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01 Dec

Papa na África: paz e misericórdia

Em Bangui, capital de um país ensanguentado pelos póstumos de uma guerra civil que viu contrapostos muçulmanos e cristãos, mas definida pelo papa nesse domingo como "capital espiritual do mundo", na parte da tarde, ele "antecipou" o Jubileu, que oficialmente vai começar no dia 8 de dezembro, e abriu a Porta Santa da catedral da cidade.

A reportagem é de Luigi Sandri, publicada no jornal Trentino, 30-11-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Tendo começado na quarta-feira passada em Nairóbi, no Quênia, e continuado depois em Uganda, a primeira viagem africana de Francisco concluiu-se nessa segunda-feira na República Centro-Africana, a última etapa de uma "peregrinação" que a inteligência francesa, temendo atentados de grupos extremistas islâmicos, tinha aconselhado que fosse cancelada.

Mas o pontífice decidiu manter o seu programa, seja para dar consolo a um povo abalado e reduzido à extrema pobreza pelo conflito armado (2012-2014) que contrapôs os grupos pró-muçulmanos dos Seleka e os pró-cristãos dos anti-Balaka, seja para apresentar a figura com que pretende caracterizar o iminente Ano Santo.

De fato, pela primeira vez na história dos jubileus cristãos, inaugurados em 1300 pelo Papa Bonifácio VIII, o evento "extraordinário", que, embora formalmente, começa em Roma em oito dias, teve nesse domingo a sua singular "ouverture" em Bangui, uma cidade quase desconhecida fora da África, mas símbolo de extremo sofrimento, palco de confrontos ferozes, motivo de duras rivalidades tribais, muitas vezes motivadas por pretextos religiosos.

Assim, ao escolher Bangui, Francisco quis dar uma angulação bem precisa para o Ano Santo: interrogar-se sobre as razões profundas que, muitas vezes, levam os seguidores das religiões a abençoarem as violências em nome de Deus, apagar essa blasfêmia e, por fim, colaborar juntos para favorecer a reconciliação e a paz.

Com palavras improvisadas, não previstas pelo cerimonial, antes de abrir a Porta Santa da catedral de Bangui (uma igreja em estilo colonial francês), Francisco pediu que as pessoas – que o obedeceram de muito bom grado – dissessem em voz alta, em sango, a principal língua da República Centro-Africana, "exigimos paz, pedimos paz".

E, na homilia da missa, proferida em italiano e traduzida frase por frase para o sango, implorou paz, perdão, misericórdia, e, dirigindo-se para os senhores das armas que fomentam as guerras em muitos países, gritou: "Deponham as armas, instrumentos de morte, armem-se de justiça".

Na manhã dessa segunda-feira, antes de partir para Roma, o papa visitou uma mesquita. Mais uma vez, ele reiterou o que disse em Nairóbi e em Kampala: que as religiões, particularmente cristianismo e Islã (as duas principais religiões da África), se aliem para favorecer paz, reconciliação e diálogo entre os povos.

As Igrejas cristãs – reiterou nesse domingo – também devem dar, no entanto, um exemplo de fraternidade, porque "a divisão entre os cristãos é um escândalo", e é absurdo que eles preguem paz ao mundo se não são capazes de viver entre si como irmãos. Enfatizando esses ideais, Francisco concluiu a sua "missão" no continente negro.

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01 Dec

COP-21: Santa Sé leva a Paris a voz da Amazônia

Paris se transforma na capital do mundo depois dos atentados do dia 13 de novembro passado, mas, desta vez, por causa de um evento internacional planejado há tempo, ou seja, o início da COP-21, a conferência mundial sobre o clima e o ambiente, que, na esperança de muitos, deve marcar uma reviravolta em favor de uma clara redução das emissões de poluentes.

