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Sobre Virtù e Fortuna na Terra do Sol: Marina e a Tragédia de Campos
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23 Jun

Trabalhadores dos estádios não conseguem nem dar uma 'espiadinha' nos jogos

A poucos metros do gramado, funcionários lidam diariamente com a tortura de estarem próximos, mas não assistir as partidas.

A reportagem é de e publicada pelo portal do jornal O Globo, 22-06-2014.

Só mesmo a emoção de trabalhar em uma Copa do Mundo para que os apaixonados por futebol consigam lidar com a tortura que é estar no estádio e não poder assistir nem a um minuto dos jogos.

Para Bruna Medina, de 28 anos, que é ascensorista de um dos elevadores da imprensa do Maracanã, a energia que emana de uma Copa é suficiente. Mas, se um gênio saísse da lâmpada e dissesse que iria atender a apenas um de seus desejos, ela escolheria assistir ao Brasil na final e, se possível ainda, esbarrar com Daniel Alves, de quem é fã. — Tinha muita vontade de estar aqui na Copa, tem gente do mundo todo — diz Bruna, que não fala outras línguas mas, com um sorriso no rosto, sempre consegue passar a sua mensagem.

Se Bruna sonha com Daniel Alves, Giovanna Paola Gomes teve mais sorte e conseguiu uma foto com Ronaldo Fenômeno — que entrou no elevador justo quando ela conversava com O GLOBO. — Tira uma foto para mim? Estou sem celular — pediu a ascensorista, em pleno estado de choque, à repórter.

Giovanna perdeu a abertura do Mundial, entre Brasil e Croácia, pilotando o elevador oito do prédio Oeste. Além de ficar por fora do que acontecia no campo, passou cerca de 20 minutos presa no elevador com 15 pessoas. Nesse dia, ela acredita ter sido xingada em vários idiomas. — O elevador já dava tranco desde o dia anterior. Mas não tinha parado. Os jornalistas estrangeiros estavam preocupados, e tivemos de colocar um papel, escrito “ajuda”, na frente da câmera. O radio não funcionava, e o alarme não surtia efeito — contou Giovanna, que também perdeu a transmissão do jogo entre Uruguai e Inglaterra, no Itaquerão. — Fico no elevador para cima e para baixo, nem sei quando escurece. Mas, a final, não vou perder!

Um dos motoristas dos ônibus das cinco linhas colocadas pela Fifa à disposição dos jornalistas para o transporte até o estádio da Fonte Nova, em Salvador, José Carlos dos Santos é outro que sofre por estar tão perto e tão longe dos jogos. — Não tenho credencial e não posso entrar no estádio. Preciso correr para a televisão mais próxima para não perder nenhum lance. Pouco antes de o jogo acabar, já estou de volta ao volante, pertinho do estádio, mas sem sequer ver o campo — conta ele.

Alex Vieira, pelo menos, consegue acesso ao estádio. Ele foi escalado para dar informações e impedir o acesso de torcedores às áreas restritas dos bastidores da Fonte Nova, distantes do campo. Não viu a cor da bola, a não ser pela televisão. — Eu trabalho para as pessoas poderem se divertir. É um pouco frustrante, mas é o meu trabalho — comenta Alex, sem jogar a toalha: — Ao menos dá para escutar a explosão da torcida na hora do gol. E na Fonte Nova foram muitos...

Thiago Manoel da Silva, também é segurança particular, mas no Maracanã. Nos jogos fora da Copa, ele até consegue ver os jogos, mas no Mundial, ele preferiu ficar nos bastidores porque a salário é maior. — É angustiante. Gostaria de ver o jogo, mas só de ouvir a torcida e ver pessoas passando fico animado — jura.

E não se faz Copa do Mundo nem Jogos Olímpicos sem voluntários. Caso do desempregado Clenildo Oliveira Santana de 37 anos, que trabalha no estacionamento da Fifa e de VIPs na Arena Amazônia, em Manaus. De lá, ele diz não ter noção do que acontece no campo. — Na hora em que escuto os gritos lá dentro, fico ansioso para saber se foi gol. Só descubro mesmo quem ganhou quando as pessoas começam a sair da arena — conta.

Há outras pessoas cujas profissões não permitem o encontro com amigos, com a família, ou mesmo a diversão de estar com desconhecidos em algum lugar que tenha uma televisão. Profissionais de saúde, de segurança pública, maîtres, garçons, cozinheiros, vendedores ambulantes, entre outros, fazem parte da turma dos sem-Copa.

— Minha família está fazendo um churrasco nesse momento. É claro que gostaria de estar lá me divertindo e vendo o jogo do Brasil. Mas tenho consciência da importância do meu trabalho — esume a enfermeira Kely Cockrane, de 29 anos.

Durante o Mundial, o Centro de Operações do Rio (COR), da prefeitura, responsável pelo monitoramento da cidade, não pode parar. Marcio Almeida, diretor do COR, faz parte do grupo de mais de 150 profissionais que estava em pleno expediente no local durante o jogo do Brasil contra o México, na terça-feira. O telão de 80 metros quadrados - por onde operadores monitoram a cidade - ganhou a companhia de duas televisões, sintonizadas no jogo.

