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27 May

O brasileiro percebeu quais são seus direitos; o medo deixou de existir

O país se aproxima da Copa do Mundo e as mobilizações populares parecem aquecer-se ainda mais. Enquanto os sem teto ganham os holofotes da mídia em sua sequência de ocupações e mobilizações políticas, greves começam a pipocar cada vez mais. Só em São Paulo, a semana está marcada pelos movimentos dos motoristas e cobradores de ônibus, funcionários da USP e metroviários, além de contar com mais um protesto contra os procedimentos de organização do Mundial.

“Eu percebo que é um momento crucial de levarmos nossas pautas de reivindicações a todas as instâncias possíveis. A partir do momento que começar a Copa do mundo, e depois com o período eleitoral, as negociações vão parar”, explicou Jussara Basso, coordenadora do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), em entrevista ao Correio da Cidadania.

A entrevista é de Gabriel BritoValéria Nader, publicada por Correio da Cidadania, 22-05-2014.

Em sua opinião, não é possível prever a repetição dos manifestos de junho, mas está claro que o brasileiro adquiriu um nível maior de consciência e abraça cada vez mais as mobilizações pelos direitos e serviços públicos essenciais. “No ano passado tivemos a pauta dos 20 centavos. Hoje, são os condutores e cobradores de ônibus que param. Isso é muito importante para legitimar a soberania deste país enquanto democracia. Apoiamos todo tipo de mobilização. Penso que o momento demonstra que o brasileiro percebeu quais são seus direitos e quer se apoderar deles”, afirmou.

Jussara avalia que os protestos vão continuar, pois muitas pessoas teriam perdido o medo. Já o Estado, em sua visão, tem feito blefes para tentar acuar a população, mas seus representantes também têm medo de ficarem marcados pela repressão em período pré-eleitoral. “Não acredito que o país sofrerá uma grande mudança política, mas acredito que as pessoas vão votar mais conscientes e cobrar mais aquilo que tiver sido pauta das campanhas eleitorais”, completou.

Eis a entrevista.

A poucos dias da Copa do Mundo e com eleições no horizonte, como você enxerga o atual momento de mobilizações dos sem teto, que têm se espalhado por diversas regiões e adquirido grande destaque no cenário político?

Eu percebo que este é um momento crucial para levarmos nossas pautas de reivindicações a todas as instâncias possíveis. A partir do momento que começar a Copa do mundo, e depois com o período eleitoral, as negociações vão parar - por se tratar de uma época em que o Estado e suas instâncias políticas não negociam nem liberam nada. E aí nossas reivindicações teriam de aguardar o fim das eleições e o ano que vem.

O que você pode dizer das campanhas que o movimento tem lançado, como aquela nas cercanias do novo estádio de Itaquera?

O MTST faz parte de uma frente nacional chamada Resistência Urbana. Dentro dessa frente, foi criada a campanha Copa sem povo, tô na rua de novo! É ela que tem puxado as várias lutas que temos feito. A terceira mobilização é nesta quinta, 22. Chamamos a ocupação perto do estádio de Copa do Povo porque o que queremos é uma “Copa popular”, de promoção de direitos.

Chamamos a campanha de “Hexa de direitos”. Dentro dela, incluímos saúde, educação, moradia, transporte público de qualidade, justiça (pois nos posicionamos contra o genocídio de pessoas da periferia, tipicamente pretas e pobres) e soberania, uma vez que a promoção da Copa do Mundo veio acompanhada de algumas leis de exceção.

O poder público tem dado respostas satisfatórias nas reuniões feitas com vocês sobre a questão da moradia?

O poder público funciona mediante pressão. E o que temos feito no último período é pressão para conseguir avanços nas nossas pautas. O Plano Diretor de São Paulo é exemplo disso.

Conseguimos sua aprovação em primeira plenária, apesar de a repressão no dia da votação ter sido muito forte. É assim, nossas pautas avançam mediante a pressão que exercemos.

E vocês têm otimismo em relação às promessas de moradia feitas pela prefeitura?

Elencamos algumas áreas para que fossem marcadas no Plano Diretor como ZEIS (Zonas Especiais de Interesse Social). Como dito, conseguimos aprovar o Plano em primeira plenária, o que é um grande avanço no município. Ainda há uma grande briga pela frente, pela sua votação e aprovação definitiva, e também pelas áreas destinadas às ZEIS.

Precisamos pensar também na questão de projetos e na qualidade deles, já que o Minha Casa Minha Vida tem como dimensão mínima os imóveis 39 metros quadrados. E as empreiteiras sempre dão preferência para essa metragem. Porém, sabemos que a população carente frequentemente tem famílias mais numerosas. Assim, morar em apartamentos desse tamanho é quase inviável.

Além do mais, há o orçamento público que deve ser criado em torno dos projetos de moradia. A partir do momento em que se constroem moradias numa determinada região, aumenta a demanda de saúde, educação e transporte. Portanto, após a luta por moradia, há a luta por esses serviços.

