Com o objetivo de reduzir os custos do projeto de construção da usina de Belo Monte, no rio Xingu (PA), a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) determinou novos valores para as escavações que deverão ser feitas na região dos canais da hidrelétrica. Esses novos custos, no entanto, são da mesma ordem dos valores indicados pelos estudos de viabilidade da obra e preveem escavações que se comparam às feitas na construção do Canal de Panamá.
A reportagem é de Fabíola Munhoz e publicada por Amazonia.org.br, 29-09-2009.
As informações foram dadas por Glenn Switkes, da organização International Rivers, que participou de um evento promovido pela Associação Brasileira de Infraestrutura e Indústria de Base (ABDIB), no último dia 22, com a participação de 450 representantes de empresas de engenharia e construção, bancos e companhias de energia interessados na usina de Belo Monte.
O evento foi organizado com o objetivo de criar um espaço para que a EPE apresentasse os resultados dos seus estudos de otimização do projeto e para que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) indicasse suas condições e planos para financiar a hidrelétrica.
Para demonstrar a redução de custos e tranqüilizar potenciais investidores com relação ao projeto de Belo Monte, a EPE modificou as configurações dos canais, reduziu o tamanho das estruturas e diminuiu as cristas das barragens e diques, prevendo o uso de turbinas maiores para permitir barragens um pouco mais enxutas.
De acordo com um engenheiro da empresa CNEC Engenharia, presente no encontro, com essas alterações as escavações de Belo Monte seriam equivalentes ao total de todas as escavações feitas para barragens no Brasil nos últimos 20 anos.
Outra mudança sugerida pela EPE foi a utilização de turbinas maiores para permitir que a casa de força e a barragem Pimentel sejam construídas em tamanho menor. A empresa ainda sugeriu a eliminação de um vão de vertedouros, que deveria partir da casa de força, e a modificação do perfil dos canais e taludes previstos à usina, com ainda outras alterações nas ensecadeiras.
A otimização do projeto proposta pela EPE é apenas sugestiva, e caberá aos ganhadores do leilão estabelecer como será conduzido o projeto.
O superintendente-presidente da CNEC, José Ayres de Campos, que participou do encontro, discordou das propostas. "Não é simplesmente uma cama que precisamos dar para os trabalhadores", disse.
Com a afirmação, ele se referia ao fato de que a construção da usina terá de ser feita num raio de 1.000 km2, envolvendo trabalhos de construção de estradas, portos e acampamentos. Isso tornaria a obra mais complexa e cara do que projetado pela EPE.
Campos também questionou os cortes das cristas das estruturas e mencionou que, durante período de três a quatro meses, não será possível lidar com terra na região para realização das escavações propostas.
Outra preocupação apontada dizia respeito ao efeito da obra na vazão do rio Amazonas e também na maré no canal de fuga da usina de Belo Monte, que teriam uma oscilação de um metro em média.
Sobre os impactos sócio-ambientais da obra, a análise foi de que os custos que constam no orçamento são consistentes e adequados. A EPE sugeriu a constituição de um grupo de 15 pessoas para gerenciar os projetos de mitigação dos impactos da hidrelétrica.
De acordo com a empresa de pesquisa, os programas sociais de abrangência regional deverão custar 3% do valor da construção de Belo Monte. Quanto às eclusas, a EPE diz que sua construção não está contemplada no projeto atual, e que o empreendedor não seria responsável pelo seu custo caso elas sejam feitas futuramente.
Como garantia física do projeto, foi determinado o valor de 4.600 MW médios para a energia que seria gerada pela usina. A EPE informou que a barragem poderá gerar sua capacidade máxima, vertendo água "em várias ocasiões", segundo projeções feitas a partir de vazões históricas.
"Isso tomando em conta "as regras" sobre a necessidade, ou não, de liberar 8.000 m3/seg., ano sim ano não, se a vazão vertida para a Volta Grande não atingir esse nível durante o ano anterior", explicou Glenn.
Participação política
Também estavam presentes na reunião representantes de Ministério de Minas e Energia (MME), Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Ministério do Meio Ambiente (MMA) e Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
"Há grupos remando contra a construção de Belo Monte, que estão tentando demonizar o projeto. Não consigo entender as motivações dessas pessoas, às vezes grupos alugados para protestar contra o que estamos tentando fazer para o povo brasileiro", disse no evento o Ministro de Minas e Energia, Edison Lobão.
Maurício Tolmasquim, Presidente da EPE, falou que cabe à ANEEL determinar a tarifa teto para o leilão da usina. Durante o encontro, todos teriam se manifestados favoráveis à realização do leilão ainda neste ano.
No entanto, Márcio Zimmermann, do MME, ponderou: "sabemos que a lógica de um ano eleitoral é outra".
Financiamento
Embora a mídia tenha divulgado as novas projeções do custo da obra (R$17 bi - R$16 com incentivos fiscais do governo- e um total de R$21 bi com juros, ao longo da construção), esse dado não foi divulgado nas apresentações da EPE.
Segundo Glenn, a informação foi dada apenas em resposta a uma pergunta da platéia.
Durante o encontro, o diretor de engenharia da CNEC lembrou que os custos estimados para as barragens do rio Madeira foram subestimados. As estimativas dos custos de Belo Monte vêm sendo analisadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU).
Durante o encontro com empresários, o BNDES informou que daria os termos mais favoráveis e o maior empréstimo da sua história para Belo Monte, algo em torno de R$12 a R$14 bi. Além disso, o banco ainda deve investir valores de forma indireta no projeto."Isso comparado com R$9,5 milhões neste ano para eficiência energética", destacou Glenn.
O BNDES também afirmou que pretende aumentar em cinco anos- passando para 30 - o período de amortização do empréstimo para realização do empreendimento.
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