— É para que os operadores possam dar uma olhada aqui ou ali nos jogos da seleção, mas a prioridade é a cidade e o bom funcionamento dela. Trabalhamos para que os cariocas e turistas possam aproveitar a Copa com segurança — explica Marcio. — ostaria de estar curtindo os jogos com amigos, mas trabalhar para o coletivo é mais gratificante.

Maître do Maxim's, na Avenida Atlântica, em Copacabana, Wagner de Souza, de 62 anos, é responsável pelo atendimento a inúmeros turistas estrangeiros. — De vez em quando, tem como dar uma espiadinha. E é divertido ver os turistas brincando uns com os outros. Está muito bom, embora não possa ver os jogos como gostaria — diz o maître.

Acompanhando uma equipe da emissora de TV mexicana Televisa, o taxista Wagner Azevedo, de 62 anos, estava angustiado no Brasil x México. — Pensei em ver o jogo do carro mesmo, mas a televisão do GPS pifou. Infelizmente não deu... —resignava-se ele, estacionado na Avenida Atlântica, bem distante da Fifa Fan Fest.

Já o cabo da Polícia Militar Diogo Nascimento tinha o que comemorar. — No dia do primeiro jogo trabalhei com todo o equipamento de proteção, que pesa cerca de 15 quilos, durante 16 horas. Mas devo estar de folga na segunda-feira e vou ver o jogo do Brasil e Camarões. Vai ser a minha vez de torcer — festejava o policial.

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23 Jun

Demanda energética brasileira e a necessidade de um sistema hidrotérmico. Entrevista especial com Claudio Sales

“Não há mais, no Brasil, tanto lugar para fazer reservatório de acumulação. Por isso, é natural - e é o que se espera - que o Brasil tenha cada vez mais um sistema hidrotérmico eficiente, e que a energia termelétrica seja a mais eficiente possível para complementar adequadamente a geração renovável que temos”, afirma o presidente do Instituto Acende Brasil. 

Foto: www.atitudessustentaveis.com.br

Uma análise da situação financeira do setor elétrico brasileiro possibilita chegar à conclusão de que ela “não é sustentável, porque a receita que o setor obtém não está sendo suficiente para arcar com todos os seus custos”, diz Claudio Sales à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por telefone. Entre os diversos fatores que têm gerado essa situação, um deles, “sem dúvida, tem a ver com a questão do armazenamento de energia, que está impondo que o Operador Nacional do Sistema Elétrico decida por acionar praticamente a totalidade do parque termelétrico de forma contínua. Isso traz um sobrecusto muito grande para o setor, que, no limite, se reflete nesse desbalanço que atualmente já atinge a casa de muitos bilhões de reais”, explica.

Dado que a demanda de energia tem aumentado nos últimos anos, e não há condições de aumentar significativamente a quantidade de hidrelétricas no país, é preciso investir “mais e melhor” na construção de termelétricas, adverte. Segundo ele, se a situação atual de acionar as usinas térmicas para garantir o abastecimento de energia do país for recorrente, como tem sido neste ano, é muito melhor gastar um pouco mais para construir a usina, mas sabendo que durante esses longos períodos ela terá um custo operacional muito mais barato, para que o custo resultante para o consumidor seja bem menor”.

Sales pontua ainda que o parque termelétrico brasileiro foi construído com base em uma premissa de que a complementação térmica se daria em períodos espaçados, mas essas premissas não correspondem à realidade. Hoje, informa, “mais de 40% das nossas usinas são usinas com custo operacional muito alto e é claro que isso está tendo uma influência muito dura no custo desse acionamento continuado que estamos fazendo”. E acrescenta: “É possível pensar em usinas de maior porte, com gás natural, ciclo combinado, até mesmo carvão, usando as vocações específicas que nós temos. Enfim, usinas que atendam aos atributos de despachabilidade por parte do Operador Nacional do Sistema, para poder firmar, de maneira mais econômica, social e ambiental, a energia com a qual o país precisa contar”.

Claudio Sales é engenheiro industrial formado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-RJ, frequenta o President´s Management Program da Harvard University e é presidente do Instituto Acende BrasilObservatório do Setor Elétrico Brasileiro, desde 2003.

Confira a entrevista.

Foto: www.petronoticias.com.br

IHU On-Line - Qual é a situação financeira do setor elétrico brasileiro e por que o setor enfrenta uma situação de vulnerabilidade financeira? Essa situação financeira gerou a crise do setor ou uma crise gerou essa situação de vulnerabilidade financeira?

