem ocupou a presidência da república por oito anos.

***

Porém, o maior destaque desta operação, o que me chama mais a atenção é a valentia dos procuradores. Principalmente quando se dão conta das repercussões na mídia, nas TVs, nos jornais. A pergunta que me faço a cada leitura de jornais é porque eles não agem assim, com a mesma coragem, no caso do roubo da merenda escolar das crianças paulistas, no caso do crime ambiental hediondo da Vale/Samarco, nos casos de corrupção comprovada do presidente da Câmara – Cunha - e daquele do Senado – R. Calheiros. Porque a coragem deles desaparece? Para onde vai? Tenho fortes suspeitas de que a população do Brasil está a se fazer estas mesmas perguntas.

***

É notável o entusiasmo da mídia em relação aos panelaços. A mídia, ela própria, é a organizadora dos panelaços, com suas chamadas, com seus avisos e com seus repórteres estrategicamente de prontidão diante das varandas mais caras, dos bairros mais chiques, das principais cidades brasileiras. Pergunto: qual é o sentido dos panelaços? Será que significam um desejo de vetar ao PT o uso da televisão? Será que somente os outros partidos podem usar a TV para se comunicar com a população? Independente da euforia histérica da mídia, sobretudo da TV Globo, os tais panelaços constituem a manifestação mais evidente da intolerância política que vem sendo estimulada como comportamento coletivo no Brasil. O que será que a população pensa a propósito desta intolerância política?

Ao ver as fotos de grandes varandas do Leblon por ocasião do último panelaço, fiquei pensando no PT, no partido em si, no seu tamanho, sua amplitude, nas suas origens.

Nunca fui militante do PT e muitas vezes votei em outras opções políticas (PDT, PSOL e PV,). Mas o acompanho como cientista social desde a sua fundação.

A assessoria que por 11 anos (de 1979 a 1990) prestei para a CNBB, através do IBRADES, terminou me permitindo, entre várias outras experiências sociais privilegiadas que vivi neste período, assistir ao nascimento do PT. Assisti ao parto mesmo, fisicamente. Vi nascer um sujeito político.

O que eu vi foram as comunidades de base, as oposições sindicais, as lideranças rurais que terminariam por fundar o MST, os movimentos das periferias urbanas - das favelas ou das camadas mais pobres das classes médias - o processo de organização dos índios, dos estudantes, intelectuais, etc e etc.

O que vi foram estes grupos sociais, que afinal pagam o pato nesta forma atual de organização da nossa sociedade, se engajarem generosamente na luta para derrubar a ditadura e para construir uma democracia. A democracia para uns era o caminho da libertação, para outros da emancipação social, para outros ainda a possibilidade de uma simples melhoria de vida.

E eles foram à luta para mudar o Brasil. Foram eles que sustentaram a luta democrática, Foi este povo que deu a maior quota de energias e de sangue para a construção da nossa democracia. Foi este povo que sempre elegeu políticos de oposição, como Tancredo, Brizola, Montoro (contrariando as mídias) e que foram para as ruas do Brasil inteiro para derrubar a ditadura nas lutas pelas “diretas já”. E derrubaram. Venceram.

Na época da formação do PT, outras propostas políticas foram apresentadas a estes grupos , a estes movimentos, como a do PDT de Brizola e dos vários partidos comunistas. Mas estes movimentos preferiram abraçar a possibilidade de fundar uma organização política nova dentro da sociedade brasileira. O PT.

Foi quase natural que a maioria daqueles movimentos optassem por dar suporte à fundação do PT já que eles se consideravam movimentos novos, com um projeto novo para o país. Sobre este processo, naquela ocasião, fiz pesquisas que resultaram em um livro, “Evolução Política da Igreja e dos católicos no Brasil” [4], e também alguns artigos publicados em livros coletivos e revistas de ciências sociais brasileiras e estrangeiras.

Essa história bonita explica porque o PT é o único partido político de verdade existente no Brasil. Os outros não passam de confrarias de negócios e de poder. O PT é o único que possui núcleos locais em todo o país, estruturas políticas regionais e nacionais. Está presente nas metrópoles, nas cidades médias, naquelas pequenas e na zona rural. Possui correntes, debates de teses, realiza congressos, etc e tal. É o único que tem um aniversário para festejar. Aliás, tem a mesma idade da democracia no Brasil.

Foi a primeira vez na história brasileira em que os “de baixo” fundaram a sua organização política. Portanto, as campanhas políticas do PT sempre foram diferentes daquelas de outros partidos. Em primeiro lugar porque possui uma militância de convicção e em segundo lugar porque não dependem da arte imaginativa do publicitário contratado. Nas campanhas eleitorais, quando o PT propõe distribuição de renda, da propriedade, universalização do acesso à universidade, à escola, melhoria do SUS, etc. não é por sugestão do publicitário contratado para organizar a propaganda, como acontece nos outros partidos.

