Assim que a escura noite clareia da primeira foice da lua nova, tem início um novo mês do calendário lunar. O nono deles tem, para os islâmicos, o nome de Ramadã. Dura como os outros, de 28 a 30 dias, mas é muito diferente. Único em representar a máxima proximidade entre Deus e o indivíduo, é o momento da mais elevada religiosidade para o homem, vivida na máxima unidade social e familiar.
A reportagem é de Francesco De Leo, publicada no jornal Il Riformista, 30-08-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Segundo a tradição, foi justamente no 27º dia do Ramadã, a laylat al-qadr, a Noite do Destino, em que ocorreu a revelação do Corão. "A Noite do Destino é melhor do que mil meses. Nela, descem os anjos e o Espírito, com a permissão do seu Senhor, para fixar todo decreto. É paz, até o elevar-se da aurora".
O Ramadã é mês de abstinência. Não só da comida, da água, do sexo – da primeira luz do amanhecer até o pôr-do-sol –, mas também abstinência da mente, obrigada a se guardar dos pecados do ouvido, do olhar e da palavra, mas sobretudo do coração, que procura afastar todas as preocupações da vida terrena e todo pensamento que não seja a lembrança de Alá.
O jejum obrigatório é, portanto, o que mais nos atinge, ocidentais. O fato de se privarem, durante as horas do dia, de comida, bebida, fumo e sexo é antitético aos nossos desejos. "No Ocidente, há uma imagem estereotipada do muçulmano", escreve Khadija Antermite, em "Dentro la moschea" [Dentro da mesquita], o livro de Yahya Pallavicini, vice-presidente da Comunidade Islâmica na Itália.
"Se o esforço físico certamente não falta, recebe-se um providencial sustento que torna a abstinência da comida não só totalmente suportável, mas um momento de bem-estar integral para o corpo, para a alma e para o espírito. O jejum – continua Antermite – corresponde a uma fase de renascimento de todo o ser humano e, não por acaso, um renascimento muito semelhante ao que caracteriza cada mulher durante a gravidez. Quanto mais a criança absorve energias, tornando-te sempre mais fraca, mais cresce em ti uma nova vida".
Assim, o jejum deve ser entendido só como um dos aspectos do Ramadã, mês consagrado, na verdade, ao controle dos desejos. Nas famílias islâmicas, em geral, é a mãe que se levanta primeiro, acorda todos e serve o suhur, o café da manhã que deve ser consumido antes do nascer do sol. Comem-se alimentos nutrientes, mas leves e sem acréscimo de temperos, que poderiam provocar sede durante o dia. No fim do jejum, bebe-se rapidamente água ou suco de frutas, geralmente de damasco, e comem-se algumas tâmaras, como de costume pelo Profeta. No lanche, chamado de iftar, segue-se uma oração, o maghrib, depois da qual se dá início à janta, frequentemente alegre, na qual participam familiares, amigos e também desconhecidos. Isso durante todos os dias do nono mês, até o id al-fitr, a festa da ruptura do jejum. É o segundo grande dia de festa do calendário anual. Trocam-se presentes, todos jantam juntos e visitam-se parentes e amigos.
Mas quanto conhecemos do Ramadã na Itália, país em que vive um milhão e 600 mil muçulmanos? "Acredito que os italianos sabem muito pouco", nos diz Massimo Campanini, entre os mais apreciados historiadores do Oriente Próximo. "Sobre as especificidades e características do jejum, um dos cinco pilares do Islã, acredito que há uma ignorância difusa. Tende-se a banalizá-lo, a ironizar suas modalidades. Temos uma ideia folclórica mais do que aprofundada do seu significado".
Depois das polêmicas geradas por alguns empregadores de Mantova, preocupados com os agricultores muçulmanos que, respeitando o Ramadã, corriam o risco de se desidratar nos campos, ou pelas dúvidas de Mourinho na véspera da partida em Milão, debateu-se, também entre nós, sobre as dificuldades de poder praticar a religião distante dos Estados de maioria islâmica. "Eu não acredito que seja muito fácil viver o Ramadã na Itália", é a opinião de Campanini. "Percebo um senso de acercamento e de exclusão, em acréscimo aos irresolvidos problemas logísticos que impedem que a comunidade, ainda hoje, viva os momentos de grande socialização".