Claudio Sales – Ao fazer um retrato da situação das finanças do setor hoje, a conclusão é de que ele não é sustentável, porque a receita que o setor obtém não está sendo suficiente para arcar com todos os seus custos. Então, a causa disso é de origem diversa, e uma delas, sem dúvida, tem a ver com a questão do armazenamento de energia, que está impondo que o Operador Nacional do Sistema Elétrico decida por acionar praticamente a totalidade do parque termelétrico de forma contínua. Isso traz um sobrecusto muito grande para o setor, que, no limite, se reflete nesse desbalanço que atualmente já atinge a casa de muitos bilhões de reais. Ou seja, para custear esse acionamento termelétrico no nível que está sendo praticado hoje, as tarifas arrecadadas pelo setor não são suficientes, fazendo com que exista essa exposição financeira a ser resolvida.

IHU On-Line- Como o governo se posiciona diante dessa questão de crise?

Claudio Sales – O governo reconhece que tem um desafio financeiro gigantesco, tanto que está se mobilizando na montagem das soluções. Quando você olha, por exemplo, a atividade de distribuição de energia, a empresa distribuidora tem dois papéis: um é o de prestar o seu serviço propriamente dito e o outro é agir como um grande arrecadador de recursos, os quais reparte com os outros elos da cadeia. Então, por exemplo — só para dar uma ordem de grandeza —, nós pagamos em média 100 reais por megawatts/hora de energia elétrica, mas, em média, somente cerca de 20 reais vão para a distribuidora cobrir seus custos, pagar seus financiamentos, remunerar seu capital; o restante é repassado para terceiros. O principal arrecadador sempre é o governo, na forma de encargos, mas a outra parcela arrecadada vai para a geração, ou seja, para a energia que as distribuidoras compram nos leilões, e para a transmissão de energia, que também é contratada nos leilões pelo governo.

Então, a distribuidora regulariza o setor, mas como seus reajustes são anuais ela adianta esse recurso para fazer o pagamento pela geração e pela transmissão de energia, e quando chega na data de aniversário do seu reajuste, ela leva esses recursos que adiantou para a tarifa, para que então receba de volta o valor ao longo do ano seguinte. 

O que aconteceu agora? A ordem de grandeza desse fenômeno mudou. Dado aquilo que eu falei no início, da necessidade desse acionamento intenso de termoeletricidade e a forma que ela está sendo contratada, a demanda financeira para fazer esse adiantamento extrapolou até o total da capacidade de caixa das distribuidoras. Se você olhar a capacidade de geração de caixa do setor elétrico como um todo — medido na forma do indicador financeiro que mostra a geração de caixa das empresas —, é algo na ordem de 10 bilhões de reais. O custo que teria de ser adiantado por esse acionamento termelétrico nas diferentes formas de contratação ao longo deste ano, adiantado para que as empresas só viessem a receber em 12 parcelas a partir da sua data de aniversário de reajuste, é muito superior a isso, algo na ordem de 20 bilhões. Ou seja, está claro que as empresas distribuidoras não têm recurso para fazer isso, e o governo percebe essa situação, como tem se mobilizado na instrumentação de soluções para esse problema.

"O desejável é que se fizessem usinas com reservatório de acumulação, por razões óbvias, só que não há mais tantas oportunidades assim, dados os critérios socioambientais com que são tratadas as usinas hidrelétricas"

IHU On-Line – De que maneira?

Claudio Sales - São duas as formas mais relevantes. A primeira, com aportes do Tesouro em certa medida, e a outra é o tal do empréstimo que o governo instrumentou que seja feito, tendo como garantias a própria inclusão desse custo na tarifa para os anos seguintes, na ordem de 11,2 bilhões até agora. O veículo utilizado para isso foi a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica - CCEE, que recebe esse empréstimo e repassa o recurso para as distribuidoras poderem fazer frente a esse custo.

IHU On-Line - Por outro lado, quais são as razões técnicas que originaram a crise por que passa o setor elétrico brasileiro?

Claudio Sales – É uma combinação de inúmeros fatores. Um deles tem a ver com as condições de abastecimento propriamente ditas: nível de reservatórios, hidrologia, etc. Segundo o próprio Operador Nacional do Sistema Elétrico, a expectativa era de que, no final de abril  quando termina o período de cheias , os reservatórios da região Sudeste e Centro-Oeste — que são os mais relevantes do ponto de vista de capacidade de armazenamento do nosso sistema — tivessem chegado, pelo menos, em um nível de 43%, para que tivéssemos um ano e um futuro totalmente tranquilo em relação ao abastecimento de energia. Com esse nível, seria possível passar esse período de seca até o final de novembro — quando recomeçam os períodos de cheias  e, assim, no futuro, ter um ponto de partida  com maior segurança. Como esse quadro estimativo não foi atingido, a consequência é esse acionamento permanente de usinas termelétricas de todo o parque, o qual, felizmente, temos para poupar água nos reservatórios.

