A superação da metafísica e o fim das verdades eternas. Uma entrevista especial com o filósofo Ernildo Stein
A próxima edição da revista IHU On-Line terá como tema de capa a contribuição de Heidegger para o pensamento contemporâneo, em função dos 30 anos da sua morte.
Em entrevista exclusiva para a IHU On-Line, o filósofo Ernildo Stein destacou que já no final dos anos 1930 a filosofia de Heidegger problematizava o que hoje entendemos por globalização. Além disso, continua Stein, esse filósofo "libertou o ser humano como ser no mundo de qualquer amarra metafísica, deixando como tarefa sua, a instauração da verdade".
E completa:
"Estamos sós no planeta e nele somos um acontecimento que se espanta consigo mesmo".
Graduado em Filosofia e bacharel em Direito pela UFRGS, Stein é doutor em Filosofia pela mesma instituição. Cursou pós-doutorado nas universidades de Erlangen, Heidelberg, Freiburg, Frankfurt, Munster e Wüppertal, todas na Alemanha. Atualmente leciona no departamento de Filosofia da PUCRS.
Stein publicou dezenas de livros, entre eles Seminário sobre a verdade: lições introdutórias para a leitura do parágrafo 44 de Ser e tempo. Petrópolis: Vozes, 1993; A caminho de uma fundamentação pós-metafísica. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1997; Diferença e metafísica. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2000; Compreensão e finitude. Ijuí: Unijuí, 2001; Introdução ao pensamento de Martin Heidegger. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002; Mundo Vivido: Das vicissitudes e dos usos de um conceito da fenomenologia. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004 e Seis estudos sobre Ser e Tempo. 3ª ed. Petrópolis: Vozes, 2005.
Confira a seguir, na íntegra, a entrevista com o filósofo.
IHU On-Line - Quais são os aspectos que julga mais atuais na filosofia heideggeriana? Qual é a importância de Heidegger como um intérprete da pós-modernidade?
Ernildo Stein - O filósofo é, sem dúvida, o pensador de vulto que na filosofia problematizou de modo mais profundo a questão da modernidade. Até que ponto suas idéias sempre acertaram é uma outra questão. Não podemos, no entanto, negar a importância de sua teoria de que, com a modernidade, surgiu a questão da subjetividade e com isso a questão do método. O ser humano está livre das amarras da tradição e da história passada, para traçar o seu caminho e os seus projetos. Por isso passa a considerar a natureza e os recursos do planeta como transformáveis e manipuláveis sem limite. Heidegger vê nisso o surgimento de uma espécie de compulsão para a transformação. Ele costuma chamar a irresistível tendência de o ser humano transformar tudo em dispositivo (Gestell). É assim que ele previu o que chama de europeização do mundo, a lógica e o cálculo se disseminando implacavelmente pelo planeta, arrasando as culturas locais com o progresso. Com isso, o filósofo levanta, já no fim dos anos 30, o problema daquilo que hoje denominamos globalização.
A filosofia não deve ser avaliada por sua atualidade, mas pela capacidade de ela, nos diversos filósofos, pensar os fundamentos que podem de certo modo reger o comportamento dos seres humanos, fazendo uso de sua liberdade. A filosofia não compete com a ciência na descoberta de novos objetos. Ela pensa a moldura ou o âmbito nos quais as ciências descobrem e situam seus objetos. A filosofia não se volta contra a ciência, mas tem um "timing" mais longo, justamente porque não está submetida às urgências de transformação da realidade.
Talvez convenha dizer que Heidegger finalmente, sem nenhuma inibição, libertou o ser humano como ser no mundo de qualquer amarra metafísica, deixando como tarefa sua, a instauração da verdade. Heidegger declara que não há verdades absolutas ou literalmente "não há verdades eternas". A verdade só existe porque o ser humano opera com ela. É por isso que se inverte a relação medieval entre teologia e antropologia. Não há Deus sem o ser humano, pois somente ele, o ser humano, abre o espaço para o problema de Deus e assim deixa acontecer o que pode ser expresso em enunciados que tratam da possibilidade de Deus.
IHU On-Line - O que implica o fim da metafísica sugerido por Heidegger? Como entender esse argumento hoje?
