A sociologia de Max Weber. Entrevista especial com Catherine Colliot-Thelene
A filósofa Catherine Colliot-Thelene acaba de lançar seu mais novo livro: La sociologie de Max Weber, pelas Éditions La Découverte, de Paris. IHU On-Line propôs à professora uma entrevista sobre a obra, por e-mail, que publicamos a seguir. Filósofa e pesquisadora associada do Centre Marc Bloch, de Berlim, na Alemanha, Colliot-Thelene é também professora no Departamento de Filosofia da Universidade Rennes 1, da França.
Sobre Max Weber, confira o Cadernos IHU em formação número 3, intitulado Max Weber - O espírito do capitalismo, disponível nesta página.
IHU On-Line - Qual é a idéia central do livro "A sociologia de Max Weber"?
Colliot-Thelene - Como toda e qualquer grande obra, a de Max Weber pode dar lugar a uma diversidade de leituras que, conforme for o caso, privilegia um aspecto ou outro dessa mesma obra. A leitura proposta nesse livro procura destacar na obra aquilo que pode servir para a reflexão contemporânea. Afasta as alternativas epistemológicas e filosóficas fixadas por um século de história das ciências humanas (individualismo/holismo, sociologia da ação/sociologia das estruturas) e apresenta uma leitura transversal, que cobre o conjunto dos escritos de Weber (Sociologia das religiões e Economia e sociedade, mas também obras menos conhecidas como Agrarverhältnisse im Altertum ou também a Psicofísica do trabalho industrial) e se esforça para esclarecer, umas pelas outras, as posições epistemológicas de Weber e seus estudos concretos.
IHU On-Line - Quais são as posições epistemológicas de Max Weber?
Colliot-Thelene - Diferentemente da tradição francesa de sociologia inaugurada por Durkheim, a sociologia de Weber fica próxima à história. Os trabalhos metodológicos de Weber são uma reflexão sobre as "ciências empíricas da ação", nas quais ele inclui a história e a sociologia. O construtivismo que é exprimido na reconstrução dos conceitos sob a forma de "idealtipos" é, antes de tudo, uma elucidação do significado da conceptualização e do lugar da teoria na argumentação das ciências históricas. Weber se opõe a uma concepção "nomológica" das ciências humanas, isto é, à idéia segundo a qual o derradeiro objetivo da ciência deveria ser a formulação de leis gerais. Em última instância, as "ciências empíricas da ação" (história e sociologia) acabam sempre querendo explicar consecuções singulares de eventos, tal como a formação do capitalismo moderno, que constitui a questão central de toda a obra weberiana.
É verdade que a sociologia weberiana é "compreensiva", mas nele não se entende essa compreensão como uma modalidade cognitiva oposta à explicação: ao contrário, é uma forma de explicação específica, que mostra a estruturação das práticas (aquilo que Weber chama as "condutas de vida" (Lebensführung) a partir do sentido que os agentes lhes conferem. Apesar de certas declarações desastradas de Weber, essas condutas não são individuais, mas sim práticas coletivas de grupos sociais que, numa determinada conjuntura, encontram-se capazes de exercer uma influência determinante sobre as orientações gerais de grandes sociedades (por exemplo, as práticas econômicas dos protestantes puritanos). É por isso que o "individualismo metodológico" weberiano não entra em contradição com uma explicação do comportamento dos atores sociais em termos de posições estatutárias ou de pertencimento de classes.
IHU On-Line - Quais são as principais características da obra de Max Weber? Em que sentido ela contribui para as reflexões sobre a sociedade contemporânea?
Colliot-Thelene - Desde que não se enfoque a leitura de Weber nas noções de "racionalização ocidental" ou de "desencanto do mundo", se observa que suas análises dos processos de transformação histórica deixam um grande lugar para a contingência. É multicausal a explicação weberiana dos fenômenos sociais: a crítica do "monismo econômico" da concepção marxista da história é um aspecto da rejeição de toda e qualquer explicação "monista" em geral. Weber chamava a atenção de seus contemporâneos sobre o fato de que não se podia presumir que, na Rússia, o desenvolvimento da economia capitalista, caso tivesse lugar, seria forçosamente acompanhado por todos os fenômenos culturais e políticos (em particular, o liberalismo e a formação de uma cultura e de instituições democráticas) já conhecidas pelas sociedades ocidentais. Esse alerta segue atual, como mostram as transformações em andamento nos países do antigo bloco soviético, na China ou nos países do Oriente Médio.