Estes pontos estão no programa porque são os sonhos, as necessidades deste povo pobre e batalhador, a quem, no frigir dos ovos, devemos a nossa democracia. Este povo não é corrupto, nem ladrão. Na verdade, eles é que trabalham para o enriquecimento da elite – como é em todas as sociedades capitalistas contemporâneas.

O próprio processo político brasileiro, desde a luta contra a ditadura, ensinou a este grupo social a criar um certo entendimento da política. Este povo sabe votar mesmo contrariando o que diz a mídia. A história confirma: Brizola foi eleito e reeleito no Rio, na cidade da TV Globo, mesmo com a TV proibida de pronunciar seu nome. Os governos de oposição e de esquerda, desde 82, foram eleitos em oposição às preferências, claras ou camufladas, da mídia. E também foi contrariando a grande mídia que o PT venceu as quatro últimas eleições presidenciais. .

Quando li sobre o entusiasmo da mídia pelo panelaço, fiquei pensando neste povo simples e pobre. Quantas vezes os vi face a face! Fiquei pensando no que eles poderiam estar pensando sobre tudo isso. Eu considero uma pena que o partido que conseguiram fundar receba esse tratamento quando se apresenta na TV, receba protestos do pessoal lá de cima, os mesmos que se calam quando falam os Bolsonaros, os pastores homofóbicos, os racistas, os que utilizam trabalho escravo em suas fazendas ou os ladrões de merenda escolar das crianças paulistas. Não vejo como alegrar-se com isto.

Sei que os grupos dirigentes de todas as organizações de todos os tipos, inclusive organizações políticas, em todos os lugares e em todas as épocas cometem erros.

A inflexão moral e ética do grupo dirigente do PT e os delitos cometidos em consequência disto sem dúvida provocarão efeitos profundos sobre o PT - seus quadros, seus militantes e seus eleitores. Os tempos são outros. Os membros dos movimentos sociais de antes envelheceram. Está ocorrendo uma mudança de geração em todos os movimentos sociais ainda existentes. Estes impactos poderão levar à extinção do partido ou a cisões, dando origem a outros partidos. Mas não se pode excluir, todavia, o surgimento no PT de um novo grupo dirigente, construído e organizado sobre pressupostos éticos rigorosos.

De qualquer forma, independentemente do que vier a ocorrer, é inegável o papel importante que o PT teve para a consolidação da democracia no Brasil. A existência de um partido popular forte é uma garantia para a democracia, não uma ameaça a ela.

***

Porém nenhum erro de dirigentes ou governantes, de qualquer orientação política, deve gerar ódio e intolerância contra as suas idéias, contra seu campo político. O pensar, mas sobretudo o sentir, democrático é fundado na tolerância com o diverso.

Sempre é bom lembrar-se daquela boa frase atribuída ao filosofo francês Voltaire (com controvérsias), mas que representa a essência do pensamento democrático sobre a liberdade de pensamento e de palavra: “Posso não concordar com uma só palavra sua, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-la”. Esta postura é o que define o campo democrático..

***

Ao contrário, está na moda uma intolerância contra o PT. Mais que intolerância, um verdadeiro ódio. Ao observá-lo me alinho a tantos, principalmente Leonardo Boff, e convido a sociedade brasileira a não deixar-se arrastar pela onda de raiva contra o PT, seus programas, idéias, seus poetas, seus músicos, seus membros, seus dirigentes, seus erros e acertos, etc. A intolerância, a raiva e a vontade de eliminar uma idéia, um campo político, abrem o caminho que leva ao fundamentalismo, ao nazismo, ao fascismo.

As teorias da psicanálise nos ensinam que a raiva, a fobia, a intolerância, a agressividade, etc., são sentimentos em geral relacionados ao medo, à sensação de inferioridade. Ora, não há porque ter medo do PT, nem do Lula. Eu teria mais medo do Bolsonaro ou do fundamentalismo evangélico do Cunha & Cia.

***

Por último, não posso omitir nestas meditações a minha surpresa pelo modo como a oposição, a mídia, e aqueles a quem a intolerância e o ódio já cegaram, se referem à presidente Dilma. A minha surpresa é porque muitos daqueles que a chamam de “anta” e outros adjetivos piores, sabem quem ela é.