A reportagem é de Francesco Peloso, publicada no sítio Vatican Insider, 30-11-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Nessa frente, como se sabe, a Igreja está muito empenhada. A Santa Sé trabalha por um acordo conclusivo capaz de comprometer os governos, começando pelos dos países mais ricos e industrializados, mas também das potências emergentes, para fazerem uma virada virtuosa.

E se o início da conferência foi marcado por manifestações não autorizadas por parte de ativistas ambientalistas com relativos e inevitáveis confrontos – a cidade ainda sofre com as severas medidas de segurança tomadas depois dos atentados terroristas – o que está em jogo é muito importante para ser obscurecido por alguma brigas.

Laudato si', motor da mobilização eclesial

Por outro lado, para a Igreja, o ponto de referência obrigatório é a Laudato si', a encíclica do Papa Francisco dedicada à defesa da criação e à relação entre ambiente, novo modelo de desenvolvimento e pobreza em uma visão cristã, a partir do Cântico franciscano.

Enquanto isso, nos últimos dias, o cardeal Cláudio Hummes entregou ao governo francês e aos delegados da COP-21 uma petição com centenas de milhares de assinaturas recolhidas em 130 países do mundo. No texto, pede-se um corte das emissões de dióxido de carbono, a implementação de um programa que preveja a superação dos combustíveis fósseis, a completa descarbonização até 2050.

O texto também foi assinado pelo cardeal Peter Turkson, presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz, pelo cardeal Luis Antonio Talge, arcebispo de Manila e presidente da Caritas Internationalis, e pelo próprio pontífice.

Enquanto isso, o cardeal Turkson também tinha convidado todos os bispos do mundo a promoverem iniciativas e momentos de reflexão, celebrações religiosas, sobre os temas do ambiente, do cuidado da criação e do aquecimento global.

Os povos indígenas e a Igreja

Um impulso importante para a participação ativa da Igreja na conferência parisiense também vem da região amazônica, onde está em movimento a Repam, o rede eclesial panamazônica (promovida pelo Celam, o Conselho Episcopal Latino-Americano), ativa em nove países, que envolve dioceses e realidades locais comprometidas com a defesa da biodiversidade da grande floresta tropical.

Nos últimos dias, a rede se reuniu em Bogotá, na Colômbia, em vista justamente da cúpula prevista para a capital francesa. A Repam, por outro lado, como explicou o seu secretário, Mauricio López, "nasceu no outono de 2014 por causa da necessidade de responder como Igreja aos desafios deste grande território, onde existem grandes pressões e interesses, começando pelas atividades extrativas".

"Ao mesmo tempo – explicou – percebemos que a Igreja tem uma presença forte na área, mas muito fragmentada. Daí o nascimento da Repam, para criar uma plataforma para se trocar experiências, fortalecer o nosso compromisso, responder ao projeto enunciado pelo papa na Laudato si'."

Nesse contexto, particularmente importante foi a aliança entre a Igreja e os povos indígenas da Amazônia. De fato, estes últimos precisavam de um interlocutor capaz de levar as suas reivindicações às sedes internacionais onde são tomadas as decisões que importam.

Por outro lado, na região, continuam as perseguições e os homicídios contra aqueles que, agricultores ou ativistas, se opõem ao desmatamento e a uma exploração mineral sem escrúpulos e capaz de destruir porções inteiras da floresta, fazendo terra arrasada.

Segundo o secretário da Repam, "a escuta das comunidades indígenas era um tema inevitável. Até agora havia estado ausente na vida da Igreja a escuta ativa desses povos". "Eles – disse López – conhecem muito bem a presença da Igreja missionária, de fronteira, mas sentiam a ausência da Igreja institucional."

Nesse sentido, no diálogo e na última reunião da Repam, surgiu o fato de que "ser católico e ser indígena faz parte da identidade deles, não há ruptura: indígenas com uma missão popular, mas, ao mesmo tempo, fiéis e chamados à construção do reino. Por isso, é importante caminhar juntos, defender o território e o ambiente junto com eles, que são os mais vulneráveis. E levaremos a voz deles para Paris, participando da conferência sobre o clima".