Outras coisas têm a ver com algumas regras estabelecidas como, por exemplo, a instituição do regime de cotas para energia proveniente das usinas cujas concessões foram renovadas pelo novo regime. O que fica implícito é que o regime de cotas, em essência, trata de contratar a energia por um valor que cobriria apenas os custos de operação e manutenção da usina, porém se transfere para o consumidor o risco hidrológico. Se essas usinas, por alguma circunstância, não gerarem o somatório da garantia física que se espera delas, então o gerador contrata essa energia no mercado de curto prazo e repassa esse custo para o consumidor. Como nós estamos nessa situação em que as hidrelétricas estão gerando menos do que a sua garantia física, porque está se acionando termelétricas para guardar água nos reservatórios, isso significa que uma parcela dessa energia está sendo contratada no mercado de curto prazo, cujo preço está elevado, e esse custo é transferido para o consumidor. Estou dando dois exemplos, mas o principal e mais relevante tem a ver com essa situação de abastecimentos em níveis de reservatórios que, no limite, impõem esse racionamento intenso e continuado no parque termelétrico, aumentando efetivamente o custo da energia que está sendo gerada no Brasil. Num montante, as empresas distribuidoras não têm condições de adiantar esse recurso com o que elas dispõem no seu próprio caixa, por isso a necessidade dessas soluções que o governo está buscando implementar.

IHU On-Line - O senhor comentou recentemente que os reservatórios hidrelétricos armazenam água para períodos cada vez menores. Em 2000 os reservatórios armazenavam o suficiente para seis meses de consumo. Hoje, armazenam para pouco mais de quatro. Quais as causas disso?

Claudio Sales – Primeiro tem que pensar o seguinte: quando se olha historicamente ao longo de anos ou décadas o consumo brasileiro de energia elétrica, ele cresce até determinada taxa. Imagine um gráfico e uma diagonal crescente definindo certa inclinação do crescimento da demanda de energia. Mas se fosse fazer um gráfico da capacidade de armazenamento, seria possível observar que os reservatórios não crescem no mesmo ritmo com que cresce a demanda de energia. Então, é natural que, se eu meço a quantidade de energia que tenho armazenada com a proporção do consumo que tenho a cada momento, esse número seja declinante ao longo do tempo. O resultado disso é esse dado que você está referindo. Em 10, 12 anos, como proporção do nosso consumo, a capacidade de armazenamento era equivalente a um período de seis meses e meio, mas hoje é de quatro meses e meio. Se fosse acontecer isso por mais tempo, a tendência seria a mesma. No passado, nós tínhamos um reservatório que apelidávamos de “plurianuais”, ou seja, a quantidade de energia armazenada nos reservatórios era suficiente para, teoricamente, cobrir o consumo do Brasil por mais de um ano. Quer dizer, mesmo que no ano seguinte tivesse seca extrema, haveria energia armazenada para poder atender o consumo. Isso foi passado, não vai acontecer mais.

Por que afirmo com clareza que não vai acontecer mais? Porque fiz uma conta aproximada demonstrando que, se a energia armazenada crescesse no mesmo ritmo que estamos projetando o crescimento da demanda de energia, precisariam ser construídos reservatórios com armazenamentos do tipo de Sobradinho, que talvez seja o maior que o Brasil dispõe, por três ou quatro anos. Ocorre que não há mais, no Brasil, tanto lugar para fazer reservatório de acumulação. Por isso, é natural — e é o que se espera — que o Brasil tenha cada vez mais um sistema hidrotérmico eficiente, e que a energia termelétrica seja a mais eficiente possível para complementar adequadamente a geração renovável que temos, investindo, portanto, em usinas hidráulicas, mas também em eólicas, que estão crescendo bastante, e na biomassa, que ainda está iniciando, mas que o Brasil tem espaço de desenvolver.

"Em 2001 a geração termelétrica era de 7,7%. Hoje, é de 19,1%, ou seja, temos um parque termelétrico muito mais robusto do que tínhamos antes"

IHU On-Line - Esse dado implica uma crítica à construção de hidrelétricas com ou sem reservatórios?

Claudio Sales – Existem as usinas com reservatório de acumulação e as usinas a fio d'água. A usina com reservatório de acumulação é aquela que acumula água no período da cheia, e ao longo do ano vai se consumindo essa água até que voltem os períodos de cheias. A usina a fio d'água é aquela em que praticamente o nível da água não se mexe, e a energia produzida é em função da água que está chegando ao reservatório em determinado momento. A Usina de Belo Monte é uma usina a fio d'água, ou seja, tem a capacidade instalada para gerar cerca de 11 mil megawatts e o reservatório pouco mexe, porque foi definido praticamente em cima da calha do rio. Como em período de cheia o rio era largo e em período de seca era fininho, usou-se o período de cheias para definir as fronteiras do reservatório. No período de cheia, quando chega aquela montanha de água que passa em todo o reservatório, são gerados os 11 mil megawatts. Quando chega o período de seca, passa pouca água no reservatório e só sai pouca água, para que o nível continue o mesmo e ele gere mil e tantos megawatts.