Quais expectativas vocês têm em relação aos protestos e greves durante a Copa do Mundo? Acredita que teremos movimentos similares a junho de 2013?

Junho de 2013 foi algo inesperado. Esperamos que volte a acontecer. Não deveríamos ter de falar, mas as pessoas têm o entendimento de que a Copa custou muito dos cofres públicos. E a verba que poderia ser destinada a ações que conformam o direito de todos acaba faltando. No ano passado tivemos a pauta dos 20 centavos. Hoje, são os condutores e cobradores de ônibus que param. Isso é muito importante para legitimar a soberania deste país enquanto democracia.

Apoiamos todo tipo de mobilização, sejam greves, manifestações nas periferias, no centro da cidade, dos estudantes, da classe trabalhadora etc. Penso que o momento que vivemos demonstra que o cidadão brasileiro percebeu quais são seus direitos e quer se apoderar deles. Está indo às ruas exigir que seus direitos sejam cumpridos.

Como o Estado brasileiro se prepara para tal momento? Pensam que teremos novos instrumentos de repressão colocados em prática?

Eu avalio que o Estado brasileiro tem sido muito cuidadoso com a questão da repressão. Hoje, percebemos que mesmo o comando da polícia militar tem buscado negociar com movimentos e manifestações para não haver confrontos, pois o mundo está com os olhos voltados ao nosso país. O que eles não querem agora é ser tachados de repressores e violentos.

Mas eu acredito que teremos repressão, porque as manifestações não vão parar. As pessoas estão indignadas com os gastos abusivos da Copa, indignadas com a ausência de direitos, serviços públicos etc. Acho que as pessoas estão indo às ruas com o coração na mão e o medo deixou de existir. O Estado blefou muito, equipando a polícia militar, usando carros de jato d’água etc. Tudo foi um grande blefe pra tentar amedrontar a população do país. Mas ao perceber que a população não recuou e exerce seu direito de manifestação, quem vai recuar é o Estado.

Como imagina que um eventual cenário mais efervescente por ocasião da Copa poderá influir nas eleições, considerando as maiores candidaturas? Acha que será aberto espaço para alguma surpresa?

Penso que o cuidado que o Estado tem tomado em relação às manifestações tem a ver com isso: depois da Copa, nós temos as eleições e todos os candidatos querem garantir seus lugares nas cadeiras do poder. E acredito que as pessoas estarão mais conscientes, vão procurar votar um pouco melhor. Não acho que o país sofrerá uma grande mudança política, mas as pessoas vão votar mais conscientes e cobrar mais aquilo que tiver sido pauta das campanhas eleitorais.

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27 May

Parados no tempo e no espaço

A cidade que nunca para parou. E por falta de aviso prévio, por inércia ou por desatino, milhares continuaram em movimento, na determinação de chegar aonde iam ou de voltar ao ponto de partida. Foi um transtorno atroz na visão dos paulistanos, e um caos tempo-espacial na perspectiva do italiano Mauro Maldonato, que acompanhou o vaivém insano do povo atrás de condução. Depois de rodar pelo interior de São Paulo em eventos que tratavam do corpo e do tempo, o filósofo estacionou na capital no auge da greve para lançar seu novo livro. Da Mesma Matéria que os Sonhos se junta a A Subversão do Ser, Raízes Errantes e Passagens do Tempo, todos publicados pelas Edições Sesc. Desta vez ele trata de consciência, racionalidade e livre-arbítrio.

A reportagem é de Mônica Manir, publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 25-05-2014.

Maldonato nasceu na piccola e aprazível Sapri, distante 140 quilômetros de Nápoles, na qual vive hoje. Já passou bons anos em Londres, onde estudou na London School of Economics; morou em Paris, onde frequentou a École des Hautes Études em Sciences Sociales; foi professor visitante da PUC-SP e da USP; e hoje dirige o Cognitive Science Studies for the Research Group, na Universidade Duke. Também é professor no Departamento das Culturas Europeias e do Mediterrâneo na Universidade Della Basilicata e acaba de chegar de Dubai. Foi dar mais uma conferência sobre o tempo, que parece se multiplicar em suas mãos.

Nesta entrevista, feita no mezanino envidraçado de um hotel nos Jardins, Maldonato falou do que via lá fora: a metrópole desencarnada. “Esses corpos são desmaterializados, fruto de uma massa doida que deixou de ter relações significativas sob o efeito ilusório da grande lente imaginária sustentada pela internet.” Além disso, diz ele, a velocidade urbana, mais acelerada, não casa com a velocidade da biologia, infinitamente mais lenta. Não há mais sintonia. “Vivemos a era do instantâneo, e é muito provável que nos deparemos com novas patologias provocadas por essa assimetria.” Seria esse napolitano um ser apocalíptico? Aos 54 anos de idade, pai de um adolescente de 15, ele garante que não. Apenas gosta de pensar: “Falta a paciência da espera, e hoje o efeito antecipa a causa. É um tema que instiga, intriga, interpela, porque é o tema do nosso futuro”.

Eis a entrevista.