A ação diplomática da Santa Sé

Se esse é o plano da mobilização global, existe outro mais institucional. A Santa Sé busca desempenhar um papel importante sob o perfil diplomático também em Paris, tornando-se ponto de referência para os países que, mais do que outros, da África à Oceania, passando pela América Latina, sofrem as consequências das mudanças climáticas.

Quem explicou qual é a contribuição do Vaticano para o processo que levou à Conferência de Paris (agendada para os dias 30 de novembro a 10 de dezembro) foi recentemente Dom Paul Gallagher, "ministro das Relações Exteriores" do Vaticano. Durante o recente encontro organizado pelo Pontifício Conselho para a Saúde, sobre o tema da acolhida do homem e do planeta, o secretário para as Relações com os Estados indicou as duas direções dentro das quais se articula a ação da Igreja: "Por um lado, através da contribuição direta para as atuais negociações por parte da delegação da Santa Sé, durante os vários encontros do grupo de trabalho da Convenção encarregada de negociar o acordo a ser adotado em Paris". Portanto, tanto através das "várias e diferenciadas atividades de reflexão e de aprofundamento da Santa Sé em tal âmbito, quanto através do incentivo da Santa Sé aos organismos da Igreja Católica a fazerem a sua contribuição" de conteúdos e propostas concretas.

No campo diplomático, explicou Gallagher, a estratégia do Vaticano pode ser sintetizada em três pontos: "Ancorar o acordo em uma clara orientação ética; promover a consecução de três objetivos concatenados entre si: atenuar o impacto das mudanças climáticas, combater a pobreza e fazer florescer a dignidade humana"; e, por fim, "manter o olhar no futuro".

Este último objetivo envolve sucessivas verificações do processo dos compromissos assumidos e acompanhamentos transparentes. Ao mesmo tempo, o acordo alcançado também deveria ser adotado pelas populações locais. Por isso, seria necessário ativar processos de participação em nível local, começando pelos povos indígenas.

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01 Dec

Advento, tempo inquietante: é hora de acordar. Artigo de Walter Kasper

A luta contra o mal, contra as tentações, deve ser sustentada todos os dias. Como cristãos bem despertos, é necessário que, todos os dias, saibamos reconhecer os "sinais dos tempos" e as possibilidades que se descerram, com inteligência, mas também com a coragem e a confiança de enfrentar e fazer o que é possível hoje.

A opinião é do cardeal Walter Kasper, presidente emérito do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, em artigo publicado no jornal Avvenire, 27-11-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Estamos vivendo um tempo inquietante: um tempo repleto de conflitos cruéis, repleto de atentados terroristas insidiosos, repleto de insegurança e de angústia por aquilo que pode acontecer.

Valores e ordenamentos até agora sólidos estão abalados; muitas pessoas perderam a orientação. Para muitos, ainda conta apenas o consumo e o lucro privado do momento. Para nós, cristãos, a cada ano, o tempo do Advento significa uma pausa, para pararmos e tomarmos consciência de novo daquilo que nos suporta e nos sustenta, daquilo que dá sentido e direção à nossa vida.

Dos textos bíblicos que são lidos na liturgia da Igreja no tempo do Advento, fazem parte as visões apocalípticas sobre o "fim do mundo". O capítulo 13 do Evangelho de Marcos retrata um quadro de terror: sol e lua se escurecerão, as estrelas cairão do céu, e as potências que estão nos céus serão abaladas.

Essas imagens decorrem de uma concepção de mundo própria do passado, mas também hoje dizem algo decisivo: o nosso mundo não é eterno, e nada neste mundo é eterno. Os ordenamentos aparentemente seguros, nos quais nós confiamos principalmente, são efêmeras. O grandioso sistema do mundo e os grandiosos sistemas deste mundo, um dia, vão entrar em colapso. Não podemos confiar neles definitivamente.