Mas, falando sobre isso, saltam aos olhos coisas como, por exemplo, a Usina de Itaipu, que é individualmente a usina que mais produz energia no Brasil, uma usina a fio d’água, e o reservatório de Itaipu pouco mexe ao longo do ano, ele é regularizado rio acima em outras barragens. Então, o desejável é que se fizessem usinas com reservatório de acumulação, por razões óbvias, só que não há mais tantas oportunidades assim, dados os critérios socioambientais com que são tratadas as usinas hidrelétricas de hoje em dia, e dado também o fato de que hoje a maioria dos novos projetos de maior porte está na região Norte, que é uma região de característica plana, não existem mais muitos lugares onde se consiga fazer isso. Então, isso faz com que o ritmo de crescimento das usinas com reservatório de acumulação seja significativamente menor do que o crescimento da demanda do consumo e da produção de energia.

IHU On-Line - O que mudou no setor energético em relação à crise do início dos anos 2000?

Claudio Sales – Mudou muita coisa. O Brasil tem avançado em muitas áreas. Em primeiro lugar, em 2001 a geração termelétrica era de 7,7%. Hoje, é de 19,1%, ou seja, temos um parque termelétrico muito mais robusto do que tínhamos antes. Em relação à transmissão de energia, foi feita uma expansão muito significativa ao sistema de transmissão, possibilitando transferência de energia muito maior dentro dos diversos subsistemas. Como nós temos regimes de chuvas diferentes nas diferentes regiões do Brasil, isso aumenta a flexibilidade e a segurança no abastecimento.

IHU On-Line - Então não há mais risco de desabastecimento de energia no Brasil?

Claudio Sales – Em um sistema predominantemente hidrelétrico como o brasileiro, a palavra “risco” é intrínseca. O problema é a dimensão deste risco de déficit que se quer considerar no modelar e trazer esse risco para níveis que sejam economicamente sustentáveis. Porém, existe uma enorme volatilidade, dada a predominância hidrelétrica, desse risco, tendo em vista o que de fato venha a ocorrer em termos de regime de chuvas. Então, passamos, em vários momentos da nossa história, por períodos de risco muito elevados. Quando o Operador Nacional do Sistema toma a decisão de fazer um acionamento intenso e continuar com termelétrica de modo tão custoso como está acontecendo, é porque está reconhecendo que os níveis de risco com os quais ele trabalha já impõem essa necessidade, mesmo que ela custe o que está custando. Então, dito isso e olhando para este ano, dado que o período de cheias teoricamente se encerrou, resta observar  e é isso que o Operador Nacional do Sistema faz  o que vai acontecer de agora até novembro, porque isso vai sinalizar com que nível de conforto e segurança nós vamos caminhar para 2015.

As últimas semanas trouxeram, do ponto de vista do regime de chuvas, boas notícias, por causa da chuva intensa que aconteceu no Sul e por causa dos efeitos do El niño, beneficiando um pouco os reservatórios e fazendo com que as projeções que o próprio Operador Nacional do Sistema faz e revê semanalmente tenham apontado alguma melhora.

Mas isso não significa que se possa ter segurança absoluta em relação a essas projeções feitas pela modelagem que nós dispomos, até porque já se sabe  e nós mesmos avaliamos isso — que existe uma série de pontos que os resultados provenientes da modelagem do setor, modelos computacionais usados tanto no planejamento como na operação, quando testados, nem sempre estão 100% alinhados com a realidade que se chega do nível dos nossos reservatórios e da capacidade de geração das usinas.

IHU On-Line - O setor hidrelétrico é bastante vulnerável ao ciclo de chuvas. É preciso diversificar a matriz?

Claudio Sales – Essa vulnerabilidade é inerente a um sistema predominantemente hidrelétrico. Supondo que tivéssemos no país um sistema 100% termelétrico, não seria necessário ter um preocupação em relação ao controle do consumo. Então, vamos supor que existem 100 usinas de 10 megawatts cada uma, e que a demanda é mais ou menos 900, digamos assim, então temos 100 usinas, mas acionamos 90. Se a demanda crescer mais, é possível atender a demanda lingando as outras usinas e, portanto, é muito fácil atender o mercado.

Agora, vamos complicar: vamos supor um sistema que é predominantemente hidrelétrico. Ele apresenta uma dificuldade, porque eu sei que hoje vou precisar de 1.000 megawatts de energia, mas não sei o que vai acontecer amanhã. Então, tenho de tomar uma decisão que me diga o que é melhor hoje: consumir a água que está no reservatório dessa usina e atender de forma “baratinha” essa demanda de 1.000 megawatts hoje, ou ficar com medo do que vai acontecer no futuro, guardar essa água, gerar só 700 ou 800 megawatts de energia e gerar o resto de energia através das térmicas. Então, este, de forma muito simplista, é um desafio que o operador tem no sistema de predominância hidráulica. Como você resolve esse desafio? Uma opção é por absurdo, ou seja, digamos que não se quer ter risco nenhum de falta de energia, então, se constroem tantas usinas que ficarão paradas ao longo do tempo, mas quando precisar poderão ser ligadas, só que isso tem um custo infinito para a sociedade.

