O jornal do Vaticano define as acusações do teólogo suíço-alemão de "falsas e inexatas". Küng havia criticado a decisão do Papa de acolher os tradicionalistas anglicanos.
A reportagem é do jornal italiano La Repubblica, 29-10-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
"Distante da realidade". "Críticas injustas, duras e sem fundamento", mas principalmente "falsas e inexatas". Se não é uma excomunhão no sentido mais clássico do termo, falta pouco. Até porque é o L'Osservatore Romano, o jornal da Santa Sé, quem se refere com um violento comentário ao teólogo suíço-alemão Hans Küng por causa das acusações dirigidas – nesta quarta-feira no jornal La Reppublica – ao Papa, após a decisão de acolher na Igreja católica os tradicionalistas anglicanos (incluindo bispos, pastores e seminaristas casados).
O "alto lá" sob forma de editorial publicado, autoritativamente, em primeira página e assinado pelo diretor do jornal vaticano, o historiador Giovanni Maria Vian, que – desde a primeira linha – lamenta que "mais uma vez uma decisão de Bento XVI volta a ser pintada com tintas fortes, preconceituosas e sobretudo muito distantes da realidade".
Por isso o título do editorial, com um eloquente "Distante da realidade" que, em um certo sentido, contra-ataca o também eloquente título do texto de Küng – "O Papa que pesca nas águas da direita" – no qual se acusa Ratzinger, dentre outras coisas, de querer "engordar" as fileiras católicas abrindo as portas da Igreja de Roma aos grupos mais reacionários e conservadores, como demonstra a anulação da excomunhão aos bispos lefebvrianos e agora com o "sim" aos anglicanos tradicionalistas. Decisão, esta última, definida por Küng como "uma tragédia" para o ecumenismo "depois das ofensas já provocadas por Bento XVI aos judeus e aos muçulmanos, aos protestantes e aos católicos reformistas".
Críticas, reclamações e acusações secamente devolvidas ao remetente, mesmo que o jornal da Santa Sé não esconda o temor de que "o artigo circulará muito e contribuirá para uma representação tão fosca quanto infundada da Igreja católica e de Bento XVI". Um texto escrito – além do mais – por um teólogo, Hans Küng, "seu antigo colega e amigo, que o próprio Papa, em 2005, só cinco meses depois da sua eleição, quis encontrar, em amizade, para discutir bases éticas comuns das religiões e a relação entre razão e fé".
Um encontro clamoroso e inesperado, "já que, em 1979, no começo do pontificado de João Paulo II, Küng – lembra Vian com uma veia polêmica incontida – tenha sido sancionado por algumas de suas posições pela Congregação para a Doutrina da Fé (então presidida pelo cardeal croata Franjo Seper) que, ao término de um procedimento iniciado nos últimos anos de Paulo VI, declarou que não poderia considerá-lo um teólogo católico". "Desde então – continua o diretor do jornal pontifício –, Küng, por mais vezes, infalivelmente retomado por mídias influentes, voltou a criticar Bento XVI, com dureza e sem fundamento".
"Como faz agora, publicado com clamor na Inglaterra pelo The Guardian e na Itália pelo La Repubblica, que certamente – teme Vian – não serão os únicos veículos do mundo que publicarão seu artigo, a propósito do anúncio, verdadeiramente histórico, da Santa Sé sobre a próxima constituição de estruturas canônicas que permitirão a entrada de muitos anglicanos na comunhão com a Igreja católica. Um gesto que se dirige à reconstrução da unidade desejada por Cristo e que reconhece o longo e fatigante caminho ecumênico realizado nesse sentido, mas que é distorcido e representado enfaticamente como se se tratasse de uma astuta operação de poder, a ser lida em chave política, naturalmente de extrema direita".
"Não vale a pena destacar as falsidades e as inexatidões desse último texto de Küng, cujos tons mais uma vez não honram a sua história pessoal...", conclui Vian, depois de ter expressado toda a sua "amargura diante desse enésimo ataque gratuito à Igreja de Roma e ao seu indiscutível empenho ecumênico".
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