O nazismo e o "erro" filosófico de Heidegger. Uma entrevista especial com com Gianni Vattimo
"Autenticidade significa co-responder à chamada do ser; mas o ser assim entendido é também a própria comunidade, a sociedade na qual se vive, etc. Também por isso Heidegger se empenhou com Hitler, errando. Mas devemos pensar que naqueles anos Lukacs e Bloch estavam com Stalin, Giovanni Gentile com Mussolini, etc". As afirmações são do filósofo italiano Gianni Vattimo, em entrevista por e-mail à IHU On-Line, explicando as relações entre o filósofo Martin Heidegger e o nazismo. Essa é a quarta entrevista exclusiva que Vattimo concede à IHU On-Line
Vattimo nasceu em Turim, em cuja universidade se formou em Filosofia e na qual ministra aulas até hoje. Cursou uma especialização na Universidade de Heidelberg (Alemanha) e teve algumas passagens por universidades americanas como professor visitante. Foi deputado no Parlamento Europeu, integrando várias comissões, como as de cultura, educação e justiça, entre outras. Estudioso do pensamento de Nietzsche, Heidegger e Gadamer, Vattimo é conhecido como o mentor do "pensamento fraco". De sua produção intelectual, destacamos O fim da modernidade: niilismo e hermenêutica na cultura pós-moderna. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
IHU On-Line Como Heidegger ajuda a entender o debilitamento das estruturas do ser na pós-modernidade?
Gianni Vattimo - A concepção da diferença ontológica - que Heidegger começa a desenvolver em Ser e Tempo - implica que o ser não deve se confundir nunca com o ente, com alguma "coisa" presente. E, como se sabe, Heidegger pensa que identificar o ser com o ente seja um "esquecimento" do ser. Agora, pode-se "lembrar" o ser? O que, porém, significaria fazê-lo "presente" frente aos olhos da nossa mente, portanto, reduzi-lo novamente a um "ente". Além disso: Heidegger, nos seus escritos sobre Nietzsche, escreve que a metafísica é a história do ser. Eu tiro disto tudo a seguinte conclusão, que Heidegger nunca enunciou, mas que acredito que ele deveria aceitar: lembrar o ser (para tentar sair da metafísica) significa somente lembrá-lo como já-sempre ido embora; como Deus que se mostra a Moisés somente de costas. Mas, portanto, pensar o ser não é nunca uma experiência de presença cheia, de verdade luminosa; se levarmos em consideração que para Heidegger a metafísica (esquecimento do ser) é a história do ser, então o ser tem uma história que é sempre de diminuição, de esquecimento, de "fraqueza"...
IHU On-Line Qual é o lugar da verdade e da unidade do sujeito no pensamento de Heidegger?
Gianni Vattimo - Verdade, para Heidegger, é também aquela secundária das proposições "verdadeiras", que correspondem a critérios dados com a abertura do ser no qual somos sempre arremessados. Mas a verdade "primeira" é esta abertura (algo semelhante aos paradigmas dos quais fala Kuhn). A relação com esta verdade primária (por exemplo, na experiência da obra de arte, que nos "dribla" porque é o anúncio de um paradigma "outro", não é uma experiência de unidade do sujeito, mas, ao contrário, exatamente uma experiência de "desorientação").
IHU On-Line Como explicaria a aproximação de Heidegger ao nazismo? É uma derivação de seu pensamento filosófico?
Gianni Vattimo - De certa forma sim, foi um "erro" filosófico. Heidegger acreditou que fosse possível reconstruir uma situação histórica análoga àquela da Grécia pré-clássica, na qual, errando, porque esquecia a diferença ontológica, pensou que o ser pudesse "dar-se" de modo não-metafísico. Mas era um erro, antes de tudo filosófico.
IHU On-Line O próprio nazismo deve ser entendido como uma anormalidade na História ou como uma radicalização da racionalidade moderna?