Então, por absurdo, se mostra que esse modelo não faz sentido. Em todo caso, em alguma medida o país decide o nível de risco que quer correr. De fato, é desafiante e teremos uma operação tão mais eficiente quanto esses modelos sejam apurados, quanto o nosso parque termelétrico seja mais eficiente.

IHU On-Line – Então, o Brasil precisa investir mais em termelétricas?

Claudio Sales – Seguramente mais é melhor. Por que melhor? O parque termelétrico brasileiro, que hoje é de 36 mil megawatts, dos quais 21.200 megawatts são operados pelo Operador Nacional do Sistema, foi construído ao longo de décadas, mas muito dele a partir de premissas diferentes das premissas da realidade operacional do sistema hoje. Grosso modo, há usinas termelétricas de dois grandes tipos: uma usina que, para construir, precisa de um investimento muito grande, mas que, quando ela for operada, o custo operacional é pequeno; ou, no outro extremo, uma usina que, para construir, o investimento seja “pequenininho”, mas quando vier a ser acionada, o custo operacional será muito grande. É claro que em um sistema como o nosso tem espaço para todos os tipos. Agora, se, por exemplo, você tem uma situação em que o que se espera do seu parque termelétrico é apenas acioná-lo esporadicamente por pequenos períodos de complementação no caso do parque hidrelétrico não dar conta, então é claro que é melhor ter usinas do tipo dois, porque se é para ficar parada a maior parte do tempo, é melhor investir menos, pois, do contrário, se tem um custo gigantesco do capital. Se, por outro lado, tem uma situação como a que nós estamos vivenciando, em que as usinas têm de ficar quase todas, se não todas, acionadas de forma continuada por longos períodos, convenhamos que é muito melhor gastar um pouco mais para construir a usina, mas sabendo que durante esses longos períodos ela terá um custo operacional muito mais barato, para que o custo resultante para o consumidor seja bem menor.

O parque brasileiro instalado foi construído numa premissa em que a complementação térmica se daria muito mais na linha do exemplo que eu dei como opção dois, só que essa não é a nossa realidade. Então, nós fizemos o retrato do nosso parque termelétrico e vimos que mais de 40% das nossas usinas são usinas com custo operacional muito alto e, é claro, isso está tendo uma influência muito dura no custo desse acionamento continuado que estamos fazendo.

IHU On-Line - Uma matriz eficiente, no Brasil, deveria contemplar termelétricas e hidrelétricas?

Claudio Sales – É possível pensar em usinas de maior porte, com gás natural, ciclo combinado, até mesmo carvão, usando as vocações específicas que nós temos. Enfim, usinas que atendam aos atributos de despachabilidade por parte do Operador Nacional do Sistema, para poder firmar, de maneira mais econômica, social e ambiental, a energia com a qual o país precisa contar.

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23 Jun

Tuitadas

Airton Melo ‏@infraton  
Calamidade pública: Natal aguarda Itália X Uruguai com apagão e casas interditadas. http://glo.bo/Us7BJb 

#FreeTenharim ‏@PersonalEscrito  
#CopaPraQuem #DireitosHumanos violados MT @acacio1871 Torcedores fazem protesto no Maracanã: http://oesta.do/24hcopa 

Sergio Pecci ‏@SPPecci  
RT @fscavasin: QUE EXEMPLO!! El presidente de Uruguay espera su turno en el hosptital público.

PhotosDePalestine ‏@sos4palestine  
Les check-points empoisonnent la vie des habitants... Chaque jour, une armée leur inflige des traitements humiliants.

Agence France-Presse ‏@AFP  
#PHOTO Displaced Iraqi children sit in a UN tent at a camp in Aski Kalak near Arbil. Story: http://u.afp.com/WYT 

Claudia Costin ‏@ClaudiaCostin  
RT @Ingressodofla: IMAGEM ESPETACULAR. Isso é Copa do Mundo meus amigos! pic.twitter.com/756Jeoyf3n via @matthewshirts

Nouvel Observateur ‏@LeNouvelObs  
#ALGCOR L'Algérie remporte son premier match en Coupe du monde depuis 32 ans ! > http://bit.ly/1nuPlY2 


 
Fernando Cabral ‏@fernandocabral  
Marina Silva: aquela política que começou defendendo matas e terminou apoiando campos.

Sergio Abranches ‏@abranches
locutores de TV no Brasil nada sabem de geografia. Chamar a seleção do EUA de norte-americana igual a chamar a do Brasil de sul-americana.

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23 Jun

Perdemos uma genial mulher de visão antecipadora: Rose Marie Muraro

"Rose Marie Muraro partiu. Mulher fora de todos os parâmetros, lúcida, implacável, sempre atualizada, leitora incansável, superando as limitações da visão". O comentário é de Luiz Alberto Gómez de Souza, sociólogo, diretor do Programa de Estudos Avançados em Ciência e Religião, Universidade Candido Mendes, em artigo que nos enviou e publicamos a seguir.

Eis o artigo.

