Entrevista do Dia

O modelo neoextrativista e o paradoxo latino-americano. Entrevista especial com Bruno Milanez


O modelo neoextrativista e o paradoxo latino-americano. Entrevista especial com Bruno Milanez


“A proposta do novo código mineral não é uma ‘novidade’ brasileira; (...)

Leia mais

Notícias do Dia

“Único condenado pelos protestos de 2013 é morador de rua”
"A maior prova de que caminhamos para o fascismo é a linguagem dos fascistas, conscientes ou não. Eles exultam com a prisão de pessoas inocentes e se refestelam com o falso discurso contra ricos, classe média e tudo o mais". O (...)

Morto em 1876, filósofo russo é citado como suspeito em inquérito no Rio de Janeiro
Segundo reportagem da Folha de S. Paulo, Mikhail Bakunin, considerado um dos fundadores do anarquismo, foi classificado como um “potencial suspeito” pela polícia carioca, que investiga manifestantes e ativistas. A reportagem é (...)

Banner
30 May

PAC do Saneamento: 54% das obras estão atrasadas ou paradas

Centenas de canteiros de obras foram espalhados pelo país para melhorar o saneamento básico brasileiro. Mas, dos 219 empreendimentos aprovados pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) 1 e 2, 47 foram concluídos, 43 estão dentro do cronograma do governo, e outros 119 (54,3%) estão em situação inadequada — atrasadas, paralisadas, em fase de contratação ou até mesmo não iniciadas. Os dados são do monitoramento “De Olho no PAC”, feito pelo Instituto Trata Brasil, que analisa somente as obras de saneamento realizadas em cidades com mais de 500 mil habitantes. Desde 2009 o instituto monitora as obras de esgotos pelo país e, neste último balanço, passou a verificar as obras de água.

A reportagem é de Cibelle Brito, publicada pelo jornal O Globo, 29-05-14.

Com valores que totalizam R$ 10,3 bilhões de investimentos, advindos do Orçamento Geral da União (33,7%), Caixa Econômica Federal (50,2%) e BNDES (16,1%), os empreendimentos contemplam todas as regiões brasileiras, mas estão, em sua maioria, nas regiões Sudeste (85) e Nordeste (77). Segundo a organização, na média entre projetos aprovados pelo PAC 1 e 2, as obras de esgoto estão com 43% de sua execução, e as de água, com 48%. Analisando somente os índices do PAC 2, a porcentagem cai para 12% de execução em esgoto e 3%, em águas.

Para o presidente do Trata Brasil, Édison Carlos, os atrasos no PAC são comuns, mas, no caso de saneamento, o efeito é mais grave por apontar demandas antigas da população.

— Estamos tratando de um problema que necessita solução desde o século XIX. Estamos falando de esgoto, água potável, tratável e retornável. É por isso que frisamos que essas obras, dentro dos governos federal, estaduais e municipais, deveriam ter um foco maior.

As razões dos atrasos e paralisações em cada programa são diferentes. Para o especialista, enquanto o PAC 1 enfrentou atrasos pela má qualidade dos projetos apresentados, o PAC 2 enfrenta a burocracia dos recursos chegarem às obras.

Por nota, o Ministério das Cidades afirma que trabalha com os dados de sua própria equipe e que eles apontam uma evolução de 60,2% nos empreendimentos de esgoto e 63,8% nos de abastecimento de água. Sobre os contratos do PAC 2, o ministério diz que 50% da carteira de investimentos foram selecionados no final de 2013 e que, por isso, não houve tempo para o início de parte das obras.

O ministério aponta “múltiplas questões” para os atrasos, sendo o mais grave o nível dos projetos de engenharia contratados pelos executores das obras. Como punição, o ministério diz restringir o acesso a novos recursos a estados e municípios com baixo desempenho na execução de obras, e estabelecer prazos limites de até dois anos.

Em 4 capitais, metade dos habitantes não têm esgoto

Para os especialistas do Trata Brasil, as situações mais críticas estão em quatro capitais: João Pessoa (PB), Natal (RN), Belém (PA) e Fortaleza (CE). O motivo é que nenhuma delas possui 50% da coleta de esgoto. O caso mais grave ocorre em Belém, onde a abrangência não chega a 10% do município. Das três obras aprovadas na capital paraense, a mais “avançada” é a ampliação do sistema de esgotamento sanitário nos bairros de Marambaia e Guanabara, com 6,4% de conclusão. Os outros dois empreendimentos, também de sistema de esgoto, não chegam a 3%.

— Em casos onde 60% das ações foram concluídas, calculamos pelo menos dois anos para conclusão; e em outras com atrasos maiores ou paralisadas, o tempo de execução pode chegar a quatro anos — conta Édison Carlos.

O Trata Brasil aponta também que, em muitos casos, as prefeituras e empresas responsáveis pelas obras não fornecem os dados sobre o andamento dos empreendimentos, dificultando a identificação dos problemas.

— No estado do Rio, por exemplo, nunca tivemos o retorno do governo do Estado, prefeituras e Cedae.

A Cedae afirma que só informa os dados para os órgãos oficiais e que os prazos são acordados diretamente com a Caixa Econômica Federal, responsável pela liberação dos recursos.

