Está em todos os cinemas nestes dias: religião. Ou, se essa palavra lhe incomoda, você pode usar o termo mais geral, "espiritualidade".
Em filmes tão variados como o muito sério "A estrada" [com lançamento no Brasil previsto para fevereiro], o inspirador filme familiar "The Blind Side" [O lado cego, estreia no Brasil prevista para março], a comédia mordaz "The Invention of Lying" [A invenção da mentira, sem previsão de estreia] e até a obra de ficção científica de James Cameron, "Avatar", questões como fé e moral e o lugar do ser humano no universo estão em voga.
A reportagem é de Robert W. Butler, publicada no jornal The Washington Post, 03-01-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Nem todos esses filmes abordam a religião. Alguns questionam a ingenuidade humana. Outros pedem evidências de um objetivo superior naquilo que comumente é visto como um universo aleatório. Mas se eles encorajam a oração ou a dúvida, todos fazem parte do espírito da nossa época.
Mas por que agora?
"Existem duas escolas de pensamento sobre isso", disse Greg Wright, editor do site HollywoodJesus.com, que examina a cultura popular a partir de uma perspectiva religiosa.
"Os elementos mais paranoicos da nossa cultura tendem a pensar que Hollywood tem uma agenda proativa, que os produtores têm um grande projeto para usar os filmes para dar forma ao pensamento do público. Eu não me inscrevo nessa escola. Eu acredito que Hollywood dá ao público aquilo que o público quer ver. Se as pessoas não querem ver filmes com determinadas mensagens, elas não vão comprar os ingressos. Então, se há uma tendência, é a tendência de refletir aquilo que as pessoas já estão pensando e sentindo", disse Wright.
Nenhuma coincidência
E o que nós estamos pensando?
A Irmã Rose Pacatte, que comenta filmes para o Pauline Center for Media Studies, em Los Angeles, disse que não é mera coincidência que uma nova versão animada para "Um conto de Natal" de Dickens tenha aparecido em 2009. O filme estreou no rastro de uma crise econômica fomentada pelo interesse pessoal ganancioso em uma escala sem precedentes, disse ela.
"Ser um bom homem de negócios não irá salvar a sua alma. Essa é a mensagem essencial de 'Um conto de Natal' e que foi enfatizada nessa versão", afirmou.
O conto de Dickens pode ter pouco a dizer sobre Deus e Jesus, mas enfatiza a caridade e os perigos da pobreza e da ignorância, disse ela.
Outros filmes atuais, mesmo que não manifestamente religiosos, acentuam a ideia dos seres humanos como dependentes uns dos outros e responsáveis pelo bem estar comum.
Pacatte indica "Up in the Air", em que George Clooney interpreta um homem solitário cujo trabalho é demitir empregados e que tentou se isolar de todo compromisso humano.
"De alguma forma, é um 'Conto de Natal' moderno, com o personagem de Clooney se tornando um pouco mais humano, tornando-se sempre mais consciente de si e dos outros", disse Pacatte.
"Avatar" retrata a humanidade como uma raça voraz representada por uma empresa desalmada e amplamente incapaz de apreciar o simples espiritualismo ecológico de uma raça alienígena.
Sucesso de bilheteria
Claro, alguns filmes colocam a religião no centro e na frente.
"Desses filmes, 'Blind Side' tem a visão de mundo mais evangélica", disse Mark Moring, editor associado sênior da revista Christianity Today. "É um filme baseado em pessoas reais que são cristãos devotos, e cuja fé tem claramente uma grande importância em seu contato com esse jovem sem-teto e com o mundo à sua volta". O fato de "The Blind Side" ter se tornado um sucesso de bilheteria deve encorajar Hollywood a lidar com temas religiosos, disse Moring.
"Quando 'A Paixão de Cristo' foi lançado em 2004, ele mostrou a Hollywood que eles podiam fazer muito dinheiro com os seus temas espirituais explícitos. Isso lhes ensinou que eles não precisam ter medo de lidar com ideias religiosas, mesmo que não especificamente cristãs. 'Blind Side' reforça isso", disse Moring.
Wright, do HollywoodJesus.com, disse que "a dinâmica do mercado cinematográfico está apenas começando a pôr em ordem o que aconteceu no rastro de 'A Paixão de Cristo'. Dado que os ciclos de produção de filmes podem levar muitos anos, eu espero ver mais filmes temáticos religiosos nos próximos meses".
Nem todos eles serão produções hollywoodianas de grandes orçamentos. Wright se referiu ao sucesso de bilheteria de filmes de baixo orçamento como "Desafiando gigantes" [Facing the Giants] e "Prova de fogo" [Fireproof], dois dramas abertamente religiosos produzidos pela Sherwood Pictures, que é afiliada a uma igreja da Georgia.
"Estamos finalmente tendo alguns filmes muito bem preparados dirigidos para o público religioso", disse Wright. "Nas pegadas de 'A Paixão', muitos títulos se apressaram para ir ao mercado para aproveitar o público religioso, só que eles não eram muito bem escritos ou produzidos. Leva um pouco de tempo para se conseguir qualidade".
Muito provavelmente, os grandes estúdios irão rapidamente perder o interesse em temas com base na fé, afirmou Wright.
"Hollywood tem a ver com ciclos. Este ciclo irá passar", disse. "Os filmes que realmente importam, que verdadeiramente têm alguma coisa a dizer, são os títulos indie que entram furtivamente no sistema de distribuição de Hollywood ou fazem seu próprio caminho até produtoras independentes ou aos festivais de cinema.