Rose Marie Muraro partiu. Mulher fora de todos os parâmetros, lúcida, implacável e sempre atualizada, leitora incansável, superando as limitações de sua visão (“nasci quase cega”). Infatigavelmente acompanhando os  temas emergentes e abrindo  novos e surpreendentes horizontes. Nos anos sessenta reformulou , com Leonardo Boff, a Editora Vozes e transformou uma insossa revista franciscana, na então moderna Painel Brasileiro. Ali tive minha coluna internacional, com Alceu Amoroso Lima, Heloneida Studart e tantos outros. Durante anos lutara pelo feminismo, na sua Editora Rosa dos Tempos. Em Seis meses em que fui homem (Rosa dos Tempos, 1990), candidata a deputado, denunciava uma maneira de fazer política masculina e excludente. Com Leonardo Boff escreveu, Feminino e Masculino: uma nova maneira de entender as diferenças (Sextante, 2004).

Seu livro profético, Os avanços tecnológicos e o futuro da humanidade. Querendo ser Deus? (Vozes,2009), explorou os limites futuros de um pós-humano, pelos caminhos da física quântica,da engenharia genética, da nanotecnologia, até a fusão entre o homem e a máquina, num videogame quântico,  com os novos e enormes problemas éticos que se colocam para a humanidade nas próximas décadas; “quando desistirmos de ser deuses poderemos ser plenamente humanos, o que ainda não sabemos o que é, mas já intuímos desde sempre” (p. 354). Imaginava uma governança mundial sustentável. Apostava em moedas complementares para superar o capital dinheiro. Antes de tudo, acreditava no ser humano e em Gaia, a Mãe Terra, infinitamente maior do que todos nós. “A nossa espécie é tão vulnerável que homens e máquinas podem se extinguir ao menor suspiro da Mãe Terra” (p. 353). Temos Rose Marie de corpo inteiro em Memórias de uma mulher impossível (Rosa dos ventos, 1999). Ali indicava que trocara a felicidade pelo impossível. Traçou então um belíssimo itinerário, incansável e provocador. Nos últimos anos, com graves problemas de saúde, não parou um só instante, no Instituto Rose Marie Muraro, um dos espaços de enorme criatividade e valentia.

O Instituto Rose Marie Muraro enviou a seguinte mensagem no domingo 21 de junho, que reproduzo:

Rose Marie Muraro acaba de nos deixar e partir para outra dimensão. Lutou por sua vida até o ultimo fôlego e neste momento:

A família perde sua matriarca

As mulheres perdem uma amiga e

A sociedade brasileira perde uma grande aliada.

Os mais de sessenta anos de dedicação ao nosso País, sua luta e conquistas pelos direitos das mulheres, seu sonho de construir um mundo mais humano e solidário, o seu imensurável amor pela vida, nos revelam que Rose além de um exemplo de superação foi realmente Uma Mulher Impossível! Mas agora nos deixa na condição de órfãos de sua beleza, de sua cabeça fascinante, de sua capacidade de criar o impossível para uma realidade palatável,  de onde sua sensibilidade e profundidade podiam vislumbrar a grande beleza neste planeta.

Os seus últimos quinze anos de vida foram preenchidos de muitas batalhas, mas também engrandecida com uma linda história de Um Grande Amor. E nos deixou, mais este apaixonado e inédito poema:

O Pássaro de Fogo

Tu vieste como um pássaro
E pousaste no meu ombro
E eu fui habitada
Pela paixão da entrega.

Eu te amei antes que tu existisses
Como o deserto que tem sede de água
E as flores tem sede da luz
E te amei como a pedra ama a terra
Que lhe dá sua força.

Com teu bico colocaste na minha mão esquerda
A semente da morte
E na direita a semente da vida
Para que com as duas juntas
Eu fizesse a escolha de cada momento,
Ligando o instante à sua profundidade eterna.

Pássaro de fogo
Capaz de queimar sem consumir
Estás dentro de mim.

Pássaro de fogo
Irei onde tuas asas me conduzirem
E meu caminho se tornou incandescente
Como teus olhos.

Rose Marie Muraro

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23 Jun

O papa dos pobres entre os lobos

"A cada tento, Bergoglio aumenta o número de inimigos". O comentário é de Wálter Maierovitch em artigo publicado por CartaCapital, 22-06-2014.

Eis o artigo.

O papa Francisco, sem se intrometer em questões geopolíticas, acaba de marcar internacionalmente um novo tento. O convite feito durante sua visita em 25 de abril à Palestina e a Israel produziu no primeiro domingo de junho um desarmado encontro, para orações pela paz, com Shimon Peres, presidente de Israel, e Mahmoud Abbas, líder da Autoridade Palestina. Não faltou a oração de São Francisco e uma oliveira plantada nos jardins do Vaticano.

Jorge Bergoglio fez os dois líderes esquecerem as ofensas do antecessor, Joseph Ratzinger, um trapalhão que ofendeu os islâmicos ao atacar, em citação proferida em aula magna, o profeta Maomé e, logo depois, reintroduzir a antiga missa tridentina, onde se pede a Deus a conversão dos judeus ao cristianismo.

