“Eu estou convencido que nós já somos os homens novos: a ruptura já se deu e data dos anos 1968. (...) É importante porque então o trabalho intelectual entrou em cena. Na realidade, eu me pergunto se o capitalismo ainda existe, hoje, e se a grande transformação que nós vivemos não é uma transição extremamente poderosa para uma sociedade mais livre, mais justa, mais democrática”. A tese é de Antonio Negri, co-autor com Michael Hardt de Império (Record, 2001) e Multidão (Record, 2005), onde apresentam suas idéias emancipatórias.
No contexto de um Império “biopolítico”, cujo poder atinge a cada existência, e até a organização da própria vida, a Multidão é tentada ao êxodo, antes que ao enfrentamento. É desertando coletivamente que as singularidades em revolta poderão partilhar suas experiências, trocar suas idéias, construir o que Negri chama de “comum”: “Não se tem mais necessidade do capital! A valorização passa pela cabeça, eis a grande transformação. A Multidão tomou consciência, ela não admite mais que se lhe leve o produto do seu trabalho. Veja as recentes manifestações antiglobalização de Rostock, na Alemanha. (...) É o novo proletariado cognitivo” em ação, diz Negri.
“É irreversível retornar às categorias da modernidade, pois elas se perderam”, sentencia.
Segue a íntegra do texto de Jean Birnbaum e publicado no Le Monde, 13-07-2007. Extratos já foram publicados no dia 15-07-07. A tradução é do Cepat.
Entre as obras expostas em Veneza, por estes dias, no âmbito da Bienal de Arte Contemporânea, cruza-se com esta Paixão do século XX: Jesus crucificado sobre um avião de caça, cada braço fixado num míssil. Esta obra, intitulada A Civilização Ocidental e Cristã, encontra-se pendurada nos tetos do Arsenal, em pleno centro da cidade veneziana.
Perto dali, no começo dos anos 1970, operários da petroquímica usaram o mesmo motivo para identificar seu calvário moderno: revoltados com a multiplicação dos casos de câncer em seu ramo de trabalho, eles haviam recuperado uma boneca feminina de plástico desarticulada, e a pregaram sobre uma cruz, com o rosto coberto com uma máscara de gás militar. “Vocês se dão conta, havia milhares de cânceres, muitos mortos, e tudo isso só foi julgado em 2003...”, suspira Antonio Negri, tendo em sua mão uma foto amarelecida da multidão proletária reunida em torno desta cruz: é a Paixão de Porto Marghera, nome da imensa zona industrial que se ergue nas cercanias de Veneza.
À sua maneira, esses trabalhadores estavam habituados à Bienal: em junho de 1968, de mãos dadas com os estudantes da faculdade de arquitetura, não tinham eles cercado a manifestação, apelando para um front único das belas artes e da imaginação operária? Negri estava entre eles. Ele tinha, na época, 35 anos, morava em Veneza e ensinava filosofia do direito público na Universidade de Pádua; mas é em Porto Marghera que o militante participou realmente das aulas: “Eu partia muito cedo da manhã, chegava às 6 horas para as assembléias gerais operárias, depois eu colocava minha gravata para ter meu seminário na faculdade, e voltava às 17 horas, tempo para preparar a seqüência do movimento...”, lembra-se ele.
Ir ao encontro de Negri é retornar a esta cena fundadora, e medir a distância percorrida, desde a educação política de Porto Marghera até a consagração “antiglobalização”, passando pelos “anos de chumbo”, pelo terror, pela prisão. A entrevista foi realizada, portanto, num dos inumeráveis “centros sociais” que formam a armadura das redes “alter” na Itália, e que associam intermitentes, indocumentados e intelectuais precários em torno de um debate ou de um concerto.
“Estamos dentro do Far West veneziano”, ironiza Antonio Negri, enquanto o carro mergulha no calor de Porto Marghera. À beira da estrada, construções industriais, colunas de fumaça e, a cada 500 metros, uma prostituída. À direita, vemos o antigo local em que Negri e seus camaradas da Autonomia Operária desafiam o centro de polícia, situado justamente na frente. À esquerda, em frente a uma fábrica têxtil, corre um canal que leva à laguna, através do qual os “companheiros” estendiam os cabos para impedir os barcos “fura-greves” de atracar.
