O horror retorna ao Canal da Sicília. Nesta quinta-feira, cinco eritreios recuperados por um barco patrulha ao longo de Lampedusa, na Itália, contaram a sua terrível odisseia: "Partimos da Líbia em um bote. Estávamos em 78, e os únicos sobreviventes somos nós. Cruzamos por dez barcos, e ninguém nos socorreu". As organizações humanitárias e a ONU protestam: "Passou-se a mensagem de que quem chega pelo mar é um nada a ser perdido". Mas para o ministério do Interior, o relato dos sobreviventes precisa ser verificado.
A reportagem é de Alessandra Ziniti, publicada no jornal La Repubblica, 21-08-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Tocaram a terra carregados nos braços, como fantasmas, e contam sobre os seus 73 companheiros mortos e jogados ao mar durante a travessia. Eram só em cinco, já exaustos, naquele bote de 12 metros à deriva a 12 milhas de Lampedusa, e depois, em algumas horas, outros cinco aportaram com uma canoa, que depois afundou rapidamente na praia de Cala Croce, e outros 45 ainda chegaram em um grande barco, a quase uma milha do porto.
Depois de dois meses de calma absoluta seguida pela assinatura do acordo com a Líbia, Lampedusa se encontra inesperadamente assediada por novas chegadas de clandestinos que conseguiram, não se sabe como, enganar a patrulha por parte das lanchas da Itália e da Líbia, mas sobretudo encontra-se novamente acertando as contas com o que tem todas as semelhanças a um novo naufrágio assustados no Canal da Sicília, com 73 supostas vítimas: quase todos eritreios e etíopes que teriam morrido de fome, de sede, de dificuldades, em uma travessia de pesadelo iniciada na Líbia no final de julho e que durou mais de 20 dias.
O bote não teria sido socorrido por nenhuma das várias embarcações que teriam cruzado com ele, já à deriva, ao sabor do mar e do vento, com dezenas e dezenas de mãos desesperadas pedindo ajuda depois que a água, os víveres, o combustível e baterias de celular já tinham quase terminado. Essa, pelo menos, é a reconstrução da tragédia feita pelos únicos cinco sobreviventes, quatro homens (entre os quais dois rapazes menores de idade) e uma mulher, socorridos nesta quinta-feira pela manhã exatamente na fronteira das águas territoriais italianas depois de uma indicação, talvez tardia, por parte das autoridades maltesas, que, algumas horas depois, recuperaram quatro cadáveres no mar.
Uma reconstrução cuja autenticidade foi colocada em questão pelo Ministério do Interior, tanto que o ministro Maroni pediu uma relação ao prefeito de Agrigento, Umberto Postiglione, "porque o fato apresenta aspectos que precisam ser esclarecidos, e a versão fornecida pelos migrantes precisa ser verificada já que estão surgindo elementos que contrastam com o que foi relatado pelos sobreviventes".
Segundo o ministério, as condições dos cinco eritreios sobreviventes não apresentariam sinais tão evidentes dos mais de 20 dias que dizem ter passado no mar e, além disso, parece improvável ao ministério que as observações navais e aéreas realizadas nos dias anteriores não tenham avistado o bote e os cadáveres, apesar dos quatro corpos recolhidos nesta quinta-feira pelos malteses (além de outros três que foram avistados).
Os agentes humanitários, pelo contrário, acreditam nos sobreviventes, que os socorreram e definiram como "fantasmas" e que julgam absolutamente improvável que, em um bote de 12 metros, tenham embarcado só em cinco pessoas. Mas o bote, que poderia oferecer indicações úteis sobre a eventual presença de outros a bordo, não foi rebocado até o porto da Guarda de Finança [polícia especial da Itália subordinada diretamente ao ministro de Economia e das Finanças], que, depois de ter feito os clandestinos subirem a bordo, o abandonaram à deriva.
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