Quando uma cidade estressada como São Paulo é obrigada a parar, ela parece ainda mais estressada do que quando está em movimento. Como explicar isso?

Para responder à sua pergunta, é interessante pensar numa metáfora. Uma cidade é um corpo. Não um corpo orgânico no sentido tradicional, mas um corpo no formato de um sistema nervoso, que tem a sua consciência e a sua parte inconsciente. Esse sistema nervoso funciona por meio de inputs e outputs, movimentos de entrada e saída. Imaginemos um número infinito de pessoas como as que vivem em São Paulo, que vêm e vão. Quando qualquer coisa, um objeto, uma situação, uma greve interrompe esse fluxo, um corpo como a cidade entra numa espécie de paralisia. A greve interrompe esse fluir, a cidade entra numa órbita de irracionalidade pura, na qual até os direitos primários, mais básicos, como as relações entre as pessoas, se interrompem. Isso naturalmente produz alterações em uma metrópole que convive ao mesmo tempo com realidades pós-modernas e pré-modernas, como São Paulo. A paralisação adoece o imaginário, a expectativa, a vitalidade.

Mas seria uma característica típica de São Paulo? Ou comum a todas as metrópoles?

Por muito tempo vivi em Londres, também no Oriente Médio, no Extremo Oriente, visitei Hong Kong, Dubai, e naturalmente cidades mais antigas, como Nova York e São Paulo. Sim, elas têm algo em comum. São todas imensos navios com um grande depósito de corpos. Esses corpos parecem não pertencer a eles mesmos. São desmaterializados, fruto de uma massa doida, de uma massa solitária, que deixou de ter desejos, de ter relações significativas, sob o efeito ilusório da grande lente imaginária suportada pela internet. Como se isso produzisse um aumento das relações...

Não é uma visão exatamente otimista da internet e das redes sociais.

Não tenho um visão pessimista quanto a isso, mas as redes sociais são um fenômeno evolutivo que a humanidade ainda não processou. Houve uma época em que a cidade tinha um sentido tradicional. Ele se alargou com o advento da metrópole e depois com a megalópole. É como se a cidade deixasse de ter sua evolução natural, como todas as coisas da vida. Seu estágio atual é o da velocidade. Falta a paciência da espera, e hoje o efeito antecipa a causa. Se tenho esse telefone e o deixo cair no chão, tenho uma relação de causa e efeito, certo? Mas parece que a relação é ao contrário. E isso, do ponto de vista evolutivo da mente humana, não foi elaborado, porque nossas estruturas cerebrais são ainda muito arcaicas. Há uma diferença entre o tempo da sociedade, da velocidade urbana, e o tempo da nossa biologia, que é muito lento. É muito provável que nos deparemos com novas patologias provocadas por essa assimetria. Porque a coisas não estão mais juntas, não há mais sintonia. Nossa expectativa quando aguardávamos uma carta era uma. Agora existe a impaciência de ler um e-mail.

Que patologias seriam essas? É possível antecipá-las?

Patologias urbanas. Está previsto um crescimento da depressão e outros fenômenos de ansiedade, um fenômeno que aumentou exponencialmente. É impressionante. Se você vai à farmácia e pergunta qual é o medicamento mais vendido, certamente são aqueles para o coração e os antidepressivos.

Mas a pessoa fica deprimida porque não consegue se adequar a esse tempo? Ou ela é deprimida, e o tempo não se adapta a ela?

São duas coisas diferentes: uma é a depressão endógena, orgânica, e as causas estão no nosso cérebro. Outra é a depressão como consequência da incapacidade de se adaptar à velocidade e à complexidade do mundo em que vivemos. Mas os sintomas convergem: uma pessoa deprimida vive um tempo congelado, imóvel, interrompido, sem esperança, estéril, paralisado. É como uma cidade que, entre altos e baixos, é obrigada a parar repentinamente. Fica inquieta, nervosa, agressiva. É uma heteroagressividade, contra o outro, que pode se transformar numa autoagressividade. Porque a depressão tem essa inquietude, essa laceração interior, que provoca dor.

No ócio criativo, postulado pelo italiano Domenico de Masi, o tempo livre seria fundamental. Diante da escassez de horas vagas, estaríamos menos criativos?

O que significa uma apologia do tempo livre, do ócio criativo no panóptico social pós-moderno? Que sentido teria uma liberdade dentro de um nicho não contaminado pelo pecado social da obrigação? Não há nenhuma intenção polêmica nisso, mas me parece que esse achado se sustenta na convicção de que existam espaços de liberdade puros, incontaminados e imunizados. Além disso, o elogio incondicional do ócio degrada o trabalho. Ele seria nada mais que labuta necessária, forçosa. Para mim não é assim. Eu me divirto muito trabalhando. Tenho receio de que a defesa entusiasmada do tempo livre retome o tema aristocrático da liberdade como superioridade elitista, aristocrática, que torna a ser proposta, mas agora com tempero democrático. Mas não há nada de democrático nessa liberdade, porque lhe falta o caráter da universalidade. É uma liberdade que desistiu de lutar por ela mesma.

