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25 Aug

A oposição ao Papa Francisco

“Não há dúvida de que o Papa Francisco encontra uma férrea oposição dentro da Igreja. Os fatos estão à vista”, analisa Marco Antonio Velásquez Uribe, em artigo publicado no sítio chileno Reflexión y Liberación, 19-08-2014. A tradução é de André Langer.

Mas, acredita ele, “não está longe o dia em que o Povo de Deus começa a substituir suas reverências por exigências de conversão dos seus pastores, porque nada alenta mais a viver a alegria do Evangelho do que o bom exemplo desses homens que são chamados a guiar os filhos e filhas da Igreja. Enquanto isso, esse mesmo Povo continuará apoiando fielmente o Papa Francisco com sua modesta e agradecida oração”.

Eis o artigo.

Não há dúvida de que o Papa Francisco encontra uma férrea oposição dentro da Igreja. Os fatos estão à vista. Enquanto alguns expressam de maneira cada vez mais aberta suas diferenças, outros o fazem sentir de maneira menos visível e explícita.

No começo, criticaram-no pela simplicidade das suas roupas, depois por sua liberdade litúrgica, mais tarde por sua crítica ao sistema econômico. Agora se incomodam com as visitas que faz aos seus amigos – ruim que tenha amigos, pior ainda se são judeus, muçulmanos ou pentecostais. Não gostam que ria, brinque, surpreenda, improvise, converse, telefone, em resumo, que aja humanamente.

Num plano mais reservado, o descontentamento vem acompanhado da deslealdade das fofocas, onde a indignação com o papa se espalha por sua crítica e denúncia sistemática da corrupção do clero. Não lhe perdoam que exponha publicamente suas fragilidades, embora com isso o Papa busque conter o processo de degradação experimentada pela nobre e necessária função sacerdotal.

Em um nível mais elevado, e de maneira mais orgânica, estrutura-se uma oposição dogmática contra o magistério do Papa Francisco. Silenciosamente, vai ganhando força uma corrente teológica que, sem pudor, vai corrigindo os desejos reformistas do papa.

De um lado estão aqueles que – amparados no poder de seu dinheiro, de seus privilégios e comodidades – agiram eficazmente para silenciar a Evangelii Gaudium. Surpreende que uma exortação pontifícia tão incisiva não seja suficientemente socializada em fóruns, seminários, jornadas ou homilias; mais ainda em tempos de globalização das comunicações.

Do outro lado estão aqueles que, convencidos de defender o bom Nome Deus, advertem publicamente contra qualquer gesto de abertura ou suposta lassidão moral que possa ser desencadeada pela misericórdia papal. Nesta categoria cabem os temas relativos à comunhão e confissão das pessoas separadas ou divorciadas recasadas, os temas da moral sexual, a ordenação dos viri probati e das mulheres, assim como as nomeações de bispos, entre outros.

A oposição ao papa se articula sob a mesma estrutura piramidal da Igreja e opera de forma diretamente proporcional ao poder eclesial. Onde há mais poder, há maior oposição. Consequente com isso, os núcleos de oposição estão situados na hierarquia, e mais precisamente, em não poucos bispos.

Aqueles que se aglutinam em torno da oposição ao papa são os bispos que compreenderam seu ministério episcopal sob uma concepção administrativa de exercício de poder eclesial. São aqueles que renunciaram a assumir a tarefa episcopal como um encargo evangélico orientado eminentemente ao serviço do Povo de Deus. São os bispos que se deixaram guiar por seus próprios medos e preconceitos, mais que pela guia confiável do Espírito Santo. São aqueles que não confiam em seu clero, nem em seus fiéis e que, consequentemente, dedicam grande parte do seu tempo para controlar, reprimir e punir. São aqueles que se deixam interpelar mais pelo Código de Direito Canônico do que pelo Evangelho. São aqueles que não assimilaram essa graça divina da misericórdia e que, portanto, “dizem uma coisa e fazem outra. Amarram pesados fardos e os colocam no ombro dos outros, mas eles mesmos não estão dispostos a movê-los, nem sequer com um dedo” (Mt 23,3b-4). São aqueles que, em definitiva, apagam o Espírito e aqueles que mergulharam a Igreja, de todos, numa crise de grandes proporções, havendo tanto bem para compartilhar e tanto sofrimento para conter.