Se não sabem, “é sempre bom lembrar”, já dizia há tempos Gilberto Gil. Dilma vem lá de longe, da luta revolucionária. Foi presa, torturada e se comportou com imensa dignidade. É sempre bom lembrar que a decisão de dar a vida para um futuro de justiça, democracia e soberania de seu país é a atitude suprema da cidadania. E ela teve esta atitude. Ela mostrou, aliás viveu, o tal “verás que um filho teu não foge a luta...e não teme quem te adora a própria morte”. Sem comentários adicionais. Só por isto já mereceria respeito, uma acolhida diferente de todos os brasileiros, não só da maioria deles que sufragaram seu nome em outubro de 2014. Mas ela é muito mais.

Foi sempre militante no campo da construção democrática. Enquanto tal – ela era do PDT, brizolista - mesmo não sendo gaúcha, integrou os primeiros governos de esquerda do Rio Grande do Sul, estado de gente culta, onde a participação política é ampla e sofisticada, tanto em formas quanto em conteúdos. Depois foi ministra das Minas e Energia do governo Lula, depois ministra da casa civil. Candidata do PT à presidência foi eleita pela maioria do povo brasileiro. Governou por quatro anos e foi reeleita em uma eleição direta e limpa.

Foi reeleita, com meu voto e o da maioria do povo brasileiro, vencendo no nordeste – onde estou – com quase 70% das preferências, vencendo no estado do Rio de Janeiro (onde vivo) e em Minas Gerais, o meu estado natal (aí vencendo o ex-governador local, um feito).

Pergunto-me sempre o porquê deste ódio que as oposições direcionam contra a Dilma. Ela é a presidente do Brasil. É presidente de todos os brasileiros, mesmo daqueles que votaram no Aécio ou em outros candidatos. O Aécio foi derrotado não por golpe, pressão da mídia, sacanagem ou qualquer outro motivo. Perdeu no voto.

A minoria derrotada em 2010 aceitou a presidência da Dilma. Porque esta mesma minoria não aceitou a sua reeleição? O povo tem o direito de eleger até candidato ruim - já foram tantos e nunca suscitaram tal raiva. Está faltando respeito à vontade política da maioria do povo brasileiro, está faltando respeito a dignidade do cargo que ela exerce, está faltando respeito às regras democráticas.

Observo com tristeza que alguns amigos e conhecidos estão engajados, com atos, torcida e outros modos, no movimento para derrubar o governo que elegemos. Percebo que existe esta vontade dos setores que não venceram as últimas eleições presidenciais. Derrubar este governo passou a ser objetivo principal, em detrimento dos interesses do país.

Observo ainda, de longe, esta unanimidade da mídia (das seis famílias que a controlam) para a derrubada do governo. Será que as os brasileiros se perguntam sobre esta unanimidade? Porque derrubar o governo que seu povo, em livre manifestação do voto direto, elegeu há pouco mais de um ano?

***
Pelo andar da carruagem, temo que conseguirão derrubar o governo. Não será fácil, mas poderão conseguir. E com certeza vai rolar uma grande festa. Festa televisiva, festa nas casas dos paneleiros e seus simpatizantes, que também se acotovelarão nas grandes varandas em suas roupas domingueiras. Se comemorará que, finalmente, as forças “democráticas” para “salvar a democracia” vão depor o governo que a maioria elegeu livremente.. O Brasil já viveu isto, em 1964. As consequências são conhecidas.

Mas o foguetório maior será quando o Cunha ou o Renan ou Temer receber a faixa da presidência. Certamente o mandato será como a vida pública deles, um “exemplo de pureza angelical, de honestidade, de probidade e de bons costumes”...Valerá a pena ter sacrificado a democracia por um governo Temer/ Cunha/Renan?

***

Estas meditações são para convidar a todas as pessoas a quem elas chegarem, e ao povo do meu país, a abandonar os caminhos que conduzem ao rompimento com a democracia, para abandonar os caminhos da intolerância política, do ódio contra qualquer partido político, do ódio contra ideias, do ódio por atores políticos adversários, sejam eles políticos, intelectuais, poetas, cineastas, escritores, etc.

É para convidar todos a defender as regras básicas da democracia – soberania popular expressa em eleições livres e convivência pacífica entre os diversos e uma rigorosa aplicação das leis. Para todos igualmente. O caminho da intolerância, do ódio, do linchamento, leva ao embrutecimento da alma, à ditadura e à degradação da vida social.

As oposições são legitimas e devem procurar vencer as próximas eleições. Quem sabe em 2018 as oposições ganham no voto? As esquerdas, antes de vencerem as quatro últimas eleições presidenciais, esperaram muito tempo. Muito mesmo. Ainda assim foram elas as forças que sempre defenderam a democracia. A oposição deve esperar a sua vez.

Vamos jogar água na pólvora. Vamos construir a paz, aplicar a lei igual para todos, vamos continuar o processo de democratização do Brasil, das suas estruturas sociais injustas e perversas, vamos valorizar nosso povo, nossa cultura, nossa tolerância e nossa alegria.