O Ministério das Cidades afirma, por nota, que trabalha com os dados de sua própria equipe técnica, que apontam uma evolução de 60,2%,nos empreendimentos de esgoto e 63,8% no abastecimento de água. Sobre os contratos do PAC 2, o ministério diz que 50% da carteira de investimentos foram selecionados no final de 2013 e, por isso, não houve tempo para o início de parte das obras.

O ministério aponta ‘múltiplas questões’ para os atrasos, sendo o mais grave o nível dos projetos de engenharia contratados pelos executores das obras. “A elaboração de projetos não tem conseguido cumprir o calendário de desenvolvimento das iniciativas contratadas e problemas de qualidade têm sido frequentemente detectados”, diz o texto.

Como punição, o ministério diz restringir o acesso a novos recursos aos estados e municípios com baixo desempenho na execução de obras, e estabelecer prazos limites de até dois anos, sujeito a perda de recursos. Em obras paralisadas, a não retomada em até um ano implica na redução de metas até cancelamento do contrato.

Nas capitais com baixos índices de saneamento básico, a iniciativa adotava foi conceder apoio técnico e financeiro para auxilar na elaboração de projetos de engenharia. Segundo o órgão, o estado do Pará possui uma carteira de 22 projetos de engenharia em desenvolvimento, com investimentos que somam R$ 51,8 milhões, dos quais R$ 23,7 são investidos na capital.

E-mail
Imprimir
PDF
30 May

Em defesa do compartilhamento público de dados científicos

"A criação do banco de dados NeuroMat abre uma oportunidade para que cientistas tenham acesso não somente a um universo de dados bem documentados e etiquetados, mas também ao processo que gerou essa ferramenta de trabalho compartilhada", escreve Claudia Domingues Vargas, professora associada do Programa de Neurobiologia do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho e chefe do Laboratório de Neurociências e Reabilitação (LabNeR) do Instituto de Neurologia Deolindo Couto, e Fabio Koné, professor titular em Ciência da Computação e vice-diretor do Centro de Competência em Software Livre (CCSL) do IME-USP, em artigo publicado pelo jornal Le Monde Diplomatique Brasil e reproduzido pelo portal Envolverde, 29-05-2014.

Eis o artigo.

O movimento da ciência aberta preconiza que as ferramentas e os dados utilizados pelos cientistas sejam disponibilizados publicamente para ampliar seus benefícios a toda a sociedade. Embora haja inegáveis avanços nos últimos anos, ainda há forças que resistem a essa ideia

A ideia de que o conhecimento deveria estar ao alcance de todos aqueles que quisessem apreciá-lo é uma questão recorrente na história da humanidade. Ela está presente desde os filósofos gregos da Antiguidade até os cientistas da Renascença, dos trovadores medievais aos grandes compositores eruditos do século XIX. Ao mesmo tempo, mecanismos de controle do conhecimento, proteção da informação e até criptografia existem há algumas centenas de anos. No século XX, houve um movimento na direção de restringir o acesso ao conhecimento como forma de gerar receita financeira ou vantagem comercial. Desse modo, apenas quem pagasse pelo direito de executar uma peça musical receberia autorização para sentar-se ao piano em um concerto público e somente quem pagasse pelo acesso a um artigo científico teria direito de lê-lo. Uma parte significativa dos avanços científicos do século foi motivada por fins militares, cuja prática de esconder as descobertas do inimigo é compreensível. No entanto, o que podemos observar a longo prazo é que, de maneira geral, quando há um nível maior de compartilhamento de ideias e abertura do conhecimento, o avanço da ciência é mais rápido e as sociedades tornam-se mais avançadas, ricas e democráticas.

Nos últimos anos, boa parte da comunidade científica internacional, com apoio de órgãos de fomento governamentais tais como a Fundação da Ciência Nacional (NSF) dos Estados Unidos, a Comissão Europeia e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), no caso do Brasil, tem defendido o que se conhece como “ciência aberta”. Esse novo modelo de compartilhamento da informação científica está baseado em três fundamentos. Primeiro, os resultados científicos devem ser divulgados em veículos de “acesso aberto”, para que qualquer cientista ou cidadão tenha fácil acesso a essas descobertas, independentemente de sua origem ou situação financeira. Segundo, as ferramentas utilizadas no processo científico devem também ser compartilhadas abertamente; como boa parte da ciência hoje em dia depende de ferramentas computacionais, isso indica que elas devem ser disponibilizadas comosoftware livre. Finalmente, os dados utilizados nas pesquisas devem ser compartilhados como “dados abertos”: não só os dados brutos e processados devem ser disponibilizados abertamente, mas também descrições do formato e significado desses dados (chamados metadados) devem ser distribuídas publicamente. Quando essas informações são coletadas em seres humanos, especial atenção é necessária para que a distribuição seja feita de forma criteriosa, respeitando a privacidade e o anonimato dos envolvidos. Um dos pilares da ciência experimental é sua reprodutibilidade. E a ciência só se torna reprodutível se os dados e ferramentas utilizados nos experimentos, simulações e análises forem também disponibilizados de forma aberta e livre.