Você usa o filme Wall Street: Poder e Cobiça como metáfora do tempo da modernidade. Que filme representaria a pós-modernidade?

Blade Runner é pós-moderno. Talvez eu não seja original, mas ele parece profético, representa o tema que todos temos diante de nós, ou seja, a consciência de que as máquinas um dia terão sentimentos. Olho com extremo interesse a inteligência artificial. O verdadeiro desafio intelectual é imaginar se essa máquina vai assumir sua autonomia com pequenos fragmentos de livre-arbítrio.

O que achou do filme Ela? Não lhe pareceu atual, apesar da proposta futurista?

Ela é absolutamente fascinante. É um olhar agudo sobre nosso presente. Por trás de uma história de amor ao silício, simples mas profunda e original, indagam-se a natureza e as implicações da intimidade e das relações humanas no mundo contemporâneo. Sem lições morais. O diretor, Spike Jonze, entra na mente e no coração da máquina, tentando eludir as diferenças. Quem amamos quando nos apaixonamos pelo computador? É nossa projeção, nosso desespero ou um outro ser? A câmara prefigura a sociedade que seremos em breve.

Sobretudo apresenta-nos a tecnologia não como uma inimiga insidiosa, mas sem preconceitos e sem evocar emoções obscuras. Uma visão inovadora, nada inquietante, uma pesquisa estética, sedutora.

A extrema velocidade do mundo seria um recurso para nos afastar da nossa humaníssima morte?

A morte é o tornassol do frágil arcabouço do moderno. Todas as imagens da mídia são imagens que celebram a beleza, o corpo sadio e juvenil. Rejeitam tudo o que nos remete à condição mortal. A morte continua sendo o único verdadeiro escândalo da modernidade.

Embora a espetacularizem, os meios de comunicação de massa se imunizam contra a morte porque ela contradiz seus valores: o consenso e o consumo. Não por acaso, para exorcizar a morte na internet, há uma ampla oferta de lóculos de cemitério com imagens, vozes e sons; tarifários para a mumificação; empresas que lançam em órbita as cinzas; e assim por diante.

Mas as coisas são ligeiramente mais complicadas do que isso. A morte verdadeira por envelhecimento precoce de Dolly, a simpática ovelhinha criada eugeneticamente, foi um golpe duro para aqueles que, além da própria imagem de preferência tridimensional, queriam manter em vida também o corpo.

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27 May

Desconexão entre pregação e prática em relação à LCWR é dolorosa

"Hoje estamos especificamente batendo à porta em nome de nossas religiosas cujas visões de ministério elas confiam à Leadership Conference of Women Religious – LCWR. Esta organização é a cabeça pensante do organismo do serviço das irmãs católicas", escreve o editorial do National Catholic Reporter, 23-05-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

O apelo do editorial desta importante publicação católica dos EUA afirma: "Francisco, nós não estamos sozinhos. Em todo os Estados Unidos, os católicos estão batendo à sua porta em nome destas mulheres fiéis centradas em Cristo. Elas são mulheres bem instruídas, cujas assembleias acontecem em espírito de oração e contemplação, ao mesmo tempo em que estão sendo elas criticadas pelas caracterizações encontradas em afirmações vindas da Congregação para a Doutrina da Fé".

"Francisco, algo está equivocado - diz o editorial. O duro ataque do cardeal Gerhard Müller à LCWR não se justifica. Esta não é apenas a opinião desta publicação. É a opinião dos fiéis católicos em todo o nosso país, incluindo teólogos profundamente envolvidos em questões eclesiais.

", questiona o 

Eis o editorial.

Em seu discurso aos peregrinos na Praça de São Pedro, no último dia 11, o Papa Francisco foi além de seu texto para pedir que “batessem às portas” de seus pastores, dizendo que isso os faria melhores bispos e padres. “E vos peço, por favor, para importunarem os pastores, para perturbarem os pastores, todos nós pastores, para que possamos dar a vocês o leite da graça, da doutrina e da orientação”.

No dia seguinte, na missa celebrada pela parte da manhã da Casa Santa Marta, Francisco pregou com base em Atos 11,1-18, onde Pedro diz à igreja reunida em Jerusalém que os gentios também passaram a acreditar em Jesus. Francisco disse que Pedro abrira as portas da Igreja a todos. “Quem somos nós para fechar as portas?”, perguntou. “Mas quem somos nós para fechar portas? Na Igreja primitiva, e mesmo hoje, existe aquele ministério do ostiário. E o que fazia o ostiário? Abria a porta, recebia a gente, fazia-as passar. Mas nunca foi o ministério de quem fecha a porta, nunca”.

Papa Francisco, hoje estamos aqui para importuná-lo, para bater à sua porta até que o senhor a abra.