Um pouco mais adiante, cai-se sobre um piquete de greve, absolutamente atual: torsos nus e bermudas estivais, quatro metalúrgicos montam guarda diante de sua empresa para protestar contra as demissões em massa. Um jornal na mão, eles caçam os insetos que se acumulam debaixo do guarda-sol. A conversa engrena na sombra das bandeiras dos sindicatos, algumas balelas são trocadas. “É tudo uma loucura, diríamos um filme de Fellini”, sorri Negri, como se a cena tivesse alguma coisa de irremediavelmente ultrapassado.
Por um longo tempo, portanto, o filósofo e seus amigos “obreiristas” consideraram esses trabalhadores como a vanguarda de uma libertação universal. O caminho estava todo ele traçado, e partia, entre outros, de Porto Marghera. As coisas mudaram: “Nos anos 1970, aqui havia 35 mil operários, hoje são 9 mil. Passou-se do fordismo ao pós-fordismo, e não há mais quase nada de um ponto de vista industrial. Há empresas de serviços, de transportes, de informática”, precisa Negri, cujo esforço teórico consiste em revisar as categorias marxistas partindo da questão social e de suas metamorfoses contemporâneas.
A começar pelo advento de um mundo “pós-moderno”, inteiramente submetido à hegemonia da mercadoria. Este espaço de dominação “desterritorializado”, ao mesmo tempo plano e sem fronteiras, em que a louca circulação do capital faz caducar as antigas soberanias estatais, Negri e seu amigo norte-americano Michael Hardt chamaram de Império. Em seu interior triunfa uma forma de trabalho cada vez mais “cognitiva”, isto é, imaterial e comunicacional. É preciso aceitar, afirmam eles, o fato de que o proletariado industrial tende a ceder seu lugar a um outro sujeito coletivo, mais híbrido, mais adaptado às formas globais de exploração: os dois autores chamam de Multidão esta nova figura política.
Entretanto, lá onde o proletariado marxista era chamado para tomar “de assalto do céu” fazendo a revolução, a Multidão “negrista” é chamada a manter os pés na terra, e suportar uma interminável transição. Seu destino não é preparar a ruptura, garante Negri, mas reconhecer que ela já tem lugar: “Eu estou convencido que nós já somos os homens novos: a ruptura já se deu e data dos anos 1968. 1968 não é importante porque Cohn-Bendit fez as suas piruetas lá na Sorbonne! É importante porque então o trabalho intelectual entrou em cena. Na realidade, eu me pergunto se o capitalismo ainda existe, hoje, e se a grande transformação que nós vivemos não é uma transição extremamente poderosa para uma sociedade mais livre, mais justa, mais democrática”.
Relendo Espinosa e Maquiavel, como também Deleuze e Foucault, Negri propõe uma leitura original e emancipatória, e, por isso, esperançosa, das grandes mudanças deste início do século XXI. Se os dois livros que publicou com Michael Hardt, Império e Multidão são lidos e comentados pelos quatro cantos do planeta, é porque as hipóteses e o vocabulário que eles propõem respondem a uma expectativa de renovação teórica e as jovens gerações antiglobalização não podem se contentar com o velho corpo leninista e/ou terceiro-mundista.
A esses militantes do século XXI, Negri não anuncia nem tumulto nem grande noite. Este ex-chefe da extrema esquerda italiana foi outrora acusado de ser o cérebro das Brigadas Vermelhas, insiste muitas vezes sobre sua repugnância em relação à violência e seus teóricos; de resto, encontra-se quase nada, sob sua pluma, da fascinação que o voluntarismo político e a “decisão” revolucionária inspiram a alguns filósofos franceses: “Eu detesto todos aqueles que falam de ‘decisão’, no sentido de Carl Schmitt. Eu penso que é verdadeiramente a palavra fascista por excelência, é a mistificação pura. A decisão é alguma coisa difícil, uma acumulação de raciocínios, de estados de alma; a decisão não é destruir, mas construir...”, retifica Negri.