Ernildo Stein - Heidegger fala em fim da metafísica como superação dos limites impostos em nome de teorias que se dizem filosóficas, mas não tratam das condições de possibilidade do conhecimento, mas simplesmente falam de coisas e objetos. A superação da metafísica não significa o fim da metafísica. Kant mesmo dizia que sempre respiraremos o "ar impuro" da metafísica e "temos uma mancha podre" que nos faz operar com conceitos independentes da realidade. Heidegger concordaria com Kant, caso a afirmação dele não fosse uma pretensão de salvar o que não pode ser salvo em sua teoria do conhecimento. Para Heidegger o fim da metafísica significa apenas que estamos livres do comando de outros mundos não-humanos. Estamos sós no planeta e nele somos um acontecimento que se espanta consigo mesmo.
IHU On-Line - O que o senhor quer dizer com uma fundamentação pós-metafísica?
Ernildo Stein - Assim como vivemos a chamada pós-modernidade e nela identificamos a fragmentação de toda a unidade entre ciência, arte e religião, assim temos que reconhecer que, se ainda procuramos razões que não sejam as razões da ciência, essas não são mais razões ou fundamentos metafísicos. O pós-metafísico é um mundo sem fundamentos absolutos. Quem dá a moldura na qual se dá o acontecer daquilo que revela os limites da objetivação da ciência é o modo de o homem ser no mundo que a filosofia pode descrever como sentido.
IHU On-Line - Como o conceito de angústia é tratado por Heidegger em Ser e Tempo?
Ernildo Stein - Heidegger, quando cria conceitos não os apresenta como prontos. É próprio da fenomenologia ir atrás dos indícios formais que podem localizar traços comuns que podem ser convertidos em conceitos e, no caso, em existenciais. A filosofia não carrega consigo só uma cesta de conceitos lógicos prontos. Depende do filósofo a capacidade de descobrir sinais que podem nos levar a novos existenciais ou conceitos, por exemplo, sobre o ser humano. É assim que a angústia é descrita como a súbita percepção do ser humano de que ele é finito, isto é de que está jogado entre um ainda não, o futuro e o não mais, o passado. A angústia que disso resulta é o que mantém o ser humano, humano. O que ele poderá fazer é tentar fugir dessa angústia, fugindo de si mesmo e divertindo-se numa "brincadeira" com os objetos, no instante presente. Mas de todo modo a angústia aparecerá de repente e de modo implacável remeterá o ser humano contra o futuro e contra o passado e sem resultado.
IHU On-Line - De que forma se apresenta a compreensão e a finitude nesse filósofo? O que elas podem ensinar à contemporaneidade?
Ernildo Stein - Heidegger não aceita outra transcendência que a transcendência finita. Compreensão é essa transcendência, por isso ela é finita. Mas o filósofo quer com isso dizer que com a filosofia não consegue o ser humano puxar-se do banhado pelos cabelos. Isso quer dizer que o ser humano pensa tudo enquanto é e pelo fato de ser nos permite chegar às coisas. Como diz literalmente "tão finito é o ser humano que ele precisa do conceito de ser, Deus não precisa do ser, não faz ontologia, Deus não filosofa".
IHU On-Line - Quais são suas objeções em relação à leitura que Padre Vaz realiza de Heidegger?
Ernildo Stein - Lima Vaz fez seu tema o diagnóstico sintomático de Heidegger sobre o niilismo em que mergulhamos com a metafísica ontoteológica. Isso porque nela o fundamento é convertido em objeto e Deus é definido, como um único expediente, de causa de si mesmo. O filósofo brasileiro não concorda inteiramente com o diagnóstico do filósofo alemão, mas é a partir desse diagnóstico que ele vê a possibilidade de colocar os problemas verdadeiros nas duas matrizes de inteligibilidade: a natureza e a cultura. São elas que no futuro mudarão totalmente, a não ser que o ser humano seja capaz de manter uma identidade, na transformação que a técnica produz nessas duas matrizes. E essa identidade é a pergunta pela vida boa. Como posso ser feliz, como assumo volume e importância como ser biológico e passageiro, que significa viver sua vida?
Em todo caso, Lima Vaz encontrou mais razões em Heidegger, no seu questionamento radical, do que em Hegel, cuja maquinaria dialética nada mói, nada resolve, porque seu motor, Deus (ou a sociedade sem classes, ou a História) são conceitos vazios. Deus está morto, diz Hegel, e é comovedora a frase no penúltimo capitulo da Fenomenologia do espírito: "E esse é o sentimento doloroso da consciência infeliz de que Deus morreu". Apesar de Hegel falar do Deus da Sexta-feira Santa, Nietzsche o toma a sério e proclama "Deus está morto". Isso se estendeu como um lema na entrada do projeto da modernidade Lima Vaz procura defender contra as críticas de Heidegger uma ontologia teológica que possa sustentar, como uma espécie de realismo, os enunciados da teologia e da religião. Nisso os dois filósofos se distanciam e está com os estudiosos ver quem tem razão nos seus argumentos que aqui não podem ser apresentados de maneira completa.
