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| 16/6/2006 |
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O século de Heidegger. Trinta anos após a sua morte |
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Como ler hoje uma obra que coloca o homem diante de sua desolação? Sua obra-mestra saiu publicada em 1927 e foi como se a filosofia mudasse de sinal. Procurou redimensionar o pensamento em sua grandeza original. Se a metafísica havia obnubilado os horrores que vivenciamos no século 20, a começar pelo nazismo, eles são aqui antecipados.
O jornal italiano Repubblica, 29-5-2006, publicou uma ampla reportagem de Antonio Gnoli sobre Martin Heidegger. Ele morreu há 30 anos e sua obra, especialmente Ser e Tempo é fundamental para entender a contemporaneidade. Traduzimos e publicamos na íntegra a reportagem.
A revista IHU On-Line da próxima semana debaterá o legado de Heidegger.
Eis a reportagem de Antonio Gnoli:
"A pergunta é simples, direta, e, se quiserdes, até ingênua: por que Martin Heidegger teve e continua tendo sucesso? A palavra sucesso pode conduzir ao engano. Remete à moda segundo a qual muitas vezes se segue um autor, se defende e se ama este autor, se procura assemelhar-se a ele, inserir-se em seus movimentos lingüísticos. O sucesso de Heidegger parece-nos nascer sob um signo diverso, um signo tão forte e marcado, que neutralizou a ampla fila de detratores, os quais só perceberam no seu pensamento uma obscura e abstrusa construção filosófica.
Na realidade, pensar obscuramente nem sempre significa não pensar nada. Às vezes os atritos conceituais, os problemas lingüísticos que se erguem à nossa frente, os enigmas nos quais nos debatemos não são o som de palavras vazias, mas remetem a uma dificuldade mais geral, que diz respeito ao modo pelo qual a filosofia ainda pode enfrentar o problema da verdade. Heidegger não era diferente de todos os grandes filósofos que o precederam. Também ele mergulhou no problema dos problemas: como dizer a verdade? Como encontrá-la? Como transmiti-la?
Trinta anos após sua morte e quase oitenta desde a publicação de Ser e Tempo, continua-se a discutir sobre ele e sobre sua filosofia. Isso se faz, cremos nós, não porque ainda se sofre fatigosamente sua influência enfeitiçadora, (a qual, em todo o caso, tem um lugar não irrelevante, a julgar pelo fascínio indiscutível que ele exerceu sobre os seus alunos), porém, enquanto Heidegger é o lugar conceitual no qual o século 20 se torna algo paradoxal, e estaria inclinado a dizer: único.
Redespertando a atenção, aí está a recente dupla edição de Ser e Tempo, de acordo com quase todos, incluindo os adversários, sua obra mestra filosófica. A obra saiu publicada em 1927, com uma dedicatória ao seu mestre Edmund Husserl. Detalhe não irrelevante: na quinta edição, a de 1941, a dedicatória foi supressa. Os detratores viram, na escolha de cancelar essa homenagem ao mestre judeu, o sinal eloqüente da covardia de Heidegger, o qual se defendeu, observando que aquele era o único modo de reeditar a obra. Questão antiga e furente aquela do nazismo de Heidegger. Veremos se existe um modo de dirimi-la. Na Itália, Ser e Tempo saiu publicado em 1953 por Fratelli Bocca, numa edição organizada por Pietro Chiodi. Personagem extraordinário, reformista, um pouco marxista e um pouco existencialista, Chiodi, que era um professor de liceu de Alba, reelaborou sua tradução, que apareceu numa nova edição, primeiro em 1969 pela Utet e depois, em 1970, pela Longanesi. Distante 35 anos, Longanesi repropõe uma nova edição de Ser e tempo (632 pp., 28 euros), aos cuidados de Franco Volpi; e Mondadori, por sua vez, publica um Meridiano (1.550 pp., 49 euros) que, além de se valer de uma nova tradução feita por Alfredo Marini, inclui, lado a lado, o texto em alemão.
Poderíamos dizer que, das duas edições, a primeira é conservadora, no sentido de que conserva e adequa em parte a linguagem usada por Chiodi (que é, depois, a usada no debate sobre Heidegger); a segunda edição é inovadora: ela se destaca da de Chiodi e por vezes modifica radicalmente a terminologia. Ambas as edições se valem de um glossário. Mais explicativo o léxico de Volpi, mais respeitoso, no limite da colagem, o de Marini. Este, além de uma breve introdução, na qual examina a estrutura da obra, oferece um longo posfácio sobre o que significou traduzir Sein und Zeit. O ensaio é elevado e interessante, mas alguma tesourada lhe teria sido útil.
Ser e Tempo se articula em duas partes, às quais deveria ter seguido uma terceira, jamais confeccionada por Heidegger. Alguns intérpretes viram nesta incompletude a falência especulativa de Heidegger. Outros falaram de "virada", entendo com isso que os problemas levantados pela obra mestra de 27 podiam encontrar uma solução fora do horizonte lingüístico delimitado pelo próprio livro. Mais precisamente, num Heidegger - como, de resto, ele mesmo auspiciava, - que fosse além da analítica existencial. Eis o ponto, a palavra mágica da qual partir para entender o que ele nos consigna com sua obra tardo-juvenil.