Notas:

[1] Estas reflexões foram escritas no dia 2 de março, como carta para um amigo. Hoje, dia 13, domingo, resolvi retirar do texto o caráter pessoal e difundir entre amigos. É meu modo de participar, de contra-manifestar, daqui da aldeia de Cumuruxatiba, no sul da Bahia, onde estou. Onde o Brasil começou. (Nota do autor)

[2] Guy Debord. “A Sociedade do Espetáculo”, Rio de Janeiro, Contraponto, 1992. (Nota do autor)

[3] Luiz Gonzaga de Souza Lima. “A Refundação do Brasil. Rumo à Sociedeade Biocentrada”, Ed. Rima, São Carlos-SP, 2011. (Nota do autor)

[4] Luiz Gonzaga de Souza Lima. Evolução Política da Igreja e dos católicos no Brasil”, Ed. Vozes, Petrópolis, 1979. (Nota do autor)

E-mail
Imprimir
PDF
15 Mar

Núncio do México promovido para os EUA?

Na quinta-feira passada, Sandro Magister informou que o Papa Francisco teria enviado o nome de Dom Christophe Pierre ao governo dos EUA para aprovação, antes de nomear o arcebispo como o próximo núncio apostólico para os Estados Unidos. Pierre é atualmente o núncio para o México.

A reportagem é de Michael Sean Winters, publicada por National Catholic Reporter, 11-03-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Nem todas as informações fornecidas por Magister acabam resultando verdadeiras, mas eu venho escutando o nome de Pierre com um novo núncio potencial há meses. O outro candidato mais discutido, Dom Celestino Migliore, atualmente núncio apostólico na Polônia, fazia bastante sentido, dados os seus dois últimos cargos nos EUA, como conselheiro da nunciatura apostólica americana na década de 1980 e, mais tarde, como núncio para as Nações Unidas em Nova York. Mas Migliore está organizando uma viagem papal à Polônia neste verão, e diante da oposição ao Papa Francisco expressa por alguns bispos poloneses durante o Sínodo do ano passado, fazer desta viagem um sucesso não é tarefa fácil e pode sobrecarregar os talentos de um núncio novo em folha.

Também o Vaticano não tem tempo para esperar. Dom Carlo Maria Vigano, o atual núncio apostólico, atingiu a idade obrigatória de aposentadoria em janeiro e o seu mantado foi, um pouco, controverso, em particular na decisão infame de convidar a senhorita Kim Davis para se encontrar com o papa durante a visita dele aos EUA em setembro passado. Dadas a atmosfera política incrível no país e a necessidade de preencher alguns cargos-chave na hierarquia, o Vaticano quer um homem renovado o quanto antes.

Mês passado, Pierre hospedou o Papa Francisco na visita que este fez ao México. Então tenho certeza de que eles tiveram tempo para discutir o novo cargo.

Independentemente de se a nomeação de Pierre vai, de fato, se confirmar, é válido tirarmos um momento para explicar por que um novo núncio apostólico é tão importante. Primeiro, o núncio, como todos os embaixadores, está encarregado de manter relações com o governo dos EUA. O Vaticano e o governo americano colaboram em uma série de questões ao redor do mundo, mesmo quando existem tensões entre a Igreja local e o governo.

Nos últimos sete anos, o Vaticano manteve uma relação de trabalho muito melhor com o governo americano do que com a Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos – USCCB (na sigla em inglês). O Vaticano desempenhou um papel-chave nas negociações que levaram à restauração das relações diplomáticas entre EUA e Cuba. No começo de sua carreira, Pierre teve um cargo em Havana. Assim, ele está bem familiarizado com este país e pode ajudar a diminuir qualquer solavanco que possa se desenvolver nesta nova relação.

Segundo, o Vaticano está com certeza preocupado a respeito da candidatura de Donald Trump. Os diplomatas vaticanos tendem a vir das mesmas famílias, a frequentar as mesmas escolas e ler as mesmas revistas e jornais, assim como as suas contrapartes seculares.

Não é nenhum segredo que os governos da Europa estão revoltados e assustados com a perspectiva de uma presidência com Trump no poder, e esses sentimentos são, sem dúvida, compartilhados pelo Vaticano. Porque a oposição aos imigrantes é uma parte central na ascensão política de Trump, e porque a preocupação com os imigrantes vem sendo um foco central da articulação da doutrina social católica sob a liderança do Papa Francisco, certamente ocorreu ao Vaticano que um arcebispo que passou os últimos nove anos no México pode ser singularmente valioso a esta altura. Além disso, a imigração não só é um dos temas que unem os bispos americanos, mas também os coloca em total sintonia com o Vaticano.