A ideia de ciência aberta tem avançado em diferentes velocidades em distintos ramos. Em áreas como Ciência da Computação, Genética e Química, por exemplo, esses conceitos têm sido muito bem recebidos. Na Neurociência, o compartilhamento não é a praxe. Tanto a coleta como o armazenamento de dados ainda se fazem, de modo geral, de maneira artesanal. Há grande variabilidade nos tipos de dado que se coletam. Bancos de dados nessa área do conhecimento deverão contemplar desde informações sobre a forma e o comportamento de neurônios individuais, passando por medidas de funcionamento cerebral, até medidas comportamentais. Essa grande quantidade e variedade de informações requer um tipo de banco de dados desenhado especialmente para tal. Além disso, há, ainda hoje, grande desinformação na comunidade sobre mecanismos públicos de compartilhamento de dados.

O caso da Neurociência

A construção, manutenção e curadoria de bancos de dados públicos são consideradas fundamentais por muitos membros da comunidade neurocientífica para que se possa avançar mais efetivamente na compreensão do funcionamento e no tratamento de patologias do cérebro. O novo paradigma de compartilhamento de dados surgiu de maneira mais sistemática na literatura neurocientífica a partir da década de 1990. Data também dessa época a primeira grande iniciativa de compartilhamento de dados coletados a partir de medidas de ressonância magnética funcional, o Consórcio Internacional de Mapeamento do Cérebro. Esse trabalho foi financiado pelas agências de fomento governamentais norte-americanas NSF e Institutos Nacionais de Saúde (NIH). O novo modelo acompanhava o aumento substancial da capacidade de geração de dados experimentais nas Neurociências e as novas possibilidades computacionais e de compartilhamento público de informações, decorrentes do grande avanço ocorrido nas últimas décadas em tecnologia da informação.

Apesar dos grandes avanços na concepção e introdução de bancos de dados públicos, seu compartilhamento não era então um consenso entre os neurocientistas. Em 2000, a Revista de Neurociência Cognitiva, publicada nos Estados Unidos, determinou que os artigos aceitos para publicação deveriam compartilhar seus dados brutos em bancos de dados públicos. Essa política de compartilhamento estimulou postura semelhante em outras publicações de grande circulação. Entretanto, por pressão da comunidade de neurocientistas, essa proposta de compartilhamento público foi revogada. Felizmente, esse primeiro conjunto de iniciativas prenunciava uma nova era e, desde então, várias iniciativas de compartilhamento de dados têm sido colocadas em prática, seja no formato de consórcios, como no caso da Rede de Pesquisa do Cérebro e Neurociência Integrada (BrainNet), seja em projetos públicos, como Análise de Código, Repositório e Modelagem para a Neurociência Eletrônica (Carmen) e Ontologias Eletromagnéticas Neurais (Nemo). Um exemplo interessante de compartilhamento público de dados clínicos é o banco de dados de pacientes com Parkinson, coordenado pela Fundação Michael Fox sobre a Doença de Parkinson. Essa bela iniciativa ilustra o fato de que cada vez mais se reconhece a necessidade de bancos de dados públicos para que se possa avançar na identificação de marcadores precoces de patologias do cérebro.

Em todos os exemplos citados, é necessário realizar um cadastro no site que abriga o banco de dados e assinar um termo de responsabilidade quanto à privacidade dos indivíduos cujos dados se encontram disponibilizados. A quebra do compromisso firmado no ato do cadastro pode ter consequências legais. Solicita-se também frequentemente que a origem dos dados e os artigos nos quais eles foram publicados sejam citados na nova publicação. Em alguns consórcios, o artigo deve ser submetido ao comitê científico que gerencia o banco de dados. Em certos casos, o pesquisador tem a opção de depositar os dados no banco sem disponibilizá-los publicamente, decidindo o melhor momento para o compartilhamento.

Stephen Koslow está entre os defensores mais ferrenhos do compartilhamento público de dados. Então diretor da Divisão de Neurociências do Instituto Nacional de Saúde Mental (NIMH) e um dos fundadores do consórcio BrainNet, Koslow publicou em 2000 um manifesto na revista Nature Neuroscience, de grande circulação e alto impacto na comunidade de neurocientistas, defendendo a necessidade de uma mentalidade voltada ao compartilhamento público de dados e ferramentas.

Entre as reações negativas mais comuns à ideia dos bancos de dados públicos, Koslow destacou os argumentos de que os dados brutos são muito complexos para serem compreendidos por outros neurocientistas e que a análise dos dados realizada por outra pessoa poderia levar a resultados diferentes dos originais. Outros argumentos contra o compartilhamento são, por exemplo, a resistência em tornar públicos dados muitas vezes duramente coletados, ou ainda a ausência de mecanismos legais de proteção no caso de fraude ou uso indevido das informações. Além disso, há críticas quanto a alguns dos modelos vigentes de compartilhamento de dados, nos quais, talvez por falta de uma curadoria, tanto a origem como a qualidade do dado disponibilizado são questionáveis.

Contrapondo-se a essas premissas, Koslow argumentou que é desejável e necessário que os dados sejam corretamente comentados e etiquetados, para que sejam compreendidos e utilizados por outros pesquisadores. Além disso, ele argumenta que a publicação dos resultados na forma de artigos científicos pressupõe que os dados já estejam prontos para ser compartilhados e que perspectivas complementares produzidas por novas análises dos dados poderão ajudar a comunidade a compreender melhor o fenômeno em questão.

