A autonomia do sujeito moderno se condensa no automóvel, afirma filósofa
O automóvel adquiriu uma série de representações simbólicas que se arraigaram na sociedade, especialmente com a figura masculina, com o seu vigor e com a sua potência. Porém, ao contrário de ser um instrumento facilitador da vida, esse símbolo da modernidade, tornou-se um arquétipo da violência e de uma anunciada tragédia social. A opinião é da filósofa Roxana Kreimer em entrevista ao Clarín, 2-7-06. Roxana Kreimer é doutora em Ciências Sociais pela Universidade de Buenos Aires.
Poucas relações parecem mais intensas do que a do homem com o automóvel, por que isso acontece?
Roxana Kreimer - O carro é uma espécie de lar ambulante. O carro tem sido identificado com o masculino, há muitos relatos que revelam que até certo ponto, o carro é inclusive mais do que o seu próprio lar. É aquele reduto no qual se pode ter um domínio absoluto e com ele pode se fazer o que deseja. Macedônio Fernández dizia: "Os carros poderiam muito bem ser utilizados como casa, se fossem apenas utilizados por dentro e não por fora". O problema surge quando começamos a contabilizar a quantidade de mortes que provoca esta morada tão feita a imagem e semelhança do sujeito moderno.
A autonomia do sujeito moderno é condensada no automóvel?
Roxana Kreimer - É sim. As palavras que surgem junto com o carro até mais ou menos o século XIX, está relacionado com a autonomia do ser humano. Estão todas relacionadas com a autonomia da máquina. E o automóvel, não casualmente é chamado assim, pretende uma autonomia, e também pressupõe como assinalou Adam Smith, que se cada um procura o seu próprio interesse, esse vai contribuir com o interesse geral. E o que se vê é que esse pressuposto as vezes proclamado como democrático todos poderiam ter o seu automóvel e ser autônomos é falso, porque se todos fossem ao mesmo tempo ao centro da cidade com o seu automóvel, não seria possível circular. Se todos os seres humanos que habitam este planeta tivessem um automóvel seria impossível circular, por maiores que fossem as autopistas que se construíssem. Quanto mais cresce o parque automotivo, as mortes aumentam proporcionalmente. Hoje, por ano morrem 1,2 milhões de pessoas em acidentes de carros no mundo (segundo indicam organismos internacionais), em vinte anos a cifra irá se duplicar.
Mas nem tudo pode ser desvantagem...
Roxana Kreimer - O automóvel gera problemas não previstos e os resultados positivos são pequenos. Por exemplo, o espaço publico se degradou porque tem se convertido em um espaço para os carros. A cidade antes era um lugar muito mais habitável para os que andam a pé. Todos andam a pé, mas nem todos são motoristas e dirigem carros. Nossas cidades estão a serviço do automóvel, se converteram em espaço de veículos e estacionamentos. Mas a cidade, desde os gregos, sempre foi vista como o lugar da política, da comunicação e da sociabilidade. De modo, que para além de converter as cidades em lugares poluídos para a saúde e cheia de ruídos, o que faz o automóvel é produzir mais isolamento.
Não é um paradoxo?
Roxana Kreimer - Em muitos lugares, o automóvel dissolveu a cidade por completo. E como estas se converteram em lugares inabitáveis, as pessoas querem viver fora delas, o que produz o paradoxo de que o automóvel aumentou as distâncias. Porque se existe o automóvel se supõe que se pode trabalhar longe e deslocar-se por muito tempo. O ideal que muitos urbanistas sustentam é o de não estar muito longe do trabalho nem do lugar onde estão os amigos. O automóvel sugere o encurtamento de distâncias, mas no conjunto as aumenta. Os engarrafamentos que são cada vez mais freqüentes no mundo inteiro, faz com que cada vez mais se demore para se chegar ao destino.
Em vez de celeridade, o carro produz demora?
Roxana Kreimer - Em muitos lugares o automóvel vai à mesma velocidade que uma pessoa caminhando. Não nos esqueçamos ainda dos custos e descargas que provoca. Este e outros paradoxos é o que produz o automóvel: consome muito mais tempo das pessoas, que lhes poupa.