Talvez, já não vivemos justamente isso muitas vezes? Dos poderosos reinos da história, da sua fabulosa riqueza e das cidades repletas de tesouros artísticos, restaram apenas ruínas. No tempo da nossa vida, caíram o Muro de Berlim e a Cortina de Ferro, e, com eles, entraram em declínio, quase da noite para o dia, o império da União Soviética, que visava a dominar o mundo, e a ideologia do comunismo.

O capítulo 13 do Evangelho de Marcos, no entanto, não termina com uma mensagem de terror. Ela nos diz, ao contrário, o que permanece, em que podemos confiar, sobre o que podemos construir de modo duradouro a nossa vida: "Céu e terra passarão, mas as minhas palavras não passarão".

A palavra de Deus permanece para a eternidade. De fato, Deus é fiel; podemos confiar n'Ele. Pode-se construir sobre a Sua palavra. "Tu, Senhor, és nosso Pai, desde sempre tu te chamas 'nosso Redentor'" (Is 63, 16).

A palavra de Deus, acima de tudo, é uma palavra de promessa e de esperança. Ela nos diz: Deus é o Senhor do mundo e da história. Ele tem os seus fios nas suas mãos. No fim, Ele vai reunir os eleitos dispersos, os justos por graça de Deus, que vivem de acordo com a palavra de Deus, de todas as direções e vai estabelecer o reino da paz, da justiça, da verdade e do amor.

Então, Deus será tudo em todos (1Cor 15, 28). Por isso, os mandamentos de Deus também têm uma estabilidade permanente. Eles não são resíduo ultrapassado, fora de moda, eles também são para nós hoje um indicador seguro da estrada. Eles não querem encapsular a nossa vida e nos privar da nossa liberdade. São palavras de vida; querem nos ajudar a fazer com que a nossa vida seja bem sucedida e feliz; querem nos conduzir à vida verdadeira, plena, à vida eterna.

No nosso tempo, em que muitas pessoas estão decepcionadas com a vida, e a esperança tornou-se mercadoria rara; tempo em que domina a decepção, o desânimo e a resignação, nós, cristãos, podemos ser pessoas do Advento, pessoas da confiança, testemunhas da esperança.

Sem esperança, de fato, ninguém pode viver: nenhuma pessoa individual, nenhum povo e muito menos a Igreja. Devemos testemunhar que a vida e o mundo não correm rumo ao vazio, mas vão desembocar no reino de Deus.

A esperança cristã não está dirigida às calendas gregas. Ela não é espera por um futuro utópico. A esperança na vinda de Cristo se dirige ao presente: agora é o tempo oportuno; agora é a hora. Cada dia é importante. Cada momento pode ser a hora de Deus.

Isso nos é dito hoje. O cansaço, a indiferença e a indolência de nós, cristãos, são um grande perigo. Por isso, no Novo Testamento, diz-se: "Sejam sóbrios e fiquem de prontidão! Pois o diabo, que é o inimigo de vocês, os rodeia como um leão que ruge, procurando a quem devorar" (1Pd 5, 8).

A luta contra o mal, contra as tentações, deve ser sustentada todos os dias. Como cristãos bem despertos, é necessário que, todos os dias, saibamos reconhecer os "sinais dos tempos" e as possibilidades que se descerram, com inteligência, mas também com a coragem e a confiança de enfrentar e fazer o que é possível hoje.

Essa confiança e essa esperança são vitais para toda a nossa existência de cristãos.

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01 Dec

Papa na mesquita de Bangui: "Unidos contra a violência em nome de Deus"

Antes que Francisco entrasse para as ovações dos 20 mil cristãos que lotam o estádio, levantou-se um aplauso também para a entrada do imã Tidiani Moussa Naib, que, nesse domingo, estava presente na igreja na abertura da Porta Santa e, algumas horas antes, acolheu o papa na mesquita do "Km 5", o bairro em que a "linha vermelha" traça a fronteira invisível além da qual corre-se o risco de ser morto.

