Em 1996 Samuel Huntington lançava seu famoso livro O choque das civilizações, profetizando que em breve os muçulmanos haveriam de superar os cristãos, agora direcionados para uma clara decadência. Após o 11 de setembro de 2001, isso se tornou uma convicção difusa, mas as projeções baseadas nas tendências atuais mostram, ao invés, que em 2050 haverá três cristãos para cada dois muçulmanos: aproximadamente 34 por cento da população mundial será cristã, como em 1990, no auge da hegemonia européia, mas desta vez a maioria deles não viverá na Europa.
A reportagem é de Agostino Giovagnoli, publicada no jornal La Repubblica, 12-08-2009. A tradução é de Benno Dischinger.
Sobre o crescimento das religiões no Sul do mundo desenvolveu-se, nos últimos anos, uma densa discussão. Um ano antes do livro de Huntington, Harvey Cox, um famoso teólogo no mundo protestante, já publicara Fire from Heaven, Fogo do Céu, comparando a difusão das novas seitas evangélicas à Reforma de Martinho Lutero: tratava-se, aos seus olhos, de um fenômeno tão importante e surpreendente que podia ser definido como “nova reforma”.
Trinta anos antes, em As cidades seculares, o mesmo Cox enfatizara, ao invés, os progressos sempre mais fortes de uma secularização que permitia realmente considerar possível o desaparecimento da religião. A parábola de Cox não é um caso isolado: o sociólogo americano Peter Berger, entre os primeiros a lançar a teoria da secularização, depois mudou radicalmente de idéia defendendo a tese da des-secularização. São percursos intelectuais eloqüentes: aparentemente, de fato, entre um “eclipse do sagrado” e um “retorno do sagrado” há contraposição absoluta, porém somente aceitando o complexo entrelaçamento de fenômenos contraditórios é possível entender o futuro da religião no mundo.
Tal futuro passa, em particular, através de uma grande diferença entre o que acontece na Europa e fora dela. Por séculos tem havido ampla coincidência entre Europa e cristandade, malgrado divisões e cismas, e daqui partiu a missão ad gentes de protestantes e católicos em todo o mundo. Mas, no decurso do século vinte o cristianismo conheceu na Europa um complexivo declínio, delineando uma tendência que se pensou fosse em breve tornar-se mundial. Contemporaneamente, ao invés, precisamente no século vinte, a ação dos missionários europeus – e norte-americanos – sofreu uma forte aceleração, com resultados sempre mais visíveis: assim, hoje a maioria dos cristãos já vive fora da Europa.
O centro de gravidade do mundo cristão deslocou-se, assim, para a África, a Ásia e a América Latina, reduzindo-se a identificação entre Europa e cristianismo e foi superada a liderança européia no campo religioso.
Como já observava, há alguns anos, Philip Jenkins, historiador das religiões na Universidade da Pensilvânia e talvez o maior estudioso de um “cristianismo global”, em A Terceira Igreja, “estamos assistindo ao fim da época do cristianismo ocidental, enquanto surge no horizonte o alvorecer do cristianismo da parte sul do mundo”.
Não se trata somente de quantidades numéricas, mas também de descontinuidades culturais: toda vez que o cristianismo se difunde junto a uma nova população, mudam as suas características. Isso aconteceu com a passagem do mundo judaico-helenístico mediterrâneo ao norte-europeu e bárbaro e seria de grande interesse saber que efeitos terá esta nova passagem do cristianismo aos “bárbaros” do século vinte e um.
Em seu complexo, os cristãos do sul do mundo são mais pobres, mais jovens e menos alfabetizados, parecem em geral mais conservadores, tanto nas tendências como na doutrina moral e exprimem tendências prevalentemente tradicionalistas, ortodoxas, sobrenaturalistas. Mas, sua fé é muito dinâmica, em rápida transformação e imprevisível em seus resultados finais. Além disso, é denso de implicações que “no sul do mundo a Bíblia fale dos problemas reais de cada dia, como a pobreza e a dívida, a carestia e a crise urbana, a opressão racial e sexual, a brutalidade do Estado e a perseguição, como nota Jenkins em outro livro seu, As novas faces do cristianismo no sul do mundo, ou seja, o impacto da narração bíblica é imediato e forte.
Os europeus pouco se interessam por tudo isso, protegidos por aquela que parece agora ser uma “exceção européia”, a saber, a secularização. O problema é que o deslocamento do baricentro cristão para o sul do mundo, o encontro desta religião com culturas não européias e o desenvolvimento de um “novo cristianismo” não são sem conseqüências também na Europa. Não é apenas uma curiosidade que o bispo de York, o segundo cargo na Igreja anglicana, seja o ugandense John Setamu. Em God’s continent, ainda o historiador Philip Jenkins mostra que não são poucas as conseqüências de um “retorno da religião” na Europa, por efeito de um vento do Sul que assinala, com traços comuns, cristianismo, islã, budismo e outros. A religião dos imigrantes já introduziu numerosas incertezas na aplicação de princípios reguladores entre Estado e Igrejas, consolidados por séculos, e levantou à cultura européia dilemas lacerantes e ainda não resolvidos, como aquele entre o princípio de tolerância e o respeito dos direitos: deve-se aceitar qualquer crença religiosa mesmo que imponha formas de opressão, por exemplo, em relação às mulheres? Trata-se somente, adverte Jenkins, dos primeiros indícios e devemos esperar muitas outras novidades.
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