Além de se relacionar diretamente com o governo americano, um núncio apostólico é também encarregado de manter as relações entre a Igreja local e a Santa Sé. É claro que cada bispo tem certos direitos canônicos para apelar diretamente a Roma, e o presidente da USCCB faz uma viagem anual ao Vaticano para se reunir com as autoridades do topo da hierarquia. Existe a visita ad limina também. Grande parte dos trabalhos de rotina é conduzida ou pelo núncio.

Por exemplo, quando o povo da Arquidiocese de St. Paul, em Minnesota, precisou manifestar a sua frustração com o seu arcebispo anterior, a primeira pessoa a quem apelaram foi o núncio. Ele encaminhou petições e outras informações ao Vaticano, mas estava livre para comentar e modelar, com estes seus comentários, a reposta que o Vaticano daria. Desse modo, a remoção de Dom John Nienstedt foi, segundo me contaram, feita contra a vontade do núncio apostólico e teria sido realizada muito tempo atrás se o núncio tivesse visto a situação de forma diferente.

Em nenhum outro lugar a influência do núncio é mais óbvia – e mais duradoura – do que na escolha dos novos bispos. Quando uma diocese fica vacante, o núncio se torna encarregado de investigar as necessidades da diocese e então propor nomes de três candidatos que poderão atendê-las.

Esta lista de candidatos, chamada “terna”, é enviada à Congregação dos Bispos, que pode passá-la adiante ao papa como tal, pode mudar as qualificações dos três nomes na lista ou mesmo rejeitá-la e pedir uma nova. Diferentes núncios lidam com esta tarefa de maneiras diferentes, com níveis variados de atenção às reais necessidades de uma dada jurisdição. Na década de 1980, o arcebispo, e mais tarde cardeal, Pio Laghi, insistia numa análise em profundidade das necessidades de uma dada diocese e, então, saia em busca, como ele dizia, do santo certo para o nicho certo.

Laghi nem sempre acaba tendo os resultados que quer. Ele foi a Roma para se queixar de que muitas destas ternas estavam sendo rejeitadas ou alteradas. Dom Gabriel Montalvo, pessoa a quem conheci muito bem, era um homem adorável com uma propensão a remover Dom Raymond Burke da Arquidiocese de St. Louis. Mas, aso assim fazer, acabou se tornando um desastre, na medida em que Burke, hoje cardeal, mostrou-se ser uma pedra no sapato no lado do Papa Francisco.

E, sob o anual núncio, Vigano, houve uma série de nomeações importantes nos últimos anos do reinado de Bento XVI, quando os cardeais Burke e Justin Rigalil estavam na Congregação para os Bispos. Somente quando o Papa Francisco removeu Burke e Rigali desta Congregação, substituindo-os pelo Cardeal Donald Wuerl, cessou a nomeação de guerreiros culturais para dioceses importantes, de forma mais evidente no caso de Dom Blase Cupich à Arquidiocese de Chicago. Essa nomeação veio direto do papa, que sempre mantém os seus próprios métodos de coleta de informações sobre candidatos potenciais para dioceses de grande relevância.

Nem todas as dioceses são como Chicago, no entanto, e em muitas jurisdições eclesiásticas menores papa algum saberia os nomes dos candidatos. É por isso que o núncio, que produz a primeira lista de nomeações potenciais, é tão essencial.

Há cerca de um terço dos bispos americanos que apoiam decisivamente o Papa Francisco, e um terço que mantém reservas quanto à sua liderança, além de um terço de prelados que não têm certeza do que acham.

Certamente, a maneira e o conteúdo das palavras colocadas pelo papa ao Congresso americano foram diferentes daquela linguagem sobre política e cultura que ouvimos de alguns bispos americanos inseridos nas guerras culturais.

Se o papa quer uma Conferência Episcopal que o apoie, então ele precisa que o seu novo núncio nomeie cerca de 20 a 30 bispos que estão juntos com ele em seu programa. A mim, é revelador que, nos últimos anos, ao ler as listas das nomeações mostradas no sítio eletrônico do Vaticano, os novos bispos no México eram todos pastores. Se Pierre vier mesmo para Washington, então poderemos esperar que ele vá nomear pastores para liderar as dioceses dos EUA também.