Enquanto ontem a Igreja era estremecida por vergonhosos escândalos provocados por alguns de seus ministros, no presente aflora na consciência do Povo de Deus essa outra crise, que persiste através da história: a crise provocada pela tentação do exercício do poder na Igreja. Esta é a crise que afeta de maneira mais incisiva o serviço apostólico do Papa Francisco e que o leva insistentemente a pedir que o Povo de Deus o apóie com a oração.

O papa, como fiel filho de Santo Inácio de Loyola, com seu testemunho, atualiza essa Guerra do Reino descrita nos Exercícios Espirituais (EE). A cena de um campo de batalha onde se enfrentam a vida e a morte, o bem e o mal, e onde os homens se alistam para lutar sob uma das Duas Bandeiras, a de Jesus Cristo ou a de Satanás, é uma cena adequada para visualizar as tensões que afetam a Igreja e o papa (EE 135-149).

Tão forte é a tentação do poder que invade o ministério episcopal, que Santo Agostinho, como bispo bom de Hipona, quis prevenir os seus contemporâneos e os seus sucessores contra os perigos que encerra o exercício do episcopado, dizendo: “Desde que me foi imposta sobre os meus ombros essa carga, de tanta responsabilidade, preocupa-me a questão da honra que ela implica. O mais temível neste cargo é o perigo de nos comprazer mais em seu aspecto honorífico do que na utilidade que reporta à vossa salvação. Mas, se por um lado me assusta o que sou para vós, me consola o que sou convosco. Para vós, sou bispo, convosco sou cristão. O primeiro é nome de obrigação, o outro, de graça; o primeiro, de perigo, outro, de salvação” (Sermão 340).

Não está longe o dia em que o Povo de Deus começa a substituir suas reverências por exigências de conversão dos seus pastores, porque nada alenta mais a viver a alegria do Evangelho do que o bom exemplo desses homens que são chamados a guiar os filhos e filhas da Igreja. Enquanto isso, esse mesmo Povo continuará apoiando fielmente o Papa Francisco com sua modesta e agradecida oração.

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25 Aug

Francisco escreverá uma carta sobre Dom Bosco, revela reitor maior salesiano

O reitor maior dos salesianos, padre Ángel Fernández, afirmou que o Papa Francisco escreverá uma carta sobre Dom Bosco, neste ano especial que eles vivem em preparação ao bicentenário do nascimento de seu fundador.

A reportagem é de Abel Camasca e publicada no sítio ACI Prensa, 20-08-2014. A tradução é de André Langer.

No dia 16 de agosto de 2015 completam-se os 200 anos do nascimento de São João Bosco e um ano antes, nos 132 países onde se encontram os salesianos, iniciaram-se as celebrações preparativas.

Em declarações à ACI Prensa, o Pe. Fernández explicou em que consiste esta preparação e como os salesianos buscam dar respostas à problemática juvenil atual.

“Sem dúvida, será uma celebração com muitas celebrações de fé, momentos de pregação, de oração, de Eucaristia, de ação de graças. Uma série de encontros juvenis, de caráter formativo, lúdico-festivo, por meio de um congresso pedagógico nos diversos continentes”, explicou o reitor maior.

Entretanto, afirma que não quiseram que estas celebrações fossem de “exultação, nem de fogos de artifício”, mas que se traduzam e concretizem em “novas iniciativas a favor dos jovens” mais necessitados.

“E, sem dúvida, vai-se concretizar também, e é um novo apelo que fiz a toda a congregação, em novos desafios e atenções e prestações missionárias em tudo o que é a ‘missio ad gentes’, em todos os lugares do mundo onde estão as presenças salesianas”, manifestou.