Assim, Koslow concluiu que os benefícios científicos do compartilhamento dos dados superavam os argumentos contra o compartilhamento e levantou algumas estratégias para que essa prática possa ser adotada mais amplamente na comunidade científica. Por exemplo, a já citada política de compartilhamento de dados adotada no passado por algumas revistas de grande circulação poderia estimular os pesquisadores a compartilhar seus dados.

O apoio financeiro adicional para a construção de bancos de dados em projetos financiados com recursos públicos e a valorização acadêmica do investimento em tempo e recursos alocados na construção dos bancos de dados também são mecanismos de mudança cultural propostos pelo autor. Essas estratégias poderiam levar a um ambiente em que os dados seriam organizados de modo a serem compartilhados durante o próprio processo de aquisição, não apenas no final desse processo. Críticos poderiam objetar que isso levaria a um custo operacional. Para enfrentar essa dificuldade, faz-se necessário o desenvolvimento de tecnologias de baixo custo para compartilhamento, manutenção e curadoria dos dados.

O banco de dados NeuroMat

Participamos atualmente no Brasil do desenvolvimento de um banco de dados que permitirá o acesso público a dados de Neurociências (medidas fisiológicas e avaliações funcionais). Trata-se de um trabalho pioneiro desenvolvido pelo Centro de Pesquisa, Inovação e Disseminação em Neuromatemática (Cepid-NeuroMat), coordenado por Antonio Galves e financiado pela Fapesp. O projeto, que envolve principalmente pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade de São Paulo (USP), pretende construir um repositório público que permita progressos na compreensão do funcionamento cerebral, assim como no tratamento de doenças neurológicas.

Entre as linhas de pesquisa cujos dados serão hospedados no banco de dados NeuroMat está o projeto de reorganização cortical após lesão e reconstrução do plexo braquial, o conjunto de nervos que conecta o braço ao cérebro, em andamento hoje no Instituto de Neurologia Deolindo Couto (INDC) da UFRJ. A fim de albergar esse e outros projetos com perfil básico-clínico no âmbito do banco de dados do NeuroMat, a equipe desenhou um protótipo que permitirá registrar e armazenar a história clínica pregressa dos pacientes, documentar as lesões e registrar a evolução clínica destes por meio de avaliações fisioterapêuticas e neurofisiológicas longitudinais. Esse trabalho detalhado de construção e digitalização das avaliações vem sendo realizado por uma equipe multidisciplinar composta por médicos, fisioterapeutas e neurocientistas, além da equipe de cientistas da computação do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP. O resultado dessa iniciativa do Cepid-NeuroMat será a criação de uma base comum para o diagnóstico, a avaliação clínica e o prognóstico funcional de pacientes com lesão de plexo braquial. O modelo de banco de dados adotado pelo NeuroMat permitirá ainda colocar em um “terreno comum” as avaliações clínicas e todos os dados eletrofisiológicos coletados nos pacientes, possibilitando uma grande flexibilidade na consulta e análise dos dados. Estamos agora trabalhando no desenvolvimento de um protótipo eletrônico para a armazenagem, a manipulação e o compartilhamento dos dados, e esperamos em breve disponibilizá-lo para uso público. Quando tornada pública, essa base de dados poderá servir como um modelo para avaliação de outros pacientes com lesões semelhantes em nível mundial.

A criação do banco de dados NeuroMat abre uma oportunidade para que cientistas tenham acesso não somente a um universo de dados bem documentados e etiquetados, mas também ao processo que gerou essa ferramenta de trabalho compartilhada. Além disso, a disponibilização pública dos programas de análise que geraram os resultados cria um círculo virtuoso na medida em que permite a verificação pública de sua qualidade e veracidade. Dessa maneira abre-se uma janela de oportunidade para o avanço rápido do conhecimento nessa área. Esperamos contribuir para que haja mais compartilhamento de dados abertos na comunidade brasileira e internacional de Neurociência para que todos tenhamos melhores condições de trabalhar em conjunto e a Neurociência avance mais rápido, beneficiando diretamente a população.

E-mail
Imprimir
PDF
30 May

Empresa francesa é suspeita de poluição na Amazônia

A multinacional francesa de processamento de minerais industriais Imerys foi proibida pela justiça do Pará de armazenar caulim, um mineral utilizado na fabricação do papel, em uma bacia de contenção na Amazônia que teria registrado cinco vazamentos somente em maio. A contaminação da água com resíduos de metais pesados prejudica cerca de 7 mil pessoas que vivem em Barcarena, a 20 quilômetros da capital, Belém.

A reportagem é da Rádio França Internacional - RFI, reproduzida por amazonia.org.br, 29-05-2014.

A população afirma que a sucessão de vazamentos começou no dia 6 de maio. Essa não foi a primeira vez que um incidente abalou a tranquilidade da localidade – em 2007, um reservatório se rompeu, causando danos ambientais.

Cleide Monteiro, moradora da região e líder comunitária, destaca que o problema se repete quase todos os anos. “A população já sabe que por volta de maio ou junho tem um vazamento desses. Mas esse de agora foi muito grande”, relata. “Muitas famílias me ligaram porque estavam com medo de ficar na área da bacia, que poderia se romper. O impacto é generalizado: para a agricultura, a pesca. O pescado, que é a nossa maior riqueza, está contaminado.”