Atualmente, existem duas grandes dioceses vacantes que precisam ser preenchidas. A Arquidiocese de St. Paul, em Minnesota, está sendo gerida magistralmente pelo administrador apostólico, Dom Bernie Hebda, porém Hebda deve assumir como prelado a Arquidiocese de Newark, em julho, o que significa que St. Paul deverá ter uma nomeação em breve. O mesmo acontece com o Rockville Center, em Nova York, que, embora não sendo uma arquidiocese e nem possua alguma significação histórica especial, é enorme: a Diocese de Rockville Center é a sexta maior do país. Além destas duas principais nomeações, a USCCB está prestes a ver dois de seus mais importantes bispos – Robert Lynch (de St. Petersburg, na Flórida) e Jerry Kicanas (de Tucson, no Arizona) – atingirem a idade de aposentaria obrigatória neste ou no próximo ano. E, além da necessidade de preencher dioceses particulares, há a necessidade de encontrar candidatos latinos para o episcopado. Foi um pouco chocante ver três bispos auxiliares nomeados em Los Angeles e todos eles eram irlandeses! A Igreja nos EUA está rapidamente tornando-se majoritariamente latina e nós precisamos desesperadamente cultivar sacerdotes latinos de destaque de forma que possam assumir papéis de responsabilidade e liderança nos próximos anos.

Em grande parte do mundo, os embaixadores não desempenham o papel fundamental que certa vez desempenharam na condução das relações exteriores. O uso de emails e as viagens aéreas permitiram que os legisladores nas capitais nacionais conduzam estas relações diretamente. Mas a Santa Mãe Igreja geralmente se encontra um pouco desatualizada na relação com os recentes desenvolvimentos. Os núncios apostólicos são importantes. Pierre parece idealmente a pessoa certa para suprir as necessidades da Igreja neste país. Se esta for, realmente, a escolha do papa, deveremos todos nós orar por em seu nome enquanto ele dá início a estas tarefas monumentais e consequentes.

E-mail
Imprimir
PDF
15 Mar

Três anos de um pontificado extraordinário. Mas… chegou a hora de o papa abordar temas candentes

Três anos. De certo modo, parece que o Papa Francisco vem comandando a Igreja de Roma há muito mais tempo.

Isso porque provavelmente ele conseguiu ter sucesso em provocar uma mudança importante de atitude entre inúmeros católicos neste período relativamente curto de tempo.

O comentário é de Robert Mickens, editor-chefe da revista Global Pulse e que desde 1986, vive em Roma, onde estudou teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana, antes de trabalhar na Rádio Vaticano por 11 anos e, em seguida, como correspondente da revista The Tablet de Londres, publicado por Global Pulse, 11-03-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correia.

De certa alguma forma, é difícil acreditar que, neste domingo (13-03-2014), o primeiro papa jesuíta e nascido no Novo Mundo estará celebrando apenas o seu terceiro aniversário de pontificado.

O papa marcará esta data de um jeito que não deve surpreender ninguém: ele o fará jantando com alguns dos desabrigados que frequentemente procuram comida e um lugar para descansar na região em torno do Vaticano.

O único papa a tomar o nome do santo pobre e querido de Assis está trabalhando pesado para mudar a mentalidade de seus companheiros católicos, encorajando-os – pela palavra e pelo exemplo – a se tornarem “uma Igreja pobre para os pobres”.

Ele também tem dado testemunho sobre o que significa ser uma Igreja humilde e misericordiosa, que caminha com a humanidade pecadora em um diálogo respeitoso, e como um viajante companheiro numa jornada incerta, em vez de uma Igreja centrada em pregar absolutos morais e admoestações – na maior parte sobre as chamadas “questões pélvicas” – desde uma distância segura de seus santuários higienizados.

Um pouco de ar fresco

Dentro da comunidade eclesial em si, o Papa Francisco restaurou o senso de “normalidade” sobre o que significa ser Igreja, principalmente pondo de lado as polêmicas polarizantes em torno do que constitui a interpretação correta do Concílio Vaticano II e abandonando tentativas inúteis de simular a vida e o culto católicos do período pré-Vaticano II.

Apesar da oposição feroz dentro da Cúria Romana – oposição ainda que dissimulada –, ele se pôs metodicamente a reformar a burocracia central da Igreja. Infelizmente, as mudanças foram poucas até agora, mas Francisco prometeu que, nesse objetivo, não irão dissuadi-lo.

E o mais importante: ele igualmente está lançando cuidadosamente as bases para aquilo que pode ser a mudança mais significativa na estrutura de governo da Igreja em mais de mil anos: a mudança de uma forma monárquica e centralizada de comando para um modelo sinodal e subsidiário mais próximo da prática da Igreja primitiva.

O pontífice de 79 anos, assim como João XXIII fez mais de meio século atrás, trouxe um ar fresco e uma grande esperança extremamente necessários às pessoas na Igreja e no mundo todo. E, por isso, ele ganhou com razão a admiração de católicos e não católicos.

Tudo isso é muito encorajador.