Gianni Vattimo - Heidegger o entendeu como uma radicalização da racionalidade moderna. Visto que ele pensava que esta racionalidade fosse o auge do esquecimento do ser, não a podia aceitar. Mas, de outro modo, o extremo da metafísica devia também ser o seu fim. "Onde está o perigo, cresce também o que salva" (Hoelderlin). Portanto, posição ambígua; um pouco como o capitalismo para Marx: é o pior do pior, mas é também a condição que prepara a revolução do proletariado...
IHU On-Line O paradigma da técnica pode auxiliar a compreender as bases desse e de qualquer outro totalitarismo?
Gianni Vattimo - A resposta está implícita na precedente. Certo, como diz em Identitaet und Differenz, a possibilidade de sair da metafísica em direção a um novo evento do ser está também ligada ao fato de que no Gestell, no mundo técnico-totalitário, homem e mundo não têm mais os caracteres de sujeito e objeto. Mas quais caracteres terão?
IHU On-Line Se o ente está lançado no mundo, como entender sua responsabilidade individual e política?
Gianni Vattimo - Acredito que o Heidegger dos anos trinta, aquele depois da Kehre, se deu conta de que a autenticidade da qual falava Ser e Tempo, não é algo que se possa procurar "sozinhos". Autenticidade significa co-responder à chamada do ser; mas o ser assim entendido é também a própria comunidade, a sociedade na qual se vive, etc. Também por isso Heidegger se empenhou com Hitler, errando. Mas devemos pensar que naqueles anos Lukacs e Bloch estavam com Stalin, Giovanni Gentile com Mussolini, etc.
IHU On-Line Por que Heidegger afirmou que era impossível ultrapassar o niilismo? Como entender a esperança num mundo niilista?
Gianni Vattimo - Como foi dito acima, o ser nunca pode dar-se como ente. A esperança do niilismo é de que, reduzindo cada vez mais a imponência, a peremptoriedade, o peso do ente, do real (paixões, instinto de sobrevivência, violência recíproca) o ser se dê como das Gering, o mínimo, o pequeno, do qual falava Vortraege und Asufsaetze.
IHU On-Line O ser-para-a-morte (Sein-zum-Tode) não é um conceito muito pessimista para classificar o ser humano?
Gianni Vattimo - De maneira nenhuma. Significa somente aceitar o próprio fim e historicidade, sentindo-se empenhados para responder a uma chamada que vem de outros mortais, e não pensar nunca que atingimos já a verdade "objetiva", o ponto de vista de Deus. E, portanto, nunca bombardear o Iraque em nome do verdadeiro direito humano.
IHU On-Line Se pudéssemos trazê-lo ao presente, como Heidegger dialogaria com o pensamento fraco de Gianni Vattimo?
Gianni Vattimo - Teria que adotá-lo come seu filho, embora um pouco extravagante. Fora de brincadeira: se Heideger visse o que acontece hoje por causa do fundamentalismo, da pretensão de ser "correto" (Bush acredita de verdade, como os nazistas, no Gott mit uns, Deus está conosco; e age exatamente como eles), enfraqueceria muito as próprias posições...
IHU On-Line Que relações podem ser estabelecidas com o pensamento cristão e o heideggeriano? Há aí uma influência mútua?
Gianni Vattimo - Certo, se pensarmos em um texto como a Introdução à Fenomenologia da Religião, de 1920, nos daremos conta de que alguns, ou talvez todos os conceitos fundamentais que Heidegger desenvolveu após, em Ser e Tempo (ex. a autenticidade, a metafísica, etc.) estão já todos na sua leitura das cartas de São Paulo. Acredito que Heidegger começou o seu "erro" nazista - que porém durou somente alguns anos - quando deixou de meditar sobre São Paulo e começou a mitificar Hoelderlin. Mas o seu pensamento permanece profundamente cristão; e também, a propósito de influência "mútua", os cristãos de hoje deveriam elegê-lo a verdadeiro mestre, deixando de lado os tantos resíduos de metafísica escolar que ainda dominam o ensino nos seminários.