IHU On-Line - Quais as maiores dificuldades da obra de Max Weber?
Colliot-Thelene - Além da dificuldade de sua língua (traduzir Weber é um empreendimento particularmente difícil), não saber o contexto acadêmico no qual ele elaborou e formulou suas posições epistemológicas tem sido a causa de numerosos contra-sensos. O ensino acadêmico, em particular os manuais, tem constituído e perpetuado uma interpretação das idéias de Weber que é difícil de inverter. É preciso livrar-se de oposições adotadas, tais como a oposição entre "individualismo metodológico" e "holismo", ou ainda entre sociologia da ação e sociologia das estruturas, para poder ter acesso ao caráter original de sua abordagem dos fenômenos sócio-históricos.
IHU On-Line - O que é que mais caracteriza o pensamento de Max Weber?
Colliot-Thelene - A proximidade entre sociologia e história, bem como o projeto de um comparatismo transcultural. A comparação em grande escala, tal como ele a pratica, especialmente em Sociologia das religiões, é um gênero pouco representado durante o século XX, e ainda hoje é o objeto de muitas reticências, tanto por ser dificilmente praticável num marco acadêmico que privilegia as competências dos especialistas, quanto porque a idéia de uma comparação entre culturas não é bem quista numa época (a nossa) em que se tende a destacar os empréstimos, as transferências e as miscigenações culturais.
IHU On-Line - Quais seriam no mundo de hoje os grandes especialistas em Max Weber?
Colliot-Thelene - Em primeiro lugar, teríamos que citar todos os responsáveis pela edição crítica em curso (Max Weber Gesamtausgabe), entre os quais Wolfgang Mommsen, morto há dois anos; Wolfgang Schluchter, e, na geração mais jovem, Gangolf Hübinger. Ainda entre os alemães, há os que não participam da edição crítica: Wilhelm Hennis, Stefan Breuer, Andreas Anter. Eu conheço menos os americanos, porém, convém citar Günther Roth e, na "jovem geração", Stephen Kalberg, da Boston University, cuja interpretação de Weber se parece bastante com a minha.
IHU On-Line - Como a senhora vê a obra de Marcel Gauchet à luz de Max Weber?
Colliot-Thelene - Como assinalava Marcel Gauchet no começo de sua obra intitulada Le désenchantement du monde (O desencantamento do mundo. Paris: Gallimard, 1985), o sentido que ele confere a essa expressão nada deve a Weber. Não acredito, assim sendo, que seja muito pertinente confrontar esses dois autores, o que nada retira o interesse dos trabalhos de Gauchet. De maneira geral, acho que a abordagem de Gauchet é muito mais "idealista" que a de Weber.
IHU On-Line - Serão as análises de Weber sobre as religiões, em particular o cristianismo, pertinentes para uma reflexão sobre o fenômeno religioso na contemporaneidade, na qual há uma "revanche da religião"?
Colliot-Thelene - Weber deu uma grande importância para a influência que as religiões puderam exercer sobre a conformação das condutas de vida dos indivíduos, notadamente sobre suas práticas econômicas. Ele tinha a convicção, entretanto, de que nas sociedades ocidentais modernas, essa influência basicamente havia se esgotado. Podemos pensar que, diante dos diversos fenômenos do mundo contemporâneo, que se resume falando no "retorno das religiões", ele teria modificado seu diagnóstico. O essencial é que encontramos em seus ensaios de sociologia das religiões múltiplas análises que ilustram os efeitos que as diversas religiões podem exercer sobre as condutas de vida, onde cabe a nós atualizarmos essas análises.
IHU On-Line - Para Weber, quais eram as implicações das orientações religiosas na conduta econômica das pessoas? Como ele estabelece essa relação?
Colliot-Thelene - Essas implicações divergiam conforme o estilo das religiões, em particular a natureza da "salvação" que elas deixavam seus adeptos a esperar. Do ponto de vista de seu efeito para as práticas econômicas, a diferença mais fundamental, no entender delas, era a que separa as religiões que valorizam a ação no mundo diário (o confucionismo, ou, por razões radicalmente diferentes, o protestantismo), e as que, ao contrário, têm uma atitude negativa para com este mundo e favorecem a indiferença ou o distanciamento para com ele, como o budismo, por exemplo.