Após as denúncias de moradores, o Ministério Público Federal moveu uma ação contra a Imerys, pedindo a interdição e o esvaziamento da bacia, cuja água contaminada atingiu os igarapés de Curuperé e Dendé. A Justiça Federal do Estado decidiu que a companhia francesa não pode mais depositar caulim no local até que a fissura seja consertada.

A química Simone Pereira, coordenadora do Laboratório de Química Ambiental da Universidade Federal do Pará, acompanha o caso desde o início. Ela realiza análises periódicas da água e constata a contaminação por metais pesados em Barcarena, onde há um polo industrial.

“Todo o caulim que vaza se sedimenta no fundo do rio. E a maior parte do material na realidade é rejeito de caulim, ou seja, o que resta do minério depois de todo um processo químico e é depositado em bacias de sedimentação”, explica. “As bacias usadas são de terra, e não de concreto, como determina a legislação paraense. As primeiras bacias deles sequer tinham revestimento”, afirma a pesquisadora.

Pereira lembra que a lei exige que o material seja tratado antes de ser armazenado, o que, segundo ela, não ocorre. “As águas subterrâneas do município, e até longe dele, estão contaminadas por metais pesados. E as pessoas bebem dessa água e se contaminam”, observa.

Empresa nega

A Imerys nega a existência de fissuras e vazamentos, baseada em “documentação técnica e fotográfica”. A companhia não concede entrevistas sobre o caso, mas divulgou uma nota oficial a respeito do assunto.

No texto, a empresa promete acatar a decisão judicial, mas vai recorrer da sentença. “Como exposto ao Ministério Público, há sim uma infiltração de pequena dimensão e baixo risco. A mesma foi detectada no primeiro semestre de 2013. Cumprindo os planos de contingenciamento, medidas corretivas logo foram tomadas”, diz.

A Imerys afirma ainda ter informado o problema à Secretaria Estadual do Meio Ambiente, e garante que “não vem ocorrendo uma sucessão de vazamentos, como noticiado”. “São afirmações inconsistentes do ponto de vista técnico. A Imerys reafirma que está dizendo a verdade: houve somente um único vazamento de uma pequena quantidade de caulim dia 06/05.”

Posturas distintas

A nota destaca que a empresa tem planos de investimentos de longo prazo no Pará. Mas para Cleide Monteiro, a atuação das multinacionais é bastante diferente na Europa e em países como o Brasil. “Nos seus países, elas não degradam o meio ambiente como aqui. Como o governo daqui não tem muito rigor em cima das empresas, elas fazem o que querem”, comenta. “Elas têm destruído o meio ambiente e causado esse prejuízo para os moradores”, lamenta.

O Ministério Público Federal vai continuar acompanhando a situação na região e o cumprimento da determinação judicial pela companhia.

E-mail
Imprimir
PDF
30 May

Fanático dos transgênicos em pé de guerra na Itália

“Quero cultivar organismos geneticamente modificados (OGM) porque quero alimentar minha família com produtos biotecnológicos. De forma alguma, quero comer alimentos biológicos porque acredito que não são saudáveis nem nutritivos”, afirmou um agricultor italiano. Giorgio Fidenato, presidente da organização Agricultores Federados, explicou à IPS o motivo de lutar contra a proibição do milho MON810, da gigante norte-americana da biotecnologia Monsanto, na Itália.

A reportagem é de Silvia Giannelli, publicada pela Envolverde/IPS, 29-05-2014.

Esse tipo de milho é o único produto transgênico que é permitido no território da União Europeia (UE). A norma que regula a liberação deliberada de OGM no ambiente, a Diretriz 2001/18/EC, contém uma cláusula de salvaguarda que permite aos Estados membros proibir seu cultivo desde que tenham “razões suficientes para considerar que um OGM constitui risco para a saúde humana ou para o ambiente”.

Atualmente há 129 mil hectares, aproximadamente a superfície de Roma, cultivados com milho transgênico na Europa, 90% deles na Espanha e o restante na Eslováquia, Portugal, República Checa e Romênia. Na Itália, três ministros – da Saúde, de Políticas Agrícolas e de Ambiente – assinaram um decreto no ano passado proibindo o milho transgênico da Monsanto.

“Há seis países na Europa que fizeram uso da cláusula de salvaguarda para proibir o cultivo de transgênicos: Alemanha, Áustria, França, Grécia, Hungria e Luxemburgo”, disse à IPS o produtor Giuseppe Croce, diretor da organização ambiental italiana Legambiente. “Por outro lado, a Itália recorreu a uma medida de emergência que só proíbe seu uso temporário”, acrescentou. O decreto ministerial tem 18 meses de validade. “Se nesse tempo nada ocorrer, no final de 2014 Fidenato poderá plantar milho transgênico”, esclareceu.

Mas Fidenato não tem intenção de esperar. Há três anos tem três hectares plantados com milho MON810, o que provoca duros protestos de organizações ambientalistas e desatou um grande debate no país. “Minha primeira colheita, em 2010, as autoridades confiscaram. Meu estabelecimento ficou sob intervenção, mas já plantei novamente este ano e me denunciei por isso”, acrescentou.