O leitor, que não se deixasse rechaçar ao primeiro assalto, encontraria nesta obra algo de sistematicamente selvagem: há uma atenção espasmódica aos fatos, ao mundo dos entes, e há um modo de dizê-lo que se vale de uma linguagem, em parte ao menos, radicalmente nova. Heidegger, que tem 38 anos, leu e estudou tudo.
Em Ser e Tempo se refunde a filosofia grega, pré-socrática, platônica, aristotélica. Aí estão São Paulo, Tomás e Agostinho (na linguagem heideggeriana serpeia seguidamente a dimensão teológica), e também está a lógica medieval. Aí está, naturalmente, o século 20: a sociologia guilhermina (Simmel, Weber, Sombart); está presente a teologia negativa de Karl Barth, está o historicismo de Dilthey, ecoam até a Alma e as formas , a História e a consciência de classe de Lukács. Mas, todo este longo elenco de autores e de leituras feitas, comparece em sua obra como um transparente destilado. Como uma "Stimmung", um estado de alma, com a qual o filósofo envolve sua obra.
Em Ser e Tempo tudo é digno de análise. Mas, dizer "digno" não implica, aos olhos de Heidegger, nenhuma escolha moral, nenhum juízo ético. O território no qual ele age existe sem efetiva jurisdição. Privado de reais hierarquias, destituído de princípios-guia. Somente às custas de uma radical transformação do tablado filosófico, é possível restituir ao pensamento sua função originária, que a metafísica havia esquecido.
Muitas páginas de Ser e Tempo têm a força sugestiva de mostrar-nos o homem em seu estar lançado. A queda deste ente (Heidegger preferirá a palavra "ente" [ou "existente", estar-ai, Dasein] e fala de decadência), não tem nada a ver com a perda do estado de inocência, com o pecado original, com o paraíso. Porque isso significaria pressupor que exista uma verdade e uma origem que se situam no exterior da temporalidade e do mundo, nos quais o ente é lançado. Ao invés disso, nós, entes entre os entes, e ainda em condições de interrogar-nos, estamos imersos na cotidianidade, na tagarelice, na ditadura do "se". Esta condição opaca e inautêntica não é vista por Heidegger de modo depreciativo. É uma modalidade da existência.
Afinal, também Platão, com o mito da caverna, tinha narrado a condição inautêntica e ilusória dos homens acorrentados e condenados à aparência, enquanto não tivessem saído da caverna. Mas, é este sair que Heidegger põe radicalmente em discussão. A idéia que a verdade possa representar-se como abstração suprema. Que se possa interrogar o Ser, como se fosse verdadeiramente algo de estranho a nós, é o pecado mortal da metafísica. O seu afastar-se do pensamento originário.
Mas então, como dar-se a si a verdade? Como evadir do inautêntico, da tagarelice, da opacidade? Ser e Tempo não fornecerá respostas eloqüentes. Aqui fará sua aparição o termo "Lichtung" (Volpi a traduz com "clareamento", Marini com "claridade"), com o qual Heidegger nos sugere que a verdade não é procurada (como, ao invés, acontece no mito da caverna), porque a verdade não é representável. Só se pode experimentá-la na "Lichtung", quando ela nos vem ao encontro. Dir-se-á: mas como é possível para um ser-aí, encadeado ao inautêntico, abrir-se ao clareamento luminoso? A segunda parte de Ser e Tempo explorará os temas da angústia - distinta do medo - e do cuidado, através dos quais o homem poderá desvincular-se da condição de opacidade na qual vive.
O existencialismo, em particular o francês, procurou apropriar-se desta implantação. Heidegger, que o considerava insuficiente, demoliu os equívocos com que sobretudo Sartre havia fundado sua filosofia. Mas, deste modo não queimava também Ser e Tempo?
Há uma questão política com que se pode esboçar uma resposta. É conhecida a adesão de Heidegger ao nazismo. Em geral, ela foi lida como a reprovável submissão a um tirano sem igual na história. O que também pode ser. Mas, quem abrir Ser e Tempo, verá que uma parte da analítica existencial é uma espécie de atravessamento da política. Somos entes lançados. Mas, enquanto entes, o nosso movimento vai em direção à política.
Qual política? Para Heidegger, a única possível e em condições de romper com os esquemas da representação era aquela encarnada no destino de um povo. Que aquele destino tomasse, seis anos depois, a forma do nazismo, é fortemente condenável e não ficará sem conseqüências para o filósofo. Mas, o ponto é ainda outro.
Ser e Tempo é um movimento que nos lança para os horrores do século vinte. Um século que procurou o autêntico e o homem novo e o encontrou grotescamente nas grandes experiências totalitárias. Seriam tais experiências apenas o nosso passado? A idéia que uma política, impolítica, possa imaginar aquele destino, aquela comunidade, aquela praça, é um resíduo que continua a viver no léxico das nossas emoções. Como uma ameaça, ele sobrevive nas vestes ressurgentes do homem do destino, que se torna voz do povo, decisão, vontade geral, corpo (talvez midiático) de uma nação em busca de identidade. O nó inquietante de Ser e Tempo está na passagem enigmática do inautêntico ao autêntico. Passagem arriscada. É não está dito que um Deus fará de nós uma ponte.
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| O capitalismo cognitivo e a financeirização da economia. Crise e horizontes |
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