Estamos assim fazendo em nome dos fiéis católicos americanos, que estão entre os milhões ao redor do mundo cujas vidas o senhor inspirou e encorajou em sua missão de renovar a Igreja. E hoje estamos especificamente batendo à porta em nome de nossas religiosas cujas visões de ministério elas confiam à Leadership Conference of Women Religious – LCWR. Esta organização é a cabeça pensante do organismo do serviço das irmãs católicas.

Francisco, nós não estamos sozinhos. Em todo os Estados Unidos, os católicos estão batendo à sua porta em nome destas mulheres fiéis centradas em Cristo. Elas são mulheres bem instruídas, cujas assembleias acontecem em espírito de oração e contemplação, ao mesmo tempo em que estão sendo elas criticadas pelas caracterizações encontradas em afirmações vindas da Congregação para a Doutrina da Fé.

O trabalho da LCWR não deveria ser impedido ou diminuído. Ele precisa ser encorajado e celebrado. Percebemos uma desconexão entre a forma como elas estão sendo tratadas e a Igreja do encontro que o senhor prega. Estamos batendo à porta, a espera de sua resposta.

Nós nos perguntamos: Qual a causa desta desconexão? Chegamos à conclusão de que a resposta é o medo. O medo de permitir que as mulheres se sentem à mesa. O medo, talvez, de se saber como uma igreja inclusiva se pareceria. Será que este sentimento deriva de um medo de mudar? Não seria este medo consequência do fato de não se passar tempo trabalhando em colaboração com as mulheres? A nossa experiência nos diz que escutar as ideias delas, as suas perspectivas, insights resultaria na construção de uma igreja mais forte, mais saudável. Mantê-las fora faz diminuir a todos nós.

Francisco, nada do que o senhor tem nos mostrado desde o primeiro dia de seu pontificado indica que sois um bispo levado pelo medo. Pelo contrário, o senhor se mostra completo e em paz consigo mesmo. A sua confiança humilde diz que o senhor confia no Espírito. Estes são os sinais saudáveis de que o Espírito está vivo dentro de si. Confie neste Espírito. Ele fará muito bem ao senhor. Irá levá-lo a abrir as portas das quais o senhor fala: a todos os fiéis, incluindo, ou melhor, começando com as irmãs da LCWR.

Esta conferência das religiosas não tem a pretensão de ser perfeita. Mas os “enganos” que [estas irmãs] possam ter cometidos não vêm de uma falta de fidelidade. Qualquer coisa nesse sentido terá vindo de uma dedicação àquela mesma fidelidade que o senhor articula em sua visão de Igreja: uma visão profética que abre espaço para a mudança e que não tem medo de ir adiante, arriscando-se em nome dos necessitados do mundo.

Francisco, a LCWR surgiu do Concílio Vaticano II, o qual o senhor guarda com carinho em seu coração. Este concílio veio a partir da visão de São João XXIII. Ele abraçou a renovação, a colegialidade, a justiça e o serviço, exatamente os princípios a partir dos quais as congregações religiosas femininas vêm trabalhando desde então. Estas mulheres não precisam ter medo. Precisam, isto sim, ser abraçadas.

Francisco, algo está equivocado. O duro ataque do cardeal Gerhard Müller à LCWR não se justifica. Esta não é apenas a opinião desta publicação. É a opinião dos fiéis católicos em todo o nosso país, incluindo teólogos profundamente envolvidos em questões eclesiais.

O prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé se pergunta, em voz alta, se o foco da LCWR sobre novas ideias a tira da capacidade de “sentir com a Igreja”. Francisco, o contrário é verdadeiro. É por causa do 'sentir com a Igreja' que a LCWR está explorando estas novas ideias. A falta na exploração daquilo que há de novo irá inviabilizar a missão da Igreja nos próximos tempos. Queiramos ou não, mudar é a norma da sociedade contemporânea. Expressar ensinamentos imutáveis exige novas compreensões e articulações.

Além disso, a natureza inflexível dos comentários do cardeal Müller estão fora de sintonia com o – e muito distante do – espírito da Igreja que o senhor está reimaginando e tentando construir.

Francisco, escute às batidas de seu povo à porta. Abra-a para a LCWR e desfaça o impasse com a congregação doutrinal. Abra a porta para que todo o povo de Deus passe. Continuamos confiantes que o senhor irá responder levado pelos seus instintos evangélicos de misericórdia, amor e inclusão.

Sem dúvida, como este impasse vai se resolver – ou não – nas próximas semanas e meses vai dar uma forma mais clara e nítida ao seu pontificado.

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27 May

As desilusões políticas de um ex-militante

Estudioso da filosofia existencialista de Jean Paul Sartre e autodidata aficcionado por macroeconomia, Lawrence Pih, dono de um dos maiores moinhos de trigo do Brasil, o Pacífico, ganhou notoriedade por ter sido um dos primeiros empresários de expressão no país a apoiar publicamente o Partido dos Trabalhadores (PT), ainda na segunda metade dos anos 1980. O partido sequer havia conquistado nas urnas suas primeiras grandes prefeituras, o que aconteceu em 1988 com as vitórias de Luiza Erundina em São Paulo e Olívio Dutra em Porto Alegre, e carregava o estigma de defender causas estritamente operárias, mas Pih já dizia a quem quisesse ouvir que votaria em Luiz Inácio Lula da Silva para presidente, promessa cumprida em 1989.