Com respeito à problemática juvenil da violência, famílias disfuncionais, droga e sexo desenfreado, o Pe. Ángel considera que o “ser salesianos educadores e evangelizadores no mundo de hoje tem mais sentido que nunca porque esta realidade é inclusive mais cruenta, mais dolorosa... mais ainda que o que o próprio Dom Bosco pode viver”.

Isto significa estar do lado dos jovens “mais feridos, aqueles que são mais prejudicados” para ajudá-los a recuperar sua dignidade, ressaltou.

Ao ser perguntado sobre se havia tido comunicação com o Papa sobre as celebrações do bicentenário, contou que o primeiro contato que tiveram foi durante a audiência concedida pelo Santo Padre aos salesianos capitulares, no mês de março, durante seu Capítulo Geral XXVII.

Nesse sentido, adiantou como novidade que o Santo Padre escreverá uma carta sobre o fundador dos salesianos. “A Santa Sé nos comunicou que o Papa Francisco escreverá uma carta, ao longo deste ano do bicentenário, sobre Dom Bosco”, afirmou o Pe. Ángel.

Por outro lado, também mencionou que foi comunicado que o Papa visitará a casa onde nasceu Dom Bosco em Valdocco e a Basílica de Maria Auxiliadora, na sua passagem por Turim por ocasião da exposição do Santo Sudário. O que acontecerá, provavelmente, em maio de 2015, mas ainda sem data exata.

Mais adiante, convidou os membros da Família Salesiana para viver estas celebrações de preparação tomando “mais consciência de que Dom Bosco é um dom de Deus para toda a sua Igreja e um dom de Deus para o mundo”.

Por último, enviou uma mensagem aos jovens dizendo-lhes que “Deus os ama profundamente”. E que isto era um motivo mais que suficiente para que tomem sua vida em suas mãos e com grandes desafios.

“Não deixem que as dificuldades da vida tirem seus sonhos, tirem sua vontade de viver, os metam em zonas escuras. Não! temos muitos motivos para a esperança. E assim como disse quem hoje é São João Paulo II, meus queridos jovens não tenham medo. Primeiro, pelos valores que vocês têm e depois porque o Senhor sempre está com vocês”, animou o reitor maior dos salesianos.

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25 Aug

Obama, próximo da reação de Bush

Obama converteu a selvageria do “califado” em uma batalha inter-religiosa de deuses rivais: ‘o nosso’ (quer dizer, do Ocidente) contra o ‘deles’ (o deus muçulmano, claro). Isso foi o mais próximo que Obama chegou para competir com a reação de George W. Bush, em 11 de setembro, quando disse que ‘íamos para uma cruzada’”, escreve o jornalista Robert Fisk, em artigo publicado por Página/12, 22-08-2014. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

O “califado” tem alguns produtores teatrais bastante duros. Escrevem um roteiro sombrio e selvagem. Nosso trabalho agora é responder a cada linha e eles nos entendem o suficiente para saber exatamente o que vamos dizer. Assim que decapitaram James Foley e ameaçaram fazer o mesmo com um de seus colegas, o que fizemos? Predisse justamente há 24 horas: transformar o assassinato de Foley em mais uma razão para continuar bombardeando o “califado” do Estado Islâmico. E o que mais fizeram para nos provocar ou para interromper as férias de Barack Obama? Uma batalha em termos estritamente religiosos, que é exatamente o que queriam.

Sim, Obama – antes de voltar aos campos de golfe – informou ao mundo que “Deus não toleraria o que os jihadistas fizeram e o que fazem todos os dias”. Dessa forma, Obama converteu a selvageria do “califado” em uma batalha inter-religiosa de deuses rivais: “o nosso” (quer dizer, do Ocidente) contra o “deles” (o deus muçulmano, claro). Isso foi o mais próximo que Obama chegou para competir com a reação de George W. Bush, em 11 de setembro, quando disse que “íamos para uma cruzada”. Agora, claro, Obama não se referia ao deus muçulmano, nem aos deuses de Bush enviando milhares de guerreiros cristãos montados a cavalo às terras bíblicas do Oriente Médio. Na verdade, Bush enviou apenas guerreiros montados em tanques e helicópteros para essas terras. Não, Obama também anunciava que as vítimas do “califado” são “esmagadoramente muçulmanas” – ou seja, o “califado” não era inteiramente muçulmano -, ainda que seu entusiasmo em intervir, em inícios deste mês, não tenha sido causado por sua simpatia para com estes milhares de pobres muçulmanos, mas, sim, pela perseguição dos cristãos e yazidis. E, claro, pelo risco para as vítimas potenciais dos Estados Unidos - um fato que os homens de Abu Bakr al Baghdadi (califa do Estado Islâmico) entenderam muito bem -.