A reportagem é de Gian Guido Vecchi, publicada no jornal Corriere della Sera, 30-11-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O último dia de Francisco na África Central é uma imagem suspensa entre os carros blindados da ONU, os capacetes azuis por toda a parte, os franco-atiradores em cima dos telhados dos edifícios em ruínas ao redor e as palavras de Francisco perante "os responsáveis e crentes muçulmanos" na mesquita Kaudoukou: "Entre cristãos e muçulmanos, somos irmãos. Portanto, devemos nos considerar como tais, comportamo-nos como tais. Sabemos muito bem que os últimos acontecimentos e as violências que abalaram o país de vocês não estavam fundados em motivos propriamente religiosos. Quem diz acreditar em Deus também deve ser um homem ou uma mulher de paz. Cristãos, muçulmanos e membros das religiões tradicionais viveram pacificamente juntos por muitos anos. Portanto, devemos permanecer unidos para que cesse toda ação que, de um lado e de outro, desfigura o Rosto de Deus e, no fundo, tem o objetivo de defender com todos os meios interesses particular, em detrimento do bem comum. Juntos, digamos não ao ódio, não à vingança, não à violência, particularmente àquela que é perpetrada em nome de uma religião ou de Deus. Deus é a paz, Deus salam".

Com cinco imãs

Bergoglio foi acompanhado por cinco imãs ao pódio às margens da área reservada para a oração. Nestes "tempos dramáticos", disse, "os responsáveis religiosos cristãos e muçulmanos quiserem levantar-se à altura dos desafios do momento", porque "desempenharam um papel importante para restabelecer a harmonia e a fraternidade entre todos: eu gostaria de lhes assegurar a minha gratidão e a minha estima".

O papa recordou também "os tantos gestos de solidariedade que cristãos e muçulmanos tiveram em relação aos seus compatriotas de outra confissão religiosa, acolhendo-os e defendendo-os durante esta última crise no país de vocês, mas também em outras partes do mundo".

Não há apenas ódio. O país se encaminha para as eleições, e "só podemos desejar que as próximas consultas nacionais deem responsáveis que saibam unir os centro-africanos e, assim, tornem-se símbolos da unidade da nação, em vez de representantes de uma facção", considerou o pontífice.

"Eu encorajo fortemente a que vocês façam do seu país uma casa acolhedora para todos os seus filhos, sem distinção de etnia, de pertencimento político ou de confissão religiosa."

Assim, este país "no coração da África", há quase três anos em guerra civil, "poderá dar um impulso a todo o continente, graças à colaboração de todos os seus filhos". E "ajudar a apagar os focos de tensão que estão presentes e que impedem os africanos de se beneficiarem daquele desenvolvimento que merecem e ao qual têm direito", concluiu Francisco na mesquita.

"Convido vocês a rezarem e a trabalharem pela reconciliação, pela fraternidade e pela solidariedade entre todos, sem esquecer as pessoas que mais sofreram com esses acontecimentos."

No fim, o papa e o imã se detiveram em silêncio diante do Mihrab que, nas mesquitas, indica a direção de Meca, cada um em oração.

"Passar para a outra margem", diz o lema evangélico da viagem à África Central. Na homilia da missa, Francisco explicou: "Todo batizado deve continuamente romper com aquilo que ainda há nele do homem velho, do homem pecador, sempre pronto para despertar ao chamado do demônio – e daquilo que atua no nosso mundo e nestes tempos de conflito, de ódio e de guerra – para conduzi-lo ao egoísmo, a se encurvar sobre si mesmo e à desconfiança, à violência e ao instinto de destruição, à vingança, ao abandono e à exploração dos mais fracos".