A reportagem é de Fabiana Batista, publicada pelo jornal Valor, 26-05-2014.

Se o engajamento do Pih político já não é mais o mesmo, fruto de uma série de desilusões, inclusive com o PT, a rotina do empresário continua a mesma. Aparentando bem menos que seus 72 anos de idade, ele ainda costuma chegar à sede do grupo Pacífico, no Jardim América, em São Paulo, às quatro e meia da manhã. Segue ativo e bem informado sobre o mundo do trigo, mas também acompanha de perto o mercado de capitais, onde investe parte de sua fortuna, que mantém em sigilo. Taxado de excêntrico no passado, em parte por causa das sete Ferraris que tinha na garagem, Pih atualmente prefere se dedicar aos 4,5 mil livros de sua biblioteca pessoal. E a figura que, após se separar da primeira esposa, circulou na "high society" paulistana e carioca nos tempos do "Dancing Days" acompanhado de atrizes como Sandra Bréia e Márcia Mayer, também ficou para trás. Há 14 anos Pih está casado com a decoradora Jussara, de 45 anos.

Na última eleição para a prefeitura de São Paulo, Pih chegou a ser cogitado como vice em uma eventual chapa encabeçada por Marta Suplicy. "Quando meu nome surgiu, informei a Marta que isso não era possível. Além de não ser filiado [ao PT], não acho apropriado um empresário ter um cargo político, pois sempre pode ser acusado de conflito de interesses", disse o empresário ao Valor. Foi mais um passo para longe da política. Na década de 1990, Pih foi vice-presidente do comitê de finanças dos empresários ligados ao PT e, nos anos 2000, fez parte do conselho político do partido, auge de sua influência entre os "companheiros".

Mas, depois de uma década de PT na Presidência da República, Pih afirma que foi excesso de otimismo de sua parte acreditar no partido como uma alternativa de mudança. "Não importa quem esteja lá, negociar com o Congresso tem um custo muito alto. Acho que eu não tinha o entendimento adequado de como funciona a política no Brasil. Houve pequenas mudanças, mas as grandes reformas não foram feitas", lamenta. Nos anos 90, quando presidiu o diretório paulista do PT, Paulo Okamotto, hoje à frente do Instituto Lula, teve algumas poucas conversas com Pih. "Ele era um cara progressista, que tinha uma afinidade com o PT e uma visão mais social. E não estava errado. A inclusão social vende mais pão". Okamotto lembra que havia naquele momento outros empresários, também progressistas, que apoiavam o partido. "Isso ajudou a mudar a imagem do PT e a trazer aos militantes - muitos do movimento sindical - uma imagem menos restrita da iniciativa privada".

Se não pode mais ser considerado um ativista, Pih também está muito longe de ter se alienado. Suas preocupações são as mesmas, e a veia crítica está mais saltada do que nunca. Para ele, nenhum dos três pilares macroeconômicos adotados pelo atual governo - superávit primário, meta de inflação e câmbio flutuante- estão sendo aplicados com rigor. "Apesar de ter reduzido a meta de superávit de 3,1% para 1,9% do PIB, o governo está com uma dificuldade grande de cumpri-lo. A inflação também deve superar o teto de 6,5% neste ano, mesmo com o represamento dos preços dos serviços públicos, energia e combustíveis. Soma-se a isso o fato de o câmbio ser mais administrado pelo Banco Central do que pelas forças do mercado".

Mas é na área social, principal bandeira do governo petista, que Pih faz suas mais duras críticas. De fato, reconhece o empresário, o partido foi fundamental para tirar 30 milhões de pessoas da pobreza e levar parte delas para a classe média. Mas, em sua visão, para uma classe média "modesta", já que a renda per capita mensal de R$ 292 mensais que caracteriza essa categoria equivale a apenas US$ 4,30 por dia. Ele também não acredita que o desemprego no país se limite aos 5,6% calculados pela Pesquisa Mensal de Emprego (PME), restrita a seis regiões metropolitanas. Para Pih, no mínimo a conta precisa ser feita a partir da Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios (PNAD) contínua, que abrange 3.464 municípios e já aponta uma taxa de desemprego de 7%. "Se considerarmos a relação entre brasileiros com idade apta para trabalhar (161 milhões de pessoas) e a população economicamente ativa (98 milhões de pessoas), vamos encontrar uma taxa na casa dos 12%", afirma. "Em muitos casos, não compensa entrar no mercado de trabalho, pois isso significaria perder o auxílio do Bolsa Família".