Por isso, mataram o pobre James Foley. Não porque era jornalista, mas, sim, porque era estadunidense, um dos que Obama prometia defender no Iraque. Independente se o mandatário se esqueceu dos reféns estadunidenses na Síria - a tentativa dos militares dos Estados Unidos em resgatá-los ao menos demonstrou que sabiam que Foley estava na Síria -. Contudo, por que o Estado Islâmico está na Síria? Para derrotar o regime de Bashar al Assad, claro, que é o que nós também estamos procurando fazer, ou não?

O que fez Obama pensar que podia dizer aos muçulmanos o que um “deus justo” faria ou deixaria de fazer? Um presidente que lamenta a guerra de Bush no Iraque, não percebe que milhões de muçulmanos no Iraque acreditam que “não apenas Deus” não teria tolerado a invasão estadunidense no Iraque, em 2003, como também as dezenas de milhares de iraquianos massacrados por causa das mentiras de Bush e Blair? Fiquei surpreso ao escutar Obama anunciar que “uma coisa em que todos estamos de acordo é que um grupo como o Estado Islâmico não tem lugar no século XXI”.

Por alguma razão, realmente pensamos que os muçulmanos do Oriente Médio necessitam de nós para que contemos a sua história, o que é bom e o que é ruim para eles. Para os muçulmanos que concordam que o assassinato de Foley é um crime repugnante contra a humanidade, seria insultante se um cristão dissesse que “só Deus” aprova ou desaprova. E os que apoiaram tal crime devem estar ainda mais convencidos de que os Estados Unidos eram um inimigo de todos os muçulmanos.

Em relação ao algoz britânico “John”, sou levado a pensar que pode ser que tenha vivido em Newscastle, porque tinha uma pitada de sotaque “geordie”. Mas, “John” poderia ter sido francês, russo ou espanhol. Não é que algo não estava bem em sua cabeça, mas, sim, que algum fenômeno afligiu muitos outros jovens, milhares, a fazer o mesmo. Como se explica, por exemplo, que um australiano, pelo que parece, permita seu filho posar para uma foto com a cabeça de um soldado sírio decapitado (um soldado a serviço, claro, do exército do regime de Assad, que todos juramos derrotar)?

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25 Aug

Um exército para fazer a paz. A geopolítica de Francisco

“Deter ao agressor injusto”. “Com as armas se for necessário”. São alguns dos apelos do Papa, que acreditam ser pacifista, para que sejam protegidas as populações agredidas pelo califado islâmico.

A reportagem é de Sandro Magister, publicada por Chiesa.it, 22-08-2014. A tradução é do Cepat.

Fonte: http://goo.gl/GeYo5h

Coloca, em primeiro lugar, a oração. Mas não desdenha as artes da diplomacia e nem tão pouco hesita em convocar os exércitos.

A geopolítica do Papa Francisco opera nestes três ambitos, dos quais o terceiro é o mais surpreendente. É exatamente o oposto do pacifismo absoluto que parecia caracterizar o início deste pontificado.

Efetivamente, há um ano, a jornada de oração e jejum contra a intervenção militar do Ocidente na Síria, com o rosário recitado na Praça de São Pedro, foi o ato com o qual Francisco pareceu anunciar ao mundo como ele, o Papa, tinha intenções de se mover, desde aquele momento, adiante no que se refere aos teatros de guerra. Com as mãos desnudas, desarmadas, lançadas ao céu.