Porém…

Sim, sempre há um “porém”. E, nesse caso, ele é bem grave e bastante preocupante.
Todas as coisas boas que o Papa Francisco conseguiu até agora não só corre o risco de ser ofuscado, mas todo o seu pontificado pode ser significativamente posto em perigo caso ele não comece imediatamente a agir de forma mais decisiva em, pelo menos, duas questões que preocupam profundamente um segmento significativo de seu rebanho: a pedofilia e o papel das mulheres dentro da Igreja.

A sua negação – ou simplesmente a sua falta de interesse em – abordar seriamente estes dois temas causa perplexidade e é profundamente decepcionante para muitos católicos que, por outro lado, o acham um papa extraordinariamente inspirador. Ele vai perder o apoio destas pessoas e afastar inúmeras outras caso não comece a agir.

Abusos sexuais clericais e bispos errantes

É um fato simples e indiscutível que o Papa Francisco não priorizou, em seu pontificado, tratar os casos de abuso sexual dentro da Igreja Católica. Os poucos passos que ele deu – a criação de uma comissão consultiva para a proteção (tutela) dos menores de idade e um tribunal para responsabilizar os bispos por má-conduta no tratamento em casos dessa natureza – vieram após a insistência de outros, principalmente do Cardeal Sean O’Malley, arcebispo de Washington, membro do Conselho dos Cardeais.

Mas nenhum destes dois órgãos – a Comissão para a Tutela dos Menores e o tribunal eclesiástico – produziu resultados visíveis. A comissão composta por 17 membros, presidida por O’Malley, reuniu-se somente duas vezes desde que foi criada há dois anos. E ela já removeu (pelo menos temporariamente) um dos dois sobreviventes de abusos sexuais participantes da Comissão – Peter Saunders, britânico – por ser sendo demasiado crítico sobre a inação do papa e de um de seus assessores principais (o Cardeal George Pell), que supostamente teria acobertado casos de pedofilia e bullying décadas atrás na Austrália.

Incrivelmente, Francisco nunca participou de um encontro desta Comissão, apesar dos pedidos para que ele se fizesse presente. Ele nunca também se encontrou com os seus membros enquanto grupo. Na verdade, demorou mais de um ano depois de sua eleição até que viesse a se encontrar oficialmente com alguém que fora sexualmente abusado em sua juventude por um padre. O sr. Saunders esteve entre os seis sobreviventes que o papa viu nesse encontrou inicial em julho de 2014 em sua residência no Vaticano.

Desde então, Francisco se reuniu com sobreviventes de abusos sexuais clericais somente uma outra vez. Isso foi em setembro de 2015 durante a sua visita à Filadélfia. Um grupo de sobreviventes da Austrália que viajou para Roma poucas semanas atrás para presenciar o depoimento via videoconferência dado por Pell à Comissão Real [australiana] para Respostas Institucionais ao Abuso Sexual Infantil tentou ter um encontro com o papa. Mas o grupo não teve sucesso.

O padre jesuíta Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano, alegou que Francisco não recebeu o pedido para se encontrar com o grupo. Porém os australianos contestaram essa afirmação e mostraram uma cópia de um fax que haviam enviado à residência papal. Mesmo que os funcionários aqui – coordenados por Dom Georg Gänswein – não tivessem repassado o pedido para as autoridades competentes, é absolutamente impossível que o papa (ou, pelo menos, as pessoas próximas dele) de nada soubessem do desejo das vítimas australianas.

Quatro dias antes de o grupo voltar para a Austrália, a imprensa italiana informou o desejo deles de se encontrar com o papa. Não deveria sequer haver a necessidade de eles submeterem um pedido oficial. O Papa Francisco, famoso por seus telefonemas inesperados a pessoas simples e por ter a iniciativa de se encontrar com todos os tipos de pessoas possíveis, deveria ter estendido este seu convite para incluir os sobreviventes australianos.

Será que algum de seus assessores mais próximos o incentivou a agir assim? Se não, por que não houve um encontro entre ele e os sobreviventes? E o que feio feito do departamento jurídico especial “para julgar bispos em relação a crimes de abuso de poder quando conectado com o abuso de menores” que, em junho passado, seria criado dentro do tribunal da Congregação para a Doutrina da Fé – CDF?

Este setor não deu em nada.

Já se passaram nove meses desde que o anúncio foi feito e, no entanto, Francisco sequer nomeou o secretário ou alguém mais para supervisionar este novo departamento. Esse novo mecanismo do tribunal da CDF era para servir como prova de que o Vaticano estava sendo falando sério a respeito da responsabilização dos bispos em casos de má-conduta relativa a casos de abusos sexuais em suas jurisdições eclesiásticas.