"É lá que está o real futuro dos filmes espirituais – com produtores de filmes independentes que estão descobrindo canais de distribuição que funcionam para eles. Hollywood sempre terá um apetite enorme por grandes filmes com grandes atores e apelo internacional. Mas isso deixa a oportunidade para que outros façam filmes modestos sobre coisas que importam", disse Wright.
Ofertas da grande tela
Confira aqui os próximos lançamentos com temáticas religiosas:
"A estrada" [The Road]: A Terra está morrendo. Após um desastre desconhecido, um homem (Viggo Mortensen) e seu filho (Kodi Smit-McPhee) vagam por uma terra árida, em busca de sustento e evitando bandos errantes de canibais. Duramente fria, essa verão cinematográfica do livro de Cormac McCarthy é sobre a tentativa de um homem de preservar o que restou da bondade e da inocência da humanidade em seu filho. Embora o filme nunca seja abertamente religioso, muitos veem-no como uma busca espiritual. McCarthy falou a respeito de seu livro como uma espécie de alegoria cristã. (Estreia em janeiro)
"Um olhar do Paraíso" [The Lovely Bones]: Vida após a morte? É um dom na adaptação de Peter Jackson do romance de Alice Sebold sobre uma filha assassinada (Saoirse Ronan) que, do além, continua olhando por sua família e pelo seu assassino (Stanley Tucci). (Estreia em fevereiro)
"The Invention of Lying" [A invenção da mentira]: A comédia de Ricky Gervais se desdobra em um universo alternativo onde todos, compulsivamente, dizem a verdade. Mas um homem aprende a mentir e, em pouco tempo, ele está contando mentiras enormes. Em um esforço para apaziguar seus infelizes amigos homens, ele declara que o mundo é dirigido por um grande homem no céu. Ele codifica regras de comportamento e escreve-nas em XX de caixas de pizza. (O quê...? Não em tábuas de pedra?). E, não tendo defesa contra a prevaricação, todos acreditam nele. A parábola cômica sobre as origens da religião é mordaz, mas a produção brilhante de Gervais ameniza o golpe. (Sem previsão de lançamento no Brasil)
"The Book of Eli" [O livro de Eli]: Denzel Washington interpreta um homem solitário que luta em seu caminho ao longo de uma América pós-apocalíptica para proteger o livro sagrado que supostamente contém o segredo para salvar a humanidade. (Lançamento no Brasil neste ano)
"Legion": Deus perdeu toda a sua esperança na humanidade e envia sua legião de anjos para a Terra para trazer o Apocalipse nesse filme de ação sobrenatural. Em um paradouro de caminhões remoto chamado Paradise Falls, o arcanjo Miguel (Paul Bettany) se junta a um grupo de estranhos para defender a garçonete, que pode estar grávida do Messias. (Estreia em fevereiro)
"The Last Station" [A última estação]: A eterna batalha entre espiritualidade e materialismo se move na alma no aclamado autor russo Leo Tolstoy (Christopher Plummer), que está dividido entre sua própria necessidade de transformação e as demandas de sua esposa (Helen Mirren) e seus discípulos. (Estreia em maio)
"Um homem sério" [A Serious Man]: Os irmãos Coen recontam a história bíblica de Jó, relocando-o nos subúrbios de Minneapolis do final dos anos 60, período da adolescência dos autores. Um professor universitário judeu (Michael Stuhlbarg) descobre que tudo em sua vida – do seu casamento ao seu carro – está indo água abaixo. No original, Deus e o Diabo fazem um acordo para ver quanta desgraça um homem pode absorver antes de renunciar à sua honra. Sendo esse uma produção dos irmãos Coen, Deus não aparece em nenhum ponto do horizonte. A miséria é apenas um fato universal da vida. Você irá sobreviver apenas se conseguir rir dela. (Estreia em fevereiro)
"Um conto de Natal" [A Christmas Carol]: Charles Dickens não era particularmente religioso, mas ele certamente sabia como tocar a nossa espiritualidade. Essa animação computadorizada recontada pelo diretor Robert Zemeckis (com Jim Carrey como o superlativo Scrooge) não diminui a mensagem de Dickens: entregue sua vida ao todo-poderoso dólar (ou libras esterlinas) e você irá gastar a eternidade nas correntes feitas por você mesmo. (Fora de cartaz)
"Avatar": O épico futurista de James Cameron é sobre os esforços dos humanos para explorar os minérios de uma lua distante. O problema é que ela já está ocupada por primitivos de pele azul que acreditam que tudo em seu mundo – animais, plantas, o próprio pó sobre o qual caminham – está imbuído de poder espiritual que não deve ser perturbado. Cobiça humana versus a iluminação espiritual: um tema oportuno.
"The Blind Side" [O lado cego]: No sucesso mais inesperado e surpreendente dessa temporada de férias, um rapaz sem-teto (Quinton Aaron) é adotado por uma família abastada de Memphis (Sandra Bullock é a poderosa mãe), e com o amor, a dedicação e o dinheiro disponível da família, o menino cresce e se torna um craque no campo de futebol americano. É a história real do atacante da equipe Baltimore Ravens, Michael Oher, e o escritor-diretor John Lee Hancock nos mostra que a caridade da família está enraizada em seu cristianismo. Os filmes de Hollywood raramente sabem como lidar com pessoas de fé. Esse filme é uma exceção. (Sem previsão de estreia)
Para ler mais:
|