E o mundo, por um instante, pareceu obedecer-lhe, com quase a totalidade dos governos contrários ao ataque, incluídas a opinião pública dos Estados Unidos e da França, os únicos dois Estados tentados pela intervenção, e incluídos os beligerantes da Síria, onde a guerra ainda não acabou, mas ao contrário, se tornou mais cruel.

Meses depois, Francisco recorreu novamente à oração pela paz entre Israel e os árabes. Conseguiu que dois presidentes inimigos, Peres e Abu Mazen, invocassem a Deus junto com ele, no Vaticano. Desta vez com efeitos menos ilusórios e o rápido precipitar-se para uma nova guerra.

Com um crescente ceticismo, as chancelarias cobram de Francisco o fato de preferir a via de fuga da oração ao invés da dura confrontação com a realidade.

Contudo isso não é assim, porque Francisco, desde o início, tem unido a oração com a paciência e a astucia da Realpolitik.

Demitido o inepto cardeal Tarcisio Bertone, ele colocou à frente da Secretaria de Estado um diplomata de carreira, o cardeal Pietro Parolin, cujos conselhos ele ouve diligentemente.

O Papa Francisco sempre evitou opor-se publicamente a um ou outro adversário no campo, principalmente se forem mulçumanos, também às custas de calar sua solidariedade com as vítimas cristãs perseguidas por sua fé, como nos casos da paquistanesa Asia Bibi ou a sudanesa Meriam, passando pelas estudantes nigerianas sequestrads por Boko Haram.

A diplomacia de Francisco também suporta em silêncio as bofetadas, na esperança de futuros exitosos. Em relação à chegada do Papa na Coréia do Sul, no último dia 14 de agosto, a Coréia do Norte zombou disparando três mísseis de demonstração e cancelando o envio de suas delegações.

Quanto à China, o Vaticano tem como crédito o fato de que Pequim permitiu, pela primeira vez, que um Papa sobrevoasse seu território, com o correspondente envio de mensagens de cortesia.

Entretanto a indiferença é majoritária. As autoridades de Pequim permitiram que apenas alguns poucos católicos fossem a Coréia saudar Francisco. Obrigaram que os sacerdotes chineses residentes neste país voltassem. Porém, e principalmente, não deram nenhum sinal de afrouxamento da repressão contra o catolicismo na China, onde o número um da hierarquia em comunhão com Roma, o bispo de Shanghai Thaddeus Ma Daqin, está em prisão domiciliar desde sua nomeação e muitos outros bispos e sacerdotes estão presos ou desaparecidos.

Ao combativo cardeal de Hon Kong, Joseph Zen Ze-kiun, as autoridades vaticanas lhe impuseram o silêncio para que “deixasse a diplomacia trabalhar”. Desde que Francisco é Papa a comissão pró-China criada por Bento XVI em 2007, da qual Zen é homem guia, não voltou a ser convocada. Este envia com regularidade ao Papa cartas de informação e disse desconsolado: “Espero ele que as leia”.  

Há, contudo, um nível de tolerância que vai além do que o próprio Papa Francisco admite como uso da força. E é o que ocorre com o recém-criado califado islâmico no Iraque e na Síria.

Quando em 08 de junho houve o caso de Mosul, as autoridades vaticanas reagiram com extrema cautela. Entretanto depois de que, nos primeiro dias de agosto, a província de Nínive caiu nas mãos do califado, o que para os cristãos e as outras minorias religiosas significou o desastre, com milhares de assassinatos por puro ódio de fé, os pedidos de ajuda surgiram com tal força dessas terras que um representante oficial da diplomacia vaticana, o observador permanente frente as Nações Unidos em Genebra, Silvano Tomasi, quebrou o silêncio e invocou várias vezes uma intervenção da comunidade internacional “para desarmar o agressor”.

O último ocorrido de uma situação como esta remete ao ano de 1992, quando João Paulo II solicitou uma “intervenção humanitária” armada para deter os massacres na antiga Iugoslávia. Em 2005 a Assembleia Geral da ONU aprovou o início da “responsabilidade de proteger” com armas as populações em risco de assassinato em massa e, em 2008, Bento XVI defendeu o valor deste princípio em um discurso nesta mesma Assembleia, no Palácio de Cristal em Nova York.