Às vésperas de mais uma eleição, Pih se diz cético sobre o futuro do país, independentemente de quem assumir a presidência a partir de 2015. "A estrutura política existente não abre espaço para reformas". No caso do governo Dilma, diz ele, a grande questão não está na capacidade de gestão da atual presidente, mas na ideologia que defende um Estado grande e interventor. "Faltou uma agenda econômica coerente. Nenhum gestor conseguiria implementar com eficiência um modelo que está, em si, equivocado". O Estado, observa Pih, tem uma carga tributária de 37% que, se somada ao déficit nominal de 4% e à participação estatal no BNDES, na Petrobras e nos fundos de previdência, passa a representar de 42% a 43% do PIB.

E o tamanho do Estado segue crescendo, cenário que contrasta com um grande desperdício de recursos no país. "Se a ideologia de quem está no poder é de que o Estado tem que ser maior, é difícil você apresentar resultados. É um modelo insustentável. Ainda mais com uma política social que é bastante generosa", afirma Pih. Só é possível adotar um modelo como esse, de acordo com o empresário, se o país sabe claramente de onde virão os recursos. "Que governo não quer dar saúde, transporte, habitação, educação, infraestrutura... A questão é: de onde virão os recursos? Por isso, independentemente de quem é o gestor, será difícil esse modelo apresentar resultados eficientes". O retrato é que esse modelo afungenta investidores, e estanca o crescimento do país, na medida em que o Estado desperdiça muito dinheiro público. "A formação bruta de capital fixo é de 18% no país. A maior parte disso, 16%, é setor privado. Como é que um país cujo Estado tem 43% do PIB só consegue investir 2%? Onde estão os recursos?".

O empresário conheceu o Brasil aos oito anos de idade, quando veio com a mãe e as duas irmãs se encontrar com o pai, Pih Hao Ming. Capitalista de Xangai, Ming abandonou os negócios em seu país depois de instalado o regime comunista na China, depois da Segunda Guerra. E não eram poucos negócios. O pai de Pih era dono de indústrias têxteis, armazéns e de uma empresa de importação e exportação de produtos químicos. Seu avô paterno havia inventado a tecnologia de impermeabilização de tecidos, muito demandada para a produção das capas de chuva dos soldados na guerra. Já a família de sua mãe mantinha negócios ligados à manutenção de navios.

Mas todos os bens ficaram em Xangai. A família se mudou, inicialmente para Hong Kong, na época uma colônia inglesa. "A única coisa que me lembro é que tínhamos que nos esconder no porão para não sermos atingidos pelos bombardeios japoneses em Xangai", lembra Pih. Segundo ele, o que preservou algum capital da família na época foi a perspicácia de seu pai de desviar uma das cargas de químicos que atracaria em Xangai para Hong Kong, onde os produtos foram vendidos. Pih Hao Ming tinha amigos americanos que já haviam sugerido que ele investisse fora da China, em ações de empresas dos EUA. "Foi com esse pequeno capital que ele recomeçou".

Mas a retomada não se deu em Hong Kong. "Lá não tinha ambiente para investir. E a proximidade com o território chinês nos mantinha sob constante insegurança", afirma Pih. Por isso, seu pai traçou um roteiro para buscar um novo país para se estabelecer. Começou pelos Estados Unidos, passou pela América Central e, enfim entrou no Brasil, pelo Rio de Janeiro. "Ele não se sentiu muito confortável na cidade. O clima era muito quente e o ritmo de trabalho não era o que ele estava acostumado". Quando chegou a São Paulo, no entanto, se encantou. "Viu o paulistano indo trabalhar às 6 horas da manhã, uma grande diversidade étnica e uma população muito jovem e acolhedora". Interrompeu o roteiro, que ainda incluía Argentina, África, Indonésia e Índia, e decidiu trazer a família para São Paulo.

Quando chegou, Pih se assustou com o quão parecidos eram os paulistanos. "Todos tinham aquele bigodinho na década de 50. Eu me desesperei. Como poderia reconhecer as pessoas?", questionei meu pai. As aulas de português começaram ainda em Hong Kong, quando a família foi avisada da mudança para o Brasil. "Já sabia falar algumas poucas palavras quando cheguei aqui. Mas quando ouvi pela primeira vez um locutor de futebol no rádio, novamente caí em desalento. Jamais conseguiria aprender a falar assim".

Seu pai, logo que se instalou em São Paulo, comprou uma pequena frota de caminhões para transportar produtos agrícolas. Assim, pôde entender o que cada região produz, onde há escassez e em que lugar existe abundância. "Em pouco tempo, ele percebeu que o trigo era para o Brasil o que o arroz era para China: um produto de grande consumo na dieta do povo. Tem margem modesta, mas é um negócio seguro". Assim, em 1955 nasceu o moinho Pacífico, em Santos, em alusão ao oceano que banhava o país de origem da família. "A letra 'P' era também a inicial do nosso sobrenome". Apesar de o processamento de trigo ter se tornado a atividade principal do grupo, os investimentos se expandiram para o mercado de capitais e também ao ramo imobiliário. O estoque de terrenos do grupo no Estado de São Paulo é de 2 milhões de metros quadrados, o equivalente a mais de nove vezes o tamanho do novo estádio do Maracanã.