Por que você coloca tanta ênfase nas mortes que o carro provoca?
Roxana Kreimer - Porque as pessoas acreditam apenas que existem acidentes porque se dirige mal. Não se sabe, por exemplo, que nos paises que mais se respeitam os sinais de trânsito, que é o caso da Alemanha e do Japão, há milhares de mortos por ano. Por isso sugerem e a União Européia está de acordo uma redução gradual do parque automotivo e que se suspendam as facilidades para a construção de estradas e fabricação de carros. É certo que a fabricação de carros aparece como um símbolo central da saúde da economia. Parece que caso se venda menos carros, a economia está indo mal. Mas essa é uma idéia muito reducionista do que de fato implica uma economia sadia.
Não é apropriado então falar de "acidentes"?
Roxana Kreimer - Não. O resultado chamado "acidental" é intrínseco ao funcionamento do transporte automotor, porque o automóvel se fabrica na base de um arquétipo de sujeito moderno que nunca se distrai e que goza plenamente, em todo o momento, de todas as suas faculdades. O problema é que esse indivíduo não existe. As pessoas se distraem, as vezes bebem um copo de álcool, não tem uma racionalidade 100% o tempo todo. O automóvel foi construído para servir um ser que não existe.
Com o carro, funciona um mecanismo de reprodução e de iniciação. Assim como os adolescentes são iniciados no cigarro para serem adultos, donos de si mesmo. Necessitariam também do automóvel?
Roxana Kreimer - Muito antes da adolescência, quando crianças o que se dá de presente aos meninos são carros de brinquedo e o que se presenteia às meninas são bonecas. Preparam-se eles para serem condutores e elas para serem mães. Há uma socialização desde muito cedo para a existência do automóvel que, cuja simbologia, recoloca fielmente o que representou o cavalo para a cultura medieval. O cavalo era o símbolo da virilidade do senhor feudal. Hoje há uma verdadeira identificação da masculinidade com o automóvel. Não há duvidas que haja toda uma educação para o automóvel.
Homens e mulheres são preparados de maneira distinta para o carro. Mas ambos provocam acidentes
Roxana Kreimer - Não, as mulheres são muito mais prudentes. Os homens são educados em uma cultura da agressividade. São educados mais para a raiva e as mulheres mais para a tristeza.
Continuo pensando que é excessivo considerar o automóvel como responsável de uma aniquilação em grande escala
Roxana Kreimer - As piores aniquilações são aquelas ainda não identificadas. E esta é uma delas. Foram mortos, no século XX, mais pessoas por acidentes de carros do que em muitíssimas guerras. Morre mais gente em uma semana por acidentes de carros na Argentina, que de coração. Parece ser uma catástrofe natural. A tal ponto que se naturalizou essa calamidade que parece que não existe forma de evitá-la. A Organização Mundial de Saúde já a considera um problema sanitário. Parece que não tomamos consciência disso nem quando um familiar morre em um acidente. Inclusive quando há vitimas de acidentes de automóvel acredita-se que foi uma fatalidade, como se fosse um desígnio divino e não um instrumento criado e mal conduzido pelo ser humano.
Ninguém acredita que dirige mal
Roxana Kreimer - Quase toda a humanidade sobretudo os homens acreditam que dirigem excelentemente e que os que dirigem mal são os outros e que como eles dirigem bem, irão sempre salvar a sua vida. Muito poucos usam cinto de segurança, entretanto se sabe que muitos acidentes fatais são evitados pelo uso do cinto.
As autopistas testemunham nossa barbárie?
Roxana Kreimer - Sim. Absolutamente. Pela quantidade de mortes que deixam todo dia e também porque como diz o filosofo espanhol Agustín García Calvo, as vias criadas pelos romanos duraram séculos e séculos, mas as autopistas modernas devem permanentemente ser consertadas, consumindo dinheiro que é pago por toda a sociedade.