Apesar de o Tribunal Regional de Lazio, ao qual Fidenato recorreu em outubro passado, confirmar a proibição nacional, o agricultor não se rende e já apresentou outra apelação ao Conselho de Estado. “É minha oportunidade de mostrar a arrogância e a iniquidade da democracia porque aqui estamos diante da pretensão de que pela maioria não gostar dos transgênicos eu não posso comê-los. O que digo é: se não quer, não compre meus produtos”, afirmou.

Mas nem todos os agricultores veem com os mesmos olhos que Fidenato a atividade agrícola. Lucca fica na Toscana, a província italiana com maior concentração de fazendas biodinâmicas. Como a maioria delas, o estabelecimento de Gabriele Da Prato, na região montanhosa de Garfagnana, ao norte dessa cidade. produz vinho. Segundo ele, suas decisões e a dos agricultores da região determinarão o futuro do território no qual se criou.

Sua propriedade tem 3,5 hectares e ele é o único que produz cerca de 14 mil garrafas de vinho por ano. “Decidi assumir o negócio familiar em 1998, nos anos em que se usava muitos químicos, e praticar uma agricultura de subsistência”, contou à IPS. Em 2000, começou a notar que o solo de sua fazenda apresentava sinais de erosão, falta de potássio e de cálcio.

“O que mais me desagradou foi descobrir pedaços de terra que simplesmente não tinham vida por baixo. Isto é consequência de anos e anos usando químicos: fertilizantes artificiais empobreceram o solo, os herbicidas mataram toda a erva, as borboletas desapareceram, foi um desastre”, ressaltou. Foi então que tomou uma decisão radical e começou a aplicar métodos biodinâmicos, a usar apenas substâncias naturais, como adubos de origem animal, vegetal ou mineral para melhorar a qualidade do solo.

Para ele, abrir a porta aos transgênicos na Itália não tem sentido. “Primeiro, a superfície da Itália não é grande o suficiente para competir com gigantes como os Estados Unidos em matéria de transgênicos. Por outro lado, a alta qualidade, os produtos inigualáveis e nossa identidade territorial são nossos curingas”, argumentou Da Prato. Contudo, além do fator econômico, a ameaça ao ecossistema é o que mais preocupa.

Agricultor mostra pedaço de terra que “simplesmente não tem vida”.

Foto: Silvia Giannelli/IPS

“Em um campo cultivado com transgênicos, a água simplesmente desaparece. Meu terreno, que está saudável e cheio de vida, conserva 90% da água. No ano passado, houve uma grande inundação e agradeço ao meu vinhedo biodinâmico por minha casa permanecer intacta”, contou Da Prato. “Quando tivermos explorado o solo para engordar a bilheteria, e a terra não puder nos dar mais alimentos, então, talvez, comecemos a perguntar o que aconteceu”, ressaltou.

A batalha legal entre os dois pontos de vista não terminou. “A UE está em processo de reformar a diretriz sobre transgênicos, o que provavelmente acontecerá durante a presidência (rotativa) da Itália” (de julho a dezembro deste ano), pontuou Croce. “Considerando as atuais negociações, esperamos que a nova norma inclua uma cláusula adicional que permita aos Estados membros proibir os OGM também por razões econômicas, o que é crucial para as exportações made in Italy”, destacou.

Mas Fidenato se mantém firme em sua posição. “Quando criança costumava acompanhar minha mãe arrancando o mato com minhas próprias mãos. Sei o que significa e não voltarei a fazer isso. Outros podem continuar fazendo se quiserem, mas não eu”, enfatizou.

E-mail
Imprimir
PDF
30 May

O que a imprensa do Recife não conta sobre o Estelita

"Enquanto isso, o silêncio dos veículos da capital pernambucana segue diretamente proporcional à quantidade de anúncios das imobiliárias nos classificados e por todos os lados, cantos e recantos dos folhetins do Recife", escreve Mariana Martins, jornalista, e Mariana Moreira, jornalista, em artigo publicado pelo Carta Capital, 29-05-2014.

Eis o artigo.

Um dos professores mais antigos do curso de comunicação social da Universidade Federal de Pernambuco, Paulo Cunha, postou em sua página no Facebook: “Acho que amanhã vou no cemitério de Santo Amaro, fazer uma visita ao túmulo do jornalismo pernambucano”. Esta frase, escrita ainda no dia 22 de maio, pela manhã, dizia muito sobre o silêncio da imprensa de Pernambuco a respeito do início da demolição do Cais José Estelita, área histórica e um dos principais cartões-postais do Recife, e da ocupação feita por manifestantes, que impediram a demolição completa dos armazéns de açúcar, no fim da noite do dia 21. Atividades estão sendo realizadas e, último no fim de semana, a ocupação recebeu visitas e manifestações de apoio de recifenses ilustres.

Pode-se dizer que a postagem de Cunha foi também um presságio do que viria. A ocupação já entra no seu sétimo dia, e o comportamento da maior parte da mídia local é o de ignorar a mobilização social contra o projeto Novo Recife e o acampamento permanente de dezenas de pessoas na área. Apenas um dos três jornais da capital noticiou linhas descontextualizadas sobre o fato. Nenhuma das matérias passava de seis parágrafos, insuficientes para contextualizar a história que existe desde 2008, e que em 2012 tomou novos rumos e ganhou novos atores.