Pih não revela qual seu patrimônio e nem publica resultados de suas empresas, o que mantém a curiosidade dos concorrentes. Entre os empresários do segmento moageiro, Pih é considerado, no mínimo, polêmico. Suas posições costumam diferir das dos colegas, incômodo que se torna maior por causa das relações políticas do dono do Pacífico ou do espaço que ele costuma ter na imprensa. "Pih defende os pontos de vista dele, não os do segmento", diz um empresário do ramo. De sua parte, Pih afirma manter relações "cordiais" com outros donos de moinhos com os quais têm mais contato. "Refiro-me à Anaconda e à Correcta (Glencore). Trazemos trigo no mesmo navio. Sou amigo do Sérgio Amaral, presidente da Abitrigo", afirma.

Nos bastidores, comenta-se que a divergência entre Pih e seus pares nasceram na época em que o governo controlava, por meio de cotas, a quantidade de trigo que cada moinho processava no país. Um decreto federal, baixado do dia para a noite, limitou drasticamente a cota de trigo a qual o Pacífico tinha direito, ao mesmo tempo em que teria beneficiado largamente alguns de seus concorrentes. "De fato, durante o regime militar, em 1967, o Pacífico teve sua cota reduzida. Acredito que o decreto tenha sido arquitetado por algumas empresas do setor junto com os militares com objetivos inconfessáveis. Mas não foi contra o Pacífico especificamente, pois outras empresas também foram prejudicadas", afirma o empresário.

Depois da liberação do mercado, em 1990, no governo Collor, o Pacífico se tornou a maior unidade moageira de trigo das Américas. Num país altamente dependente de cereal importado como o Brasil, a empresa tem a vantagem de contar com um dos dois únicos berços de atracação para desembarque de trigo no porto de Santos (SP). No mesmo complexo, fica também o moinho e uma estrutura de armazenagem para 200 mil toneladas.

O grupo Pacífico já desenvolveu planos para verticalizar suas operações e produzir massas e, talvez, biscoitos. Mas há alguns anos se convenceu de que industrialização definitivamente não é o foco nacional. "Ser empresário no Brasil é vocação e sacerdócio. A indústria de transformação já foi 29% do PIB em 1995, e hoje é 14%", afirma Pih. Já na área logística, o empresário vê boas oportunidades e se prepara para participar de uma concorrência pública por mais um berço em Santos. "Estou aguardando as regras da licitação para me posicionar". Com um segundo berço, há planos para construir também outro silo, para 240 mil toneladas. Com a ampliação de sua estrutura, o Pacífico poderá, no futuro, até partir para importação e exportação de outros grãos, como soja e milho. Mas não há nada concreto nesse sentido.

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27 May

Inúteis. Escritor comenta as eleições europeias

"É difícil imaginar um retrocesso radical e imediato do seu projeto de união – embora até a permanência do euro, a moeda única de uma nação fictícia, longe de ser única, esteja sendo posta em dúvida –, mas o resultado das eleições deste fim de semana pode muito bem sinalizar o prelúdio de um suicídio", escreve Luis Fernando Verissimo, escritor, em artigo publicado pelo jornal Zero Hora, 26-05-2014

Eis o artigo.

As eleições para o parlamento europeu que aconteceram neste fim de semana foram um plebiscito disfarçado sobre o futuro da Comunidade Europeia. Entre os candidatos pedindo votos, há um forte e barulhento grupo – talvez uma maioria – que é contra a comunidade, e, portanto, quer ser eleito para uma instituição que pretende destruir.

As razões para sabotar a União Europeia vão desde o nacionalismo emocional até a reação da Europa do Norte ao atraso que representam as economias letárgicas da Europa do Sul e a ameaça de admissão de mais países problemáticos à comunidade, favorecendo a invasão de mão de obra barata do Leste. E passando pelo ressentimento de muitos com o domínio da Alemanha de Merkel sobre todos. A receita de frau Merkel para a saúde geral da comunidade é apfelstrudel, apfelstrudel e não tem conversa.

Assim, boicotada por dentro, a Comunidade Europeia caminha para ser outra Nações Unidas, um monumento à inutilidade de uma boa ideia. As Nações Unidas também nasceram como um projeto de congraçamento, para substituir as guerras pelo debate e o embate irracional pela razão.

É só lembrar de todos os conflitos que acometeram o mundo desde que as Nações Unidas existem, sem que a organização pudesse evitá-los ou condicionar a política de grandes potências, para desesperar a humanidade. A ONU faz um trabalho valioso nas áreas da saúde e alimentação internacionais e continua lá, no seu imponente prédio à beira do East River, mas, no seu propósito principal, fracassou.

A Comunidade Europeia também tem um vistoso parlamento, em Bruxelas, simbolizando sua própria frustração. É difícil imaginar um retrocesso radical e imediato do seu projeto de união – embora até a permanência do euro, a moeda única de uma nação fictícia, longe de ser única, esteja sendo posta em dúvida –, mas o resultado das eleições deste fim de semana pode muito bem sinalizar o prelúdio de um suicídio.

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