Cantos e danças acompanharam a celebração, mas as palavras do papa – traduzidas por um intérprete – foram seguidas por um silêncio perfeito: "Que o Ano Jubilar da Misericórdia, recém-iniciado no país de vocês, seja a ocasião para isso. E vocês, queridos centro-africanos, devem principalmente olhar para o futuro e, fortalecidos pelo caminho já percorrido, decidir resolutamente dar uma nova etapa na história cristã do seu país, de lançá-lo a novos horizontes, de ir mais ao largo, a águas mais profundas. Devemos estar cheios de esperança e de entusiasmo pelo futuro. A outra margem está ao alcance da mão, e Jesus atravessa o rio conosco".

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01 Dec

Papa Francisco e os nervos à mostra da Igreja "sem saídas". Artigo de Andrea Grillo

Nas palavras de certos bispos e cardeais, concentra-se um medo, uma presunção e uma pressão: medo de que a realidade se torne significativa para a Igreja; presunção de que a Igreja possa evitar de sair ao encontro do real; e pressão para que Francisco possa "salvar" esses cardeais das "perigosas novidades" e condenar a Igreja para se fechar mais uma vez na sua autorreferencialidade, com ar viciado e sem saídas, nem mesmo de emergência!

A opinião é do teólogo italiano Andrea Grillo, leigo casado, professor do Pontifício Ateneu S. Anselmo, de Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, de Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, de Pádua.

O artigo foi publicado no seu blog Come Se Non, 27-11-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Quase no mesmo dia, por vias muito diferentes, chegavam ao nível da comunicação pública – ou seja, nos jornais e nos meios de comunicação – duas expressões interessantes da "recepção" que bispos e cardeais "preocupados com o fenômeno Bergoglio" gostariam de propôr sobre o Sínodo dos bispos.

O caso mais surpreendente é o do arcebispo de Ferrara, Luigi Negri, que teria se deixado levar por expressões muito pesadas e por insinuações graves sobre a própria pessoa do Papa Francisco, além de alguns dos novos membros do colégio episcopal (em particular, dos novos arcebispos eleitos em Bolonha e Palermo).

Para atenuar o caso, não é de ajuda a fama bastante embaraçosa sobre a "linguagem" de Dom Negri, não raramente inclinado a um uso não propriamente "limpo" da palavra. O grave, no entanto, para além das "aspas" atribuídas, reconhecidas ou negadas, está na abordagem "sem misericórdia" à realidade eclesial.

Por outro lado, acho que se deve reconhecer, muito honestamente, que a posição de Dom Negri é quase obrigatória, como aparece a partir da forma com que ele repetidamente tentou desmentir o fato de que é acusado. Para quem defende uma "obediência total" ao papa, no caso de profundo discordância com o bispo de Roma, parece não restar nada mais do que a via "natural" para resolver o dissídio.

Negri aborda a relação com o papa como alguns dos seus colegas pretendem enfrentar os problemas do matrimônio. Ou ex nullitate (eleição inválida, cf. Socci) ou... mortis causa!

Não se dá nenhuma alternativa de verdade a uma leitura ideológica do papado, como do matrimônio. Não existe história ou diálogo, consciência ou "sínodo", mas apenas ser ou não ser.

Luigi Negri, em suma, deve ser apreciado pela coerência com que aplica a tradição da "doutrina ontológica matrimonial" também ao papado. Desse modo, ele demonstra como é urgente reformar a primeira, assim como a segunda. E por causa disso ele deve ser publicamente – ou ao menos eclesialmente – agradecido, pelo serviço de clareza que traz ao debate em curso. Depois das suas palavras, as dúvidas sobre as exigências de reforma – do matrimônio, assim como do papado – desapareceram quase totalmente.

Outro caminho, ao contrário, é percorrido pelo cardeal Pell. Como ele já fez em outras ocasiões, durante e logo depois do Sínodo, ele busca não a contraposição, mas a leitura "indiferente" das palavras de Francisco. Ele usa, em outras palavras, a estratégia "sofística" com que o cardeal Erdö, ao falar de pé a cinco centímetros do Papa Francisco sentado, na abertura do Sínodo ordinário, continuamente o citava, olhando-o no rosto, para dizer exatamente o contrário!