O Papa Francisco não se expôs pessoalmente de maneira imediata neste terreno.

Desejou que primeiro se expressassem os bispos iraquianos, unânimes ao invocar uma intervenção militar massiva.

Ele permitiu que o Pontifício Conselho para o diálogo inter-religioso, presidido pelo cardeal Jean-Louis Tauran, publicasse um tremendo e minucioso ato de acusação contra o califado islâmico, exigindo do mundo mulçumano uma clareza semelhante de julgamento.

Enviou ao Iraque como seu “alter ego” o cardeal Fernando Filoni, anteriormente núncio nesse martirizado país.

E por último o próprio Francisco, em uma carta ao secretário geral da ONU Ban Ki-Moon, datada de 13 de agosto, pediu a comunidade internacional que “faça tudo o que for possível para deter e prevenir mais violências sistemáticas contra as minorias étnicas e religiosas”.

De volta a Coréia disse inclusive que está disposto a ir também ao Iraque, em plena “terceira guerra mundial” que se combate aqui e ali, com “níveis de crueldade que dão horror”, porque “deter ao agressor injusto” não é apenas lícito, mas um dever.

Em resumo: um exército para fazer a paz. Mas a esta convocatória papal a resposta dos governos e da ONU tem sido até agora fraca e, inclusive, surda.

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25 Aug

Capitalismo verde versus meio ambiente

“A lógica da competitividade e a propriedade privada dos meios de produção são fatores chaves que impossibilitam o desenvolvimento de um capitalismo que seja sustentável ambientalmente”, é o que destaca Guillem Boix ambientalista militante do “En lucha” em artigo publicado por Rebelión, 21-08-2014. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

As conclusões do último relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climas (o IPCC na sigla em inglês), órgão da ONU, asseguram que a mudança climática já está aqui. Conclui que somente um cenário agressivo de diminuição das emissões de GEE (Gases de Efeito Estufa) poderia limitar o aumento da temperatura em 2ºC a nível planetário. Os fracassos das cúpulas do clima celebrados nos últimos anos e que não conseguiram chegar a nenhum tipo de acordo vinculativo sobre a redução de GEEs são uma amostra da incapacidade do capitalismo global para enfrentar uma crise ecológica fruto do próprio desenvolvimento do capitalismo.

Os defensores do capitalismo verde argumentam que de fato muitas das medidas que devem ser empreendidas para um desenvolvimento sustentável não custam dinheiro, ao contrário, poupam. Por exemplo, se uma cadeia de supermercados melhora seu sistema de transporte de mercadorias, ela pode diminuir as emissões de GEE ao mesmo tempo em que consegue poupar dinheiro.

Contudo, o problema não é se isto é ou não possível, mas o que se faz com os materiais e energias poupados.  A empresa de supermercados fará uma doação a um governo ou a uma entidade ecologista para impulsionar melhoras ao meio ambiente? Ou preferirá investir em abrir novos supermercados (aumentando assim o gasto de materiais e resíduos)? A lógica da competitividade e a propriedade privada dos meios de produção são fatores chaves que impossibilitam o desenvolvimento de um capitalismo que seja sustentável ambientalmente.

Em vez de tentar pensar em medidas impossíveis de serem aplicadas para fazer um capitalismo verde, o que faz falta é que pensemos em como podemos recuperar o controle da relação entre a humanidade e a natureza sobre a qual se sustenta uma relação que hoje está sequestrada pelos conselhos de administração das grandes empresas, que decidem o que fazer com a riqueza que geramos coletivamente. Trata-se de pensar um desenvolvimento que deve se embasar no reconhecimento dos limites naturais do crescimento, atendendo aos ritmos de recuperação dos ecossistemas dos quais depende a economia e toda a humanidade. E para fazer isto necessitamos de uma econômica global planificada de forma democrática que responda aos interesses da maioria.

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