IHU On-Line - Qual o significado que pode ter o fato de Heidegger aceitar o cargo de reitor em plena Alemanha nazista?
Ernildo Stein - O filósofo fez um juízo equivocado sobre o regime que estava começando, pensando que aceitando a reitoria, teria condições de criar a nova universidade que substituiria a universidade dos mandarins. Ao ver que caíra na armadilha, se demitiu no décimo mês dos quatro anos que tinha pela frente e, a partir daí, o regime pôs um de seus agentes para supervisionar as suas aulas. O filósofo foi ingênuo porque desconhecia as ciências humanas da sociologia, da política, da economia e pensava, contudo poder diagnosticar o futuro de um regime. Quem olha com atenção para a capa do meu livro Diferença e Metafísica. Porto Alegre: Edipucrs, 2000 verá que ela é feita com uma carta inédita de Heidegger que está em minhas mãos, em que ele se defende dizendo: "Ide a Munique e perguntai ao Pe. Karl Rahner que assistiu a minhas aulas de 34 a 36, para verem a crítica que se ousava contra o biologismo, o racismo do nacional-socialismo". É verdade que os filósofos não foram feitos para serem heróis da resistência, Platão que o diga, preso pelo tirano de Siracusa a cujo regime tinha aderido. E mesmo Aristóteles não escapou do problema, indo asilar-se na sua fazenda de Eubéia, para que os gregos não praticassem um segundo crime contra Sócrates.
O silêncio do filósofo sobre o gesto de que ele confessou a Jaspers que "se sentia envergonhado do passo dado", deve-se o fato à convicção de que uma confissão pública não tinha sentido porque não apagaria nada.
IHU On-Line - O nazismo é uma anomalia ou uma radicalização da razão moderna?
Ernildo Stein - O nazismo é um totalitarismo nascido das incertezas e dos irracionalismos dos anos 20 de nosso século. Assim como outros totalitarismos. Tão nefasto quanto foi, não deixa de ser uma espécie de banalidade do mal. Mas uma obra humana, uma obra com autores determinados que se orientaram nas mais primitivas idéias sobre a relação dos seres humanos em sociedade. O nazismo é em última análise um resultado da suspensão da lei, para que o tirano pudesse fazer dela o que bem entendesse, pois era a sua lei. Agamben bem vê nos campos de detenção que rodeiam a Europa com uma coroa de desesperados, novos campos de concentração, em que a lei está suspensa. Isso produz a "inexistência" de todos os refugiados porque estão juridicamente nus.
IHU On-Line - Como o pensamento heideggeriano explica o paradigma da técnica levado às últimas conseqüências pelos nazistas?
Ernildo Stein - Heidegger certamente não é um intérprete do nazismo. Mesmo que para isso tivesse competência, não tem autoridade como filósofo. São outros campos de conhecimento que devem compreender o nazismo. Entretanto, Heidegger situaria na exacerbação do dispositivo da técnica, a compulsão dos nazistas de produzir a morte industrializada. Por mais distantes que estejamos do nazismo, não é a parafernália da técnica atual que retira de cada ser humano o direito de morrer a sua morte. Morte é hoje no dispositivo da técnica apenas uma questão de higiene pública.
IHU On-Line - Quais seriam as influências do cristianismo em Heidegger? E ele influenciou, de alguma forma, o pensamento cristão?
Ernildo Stein - Certamente temos várias correntes teológicas que incorporaram as categorias da analítica existencial de Ser e tempo. Bultmann é um dos grandes exemplos de diálogo com Heidegger, mas há muitos teólogos e correntes teológicas que levam de contrabando elementos do discurso heideggeriano. Apenas não tem coragem de levá-lo às últimas conseqüências. Heidegger teve formação cristã, estudou teologia e filosofia católicas, dialogou muitíssimo com os pensadores evangélicos, para chegar à conclusão de que a filosofia não pode oferecer aval para nenhuma religião. Ao pé da letra diz o filósofo: "Uma filosofia cristã é um ferro de madeira, uma roda quadrada".