Assim também faz Pell, que recentemente proferiu a sua homilia na Basílica de São Clemente, no dia 23 de novembro passado, na festa da antiga basílica. Aquele texto é um exemplo ilustre de uma recepção "imunizante" do Sínodo.

De acordo com essa leitura – preparada por um verdadeiro "solilóquio" não só sobre Francisco, mas também sobre Bento XVI, ao qual se atribui até um descrédito do Islã, o que absolutamente não se encontra no famoso discurso de Regensburg –, o Sínodo simplesmente confirmou a doutrina clássica, e ponto final.

E não é difícil captar, nas palavras finais desse texto, o temor em relação ao "novo texto" que Francisco vai publicar, como ponto final de todo o percurso sinodal. Aqui, não estamos diante de "especulações jornalísticas", mas de um "texto oficial", em que se lê:

"Alguns quiseram dizer, sobre o recente Sínodo, que a Igreja é confusa e confusionária no seu ensinamento sobre a questão do matrimônio. Não é esse o caso. A doutrina da Igreja sobre sexualidade, matrimônio e família continua se baseando no próprio ensinamento de Jesus sobre o adultério e o divórcio; o ensinamento de São Paulo sobre as disposições adequadas para receber a comunhão permanece como fundamental sobre a controversa questão da impossibilidade de dar a comunhão também ais divorciados civilmente casados. Tal 'possibilidade' não é sequer citada no documento sinodal. Agora, esperamos pela exortação apostólica do Santo Padre, que vai expressar mais uma vez a tradição essencial da Igreja e vai sublinhar que o apelo ao discernimento e ao foro interno só pode ser utilizado para compreender melhor a vontade de Deus, como ensinado nas Escrituras e pelo magistério, e nunca pode ser utilizado para desprezar, distorcer ou refutar o ensinamento estabelecida pela Igreja."

Nessas palavras, concentra-se um medo, uma presunção e uma pressão: medo de que a realidade se torne significativa para a Igreja; presunção de que a Igreja possa evitar de sair ao encontro do real; e pressão para que Francisco possa "salvar" esses cardeais das "perigosas novidades" e condenar a Igreja para se fechar mais uma vez na sua autorreferencialidade, com ar viciado e sem saídas, nem mesmo de emergência!

A isso responde, com claríssima lucidez, a réplica que o Papa Francisco deu a uma rádio portuguesa, em setembro passado:

“Se uma pessoa tem em sua casa uma divisão, um quarto, fechado durante muito tempo, surge a umidade, o mofo e o mau cheiro. Se uma igreja, uma paróquia, uma diocese, um instituto vive fechado em si mesmo, ele adoece (acontece o mesmo com o quarto fechado), e ficamos com uma Igreja raquítica, com normas rígidas, sem criatividade, segura, mais que segura, assegurada por uma companhia de seguros, mas não segura! Pelo contrário, se sai – se uma igreja, uma paróquia saem – lá para fora para evangelizar, pode lhe acontecer o mesmo que acontece a qualquer pessoa que sai para a rua: sofrer um acidente. Então, entre uma Igreja doente e uma Igreja acidentada, eu prefiro uma Igreja acidentada porque, pelo menos, saiu para a rua. E aqui quero repetir uma coisa que já disse em outra ocasião: na Bíblia, no Apocalipse, há uma coisa linda de Jesus, acredito que no segundo capítulo (no fim do primeiro ou no segundo), em que Ele está falando a uma Igreja e diz: 'Estou à porta e chamo' – Jesus está batendo – 'Se você abrir a porta para Mim, eu entro e vou comer com você'. Mas eu pergunto: quantas vezes, na Igreja, Jesus bate à porta do lado de dentro para que O deixemos sair para anunciar o reino? Às vezes, apropriamo-nos de Jesus só para nós e esquecemo-nos de que uma Igreja que não está em saída, uma Igreja que não sai, mantém Jesus preso, aprisionado."

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