Yahya Pallavicini, imã da Mesquita al-Wahid de Milão, considera que "o mês do Ramadã é um momento em que a maioria dos muçulmanos na Itália tentam encontrar e reviver uma atmosfera de orientação espiritual que reforça e reúne as famílias e, em reflexo, toda a comunidade". Ele diz satisfeito: "Há manifestações que, de um lado, parecem lembrar e exigir o que também é feito no resto do mundo de maioria islâmica, mas, por outro, justamente como minoria, às vezes nem tão reconhecida, respeitada ou conhecida, o Ramadã e as suas bençãos parecem verdadeiramente revitalizar e renovar o espírito autêntico de solidariedade e de completude espiritual, que reúne os fiéis muçulmanos também na Itália".
Mas, salvo os princípios fundamentais, uma religião como o Islã, tão em expansão no Ocidente, pode se adaptar às exigências das nossas sociedades? "Assumindo que o jejum do Ramadã será o jejum do Ramadã enquanto o Islã for Islã", defende o historiador de filosofia islâmica Campanini, "acredito que essa religião também tem espaços de flexibilidade que poderiam permitir que os muçulmanos submetam alguns princípios a uma práxis de maior maleabilidade. Lembro que o Corão diz: 'Deus quer de vós as coisas fáceis, não o difícil'".
Sobre esse assunto, sempre houve um debate tradicional na comunidade islâmica, defende Pallavicini, "e há quase 14 séculos". "As adequações temporais e espaciais, de tempo e de lugar, sempre foram ocasião de debates e reflexões intelectuais entre os sábios e os teólogos de cada tempo e de cada espaço", é a sua opinião. "O Islã – para o imã milanês – sempre soube buscar renovar, sem reformar, a possibilidade de acessar os benefícios espirituais dos ritos e dos dogmas, adaptando-os também aos contextos que mudam, segundo o progresso do tempo e segundo as culturas do lugar. Nenhuma fixação esquemática", conclui Pallavicini –, mas também não um reformismo privado de respeito pela natureza e pelo simbolismo das regras religiosas. O todo, porém, deve ser buscado por meio do entendimento dos sábios, critério que inspirou o desenvolvimento de toda a civilização islâmica desde as origens, e que nós desejamos que também possa ocorrer na Itália. Isso para evitar que a comunidade muçulmana possa ser colocada à mercê de pregadores enlouquecidos e ignorantes ou de revolucionários, que querem secularizar ou ridicularizar os princípios sagrados do nosso Islã".
O escritor Pietrangelo Buttafuoco, autor de "Cabaret Voltaire", está convencido de que o conhecimento do Ramadã é, mais do que nunca, útil à nossa cultura. Ele afirma: "Haveria tanta magia no Ramadã para nós ocidentais... se apenas nos esforçássemos para compreendê-la. Quando os muçulmanos nos explicam e nos contam sobre ele, nessa atmosfera que é toda uma unidade de reflexão e de purificação, à espera das sombras do pôr-do-sol, eles não fazem nada mais do que remeter a nossa dimensão e a nossa razão sentimental àquela que apagamos da nossa identidade. Bastaria só espelhar o seu Ramadã em nossa Quaresma, a sua milícia de ascese e de oração à nossa identidade, ligada à referência espiritual, para ser capaz de nos redespertar e de nos ressituar na condição em que tudo se torna compreensão. Veremos no outro – continua Buttafuoco – alguém que é igual a nos. Espelhando-nos neles, nós encontraremos a nós mesmos".
Pietrangelo Buttafuoco nos responde por telefone da sua Sicília. As suas palavras, entrecortadas, se confundem com a conversação vivaz das crianças. Como definiria o Ramadã se tivesse que explicá-lo para elas? "É sobretudo... uma lenta preparação para uma explosão de alegria. É semelhante aos dez graus de obediência, nos últimos dos quais você respira uma liberdade semelhante à dos Deuses". Ramadan karìm.
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