Breve contextualização (tentando dar conta do que a mídia não conta)

O Recife está entre as cidades do Brasil em que houve maior valorização imobiliária nos últimos cinco anos. Esta valorização fez com que áreas antes “desvalorizadas”, do ponto de vista imobiliário, fossem alvo de especulações, principalmente áreas históricas e de preservação ambiental, como o Cais José Estelita e as poucas áreas de mangue que ainda sobreviviam na cidade.

O Projeto Novo Recife prevê a construção de 12 torres de até 40 pavimentos no Cais José Estelita. O empreendimento é uma ação de um consórcio de grandes construtoras do estado, também chamado Consórcio Novo Recife, formado pelas empresas Moura Dubeux, Queiroz Galvão, G.L. Empreendimentos e Ara Empreendimentos. Assim como vários outros empreendimentos de grande impacto na capital pernambucana, o Projeto Novo Recife não foi antecedido do Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV), que, após feito, deve ser apresentado à população, para que possibilite o exercício da gestão democrática, como manda o Estatuto da Cidade (Lei 10.257, de 10 de Julho de 2001.).

Quando o Projeto Novo Recife chegou a conhecimento público, pessoas e organizações sociais passaram a se mobilizar para discutir formas de intervenções populares na discussão dos rumos e nos processos de ocupação da cidade. Desde 2012, o grupo “Direitos Urbanos – Recife”, de caráter não partidário, tem aglutinado e mobilizado manifestações, ocupações, audiências públicas, denúncias ao Ministério Público, dentre outras atividades para defender a área do Cais José Estelita. A área toda, além de sua beleza estética e de representar parte da identidade visual da cidade, tem grande valor histórico por permitir, ainda hoje, uma percepção de qual foi o padrão de ocupação da cidade que se consolidou ao longo do tempo. Em poucas palavras, o Cais José Estelita, sejamos contra ou a favor da sua demolição, é parte da história do Recife e uma discussão sobre os seus rumos não pode ser tangenciada exclusivamente pelos interesses do capital imobiliário e sem a devida transparência pública e participação social. Isso pode até soar démodé, mas ficou conhecido como democracia.

Para além da sociedade organizada, Ministério Público Federal, Estadual, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e alguns parlamentares também fazem parte da luta para que o poder do capital imobiliário não atropele os direitos urbanos da capital pernambucana, e defendem a ampliação do debate do entre poder público e sociedade na decisão dos rumos da cidade. Mesmo com uma constante mobilização social e com o projeto sendo questionado social e judicialmente, o Projeto Novo Recife avançou sombreado pelos interesses políticos e econômicos dos diversos atores envolvidos no processo e sob o silêncio cúmplice e conivente da mídia local.

Na noite do último dia 21, foi iniciada a demolição dos armazéns de açúcar do Cais José Estelita. Imediatamente, manifestantes foram para o local e impediram a continuidade da demolição. No dia seguinte, a demolição foi oficialmente embargada por força de uma liminar do IPHAN, que alega descumprimento da celebração do Termo de Ajuste de Conduta entre o empreendedor e o instituto, que tenta garantir a proteção dos registros referentes à produção de conhecimento sobre a área em questão. O Ministério Público Federal, por sua vez, questiona a validade do leilão que deu ao consórcio a propriedade da referida área.

Cobertura on-line dos principais jornais locais

Seguindo a linha da falta de informação dos jornais locais, nacionalmente as notícias sobre os manifestantes que montaram acampamento na área a ser demolida foram insignificantes, para não dizer inexistentes – visto que não houve, a princípio, um monitoramento dos veículos, mas também não há notícias de que o fato foi noticiado nacionalmente pelos principais veículos tradicionais. Dentro e fora do Recife, com exceção das redes sociais e blogs da imprensa alternativa, as pessoas seguem desinformadas sobre o que acontece em uma das áreas mais emblemáticas da cidade.

Vale também uma contextualização sobre os principais veículos de mídia do Recife, e da força política que esta capital tem para a estrutura de comunicação regional de grandes emissoras do país. É no Recife que se encontra a sede da Rede Globo Nordeste, que é uma das cinco concessões da Rede Globo de Televisão no país, a única na região. São três os principais jornais locais: Jornal do Commercio, ligado ao grupo João Carlos Paes Mendonça (JCPM), um dos maiores grupos econômicos do Estado; Diário de Pernambuco, ligado aos Diários Associados; e a Folha de Pernambuco, ligada ao grupo EQM, que tem suas bases no setor sucroalcooleiro.

O Jornal do Commercio, único dos três principais jornais locais a noticiar o fato em sua versão eletrônica, deu ao todo, desde o último dia 21, cinco matérias em sua página na internet, sendo uma no dia 21, três no dia 22 e uma no dia 23.

Nas edições eletrônicas dos jornais Diário de Pernambuco e Folha de Pernambuco, as buscas pelas palavras-chave “Estelita”, “Cais José Estelita” e “Ocupe Estelita” não obtiveram como respostas matérias entre os dias 21 e 27 de maio.