Com o objetivo de colocar uma pá de cal na Igreja imperial, Francisco começou, logo após sua nomeação, em 2013, uma revolução. E para usar o título do livro do mais célebre vaticanista Marco Politi, passou a conviver tra i lupi (entre os lobos).

No livro lançado pela Editori Laterza, Politi lembra o fato de o eleito Bergoglio ter recusado, no vestuário destinado à troca de roupas, a mozzetta (o colete púrpura bordado em ouro), os sapatos vermelhos e o anel de ouro. E teria dito: “O carnaval terminou”.

O nome escolhido por Bergoglio foi uma homenagem ao pobre de Assis. E, alertou, seria só Francisco, pois numerações “eram coisas de reis”. Na sua primeira missa como papa, na qual usou a desgastada mitra de cardeal de Buenos Aires, recusou a genuflexão dos votantes. Usou ainda o seu antigo crucifixo prateado e o velho par de sapatos ortopédicos deformados pelo uso cotidiano. Mais ainda: permaneceu afastado do trono e abraçou a todos, como iguais. Em resumo, nada de hábitos imperiais, a se incluírem automóveis de luxo e o amplo e requintado apartamento papal. Preferiu um modesto quarto no hotel de trânsito de Santa Marta.

O papa utiliza o refeitório comunitário de Santa Marta e, ao perceber o torcer de narizes das “viúvas” do tempo de Ratzinger, costuma brincar ao dizer ser mais difícil envenená-lo em um almoço de vários comensais. No palácio apostólico de despachos, onde trabalha a partir das 10 da manhã, é comum sair da sala e, depois de catar moedas nos bolsos do traje branco, tomar café de máquina.

Esses gestos representam um escândalo para os conservadores e defenestrados da até então ingovernável Cúria. Também escandalizados ficam a turma apeada da lavanderia conhecida por Banco do Vaticano (IOR) e muitos daqueles que desfrutavam de uma carreira administrativa, com moradia grátis e remunerações agregadas, ou seja, penduricalhos pela acumulação de sinecuras. No momento, e depois de defenestrar, em outubro, Tarcisio Bertone, então chefe de Estado, poderoso mandachuva da Cúria e do IOR, padrinho da candidatura derrotada do cardeal brasileiro Odilo Scherer, Francisco determinou, por meio de uma comissão, a preparação de uma minuta de estatuto da Cúria.

Em sintonia com o estabelecido no Concílio Vaticano II, o papa pretende abandonar a forma piramidal de governo e implantar, na busca do equilíbrio do poder papal, a regra do colegiado, da horizontalidade e da responsabilidade compartilhada com o alto clero. Propostas, aliás, que empolgaram quando Bergoglio se pronunciou no conclave e venceu a eleição com mais de 90 votos. Fez o prometido até agora: trocou o comando do IOR, defendido por Scherer no conclave.

A cada tento, Bergoglio aumenta o número de inimigos. Nem os clérigos conservadores argentinos o poupam de críticas pelas inovações e destacam sua suposta teimosia (“um cabeça-dura”). A sua postura desagrada a Ratzinger, que de papa do serviço ativo virou um comodatário vitalício de imóvel no jardim vaticano, depois de alteração na sua destinação original para abrigar uma clausura de freiras de oração. E o jovem ex-secretário de Ratzinger, o atual arcebispo Georg Gänswein, teria dito que a forma de agir de Francisco expõe e desmoraliza os papas anteriores. Fora isso, Bergoglio, entre os conservadores e oportunistas, é visto como “um padre de aldeia”, sem bagagem cultural para ascender à condição de teólogo.

Ao demonstrar disposição para mudar a Igreja, o papa começa por não fugir, em entrevistas, a temas delicados para os católicos, do respeito aos gays à comunhão por divorciados. Tudo sem deixar de criticar políticos corruptos por ocasião de uma missa que contou com a presença de 492 parlamentares italianos.

Não demorou para o papa, entre aqueles que o criticam pelas costas, ganhar fama de demagogo. Como se avolumaram, as críticas preocuparam Dario Fo, ateu e Prêmio Nobel de Literatura em 1997. Em apresentação teatral na deslumbrante Arena de Verona, Fo louvou o papa Francisco com fervor. E condenou quem “pretende linchá-lo” por se posicionar contra um mundo preocupado apenas com os grandes negócios.

Na abertura do livro Francesco Tra i Lupi: Il segreto di una rivoluzione, Politi lista os inimigos de Francisco. E menciona a posição do procurador antimáfia calabresa, Nicola Gratteri: “A máfia financeira está sendo perturbada nos seus percursos por um pontífice que rema contra a corrente, contra o luxo, é coerente e tem credibilidade. E lança sinais contra o crime organizado que se nutre do poder e da riqueza”. Gratteri alerta: “Não sei se a criminalidade organizada fará algo em reação, mas, certamente, está refletindo, e isso tudo é muito perigoso”.

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