Para ele, diante de um Império “biopolítico”, cujo poder atinge a cada existência, e até a organização da própria vida, a Multidão é tentada ao êxodo, antes que ao enfrentamento. É desertando coletivamente que as singularidades em revolta poderão partilhar suas experiências, trocar suas idéias, construir o que Negri chama de “comum”: “Não se tem mais necessidade do capital! A valorização passa pela cabeça, eis a grande transformação. A Multidão tomou consciência, ela não admite mais que se lhe leve o produto do seu trabalho. Veja as recentes manifestações antiglobalização de Rostock, na Alemanha. Não é mais a velha classe operária. É o novo proletariado cognitivo: ele está nos empregos precários, no trabalho dos ‘call centers’ ou dos centros de pesquisa científica. Ele gosta de colocar em comum sua inteligência, suas linguagens, sua música... Esta é a nova juventude! Agora existe a possibilidade de uma gestão democrática absoluta”, se entusiasma Negri.
Desejo piedoso, destacam alguns. Abstração esfumaçada, caçoam outros, denunciando a ilusão de uma justiça imanente e globalizada, versão generosa da propaganda neoliberal. A noção de Multidão não mascara a permanência da luta de classes?, pergunta o filósofo esloveno Slavoj Zizek. E se o Império não tem limites nem exterior, como é possível se retirar, interroga por sua vez o filósofo alemão Peter Sloterdijk. “O cenário mundial tornou-se agora um teatro de aparências em que uma abstração de Multidão afronta uma abstração de Império”, escreve o filósofo francês Daniel Bensaïd, ridicularizando uma “retórica da beatitude”, onde “a fé do carvoeiro ocupa o lugar de projeto estratégico”: nessas condições, destaca Bensaïd, como não se espantar que Negri tenha convocado para votar “sim” ao projeto de Constituição européia?
Diante das críticas, Antonio Negri mantém-se inabalável. Ele explica que seus conceitos ainda estão por se “fazer”, e que desejava somente propor algumas “hipóteses”: “Eu acredito que a revolução já passou e que a liberdade vive na consciência das pessoas. Conhecemos a fórmula de Gramsci, ‘pessimismo da razão, otimismo da vontade’. Para mim, trata-se antes de ‘otimismo da razão, pessimismo da vontade’, pois o caminho é difícil...”. Sentado em seu escritório veneziano, entre uma foto de seu amigo desaparecido, o psicanalista Felix Guattari, e uma estatueta de Lênin, coloca a mão sobre um ensaio de Daniel Bensaïd traduzido para o italiano (Marx, o intempestivo) e passa à ofensiva: “O que Bensaïd me propõe? A volta ao Estado-nação? À guerra? Ao indivíduo? É impossível, é irreversível retornar às categorias da modernidade, pois elas se perderam”.
E conclui dizendo que se a esquerda está em crise é porque ela não compreendeu o nascimento da Multidão e que se aferra ao velho mundo dos “colarinhos azuis”: “ninguém mais quer trabalhar numa fábrica como o seu pai trabalhou! Somente os comunistas franceses ainda querem isso, e também Sarkozy! Afinal, ele foi eleito com que plataforma? Com a plataforma do nacionalismo, que foi construído pela esquerda na batalha contra a Europa. Ele foi eleito fazendo a apologia do trabalho, elaborada pela esquerda na sua luta contra o primeiro emprego (CPE). Eu sonho com uma outra esquerda, que seja capaz de reconhecer que o capital não é mais a força que unifica o trabalho, que o Estado não é mais a força que faz as Constituições, e que o indivíduo não é mais o centro de tudo. Enfim, numa esquerda da igualdade, da liberdade, da ‘democracia absoluta’, como diriam Espinosa e Maquiavel”. |