As únicas cinco matérias do Jornal do Commercio, por sua vez, passam longe de informar sobre o que está acontecendo no Cais José Estelita e a mobilização contra o projeto Novo Recife. Apenas uma matéria tem um vídeo que mostra pessoas que estão no movimento “Ocupe Estelita”, mas o texto não traz uma declaração sequer de qualquer integrante do movimento. Uma das matérias afirma que os manifestantes não quiseram dar entrevista. Contudo, matérias do mesmo dia no site do G1 Pernambuco trazia declarações e documentos publicados pelo grupo. De uma forma geral, as matérias do JC são curtas e citam apenas o IPHAN, a exposição de motivos do órgão para suspender as obras, e o Consórcio Novo Recife por meio de notas emitidas pelo grupo. O mesmo não foi feito com as notas divulgadas pelo outro lado.

Apesar de não ter sido pauta de nenhum dos jornais locais, no domingo o Cais foi ocupado por dezenas de pessoas e foram organizadas atividades lúdicas e shows com apoiadores da ocupação. Outro fato importante ignorado pelos jornais foi a campanha que artistas locais estão promovendo nas redes sociais, com cartazes em apoio ao movimento e em defesa do patrimônio histórico.

A cobertura da Globo Nordeste e seus veículos

Ao contrário dos jornais locais, o G1 Pernambuco foi o site com matérias mais contextualizadas, trazendo depoimentos e a exposição de motivos dos manifestantes do Ocupe Estelita. Contudo, a postura da TV não foi a mesma.

Uma das matérias mais questionáveis do ponto de vista jornalístico foi a exibida no NE TV 1ª Edição do dia 24 de maio, com o título Arquitetos do Novo Recife mostram vantagens do projeto para o Recife. A matéria é uma propaganda do projeto, em que somente os arquitetos do consórcio falam sem que nenhuma opinião divergente tenha sido ouvida. Inúmeros arquitetos e urbanistas também já se manifestaram publicamente contra a intervenção. Depois de três dias sem matérias sobre o fato, na tarde do dia 27, o NE TV 1ª Edição trouxe notícias das manifestações que ocorreram na véspera no acampamento. O foco da cobertura foi o engarrafamento causado pela mobilização na avenida em que fica o Cais.

O direito à informação e o lucro dos jornais

Uma breve análise sobre a infeliz constatação da morte do jornalismo pernambucano passa, logicamente, por uma leitura política dos fatos, mas, sobretudo, por uma leitura econômica do modelo de negócio do jornalismo. Esse modelo, que já dava sinal de inanição, deu sinal de falência, perdeu por completo a linha e sobrepôs desmedidamente o financiamento à atividade fim dos veículos, que é a notícia. Aqui, vale ressaltar, que não apenas o jornalismo pernambucano sofre desse mal, é verdade, mas este episódio foi capaz de revelar um amadorismo e uma subserviência inaceitáveis até mesmo ao que se pode chamar de padrões mínimos (se é que isso existe) do jornalismo.

Não dar nenhuma linha sobre o ocorrido em suas páginas na internet (pois nesse veículo não se tem sequer a desculpa do espaço), como aconteceu em dois jornais citados, é deliberadamente o maior vexame que um veículo de comunicação pode acumular em sua história (vide contos da ditadura). Veicular descontextualizada e propagandisticamente a notícia, como fizeram dois outros veículos, é o segundo maior vexame que um veículo de comunicação pode dar. Nem mesmo a sofisticação da censura de outrora foi reivindicada por estes míseros e submissos veículos de propagada. A cobertura foi tão amadora que uma abordagem parcial passou a ser quase que louvável diante do silêncio. Constrangedor até para quem admite tal feito.

Felizmente, muitos comunicadores e jornalistas, censurados e mutilados nos veículos em que trabalham, estão bravamente apoiando a ocupação nas redes sociais e produzindo para sites alternativos. E, para além dos jornalistas, cidadãos/as do Recife que apoiam a causa tornaram-se cada um e cada uma produtores e difusores de informação em uma escala de dignidade incalculável pela mídia tradicional.

Enquanto isso, o silêncio dos veículos da capital pernambucana segue diretamente proporcional à quantidade de anúncios das imobiliárias nos classificados e por todos os lados, cantos e recantos dos folhetins do Recife.

E-mail
Imprimir
PDF

Blog

Publicações

Mais Lidos

Enquete

Rejeição ao voto obrigatório chega a 61% do eleitorado, diz Datafolha.

 
 
 
 
 

 

Cadastre-se

Quero receber:


Refresh Captcha Repita o código acima:
 

Novos Comentários

"a melhor resposta dos brasileiros é boicotar as operações desta instituição. No caso dos client..." Em resposta a: Dilma Rousseff diz que a carta do Santander a clientes é “inadmissível”
"O estranho não é que a Igreja tenha entrado em um processo de decadência acentuado em um lugar on..." Em resposta a: Quebec, laboratório da modernidade?
"Jesus Cristo nos pobres passam fome e com esse monumento é vetado a sua entrada.Onde está Cristo?" Em resposta a: Fiel a pé não terá acesso a templo da Universal

Conecte-se com o IHU no Facebook

Siga-nos no Twitter

Escreva para o IHU

Adicione o IHU ao seus Favoritos e volte mais vezes