Sem dúvida, houve uma forte oposição ao plano. E ele veio certamente também de dentro da própria congregação doutrinal. Afinal de contas, o seu prefeito, o Cardeal Gerhard Müller, fora denunciado repetidas vezes por fiéis em sua antiga diocese alemã de Regensburg por permitir que padres, sabidamente culpados de abuso sexual, permanecessem no ministério.

Mas a bem da justiça e de sua própria credibilidade, o Papa Francisco precisa superar esta oposição e este impasse. Caso contrário, os seus comentários concernentes à responsabilização dos bispos, coisa que ele fez no mês passado enquanto voltava da visita ao México, continuarão a soar como falsos.

“Um bispo que troca um sacerdote de paróquia quando se reconhece um caso de pedofilia, é um inconsciente, e o melhor que pode fazer é apresentar sua renúncia”, disse o papa. “Está claro?”, acrescentou ele, evidentemente para mostrar a sua seriedade.

Mas um papa pode também exigir uma tal renúncia. E se um bispo se recusa, ele pode trocá-lo. Isso não aconteceu, a menos que tenha sido feito secretamente, o que dificilmente é uma vitória para o princípio de transparência, que é o que está por detrás de tudo isso.

Cada vez mais, por causa de sua falta de ação, a muitas pessoas parece que, quando se trata da questão dos abusos sexuais infantis cometidos pelo clero, o Papa Francisco ainda não entendeu a mensagem.

A Igreja estará vazia sem elas

E provavelmente existem mais pessoas ainda que enxergam o papa argentino como, lamentavelmente, fora de contato com as problemáticas relacionadas às mulheres, especialmente a necessidade de criar mais áreas de participação para elas na vida e nos níveis de tomadas de decisão da Igreja.

Mesmo se deixarmos de lado a questão da ordenação feminina ao sacerdócio – ainda que ninguém na Igreja tenha um argumento teológico coerente e convincente a oferecer sobre o porquê elas não podem participar no presbitério –, existem tantas outras áreas onde se precisa desesperadamente da presença delas.

O problema acima mencionado dos casos de pedofilia é somente um exemplo. Se as mulheres estivessem envolvidas em forjar a resposta inicial da Igreja àquilo que agora estamos começando a entender se tratar de uma pandemia mundial em geral, provavelmente se teria lidado de forma diferente com as coisas e, provavelmente, ter-se-ia uma ação mais eficiente. Aqui estamos diante de uma área onde o “gênio feminino” e os “instintos maternais” singulares (que certos hierarcas gostam de apontar) teriam sido certamente úteis.

As mulheres ocupam cargos importantes na Igreja, na medida em que coordenam importante entidades prestadoras de serviços à comunidade, tais como escolas, hospitais e organizações de caridade. Alguns bispos possuem mulheres como secretárias executivas, chanceleres diocesanas, canonistas e professoras seminaristas.

Mas esta tal inclusão é deixada aos caprichos ou à engenhosidade de cada bispo.

Estruturalmente, as mulheres continuam sendo cidadãs de segunda classe na Igreja Católica. E qualquer menina de 10 anos de idade que (surpresa!) não tenha interesse algum na Igreja sabe disso: mesmo se a mãe dela ou sua avó, ainda tentando amar e permanecer nessa comunidade de fé, ache difícil reconhecer este fato.

O Papa Francisco tem a autoridade e o poder de mudar esta situação. E é melhor ele começar a fazer isso já.

Francisco vem sendo um papa inspirador, podendo contar com o apoio e a oração de tantos fiéis que querem – e precisam – desesperadamente que ele tenha sucesso em reformar e renovar a Igreja.

Mas se ele não encontrar um modo de fazer das mulheres cidadãs plenas nesta comunidade, dando-lhes uma voz igual em todas as áreas de tomada de decisão e serviço na Igreja, até mesmo aquelas (e aqueles) jovens que ainda se interessam no desenvolvimento espiritual e que nutrem o sentimento de pertença irão continuar a olhar para outros lugares.

O Ano Quatro do pontificado de Francisco, o Bispo de Roma, está começando. Chegou a hora de ele abordar estas questões candentes.

E-mail
Imprimir
PDF

Blog

Publicações

Mais Lidos

Enquete

Discute-se a proposta de eleições gerais (Presidência da República, Senado e Câmara dos Deputados) a serem realizadas já em outubro deste ano

 
 
 
 
 

 

Cadastre-se

Quero receber:


Refresh Captcha Repita o código acima:
 

Conecte-se com o IHU no Facebook

Siga-nos no Twitter

Escreva para o IHU

Adicione o IHU ao seus Favoritos e volte mais vezes

Conheça a página do ObservaSinos

Acompanhe o IHU no Medium